sábado, 1 de outubro de 2011

A Casa dos Sonhos, por Carlos Antunes


Título original: Dream House
Realização: Jim Sheridan
Argumento: David Loucka
Elenco: Daniel Craig, Rachel Weisz, Naomi Watts e Marton Csokas

Uns cinco dias antes da sessão em que vi A Casa dos Sonhos,um trailer que antecedeu Meia-Noite em Paris destruiu os mistérios que a trama do mais recente filme de Sheridan poderia guardar.
Além da possibilidade de os trailers se estarem a tornar uma afronta - e os maiores inimigos - aos próprios filmes que querem promover, há um efeito claro de expectativas goradas no caso deste filme.
Por mais que se queira estar sujeito à surpresa do filme, é impossível. E isso torna o exercício de crítica tão mais difícil quanto alguns dos conceitos que estão à mão e seriam invocados se tornam inúteis.
O filme não conseguirá ser, portanto, surpreendente a não ser pelo seu pendor final para o thriller de um género evidente - resolvido com um flashback repentino e uma luta numa cave.
Se a reacção mais sentida a isso foi a de desapontamento - sobretudo para quem conhece Sheridan de geniais momentos de cinema passados - não posso deixar de defender a presença da mesma sensibilidade que ele sempre demonstrou.
Ele consegue salvaguardar um tremendo cuidado com as suas personagens dedicando-lhes um olhar sensível que sabe caracterizá-las com uma discreta composição de elementos, seja o ambiente em que estão inseridos ou um mero virar de costas.
Há, por isso, uma riqueza nas três personagens centrais com que Sheridan lida - maior no caso da de Daniel Craig, obviamente - que contribuem para que haja uma exploração dramática da perda muito sólida, ainda que um pouco escondida pelos efeitos habituais que tornam este filme mais simples de etiquetar com um género vendável.
A representação física dos mecanismos mentais de defesa que uma pessoa desenvolve é interessante e sobrevive aos atentados que lhe foram feitos pelo trailer e pela titubeante estrutura narrativa.
Estou no fundo a afirmar que no seio da tipificação cinematográfica a personalidade cinematográfica de Sheridan ainda prevalece e que o problema não está nele.
Admitamos que este é um filme típico da indústria, Brothers um remake e antes disso Get Rich or Die Tryin' um veículo para um músico que muito vendia e rapidamente se apagaria.
O padrão que se vê é aquele em que Sheridan se tem de sujeitar para poder continuar a filmar (como merece poder fazer).
Desde o filme para 50 Cent, momento em que ele deixou mesmo de ser interveniente nos argumentos, que Sheridan parece ter de aceitar o que lhe passam para as mãos.
Estão a apagá-lo como autor, mas como realizador não há falhas para lhe apontar. Resta esperar por melhores projectos.





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