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segunda-feira, 22 de agosto de 2016

"O Ornitólogo", "Porto" e "A Cidade Onde Envelheço" serão exibidos no Festival de San Sebastián 2016


Depois de ter vencido o Leopardo de Prata para Melhor Realizador no Festival de Locarno, João Pedro Rodrigues competirá na secção Zabaltegi-Tabakalera do Festival de San Sebastián 2016, com O Ornitólogo. De recordar que a produção portuguesa do filme Blackmaria ainda cumpriu os seus compromissos com a equipa do filme, facto que tem alimentado a imprensa e redes sociais nas últimas semanas

A Cidade Onde Envelheço é também um dos filmes que competirá na mesma secção, com a história de duas amigas portuguesas no Brasil e a sua adaptação ao país. O filme é uma co-produção portuguesa da Terratreme e de João Matos.


Na secção Novos Realizadores, Gabe Klinger exibirá o seu filme Porto, filmado na cidade homónima, com produção de Rodrigo Areias e protagonizado pelo recentemente falecido, Anton Yelchin.

O Festival de San Sebastián decorre de 16 a 24 de Setembro.

domingo, 28 de setembro de 2014

"Magical Girl" vence Concha de Ouro no Festival de San Sebastián 2014


A co-produção franco-espanhola Magical Girl, de Carlos Vermut, venceu a Concha de Ouro para Melhor Filme, prémio máximo do festival de San Sebastián 2014. A Concha de Prata para Melhor Realizador coube também a Carlos Vermut. Duplamente premiado foi também La isla mínima, filme de Alberto Rodríguez, vencedor da Concha de Prata para Melhor Actor (Javier Gutiérrez) e Prémio do Júri para Melhor Fotografia (Alex Catalán). O Prémio Especial do Júri foi entregue a Vie sauvage, do francês Cédric Kahn.

De recordar que, em competição, foi exibida a co-produção portuguesa Variações de Casanova, de Michael Sturminger, mas que saiu sem qualquer galardão.

Concha de Ouro para Melhor Filme
Magical Girl, de Carlos Vermut (Espanha, França)

Prémio Especial do Júri
Vie sauvage, de Cédric Kahn (França)

Concha de Prata para Melhor Realizador 
Carlos Vermut por Magical Girl (Espanha, França)

Concha de Prata para Melhor Actriz
Paprika Steen em Silent Heart, de Bille August (Dinamarca)

Concha de Prata para Melhor Actor
Javier Gutiérrez em La isla mínima, de Alberto Rodríguez (Espanha)

Prémio do Júri para Melhor Fotografia
Alex Catalán por La isla mínima, de Alberto Rodríguez (Espanha)

Prémio do Júri para Melhor Argumento
Dennis Lehane por The Drop, de Michaël R. Roskam (EUA)

Kutxa - Prémio Novos Realizadores
Urok, de Kristina Grozeva e Petar Valchanov (Bulgária, Grécia)

Menção Especial
Modris, de Juris Kursietis (Letónia, Grécia, Alemanha)

Prémio Horizontes
Güeros, de Alonso Ruizpalacios (México)

Menção Especial
Ciencias naturales, de Matías Lucchesi (Argentina, França) & Gente de Bien, de Franco Lolli (França, Colômbia)

Prémio Irizar Basque
Negociador, de Borja Cobeaga (Espanha)

Prémio TVE - Otra mirada
Bande de filles, de Céline Sciamma (França)

Menção Especial
Gett, the Trial of Viviane Amsalem, de Ronit Elkabetz, Shlomi Elkabetz (Israel, França, Alemanha)

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Festival de San Sebastián 2013: Secção Pérolas, por Diogo Figueira



De todos os restantes filmes que vi, quatro terão direito a crítica completa na edição da Nisimazine dedicada a San Sebastián (Funeral at Noon, da Kutxa – Novos Realizadores; Tanta Água e Workers, da Horizontes Latinos; Gloria, um dos melhores filmes que vi este ano, da secção Pérolas, acompanhada de uma entrevista com o realizador). Antes de deixar os três grandes destaques das Pérolas, que são igualmente três dos grandes destaques do festival, muito breves palavras sobre alguns filmes dos quais não queria deixar de falar:


 Los Ilusos (2013), de Jonás Trueba Uma estrelaUma estrelaUma estrela½


Tem vindo a fazer furor por todos os festivais independentes em que tem passado e está a ser distribuído pelo realizador, que só tem uma cópia do filme (à João Botelho). Filho de Fernando Trueba, irmão do autor de um dos mais aplaudidos filmes do festival, David Trueba, encontra o seu Antoine Doinel e vai para Madrid contar uma história a preto e branco, com câmara à mão, falando sobre cinema e amor, não como se fizesse uma homenagem à Nouvelle Vague, mas como se fizesse parte do próprio movimento (ou seja, não inova, como fez a corrente; antes, toma aquela estética como doutrina em que acabou por se tornar). Um filme que relembro com carinho e que, se for carta de amor, é-o a François Truffaut.


 Family Tour (2012), de Liliana Torres Uma estrelaUma estrela½


Liliana Torres, interpretada por Liliana Torres, vai visitar vários membros da sua família, devidamente interpretados por si próprios. Um exercício interessante para uma sala de aula, mas sem força suficiente para se tornar uma experiência meta-narrativa relevante. Sucessão de eventos demasiado pessoais e internos, consistentemente aborrecido, presenteia-nos com belos momentos (mesmo os mais conceptuais) de quinze em quinze minutos, e faz-nos descobrir uma grande actriz espanhola.



 The Face of Love (2013), de Arie Posin Uma estrelaUma estrela½


Por alguma razão, este é o ano dos dopplegängers (há ainda Enemy e The Double, de Richard Ayoade, pelo menos). Apesar de lamechas e inverosímil, somos carregados com encanto pelas interpretações de Bening e Harris.


 The Zero Theorem (2013), de Terry Gilliam Uma estrelaUma estrelaUma estrela


Gilliam foi exímio em erguer mais um script que seria infilmável, ou até visualmente inconcebível, na cabeça de gente muito talentosa, e eis que surge mais uma distopia extravagante, estranha e envolvente (apesar do protagonismo passivo, que também beneficia de uma grande prestação de Christoph Waltz e de dois actores secundários desconhecidos). A redução do existencialismo a cubos e videojogos faz parte da ironia filosófica a que o filme se propõe (não é suposto ser particularmente profundo ou revelador).




Desde que Matthew McConaughey virou a carreira ao contrário, conseguiu três papéis muito bons (Bernie, Magic Mike, The Paperboy), um papel memorável, estupidamente oposto a tudo o que alguma vez tinha feito (Killer Joe) e ainda não o vimos em Mud ou The Wolf of Wall Street (ou, mais para a frente, em Interstellar, de Nolan). A verdade é que já não esperava ser surpreendido, e vinha simplesmente ver um grande actor, como se sempre o tivesse conhecido assim. Esperava um drama psicológico sobre Ron Woodroof, em vez de um relato cronológico, histórico e descritivo dos acontecimentos. Apesar de ter voado mais baixo, além de se alongar demasiado, saí moderadamente satisfeito da sessão e aplaudi de bom gosto a prestação de McConaughey e Jared Leto.


 The Wind Rises (2013), de Hayao Miyazaki  Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela


Bogdanovich perdeu a crença no cinema e deixou-nos saber isso a partir dos anos noventa – vai regressar em 2014, com Squirrels to the Nuts, escrito e realizado por si. David Lynch anda desaparecido do grande ecrã desde 2006 e não volta e meia ouvem-se rumores sobre novos projectos. Steven Soderbergh vai anunciando o fim da carreira à medida que consegue ser mais prolífico que Woody Allen (nos últimos treze anos, fez 24 filmes, falhando os dois filmes por ano apenas em 2001, 2003, 2005 e 2010, e com três em 2011). Quentin Tarantino já disse que quando fizer sessenta anos se vai dedicar apenas à literatura. E Miyazaki já tinha anunciado o adeus mais do que uma vez. Mas a verdade é que, no meio da historicidade que se inspira no real Jiro Horokoshi e no que era o Japão durante a II Guerra Mundial, nunca outro filme seu teve assim a moção tão pessoal de um aceno de despedida, grato e nostálgico por todos os velhos sonhos que o realizador japonês teve ao longo da vida. Há algo de inocente e, ao mesmo tempo, épico que liga toda a sua filmografia, agora que a podemos olhar, aparentemente completa, em retrospectiva: o voo. Objectos e estruturas voadores, habilidade para voar. Dá a impressão que, se não desenhasse filmes, Miyazaki desenharia aviões - o protagonista de The Wind Rises é um jovem e prodigioso engenheiro e designer de aviões que tenta criar o avião perfeito. O seu mentor, que apenas encontra em sonhos e devaneios, conta-lhe porque deixou de desenhar, e as palavras parecem ter sido levantadas do discurso que Hayao deu quando anunciou que não ia ele desenhar mais. O realizador parece aqui dividido entre dois personagens e dois tempos distintos – o que terminou e o que aí vem – como quando o viajante se despede para ir embora mas não consegue despegar-se do que deixa para trás. De certa maneira, este é o seu 8 ½


 Gravity (2013), de Alfonso Cuarón Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela½


O primeiro plano dura mais de dez minutos: estamos a ver Cuarón. Imagino que haja uma ordenação cíclica neste tipo de coisa, mas creio que este é um filme que pode marcar a história do cinema – e nem falo em marcar um miúdo de vinte anos como eu – de forma análoga à de 2001: Space Odyssey ou Pulp Fiction. Cada vez é mais difícil fazer filmes, mas cada vez é mais fácil fazer filmes – caem as bolas aos investidores, mas ergue-se a era digital, e uma Canon, meia dúzia de amigos e uma casa com duas divisões podem dar um filme extraordinário. É, por isso, cada vez mais difícil existir um filme capaz de inovar tanto, sozinho e de uma só vez. A história de Gravity é uma clássica luta pela sobrevivência, verdadeiramente old school, recheada de tensão, risco e embates heróicos e desesperadas contra os elementos naturais. Mas ser contada de forma que só pode ser aquilo a que se chama “tecnicamente perfeito” muda o tom da discussão. É imperativo esquecer a ciência e aplicar uma boa dose de suspension of disbelief, para absorver as paisagens que John Ford filmaria no espaço; os travellings que se poderiam fazer sem acção da gravidade , como quando vemos imagens de astronautas a boiar no nada, com réstias descoordenadas de controlo sobre a sua direcção (vários astronautas pela internet fora têm registado o seu espanto quanto ao realismo do filme); o detalhe e propósito do 3D que deixaram um hater como eu absolutamente prostrado; uma manipulação sonora arrepiante (a articulação entre orquestras de explosões e a angustia do vácuo); as sinceras homenagens ao grande clássico de Stanley Kubrick (o filme, em si, nunca tenta debruçar-se sobre questões filosóficas e é realmente uma história de vida ou de morte, mas socorre-se de algumas metáforas que ajudam a enfabular a história num épico hollywoodesco, coisa que a mim não desagradou nem um bocadinho).


 Prisoners (2013), de Denis Villeneuve Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela½


Negro, visceral, violento, provocador. Aperta os pulmões, alivia, e depois esmaga-os. Já não gritava um “Não!” numa sala de cinema desde que era muito miúdo e isso obriga-me a coloca-lo na lista de thrillers como Seven ou The Silence of the Lambs. Guzikowski talhou uma história de vingança e justiça pessoal, bizarra e perturbadora ao ponto de nem Denis nem Jackman quererem estar envolvidos ao início, mas tão humana que se tornou impossível recusarem. Estamos à espera do que possa acontecer em vários momentos do filme, pela nossa familiaridade com o género, mas somos agarrados pelo colarinho e arremessados contra a parede. Os desdobramentos, da vítima em duas famílias e do protagonismo em investigação policial e coração de um pai desesperado, emprestam uma textura de comportamentos, crenças e intenções que enquanto fazem o filme arder em emoções, impulsos e mistério, alastram o fogo em implicações morais e éticas. Villeneuve e Roger Deakins, numa fotografia ora gelada, ora abafada, escura, conseguem ser dolorosamente íntimos com os personagens e assombrá-los, e assombrar-nos!, ao virar de cada esquina. Hugh Jackman sobe mais um degrau na sua carreira tardia como A-list actor e Jake Gyllenhall confirma que, com Enemy, já não é mais o Prince of Persia mas sim um grande actor no rooster de Hollywood. Todo o cast merece um aplauso de pé, mas é preciso mencionar que Paul Dano, com pouco mais do que a cara e meia dúzia de palavras, faz um papel absolutamente memorável. 



Diogo Figueira licenciou-se em Junho 2012, em Cinema, ramo de Argumento, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Trabalhou na distribuição internacional e na campanha aos Óscares de José e Pilar e nas primeiras fases de pré-produção do próximo documentário de Miguel G. Mendes, O Sentido da Vida. Trabalha agora em projectos pessoais.

domingo, 6 de outubro de 2013

Festival de San Sebastián 2013: Selecção oficial, por Diogo Figueira


Na Selecção Oficial, tive o azar de falhar todos os principais premiados, à excepção – ao menos isso – do grande vencedor da Concha de Ouro (é uma praia acolhedora e curvada em forma de concha que dá símbolo ao festival e título ao troféu), Pelo malo, de Mariana Rondón (argumento/realização) e Marité Ugas (produção/edição). Com muita curiosidade e por incompatibilidades de horário, o que mais lamento ter deixado para trás foi Quai d’Orsay. Comédia política francesa que valeu o Melhor Argumento a Christophe Blain e Abel Lanzac (foi speechwriter do ex-Primeiro-Ministro francês Dominique de Villepin, ainda enquanto era Ministro dos Assuntos Externos), realizado por Bertrand Tavernier (vencedor de um Urso de Ouro, um Urso de Prata e uma Palma de Prata, entre tantos outros), e cujos direitos para o remake em graphic novel no RU foram adquiridos pela SelfMadeHero.


 Enemy (2013), de Denis Villeneuve Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela½


Ninguém sai indiferente de um filme destemido. Aqui, vinham eufóricos e boquiabertos; cheios de cinema, mas incapazes de articular uma opinião que não fosse gaguejo. A adaptação d’O Homem em Duplicado estava, como Blindness em 2008, nas mãos de um cineasta talentoso, mas trazer Saramago (a quem, na conferência de imprensa, chamavam “The Maestro”) para o grande ecrã estará próximo de trazer Kafka: a incisão do realismo mágico; o coração dos personagens na substância das metáforas negras, melancólicas, sardónicas; a inversão de pequenos papeis na natureza das coisas. O argumento é confinado a poucas paredes e muitos poucos personagens – Jake Gyllenhall, impressionante, representa dois personagens que se distinguem nos detalhes e não requerem versões extremadas um do outro, mesclando-se e confundindo-se por propósitos narrativos de terror, à medida que nos aproximamos cada vez mais do sinistro. Sarah Gadon e Mélanie Laurent, absorventes, deveriam ser tão diferentes que não nos devíamos baralhar pelos idênticos cabelos loiros, mas dentro deste pesadelo, já não sabemos o que é e o que parece. É uma peça quente, claustrofóbica e misteriosa, mergulhada num líquido cor-de-âmbar que conduz alta tensão psicológica e erótica, num jogo de identidade, prazer e morte. O final - especialmente os últimos cinco-dez segundos - ainda hoje me atormenta e por causa dele ainda não montei o puzzle por completo.




A sinopse oficial da adaptação é meticulosa, divertida e suficientemente fora da caixa para percebermos que vamos ver um Jeunet. Mas o que há de tão peculiar na estreia literária do jovem Rief Larsen, aquilo que leva Stephen King a descrever o livro como combinação impossível de Mark Twain, Thomas Pynchon e o filme Little Miss Sunshine, é muito mais do que a narrativa; é a forma como é apresentada. É o aumento das margens das páginas de forma a incluir cartografias, desenhos e apontamentos, tudo alegadamente feito pelo próprio T. S. , fluxos de consciência que, em vez de discursivos, fazem a ponte entre o conto para crianças e técnicas pós-modernistas. Jeunet não foi capaz de traduzir a janela de interpretação do mundo que o livro cria, e limita-se a recorrer ao 3D desnecessário e a construir um plot e diálogos que poderão resultar num público mais jovem, mas que me ficou a saber a Wes Anderson algo retalhado. Não deixa de ter óptimos momentos e fica a menção para o miúdo Kyle Catlett.




Um road movie ligeiro, passado nos anos 60, sobre coisas acerca das quais os The Beatles cantavam. O extraordinário Javier Cámara é professor de inglês que ensina crianças a partir das letras das músicas da banda de inglesa e que, ao descobrir que John Lennon, o seu grande ídolo, está a filmar em Almeria, decide ir conhecê-lo. A música escolhida para nos acompanhar ao longo dos vários check-points narrativos e arcos de personagens é Help. “HELP! HELP!” grita o professor, mentor da liberdade e da esperança, entusiasmado com as possibilidades que a vida tem, mesmo debaixo de uma Espanha franquista. O filme começa com três chapadas na cara em três momentos diferentes, que estabelecem o ambiente opressivo, mas foi curiosa a dissolução que sofreram na minha mente ao longo das duas horas, como se, a cada momento de bom humor e atitude positiva, lhes respondessem as vítimas de volta. Recheada de inside jokes para os espanhóis, coleccionador de gargalhadas internacionais durante toda a sessão, cuidadosamente filmado e alcançando uma envolvente fotografia de época, apenas fica a saber a pouco o facto de só o protagonista ter tido direito a desenvolvimento completo. 




O filme que, pelos posters espalhados pela cidade e pelo buzz considerável que foi criando, prometia muitas feridas abertas em corpos esbeltos, frio e psicologia visceral. Os lençóis de neve branca sobre as montanhas escarpadas formaram uma fotografia de apertar o fôlego – mas foi apenas isso. Mesmo quando estávamos misteriosamente bem enquadrados dentro de casa, o filme era demasiado lento para um thriller de terror e demasiado superficial para um thriller psicológico. A tensão vai-se esvaindo em largos minutos de tempos mortos onde se busca uma profundidade fantasma e, em momentos decisivos como revelações ou fatalidades, os diálogos são excessivamente teatrais (afastando ainda mais o espectador). As acções dos personagens não têm carga emocional para eles, quanto mais para nós. Virtuosismo técnico de aplaudir (venceu Melhor Fotografia, embora valha a pena mencionar a sonoplastia).


 Pelo Malo (2013), de Mariana Rondón Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela½


Um bairro social em Caracas filmado do ponto de vista de uma criança é-nos apresentado como uma versão latina, sobrelotada e degradada das janelas que espiamos na companhia de Jimmy Stewart, em Rear Window. Cada família, cada rotina, e Junior e a sua amiga especulam sobre aquelas vidas, da mesma forma com que brincam, inocentemente, à guerra e às violações, com soldados e bonecas. Junior quer apenas alisar o seu cabelo teimoso e encaracolado para poder ser uma estrela de música, e tudo isto a tempo de tirar a foto do início do ano lectivo; quer apenas viver com o entusiasmo que lhe é natural, e sentir todas as coisas novas que está a sentir. Mas este é um filme que se ramifica em complexas relações familiares, em que crescimento, liberdade e definição sexual formam um retrato que quanto mais íntimo fica (camadas atrás de camadas), mais nos dilacera: uma mãe carente mas guerreira, cumpridora mas amarga, incapaz de aceitar o contacto físico com o filho, guiando-o com a mesma intolerância com que o país pretende guiá-los; uma avó de comportamento bizarro que, por solidão, ego e poder tenta tomar posse do neto (literalmente) e interferir directamente na sua sexualidade. A metáfora política é subtil e, da maior parte das vezes, não-intencional, e atinge-nos como uma bola de espinhos pela honestidade de quem são e do que fazem todos estes personagens, ao abrigo de um projecto social falhado enquanto procuram direcções para como viver agora. Fiquemos atentos, nos Óscares de 2015, à categoria de Melhor Filme Estrangeiro.



Diogo Figueira licenciou-se em Junho 2012, em Cinema, ramo de Argumento, pela Escola Superior de Teatro e Cinema. Trabalhou na distribuição internacional e na campanha aos Óscares de José e Pilar e nas primeiras fases de pré-produção do próximo documentário de Miguel G. Mendes, O Sentido da Vida. Trabalha agora em projectos pessoais.