quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Liga da Justiça, por Eduardo Antunes

https://splitscreen-blog.blogspot.com/2017/11/liga-da-justica-por-eduardo-antunes.html

Título original: Justice League (2017)
Realização: Zack Snyder
ArgumentoChris Terrio, Joss Whedon, Zack Snyder

Depois do sucesso crítico de Wonder Woman, ficou claro que a fórmula pela qual os filmes da DC se regiam e a direcção geral que Zack Snyder pretendia injectar nestas narrativas, estavam necessitadas de uma revisão. E por muito que este Justice League tente revitalizar o tom deprimente em que Batman v Superman insistia, a volta é tão grande que acaba por falhar em quase tudo.

Desde o início, é perceptível que este filme pretendia-se com um tom mais leviano e bem humorado, face a reacção aos filmes da DC anteriores a Wonder Woman e, mais, aos filmes recentes da Marvel. E ainda que de uma forma básica isso seja conseguido, através de piadas jorradas pelo guião fora, sem entendimento dos seus timings, não significa que o filme seja melhor por isso, muito pelo contrário.
De uma maneira geral, o filme assemelha-se de forma superficial aos filmes dos Vingadores da Marvel, sem acarretar os pontos fortes desses. As piadas previamente referidas sentem-se forçadas, por claramente serem resultado de decisões e percalços existentes durante o período de produção e pós-produção desta película. Para além disso, existem dois outros aspectos claros que ajudam a entender as falhas pelas quais este filme passa. São eles a duração e a banda sonora.

Desde logo, uma duração de duas horas é demasiado curta para um filme que pretende estabelecer um universo de estórias e personagens tão largo, das quais tentam apresentar três, para além das já conhecidas. Considerando que mesmo de The Avengers tinha sensivelmente 150 minutos, tendo também já três das suas personagens desenvolvidas em filmes anteriores (ainda assim fazendo faltas algumas cenas que foram cortadas do produto final), não faz qualquer sentido que aqui se tenha reduzido tanto no tempo de ecrã.
Neste ponto, de referir que é extremamente notável a quantidade de material presente nos vídeos promocionais que está ausente no produto final, havendo nos trailers a sugestão de certas cenas complementares, que desenvolveriam personagens como Flash e Cyborg, assim como opções narrativas diferentes, demonstrando novamente um processo de edição extremamente conturbado.

Da mesma forma, a banda sonora demonstra a tremenda reviravolta receosa que se deu nas mentes dos executivos por detrás do lançamento da Liga da Justiça. Apesar da qualidade que Danny Elfman pôs nesta banda sonora, relembrando até os seus tempos áureos (com a inclusão, literalmente, do seu tema de Batman de 1989), é completamente oposta ao que até aqui tinha sido criado por Hans Zimmer e Junkie XL. A não inclusão do tema criado por Hans Zimmer para Superman é, aliás, uma pena, considerando que tinha sido criado um tema quase tão icónico quanto o original de John Williams (também aqui utilizada). A mudança de tom é tão óbvia que, por vezes, consegue-se mesmo ouvir partes da banda sonora de Avengers: Age of Ultron, também composta por Danny Elfman.

E ainda que isto pudesse ser sinal de uma revitalização deste franchise, acaba por lhe evidenciar uma crise de identidade tão óbvia que torna confusos os que vão à espera de uma continuação do que já viram anteriormente e acabam por não receber nem isso nem uma alternativa satisfatória.


Efectivamente, isto tudo faz com que o filme se assemelhe até mais a Avengers: Age of Ultron do que ao original filme da equipa de super-heróis da Marvel, não só pelas piadas que não servem as personagens nem a relação entre elas, esperando meramente por uma risadinha do público, mas também pela falta de desenvolvimento dessas mesmas personagens que pretendem lançar para filmes futuros.

Dessas, ainda que o Aquaman de Jason Mamoa pareça ser o que tem maior potencial, o seu desenvolvimento fica limitado a um tronco despido e um ar cool.
Flash é imediatamente apresentado como o alívio cómico, (demasiado) ignorante, tolo e ingénuo, que não se coaduna inteiramente com o seu pequeno desenvolvimento dramático apresentado.
Cyborg sai como o pior, não tendo sequer qualquer desenvolvimento aparte de não se sentir tão isolado no final, acabando por servir apenas para avanço da narrativa (também tão pouco original, logo à partida).
Wonder Woman acaba por ter um pouco mais de desenvolvimento, na sua tentativa para se tornar uma líder face a uma iminente ameaça, em vez de apenas reaccionária depois de tanto tempo em exílio, mas não recebe o tempo de ecrã suficiente para o desenvolvimento franco dessa ideia.
Batman é sintomático e representativo da crise de identidade de todo o filme, acabando por ser a voz que convence a trazer Superman de volta, apesar da reticência da restante equipa (e da sua própria, anteriormente, face ao kryptoniano), o que é contrário à caracterização que lhe tinha sido feita no filme anterior e acaba por o tornar uma personagem inconsistente neste universo.

Para além desta falhas na apresentação e caracterização das personagens, a narrativa é tão fraca quanto previsível, nem oferecendo o mesmo tipo de consequências e desenvolvimento que The Avengers ofereceu há meia década. Nota-se isto pela inclusão de uma cena (certamente por Joss Whedon) em que, unida a equipa, começa a nascer um conflito entre Wonder Woman e Batman, que por si só era interessante e merecia ser explorado, mas que imediatamente perde o seu impacto quando não tem quaisquer repercussões na relação entre os dois, fazendo as duas personagens as pazes na cena seguinte.
Mesmo Superman, ainda que finalmente se aproxime de algo tolerável, tem tão pouco tempo de ecrã que nem merecia todo o dinheiro gasto a remover digitalmente os seus pelos faciais. Aliás, a sua inclusão na narrativa é tão inútil e inconsequente que mais valia ter sido mantida a sua revelação para outro filme. Podendo a sua "ressurreição" ter feito inclusive parte do plano do vilão (o qual nem vale a pena referir), tornando-o um conflito interessante para o grupo de heróis, este fica meramente remetido a uma estória secundária, novamente sem consequência. Nem sabemos qual o impacto do seu retorno na sociedade, que aparentemente na sua ausência permaneceu num estado permanente de medo e desespero (temática também nada desenvolvida).

No final, é a falta de de consistência no tom e caracterização de algumas destas personagens e a falta de preenchimento do potencial reconhícel em momentos específicos do filme, que acabam por o fazer falhar. A verdade é que, passado tantos anos e com tantos filmes de super-heróis que passaram pelo grande ecrã e pelos seus olhos, o público já deseja algo mais substancial, e não merece nem carece de passar por duas horas da sua vida sem sentir nada senão apatia e desinteresse.



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