sábado, 19 de dezembro de 2020

Mulher Maravilha 1984, por Eduardo Antunes


Título original: Wonder Woman 1984 (2020)
Realização: Patty Jenkins
Argumento: Geoff Johns, Patty Jenkins, Dave Callaham
ElencoGal GadotChris PinePedro PascalKristen WiigConnie NielsenRobin Wright
 
É com bastante desapontamento que vejo esta sequela, para lá das boas intenções que guiam a mensagem pretendida para lá dos créditos, não utilizar o potencial que apresentara previamente com a sua inspiradora protagonista, antes deixando-se cair numa confusão de antigas referências, personagens não desenvolvidas e, pior, uma protagonista completamente descaracterizada e distante do seu interesse original.

WW84 não esconde a sua inspiração. Veste sem receios a mesma referência subliminar, do original Supermanque antes já possuía, transpondo não apenas uma cinematografia contrastante à propositadamente sóbria do filme anterior, como uma mesma sensação de heroísmo da qual estas personagens não deveriam fugir, especialmente com contornos tão míticos quantos estas possuem. E outros referentes que remetem para a época abordada, como seja Indiana Jones - em grande parte exposta numa perseguição semelhante à do terceiro filme dessa outra franquia - ajudam a explanar em partes o sentimento de aventura que, por exemplo, a Marvel deixou em larga medida de ter, por entre sequências de acção de contornos excessivos, genéricos ou imemoráveis.

Mesmo os temas musicais que Hans Zimmer aqui nos proporciona, seja na nossa revisitação de Themyscira logo ao início, ou especialmente na passagem para o titular ano e apresentação da protagonista na sua gloriosa persona, remetem para a sensação de deslubramento patente na música composta por John Williams para esses outros referentes. A experiência inicia-se entusiasmante, num retorno ao grande ecrã justificado desde a cena inicial.

E ainda que comece como uma aparente imitação do Lex Luthor de Gene Hackman, rapidamente apercebemo-nos de Maxuell Lord ser, na verdade, a parte desta narrativa que desejamos ver regressar em cada cena. Numa ampla interpretação por Pedro Pascal, em partes caricatamente excêntrica mas nunca exagerada, escondendo a vulnerabilidade do ambicioso apetite do antagonista, a sua constante e dispendiosa decadência mais nos vai remetendo para a trágica condição que leva a cada drástico passo, que ao vil resultado que, ingenuamente, nunca considera.
É mesmo interessante ver que, se pelo material promocional nos era indiciada a personagem de Kristen Wiig como principal antagonista, com Maxuell Lord a ocupar o papel de vilão secundário, é na verdade este último o mais desenvolvido e relevante dos dois e, aliás, de entre todo o elenco de personagens do filme, para lá mesmo da própria protagonista.

Pois se o filme antecessor desenvolve inteiramente Diana como o centro emocional em quem a audiência se deve significar, ela movimenta-se aqui passivamente à narrativa. Mais não se nota isso que pela reintrodução de Steve Trevor, que a cada cena desvia nocivamente a atenção da narrativa. 
Quando experienciámos Diana fora do seu meio no filme de 2017, era ao serviço de expor a sua inocência num mundo contrário às suas mais esperançosas ideias. Aqui, a descontextualização de Trevor não serve propósito narrativo algum, estando descontextualizado no próprio filme tal como, no final, repete e retira (portanto) o impacto dramático do final do filme anterior, por o já termos experienciado antes.
E se o início da amizade entre Diana e Barbara demonstra o início de um respeito mútuo e, ao mesmo tempo, a possibilidade de uma serena integração nesta sociedade para lá da relação da qual nunca recuperou, é desfeita a ideia com o regresso de Steve que, servindo a literal formalização do desejo profundo da protagonista, corta a evolução emocional da mesma.



Após setenta anos em auto-isolamento, incapaz de seguir para lá do primeiro e único amor que genuinamente sentiu, de que forma pode uma literal deusa lidar com a mortalidade do mundo que habita? Na sua aceitação da violência inerente do ser humano, significará o seu distanciamento uma cumplicidade com essa mesma condição, um distanciamento do papel a que se tinha proposto? São questões que se proporcionavam com tão drástica distância temporal entre os cenários de ambos os filmes, e que se levantam quando vemos Diana nunca se revelar de forma pública (supostamente...).
Poderia a assunção do erro do seu isolamento demonstrar como as suas acções (ou falta delas) teriam contribuído para a queda dos valores societais, face o questionamento de uma sociedade que precisava, mais que nunca, de um forte exemplo.
Quando oferece o filme uma tentativa de justificação para tantas décadas passadas numa vivência discreta mas não ausente, fá-lo apenas através de uma vaga passagem por várias fotografias da sua história. Não temos tempo suficiente para entender o efeito do próprio exílio emocional em Diana, para lá da sua presença isolada num restaurante apinhado de casais.

No filme predecedente, servia a relação de Diana com Steve como uma proeminente lembrança da razão porque decidiu deixar a única casa que conheceu para enfrentar horrores desconhecidos. Uma relação que cresceu e revelou diferenças e similitudes entre ambos, representando no final do filme, mais que um tipificado interesse romântico, um símbolo do que acredita existir subjacente a toda a violência que habita cada ser. E ainda que aqui consiga Diana formalizar a despedida de Trevor que não conseguira antes, sinalizando potencialmente a libertação do seu desejo, não demonstra de que forma ela crescerá para lá dele, já que a não experienciámos durante a maior parte da duração do filme senão na companhia do seu interesse romântico.

Desta forma, entendemos também rapidamente a inutilidade da inclusão de Barbara Minerva, através de uma personagem de assumida ingenuidade na sua escrita inicial. Desprezada pelos seus pares, (supostamente) vulgar em aparência e interacção social, pretende a sua personagem ser o literal contrário da protagonista, para serem no entanto reveladas as características que uma ambiciona da outra. Inicia, assim, o filme uma potencial amizade que não se desenvolverá e, pior, passará a antagonismo sem razão aparente para lá da necessidade de novo confronto final - ainda que, novamente, o filme construa a irrelevância do mesmo.

Também se aqui é a violência trocada pela insaciabilidade do homem em antigir os seus desejos, numa tentativa aparente de oferecer a cada filme dedicado à heroína, mais que um necessário (?) vilão, uma temática sobre a qual construir a narrativa do filme, não deixa este de voltar a incluir os vícios de uma audiência desabituada. Até elementos que compõem a maior parte do material promocional do filme, surgem como elementos chamativos sem sentido de inclusão. Pois, se surge o fato dourado apenas após a Mulher Maravilha recuperar os poderes que entretanto perdera, para que serve o mesmo senão como isco visual e nada mais além disso?

É trágico que, a inspiração inerente à personagem conforme nos foi apresentada no filme anterior, seja aqui remetida de forma forçada para um discurso final, que faz por tentar contextualizar a sua temática à altura de lançamento, mas nunca a consegue justificar pelas personagens que compõem a narrativa abordada. Ainda que honesto nas suas ligações cinemáticas, este é um filme que não transpõe a mesma honestidade para a sua protagonista, tornando-se, no fim, tão esquecível como os exemplos de quem se tentava distanciar.



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