segunda-feira, 28 de março de 2011

Splice - Mutante, por Carlos Antunes


Título original: Splice
Realização: Vincenzo Natali
Argumento:
Vincenzo Natali, Antoinette Terry Bryant e Doug Taylor

Tenho dificuldades em descrever Splice não porque haja falta de ocorrências no filme mas porque está tão insuflado de direcções que se torna difícil compreender qual aquela que seria fulcral.
Se tentasse reduzi-lo a uma ideia seria que se trata de um filme sobre a derrisão de um casal potenciada pela ciência e a terminar em horror.


Aquilo que deveria ser um thriller de terror cria uma base em que a ciência é menos importante do que deveria.
A criação do ser que amalgama uma multiplicidade de ADNs, incluindo o humano, deveria ser a porta para a reflexão sobre os direitos de decisão que o ser humano pode guardar sobre uma das suas criações que ganha uma consciência própria.
Não se trata já dos limites que se devem impôr ao que se pode alcançar mas até que ponto se pode esperar desfazer os efeitos daquilo que já se criou e que os supera.


Isso é antes do casal de cientistas que deu vida a esta criação se ver reduzido a um casal em disputa doméstica quanto ao grau de aceitação do seu filho desajustado.
É um período do filme sem ritmo nem grande interesse que confunde as questões que servem o filme com questões de composição das personagens.
É irrelevante o que estas personagens querem como possíveis pais, mas seria importante saber até onde ambos - e, também, a sua criação - estão dispostos a ir em nome da crença dos seus direitos de posse ou liberdade.


Um onde que não terminasse numa versão bizarra de complexo de Electra - e de Édipo, na parte em que entra a ciência de novo - em formato inter-espécies.
Que não explorasse um efeito de choque que faz a passagem-relâmpago do ambiente de drama familiar a filme de terror em passo acelerado.
Se a ideia era, afinal, explorar o instinto animal inapagável como parte do sentimento humano, então era necessário introduzir a brutalidade na acalmia e não passar de uma à outra com tanto tumulto.


Por mais dignidade que Adrien Brody e Sarah Polley tragam aos seus papeís e por mais entrega de Delphine Chanéac a um papel ingrato e bizarro, a verdade é que é impossível não olhar mais atentamente para as falhas de um filme que procura gratuitamente um efeito que, a bem ver, não justifica.
Esse efeito fica bem patente na sua criatura, um belo ser (quase) humano, com conformação de escorpião e asas a lembrar uma fada.
A criação parece alienígena e a ciência que a envolve é injustificável, sobretudo tendo em conta que a versão imediatamente anterior a ela é uma massa amorfa.


Não poderia ser algo que Cronenberg tivesse feito - como Natali denuncia como seu desejo - nem mesmo se o que tem de humano e de monstro se fundissem.
Porque se a dimensão psicológica e a composição física do terror que o filme procura estivessem em sintonia, faltaria ainda a capacidade de trabalhar o ambiente do filme e harmonizá-lo apesar da partida de uma base muito variada em géneros e temas.



1 comentário:

  1. O filme tinha o seu potencial. Este, foi dissipado ao longo da duração do filme...

    Abraço
    Frank and Hall's Stuff

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