quinta-feira, 19 de setembro de 2019

Downton Abbey, por Eduardo Antunes


Título original: Downton Abbey (2019)
Realização: Michael Engler
Argumento: Julian Fellowes
Não sendo claro o intuito na base de, passados quatro anos sobre o final da série, lançar um filme baseado nas mesma, é clara a intenção de relembrar as personagens aos seus fãs. E é a partir delas que se entendem, assim, os pontos altos que a série alcançou mas particularmente as fraquezas que certamente a série nunca conseguiu (ou pretendeu) resolver.

Nunca tendo visualizado um único episódio da série, fica logo claro um dos fortes do filme. Se no início, é obviamente preferível e quase necessário termos noção de quem são estas personagens, como a lista do elenco acima nos mostra, rapidamente é possível entrar na dinâmica da família Crawley e afins, e dos seus serventes. As interpretações são tão claras, naturais, eficientemente transpondo-nos para um período tão distinto. E, se as dinâmicas estão já estabelecidas após seis temporadas, o filme esforça-se por mostrar novas dinâmicas, incluindo até personagens "exclusivas" a esta narrativa, que fazem por trazer temas subjacentes à época retratada.

De uma forma geral, existe uma reflexão sobre as desvantagens de manter as aparências, já que se apresentam como entraves à expressão dos desejos, das verdades que invadem a mente dos diversos protagonistas mas que sentem não poder referir. O casamento da filha da rainha, o estado da herança de Maud Bagshaw, a sexualidade de Thomas Barrow, a ânsia de mudança de Mary Crawley, são situações influenciadas e entravadas pela necessidade de corresponder a certos padrões expectáveis numa época em que é esperado das pessoas preencherem os seus papéis dados pela sociedade.
Mesmo a narrativa que desde a primeira cena fica estabelecida dá azo a uma batalha de aparências. Pois se os serventes de Dowton Abbey pretendem demonstrar o seu melhor trabalho aquando da chegada da rainha, devem no entanto ficar de parte para que a equipa que serve a realeza manter as aparências da normalidade para a sua chegada.


E face a esta necessidade de corresponder às expectativas, às aparências, existem situações em que as personagens contemplam uma mudança, não só numa reflexão sobre a possível evolução dos tempos, mas também numa possível mudança dos seus preceitos, das suas prioridades. Quando Lady Mary Crawley contempla o "abandono" de Downton Abbey para dar lugar a uma escola, parece um objectivo nobre, a oferta de um legado mais duradouro para Dowton, mas que imediatamente as restantes personagens não permitem.
Não só não existe uma vontade de oferecer uma evolução, uma transformação a estas personagens, como à própria série/filme, que se fica pelo mera referência às situações sem lhes corresponder com um desenvolvimento dramático suficiente. Pois se a amostra, por exemplo, de uma personagem homossexual num filme de época é uma interessante aposta, a falta de uma crítica apurada sobre o tratamento da mesma à época já não será suficiente em 2019.

Em momentos, quase parece um exercício de auto reflexão, como se a série/filme se questionasse se deveria continuar para lá do seu tempo áureo. Nesse sentido, até são peculiares as palavras de Carson, na última cena do filme, quando refere que daí a cem anos Downton Abbey há de permanecer, e nas mesmas mãos que até então. Uma série e um filme que várias vezes tentaram reflectir sobre o legado de uma época de mudança, questiona também o seu próprio legado. Mas não permite ir para além dele próprio, e aí mais se questiona o porquê deste filme, e porquê agora.
Pois, se não existe uma reflexão maior, uma crítica aprofundada sobre os aspectos políticos, sociais, culturais, económicos desta época, apesar das dicas, não parece haver uma finalidade para as questões que, de vez em quando, se levantam, se a estas nada de particular tem a oferecer.

O que poderia passar como uma despedida mais vincada, quatro anos após o final da série, acaba por se mostrar apenas como um episódio especial da mesma. Ainda que não deixe de ser uma produção britânica bem realizada, como temos vindo a ser habituados, esta talvez não justifique o seu lançamento nos cinemas, em particular neste momento.



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