Elenco: Henry Cavill, Amy Adams, Michael Shannon, Diane Lane, Russell Crowe, Antje Traue, Kevin Costner, Ayelet Zurer e Laurence Fishburne
Para fins contextuais, devo admitir que nunca fui muito fã de super-heróis, já que para isso tinha que assumir o seu irrealismo (naturalmente, no género, tem de existir espaço para a
suspension of disbelief), algo que para mim sempre foi difícil de lidar. Daí que este quase-subgénero, relativamente recente, do super-herói negro, dolorido, menos super e mais humano, me agrada bastante mais e cria para mim um interesse maior nestas jornadas que chegam aos cinemas, com frequentes adaptações de bandas-desenhadas da Marvel ou DC Comics. Isto para dizer que, se me agrada particularmente esse tom mais sério e negro aplicado aos super-heróis, temos que assumir também que essa forma de trabalhar o material de origem nem sempre resulta. Caso (bastante) evidente de
Homem de Aço. Primeiro porque a figura do Super-Homem sempre me pareceu, dentro do grande rol de super-heróis, uma das menos verosímeis e até mais patetas, passando pelas "cuecas por cima do fato", à capa vermelha ou à "habilidade" de se camuflar entre os humanos com uns simples óculos de massa (habilidade cada vez mais frequente no mundo lá fora, admito). Mas para ver um filme sobre essa figura icónica dos super-heróis temos, obviamente, de admitir essas características como naturais. Ora, parece que em
Homem de Aço, nem
David S. Goyer nem
Christopher Nolan (que emprestaram o tom hiperrealista que já tinham criado para Batman), parecem perceber que dar dilemas e crises existenciais a essa mesma figura inusitada das
comics, faz tudo parecer ainda mais bizarro e estranho. Daí que haja um conflito entre o sentido de verosimilhança impresso nesta revisão de Super-Homem e os ícones que o popularizaram. Perde-se assim a identidade do super-herói e faz tudo parecer uma grande amálgama desprovida de objectivo.
O problema deste
Homem de Aço é a forma genérica com que veste a capa do
blockbuster assumido que é, sem uma ponta de personalidade própria, muita câmara ao ombro e muita acção, explosão, quase ininterrupta e personagens incrivelmente rasas. E a culpa disso parece ser precisamente de
Christopher Nolan que apadrinhou este filme, como uma espécie de salvador dos super-heróis modernos e ao qual
Zack Snyder pareceu particularmente permeável. Abdica assim do seu tom estilizado (que sim, costuma ser bastantes vezes irritante), mas assume um método de trabalho que não é o seu e que faz o filme ser um objecto ainda menos distinto e mais igual a tantas outras super-produções megalómanas. Entre explosões e lutas sem sentido - algumas das quais nem dá bem para o espectador perceber, já que a câmara é particularmente irrequieta - lá se tenta dar uma originalidade e complexidade à história que nunca chega a resultar. Primeiro porque aqui resultaria melhor uma estrutura narrativa linear e não uma à base de
flashbacks constantes e aborrecidos - o que é uma pena, já que o "drama" familiar com as personagens de
Kevin Costner e
Diane Lane é particularmente interessante. Segundo porque a narrativa é pouco coesa e permite-se a uma espécie de saltos temporais bizarros (veja-se a cena da nave escondida, resolvida assim tão rapidamente) que em nada ajudam a compor as personagens. Falta assim espessura às figuras humanas (curiosamente logo num filme que tenta ser tão real e... humano), com um Super-Homem cheio de conflitos, mas também pouco interessante e uma Lois Lane, ela sim, quase uma super-heroína, mas com pouca química com o seu protagonista.
O elenco até faz um trabalho bastante bom. Desde
Amy Adams, a
Henry Cavill, passando pela figura mais ou menos maquiavélica de
Michael Shannon, até aos secundários
Costner e
Lane, assim como
Crowe e
Zurer. O problema não é deles - apesar de algumas falhas de química - mas sim do argumento que não lhes dá material para trabalhar. Como pode, claro, se grande parte do tempo é gasto em explosões monstruosamente destrutivas e ruidosas, sem qualquer sentido? Ou se ocupa outro tanto a um tom irritantemente moralista, dado a um "existencialismo poético" e a (óbvias) alusões religiosas? O problema é sobretudo essa má gestão de tempo com que os argumentistas não se preocuparam e uma figura de realizador que sucumbe ao tom - ironicamente quase messiânico, como se viesse daqui a "salvação" do género - com que os próprios produtores ditaram que também este super-herói tinha de ser mais negro. Pois nem sempre resulta e isso destruiu a tentativa de recriar de forma poderosa uma figura icónica como Super-Homem.
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