Durante o seu tempo de projecção, The Avengers é um divertimento eficaz e inofensivo. Olhado à saída, contra os outros filmes que a Marvel vem produzindo, é formulaico e desapontante.
Nesse aspecto, esta comédia de acção tem o mérito de conseguir equilibrar o protagonismo das suas muitas figuras, sobretudo integrando duas escalas tão distintas quanto são o Deus do Trovão e uma espia russa.
O âmbito humano, quando tem espaço para aparecer nas personagens apesar dos seus poderes, é bem conseguido, mais por recuperação das personalidades que já se destacavam nos filmes individuais. Robert Downey Jr. como Tony Stark é o dono das tiradas mais provocadoras e Tom Hiddleston como Loki empresta verdadeira composição a um vilão que, de outra forma, quase conseguiriam reduzir a uma figura "de papelão".
Além deles, só Scarlett Johansson mostra tanto de talento como de estilo na variação da personalidade da sua personagem, de assustada a dominante, diferenciando a necessidade de parecer fraca do momento em que tal é resultado da sua personagem não se equiparar, em poder, às restantes.
O que falta ao filme é uma construção dramática em torno das personagens e, sobretudo, da sua constituição como grupo que ultrapasse as necessidade imediatas - um motivo para se unirem e "vingarem" algo, por exemplo. Ao fim de mais de duas horas de filme não há senão traços ténues de personalidades activas e relevantes, mas há uma certeza sobre o facto de esperarem que se aceite que estas personagens foram definidas em filmes anteriores e que o grupo será verdadeiramente definido no filme seguinte. Por outras palavras, que o público tem de ser um fiel pagante para ser parte entendida do entusiasmo geral.
Daqui a pouco voltarei a falar do filme que está para vir, até pela pertinência argumentativa do truque que a Marvel usa sempre para lançar a próxima estreia, mas primeiro há que falar do que ficou para trás. Ou lá falta.
Apesar de serem, num plano de pequenas conexões, filmes em contínuo, a sua narrativa falha uma série de passos necessários para definir as personagens e explicar elementos que acabam por ser essenciais à acção.
Faltou um terceiro filme de Hulk para sabermos como este ganhou domínio inteligente sobre a sua transformação; um filme dedicado a Loki para saber como encontrou e porque necessita dos seus aliados; e um filme do duo Hawkeye-Black Widow para conhecermos a forte relação que já tinham um com o outro ao chegarem à equipa. Estes são os exemplos prementes entre um conjunto de vários filmes que ficaram por fazer como verdadeiros prelúdios individuais dedicados em exclusivo a encaminhar personagens e público em direcção ao "Assemble".
A causa principal disto é o facto dos filmes Marvel serem usados em função dos restantes mas nunca pensados como um todo.
Isto vê-se, igualmente, no lançamento do tal próximo filme da Casa das Ideias (e, eventualmente, dos próprios Vingadores) que mostra mais uma raça extra-terrestre a caminho de invadir a Terra, o que faz prever um filme em tudo igual a este, ou seja, a caminhar para um terceiro acto pobre mas espalhafatoso, como o já tinham sido em filmes anteriores.
Um terceiro acto, ainda para mais, desligado dos restantes que sugeriam ressonâncias com a II Guerra Mundial ou a política americana perante vários conflitos ao longo das últimas décadas.
Um terceiro acto que nos atira para o meio de um combate citadino entre heróis e extra-terrestres - reminiscente de tantas cenas iguais, nem que seja o recente
Transformers: Dark of the Moon - e com isso ridiculariza o vilão tirânico e impositivo que Loki conseguia ser (até para ser um oponente capaz de sustentar a necessidade de tão forte equipa).
Ridiculariza-o tanto quanto a cena - a mais aclamada pela reacção do público - em que o Hulk lhe aplica um golpe saído de Tom & Jerry, num sinal que a obsessão com o humor mina qualquer base mais sólida para as personagens dos filmes Marvel.
Uma base que, como os leitores dos comics sabem (apreciem ou não), existe no embate das personalidades do Homem de Ferro e do Capitão América que poderia vir a definir a liderança e o rumo da equipa e de todo o universo destes super-heróis. Se um único filme nunca será suficiente para contar algo tão complexo, o sucesso comercial tal como pensado até aqui evitará que venha a haver uma história que ultrapasse o fulcro de curto prazo - e, com isso, atinja patamares dos quais, independentemente de outras considerações críticas, os Batman de Christopher Nolan se têm aproximado.
Joss Whedon consegue preservar as costuras de um filme demasiado carregado e sem alicerces sólidos. Mas por mais que eu queira elogiar o divertimento isolado que ele fez, a realidade que torna o filme numa engrenagem (importante, mas uma engrenagem ainda assim) de uma enorme máquina de produção leva a que haja uma dureza para com um modelo caminhando a passos largos para o esgotamento. Mesmo se talentos irreverentes, ocasionalmente, venham adiá-lo.