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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Playback, por Eduardo Antunes


Título original: Playback (2026)
Realização: Sérgio Graciano

Apesar da tentativa de direccionar alguns esforços estéticos inspirados noutros exemplos cinematográficos, as reconhecíveis experimentações audiovisuais não são suficientes para salvar o que, de resto, acaba por ser um filme bastante básico e, pior, redutor da carreira do artista, não acrescentando nada para a posteridade do mesmo. 

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Casa Gucci, por Eduardo Antunes


Título original: House of Gucci (2021)
Realização: Ridley Scott

Existem diversas serializações biográficas dedicadas a grupos familiares afectados por excêntricas vicissitudes às quais, no seu formato alongado, lhes são permitidas um enfoque episódico em personagens, temas ou épocas distintas, cuja atenção dividida nos permite absorver a história mais eficazmente. Formato do qual me recordei aquando dos obrigatórios escritos finais informativos do destino das diversas personagens, relembrando a minha própria necessidade de gastar mais tempo em cada uma delas, em particular a que devia acarretar, juntamente com a personagem de Lady Gaga, o conflito central de toda a história.

sábado, 19 de março de 2022

Homem-Aranha: Sem Volta a Casa, por Eduardo Antunes


Título original: Spider-Man: No Way Home (2021)
RealizaçãoJon Watts

Não tendo tido a oportunidade (e talvez até, em retrospectiva, vontade) de apanhar esta visualização no grande ecrã, chegou-me finalmente o momento de ver esta mais recente adaptação cinemática de Homem-Aranha, já sem as expectativas nostálgicas de outrém e com a confirmação de todos os rumores que estragaram à partida qualquer surpresa que pudesse existir, numa vontade permanente dos mais fanáticos confirmarem os seus conhecimentos e, assim, conseguirem os seus desejos sem demais desafio.

sábado, 2 de outubro de 2021

007: Sem Tempo Para Morrer, por Eduardo Antunes


Título original: No Time to Die (2021)
Realização: Cary Joji Fukunaga
ArgumentoNeal PurvisRobert Wade, Cary Joji Fukunaga, Phoebe Waller-Bridge

Um eterno vácuo nesta série cinematográfica, aparentemente permamente após a despedida imerecida que Spectre à altura ofereceu, é finalmente substituído pela sequela que torna esse outro filme quase irrelevante, oferecendo uma mais clara despedida à personagem que Craig foi cunhando sua ao longo de quatro anteriores filmes, por entre uma infeliz quantidade de lugares comuns que, embora alguns insólitos e de certa forma bem-vindos à personagem, não permitem o distanciamento do eterno agente britânico de outras narrativas tão semelhantes.

sábado, 20 de março de 2021

WandaVision - Temporada 1, por Eduardo Antunes


Título original: WandaVision (2021)

Finalmente, a Marvel encontra o formato mais acertado para as histórias alongadas em que as suas personagens se baseiam e as quais requisitam a maior duração que o formato televisivo oferece.
E, no entanto, prefere esta mini-série voltar a justificar-se antes pelo (nem sequer interessante) mapeamento posterior de outras materiais, não tirando o inteiro potencial da sua particular formalização, que aqui ainda mais se justificava e pedia, por ser a própria estrutura televisiva, na sua génese, o elemento estrutural de toda a série, desde o título que básica mas inteligentemente mapeia. 

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

Sonic: O Filme, por Eduardo Antunes


Título original: Sonic the Hedgehog (2020)
Realização: Jeff Fowler
Elenco: Ben Schwartz, James Marsden, Jim Carrey, Tika Sumpter

Não é perceptível, para além de uma concepção generalizada de que o público não aceitará já a formalização fantasiosa deste tipo de personagens (para a qual as recentes readaptações da Disney certamente contribuirão), o que terá levado ao realismo do inicial desenho da personagem que tantos estranharam. Felizmente, a mudança foi bem empregue, num filme que assume o seu lado infantil e acaba por oferecer, ainda que não um bom filme, uma experiência que os mais novos (e os fãs dos videojogos) certamente poderão apreciar.

sábado, 16 de novembro de 2019

Exterminador Implacável: Destino Sombrio, por Eduardo Antunes


Título original: Terminator: Dark Fate (2019)
Realização: Tim Miller

Mais uma vez, a ironia de um título que representa a sensação exacta após o visionamento do filme. O destino desta franquia é de facto sombrio após um filme que, apesar de um igual número de argumentistas e protagonistas, não consegue passar além das mesmas ideias, com uma realização que nem sequer nos cativa a permanecer no cinema sem inúmeros bocejos.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Midway, por Eduardo Antunes


Título original: Midway (2019)
Realização: Roland Emmerich
Argumento: Wes Tooke

Não somos estranhos a filmes de guerra, muito menos representativos da 2.ª Guerra Mundial, em particular da perspectiva americana. Foram já os diversos realizadores a dar o seu cunho, positiva ou negativamente, a este pedaço da história mundial. É por isso entorpecedor estar perante um filme que, com vistas tão largas sobre o que pretende transpor para o ecrã, acaba por oferecer tão pouco de relevante à História contada.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Doutor Sono, por Eduardo Antunes


Título original: Doctor Sleep (2019)
Realização: Mike Flanagan
Argumento: Mike Flanagan

"Atreve-te a voltar atrás", diz a tagline do filme. Não só se preocupou Stephen King em o fazer, na escrita do romance homónimo a este filme e sua inspiração, como Flanagan se atreveu a revisitar o que agora é considerado um clássico do cinema (em particularmente, de terror). Resta entender se houve recompensa para o esforço tomado.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Projecto Gemini, por Eduardo Antunes


Título original: Gemini Man (2019)
Realização: Ang Lee

Apesar de uma boa realização e actuações aceitáveis por parte do elenco disponível, de forma generalizada, o artifício de filmagem aqui utilizado não é razão suficiente para justificar a visualização de uma história tão banal quanto desinspirada.

domingo, 8 de setembro de 2019

X-Men: Fénix Negra, por Eduardo Antunes


Título original: Dark Phoenix (2019)
Realização: Simon Kinberg
Argumento: Simon Kinberg
Finalizada assim a actual iteracção destas personagens de banda desenhada no grande ecrã, após a compra de diversas propriedades intelectuais dos estúdios da Fox pela Disney, o último esforço levado a cabo deixa um sabor amargo e a vontade de ver um novo olhar sobre a riqueza das suas histórias, mas deixará igualmente a saudade de quase vinte anos de narrativas que, nem sempre acertando, várias vezes fizeram por arriscar num dramatismo maior das temáticas subjacentes.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

O Rei Leão, por Eduardo Antunes


Título original: The Lion King (2019)
Realização: Jon Favreau
The Lion King é capaz de ser, até agora, o mais estranho deste revivalismo dos filmes "clássicos" de animação da Disney. Se o reviver desta estória consegue demonstrar indiscutivelmente a sua intemporalidade, e a "actualização" do aspecto visual nos encanta na admiração de um mundo agora tão mais próximo do nosso no seu realismo, essa mesma actualização não trás nada de novo e retira até algum do carácter original, sem ainda assim perder o encanto inerente.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

John Wick 3 - Implacável, por Eduardo Antunes

https://splitscreen-blog.blogspot.com/2019/05/john-wick-3-implacavel-por-eduardo.html

Título originalJohn Wick: Chapter 3 - Parabellum (2019)
RealizaçãoChad Stahelski

Se John Wick acompanhava o desespero de um homem sem nada a perder, e o segundo capítulo expandia o universo subjacente sem perder o foco que queria dar às cenas de acção e às motivações do seu protagonista, este terceiro filme perde a novidade que nos surpreendeu da primeira vez, esforçando-se demasiado por nos entreter com movimentos demasiado repetidos e uma história que promete mais do que oferece.

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Lost Holiday, por Carlos Antunes



Título original: Lost Holiday
Realização: Michael Kerry Matthews, Thomas Matthews
Argumento: Michael Kerry MatthewsThomas Matthews
Elenco: Kate Lyn Sheil, Thomas Matthews, Keith Poulson



O mumblecore terá tido (algum) interesse há muito tempo atrás, antes de ser uma etiqueta que facilita o trabalho de quem vê os filmes.
Facilita, também, o de quem os faz, que se pode permitir colocar o correr do improviso no lugar da precisão da escrita.
Essa é a razão pela qual Lost Holiday perde os primeiros 20 minutos numa derivação que só quer montar a situação detectivesca que se seguirá.
Trata-se de uma investigação amadora de um rapto que envolverá estados alterados de consciência, perseguições de carros e confrontos violentos.
O que, envolvendo um duo de trintões por amadurecer e com falta de noção própria, numa forma económica  de fazer cinema significa um misto de incompetência e absurdo.
Durante a dinâmica de buddy movie, está-se mais próximo de cenas que resultam bem, sobretudo porque há liderança de Kate Lyn Sheil com Thomas Matthews como sidekick numa inesperada dupla de comédia.
Ela tem o dom de, quase sem parecer investida no filme, proporcionar uma interpretação que capta a atenção com discreto carisma. O que fica do filme é a forma como passeia a recusa de amadurecer e a incosciência de quem vive protegida do seu personagem.
Kate Lyn Sheil, magnífica em Kate Plays Christine, um dos melhores filmes de anos recentes no IndieLisboa, tem o talento para alicerçar no seu carisma a posição de estrela.
A televisão poderá ajudar a isso (haverá quem se lembre dela de House of Cards ou Outcast) mas, entretanto, tem de desistir de carregar filmes nas margens de uma visão de Cinema.
Reconhecendo que este nem é o caso pior desta situação, para tal há que ver a (suposta) Ficção Científica mumblecore que dá pelo nome de Radio Mary.
Neste caso dos irmãos Matthews essa falta de visão começa logo na escolha dos 16mm, por certo nostálgica como os acessórios (discman, VHS de aeróbica, telemóvel com tampa ou um abatido Volkswagen descapotável) de Margaret.
Com tantas cenas nocturnas, a película nunca os serve bem, mesmo se vão tentando usá-la para criar alguns efeitos visuais que fiquem na retina e que se revelam desconexos com o resto da pragmática produção.
A componente visual ressente-se menos do que a formal, por não quererem os autores que ele seja aquilo que é melhor.
A comédia é um meio distinto para a mesma crise de aceitação da idade adulta que já se viu antes, por isso o filme está sempre a regressar ao reacendimento de uma velha relação de Margaret com Mark que vive com outra mulher e está prestes a ser pai.
Esta relação nunca chega a ganhar força que torne credível que possa colocar algo em perigo ou, pelo contrário, resgatar a falta de comprometimento de Margaret.
Trata-se apenas de uma forma de ir ligando as peripécias da investigação, por via de flashbacks a darem algum passado à protagonista antes de terminar por demonstrar que, mesmo os que estabelecem uma vida para si para além do aborrecimento de meninos ricos, não reconhecem em si essa idade adulta em que entraram.
Michael Kerry e Thomas Matthews acabaram por unir as ideias soltas como conseguiram, até mesmo usando ideias formais que não pertencem ao universo desta história, como a narração poética que baliza o filme sem nada acrescentar.
Têm potencial para, guardando o realismo e desmarcando-se do amadorismo auto-imposto, brincarem com este e outros géneros com sucesso.




domingo, 25 de março de 2018

Maria Madalena, por Eduardo Antunes


Título original: Mary Magdalene (2018)
RealizaçãoGarth Davis

Lembro-me de ficar curioso pelo elenco apresentado aquando da minha primeira visualização do trailer, mas igualmente assutado quando, durante o mesmo, se vêem as palavras The untold story, por imaginar que o filme pudesse levantar polémica sem mais nenhum propósito. Será esta uma história que vale a pena ser contada desta perspectiva?

terça-feira, 6 de março de 2018

A Forma da Água, por Carlos Antunes



Título original: The Shape of Water
Realização: Guillermo del Toro
Argumento: Guillermo del ToroVanessa Taylor
Elenco: Sally Hawkins, Octavia Spencer, Michael ShannonRichard Jenkins


Um conto de fadas para adultos. Espera-se um filme em que os elementos fantásticos impulsionam a descoberta pessoal à medida que expõem os desafios que aguardavam tornar evidente o percurdo do "herói".
No "para adultos" está o cerne da questão, havendo de estabelecer o ponto de depressão de onde parte quem busca a sua própria superação.
A Elisa, por ter sido maltratada em criança, falta-lhe a voz o que a fez sentir incompleta pela vida fora. Até ver a criatura enclausurada, não se percebe que incompletude significativa é essa
Parece viver um contentamento silencioso. Apaixonada por musicais, rodeada de outros excluídos como ela e com um trabalho sem glamour mas onde a sua falta de cordas vocais a deixa mais confortável do que o contrário.
A única falha expressa é a de um parceiro sexual. Nada que não tenha um cariz genérico, capaz de gerar empatia sem qualquer desafio.
O mesmo se deve dizer dos amigos que a rodeiam, uma mulher afro-americana que com ela partilha o trabalho e um velho homossexual encapotado que com ela partilha a morada. Mais dois elementos desprezados pela sociedade e unidimensionais.
Para se opôr a eles há o vilão de Michael Shannon que, apesar de ser escrito para que não restem dúvidas que quem estiver contra ele está do lado correcto, é o personagem que mais perto está de ter ambiguidade.
Apesar de ser a encarnação do Mal - ou, como a narração de abertura diz, o verdadeiro "monstro" do filme - ele tem de cumprir com as difíceis exigências de sucesso, sinónimos de masculinidade: as da sociedade-modelo vinda dos anos 1950 e as da vida militar. Não por acaso o apelido do seu personagem é Strickland.
Por comparação com esta caracterização, olhe-se para o espião russo, cujo pensamento científico coloca a admiração pela espécie acima de qualquer lealdade pátria, e para o Anfíbio, que mesmo ao alimentar-se de uma gata é desculpado pela sua natureza selvagem.
Mesmo no sexo - incorporação pela qual Guillermo del Toro pensa ter atingido o estatuto "para adultos" - é Strickland a protagonizar algo pensável.
Ele é exposto ao público comportando-se de acordo com as pulsões que sente. Para ser caracterizado como bruto, naturalmente, mas tornando-se assim a única personagem a assumir a dimensão realista da matéria.
Elisa masturba-se e que acabará por fazer sexo com o Anfíbio. O primeiro acto não passa de um apontamento e o segundo ocorre de uma casta forma dançada, numa cena tão exageradamente fantasiosa que torna difícil haver um envolvimento emocional com a mesma.
Essa cena de sexo tem, aliás, uma (posterior) representação mais assertiva através do dedo de uma mão do que nos brilhos coloridos do Anfíbio!
O realizador achou que bastaria referenciar de forma inofensiva - e inexpressiva! - o sexo para ele estar desenvolvido no subtexto do filme.
Para um filme inspirado em Creature from the Black Lagoon, parece não ter a noção correcta da expressão de sexualidade que era a cena de perseguição aquática, intensa mesmo sob o sufoco do Código Hays.
Como o fez para o sexo, fê-lo para o racismo, a homofobia e a obsessão pela Guerra Fria. Traçou um mundo moral a preto e branco que não exige esforços de entendimento.
Um mundo com as cores dos musicais que ele tanto referencia ao longo do filme e os quais chega mesmo a tentar reproduzir, num momento desfasado do restante do filme e cuja pouca desenvoltura o evidencia como sucedâneo sem aspiração à grandeza.
De verdadeiramente grandioso no filme temos Sally Hawkins e Alexandre Desplat, enquanto tudo o resto é agradável mas inóquo.
Num ano de nomeações arriscadas, o Oscar principal para A Forma da Água é Hollywood a admitir que prefere qualquer elogio a si mesmo e aos seus tempos maiores do que exercer a possibilidade de falar sobre o seu tempo.




sábado, 3 de março de 2018

Chama-me Pelo Teu Nome, por Carlos Antunes



Título original: Call Me by Your Name
Realização: Luca Guadagnino
Argumento: James Ivory
Elenco: Armie Hammer, Timothée Chalamet, Michael Stuhlbarg


Filmar a disputa de intelectos num encontro de corpos é um dos trabalhos hercúleos com que se deparam os cineastas.
Criar a subtileza dos gestos que se substituiem às palavras sem apagar tanto do que rodeia os personagens que se apague a urgência do que está para acontecer.
Dentro dessa subtileza, não se abstrair dos personagens, ser capaz de lhes dar substância e, sobretudo, elevá-los a um mesmo patamar que os faça disputar a atenção um do outro antes de cederem à pulsão filmada.
Luca Guadagnino lança-se ao filme demonstrando a intencionalidade de ser bem sucedido sem encontrar os elementos para alcançar tão difícil equilíbrio.
Se a expressão física fica garantida pela escolha de Armie Hammer e Timothée Chalamet, há batota na forma como se expressa a inteligência de ambos.
O recurso a obras alheias, sobretudo os textos de Heidegger para as divagações de Oliver, emoldura o que ele e Elio são.
Filhos da intelectualidade prestes a demonstrar falta de argúcia sentimental para lidar com uma relação que parece ser a primeira que têm com alguém do mesmo sexo.
O realizador tem a sorte de ter encontrado Timothée Chalamet. Um foco no meio de tudo o resto - para o realizador se orientar e o público fixar -, ele é a presença capaz de sugerir um pouco do que James Ivory não conseguiu escrever.
Uma inveja capaz de se confundir com a rejeição inicial da atracção que sente. Inveja de uma primeira vez em que não é ele o rapaz que atrai os outros para si.
Os pais de Elio admiram o conhecimento de Oliver, as raparigas admiram-no por comparação com estudantes de anos anteriores.
Guadagnino de imediato torna evidente o desconforto da atracção daquele rapaz. Chalamet acrescenta-lhe a hesitação sobre o papel que deve assumir como homem.
O actor é capaz de sugerir temas ocultos numa relação que o filme trata como um caminho a percorrer com firmeza em vez de uma paisagem em que demorar o olhar.
É verdade que as cenas entre os dois são lânguidas, deixando repousar os corpos no ecrã. Só que a delonga não traz a subtileza que se pretendia encontrar.
Onde existem silêncios o filme deveria ter discussões veladas sobre o entendimento que os personagens fazem do que lhes acontece.
O tempo passa limitando-se a ter os corpos cada vez mais perto um do outro, num fluxo inevitável onde nunca surge um interregno que faça duvidar da união por acontecer.
Apesar de todos os seus conhecimentos, eles não falam senão na cena da confissão que transforma de imediato os companheiros relutantes em amantes decididos.
Tudo o que neste Verão de amadurecimento de Elio ficou por dizer e que fez tardar o romance tem de ser resolvido na cama onde os interessadoss hesitantes dão lugar a amantes experimentados.
Num filme que assume fortemente o homo-erotismo em espera, parece que a sua concretização deixa o realizador mal-gradado.
Quando o sexo é heterossexual, a câmara não se incomoda com a presença desnudada de Esther Garrel. Quando se passa entre Oliver e Elio, desvia-se para as folhas de árvore acariciadas pela brisa.
Mesmo a cena do alperce, apesar de todo o aparato do que poderia acontecer, redunda num abraço. Um pudismo que se estranha e que afasta da intimidade a ser sugerida.
Uma intimidade que é muito mais credível nessa magnífica - e quase deslocada - cena em que o pai fala da Elio de como a sua própria vida teve um episódio como o dele mas falhado.
Esse instante magnífico de Michael Stuhlbarg prova que faltou ver muito mais dele. Mais do que isso, no final do filme relembra como todos à volta daquela relação evitaram intervir.
Nem um conselho, nem uma discussão. Os personagens que não os protagonistas do romance estão ausentes.
Esses outros personagens, imagina-se, terão acabado no chão da sala de montagem onde Guadagnino foi reduzindo as quatro horas de filme iniciais.
A sua indulgência poderá ter sido reduzida em parte mas a sua escolha parece ter ido para a permanência das cenas menos substanciais - e só em teoria mais sugestivas!
Essas cenas que fazem com que, mesmo pouco acima de duas horas, o filme seja demasiado longo para o tem para dizer acerca deste coming-of-age.




quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas, por Eduardo Antunes

https://splitscreen-blog.blogspot.com/2017/08/valerian-e-cidade-dos-mil-planetas-por.html

RealizaçãoLuc Besson
Argumento: Luc Besson

Podemos já confiar em Luc Besson para nos trazer filmes interessantes e estimulantes (visualmente e não só). Apesar do exagero conceptual da premissa do seu anterior filme Lucy e da forma como abordava de forma leviana alguns dos temas aí presentes, oferecia-nos uma peça de entretenimento como por vezes é difícil de descobrir em muitos "puros" blockbusters  americanos. E é desse mesmo dilema que sofre este filme.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Patriots Day - Unidos por Boston, por Tiago Ramos


Título original: Patriots Day
Realização: Peter Berg
Argumento: Peter Berg, Matt Cook, Joshua Zetumer
Elenco: Mark Wahlberg, Michelle Monaghan, J.K. Simmons

Dentro de todos existirá, eventualmente, a fantasia do herói: a necessidade de nos afirmarmos como importantes e necessários, de salvarmos o irreparável. Mais do que recordar momentos históricos ou contar histórias reais, talvez seja precisamente isto que os filmes que retratam eventos trágicos da história recente pretendem ser. Um veículo para a nossa própria fantasia de querermos ser os heróis, de acharmos que se lá estivéssemos, de alguma forma a história seria contada de outra forma. Patriots Day pretende usar a figura da Lei, no retrato de um homem comum e com defeitos, mas com traços de herói, para recontar a tragédia do atentado terrorista na Maratona de Boston, em 2013.

Embora os minutos iniciais sejam auspiciosos, com uma câmara a fazer lembrar a estética de Paul Greengrass, rapidamente percebemos que longe da tendência orgânica do autor de United 93, a câmara ao ombro de Peter Berg, não é mais que uma câmara que treme muito para nada. Apenas para reforçar uma ideia de found footage, que não consegue eliminar nunca a sua artificialidade, nem distanciar-se da mera reconstituição dos factos. Uma reconstituição sobretudo mediática, filmando tudo com uma violência gráfica, carniceira e abusiva, que continua ao longo da narrativa. E embora como opção de autor pudesse ter resultado, Berg não consegue nunca demarcar-se da imagem de um tarefeiro, adepto de explosões e sem grande espaço para ideias próprias.

Mark Wahlberg enquanto Tommy Sanders é precisamente a tal figura com que se espera que o espectador se identifique. O homem errante e problemático, que cometeu erros no passado e que espera pela oportunidade de redenção. E que em face aos atentados assoma-se-lhe o espírito do herói incansável, pela determinação de fazer "justiça", mas apenas e só, pela captura dos terroristas, como forma de tornar o mundo melhor. Embora a interpretação do actor não seja de todo incompetente, o seu retrato peca pela unidimensionalidade da personagem. Facto transversal a todo o filme, onde seria mais interessante isolar uma daquelas histórias de vítimas reais (e não só como acessórios a puxar ao melodrama) ou até e especialmente, focar-se nos terroristas, nunca os reduzindo ao estereótipo religioso e racista.

Não obstante, o filme ter um trabalho de investigação e reconstituição interessantes, nem que seja pela nossa tendência de voyeuristas, Patriots Day nunca deixa a sua visão patriótica e panfletária. Uma propaganda nacionalista, que não dá margem para uma discussão politicamente sustentável e sem ideias preconceituosas. Sobretudo, mantém sempre uma ideia oportunista de explorar as vítimas reais, de uma forma hipócrita e que funcionaria melhor se assumisse as suas ideias políticas (como American Sniper fez) ou tomasse forma num documentário dramático. Ainda que a espaços consiga surtir emoções no espectador, nem o realizador nem os argumentistas são capazes de escapar à ideia de filme-tributo, com ideias inconsequentes.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Lion - A Longa Estrada Para Casa, por Carlos Antunes



Título original: Lion
Realização: Garth Davis
Argumento: Luke Davies
Elenco: Dev Patel, Nicole Kidman, Rooney MaraSunny Pawar


Lembre-se The Barefoot Contessa de Joseph L. Mankiewicz para falar de Lion: um guião tem de fazer sentido, a vida não.
Este sentido não trata apenas da coerência do que se passa mas da relevância dramática do que se passa e da capacidade do argumento de envolver o público naquilo que narra.
Os traços gerais das duas grandes componentes da história parecem ser aquilo que Lion precisava para que o seu guião fizesse sentido.
Por um lado a história de há vinte anos atrás quando um menino se perde do irmão e fica preso num comboio que viaja 1600 km até Calcutá onde ele acabará na rua e, depois, num orfanato antes de ser adoptado por uma família da Nova Zelândia.
Por outro a história de como em 2008 as suas memórias da família que perdeu na Índia se tornam mais intensas e, com o nascimento da ferramenta Google Maps, o fazem procurar as suas origens de forma tão obsessiva que começa a destruir os laços emocionais que construiu.
O filme conta a primeira metade da história de forma directa, sem tentar dar-lhe uma sofisticação que as dificuldades de vida de uma criança não precisa.
Como esses momentos se julgam a preparação da história mais complexa que estará para vir depois - ideia que o subtítulo português reforça - o seu esquematismo perdoa-se.
Esta parte da história, com o seu realismo que infelizmente ainda é um cliché, captura a atenção enquanto o público ainda está disponível para fazer o investimento emocional, no que é incentivado pela carismática presença de Sunny Pawar, uma descoberta que valerá a pena ver no cinema mais vezes, sobretudo se lhe permitirem manter a naturalidade que fazer parte da sua actuação.
Quando o tempo salta para a imagem de um feliz surfista Neo-Zelandês, que só o tom de pele denuncia como tendo outras origens, não foi estabelecido um passado significativo para o personagem central para lá daquele episódio na Índia.
A partir daí era difícil que o filme se erguesse acima do resumo de uma história de vida certamente mais substancial e que aqui se vai resumir a "o que eu andei para cá chegar e agora o que eu vou andar para lá voltar".
O esquematismo narrativo mantém-se mas como a substância deixou se estar nas ocorrências que assolam Saroo para estar nos elementos dramáticos da sua vida, qualquer sombra de consistência se esboroa.
Na tentativa vã de construir um personagem adulto com quem se conectar o filme atira com elementos dramáticos ao público com uma brusquidão que se torna absurda.
Não há lógica na maneira como as revelações são feitas e o público é deixado a adivinhar o que se terá passado até que novo efeito surpresa surja.
Isso é péssimo quando o filme tem de estabelecer uma identidade familiar pela qual Saroo tenha sentimentos contraditórios que o façam hesitar no momento em que tem de optar entre a família que outrora perdeu e a que agora se arrisca a alienar.
Primeiro sabe-se que Saroo tem uma desavença com o seu irmão (igualmente Indiano e adoptado), depois que a mãe sofre de prolongada depressão por causa desse irmão muitas vezes desaparecido, até que por fim surge a informação de que são as drogas que minam a harmonia.
Esta linha dramática permanece no filme para que Nicole Kidman tenha direito a uma cena em que se mostra vulnerável e comovente mas pouco mais do que isso, para infortúnio de David Wenham e Divian Ladwa que poderiam ser substituídos por imagens de cartão de si próprios.
O foco deveria ir para a busca que Dev Patel faz pelo seu passado, acometido pela lembrança de um bolo frito que cobiçava em rapaz, e que encontra notáveis dificuldades nas poucas lembranças que ele tem e na imensidão de correspondências que com ela faz num país da dimensão da Índia.
Aqui se tem de retornar ao sentido que o guião deveria fazer e que, não acontecendo, corta os últimos fios que conectam espectador e filme.
O Saroo adulto parece não ter uma dose de lógica na sua abordagem à busca que tem de fazer. E isto apesar dos cálculos que executa e das linhas de mapa que traça.
Persistindo no seu isolamento emocional contra aqueles que o querem ajudar só se enrodilha na tarefa quase impossível.
Para, no instante em que ela se torna avassaladora, descobrir a resposta numa deambulação sem nexo pelos mapas da Google.
Admite-se que as coisas se passaram desta forma na história real, mas o filme faz com que pareça tudo um acto de providência. Um toque de magia quando tudo parece perdido.
Está assim validado os erros de comportamento de Saroo que atingiu o seu final feliz. Ainda para mais com a recompensa adicional do compromisso da personagem de Rooney Mara, a mesma que ele abandonou por estar obcecado com a sua busca.
Para fazer crer que Saroo estava destinado a ser bem sucedido o filme tinha de justificar esse mérito com algo mais do que o infortúnio de vinte anos antes.
Pela forma como Saroo desperdiça as excelentes oportunidades e o muito amor que recebe, ele deixa a sensação de merecer o preciso oposto.
Muitas sãos as opções erradas do argumento, que selecciona mal os elementos humanos essenciais à história e que tudo relata sem centelha de vida.
Garth Davis deveria ter sido capaz de fazer o resultado final superar esse problema de base, elevando o retrato que faz do seu protagonista.
Até terá almejado a tal mas a sua escolha visual de ter Dev Patel a olhar o horizonte e a ter visões do seu irmão há muito perdido é demasiado pobre, ainda que aconteça sob um excelente trabalho de fotografia de Greig Fraser.
O actor Inglês está comprometido com o papel, acredita nos feitos que o acaso colocou no percurso de vida do homem que emula.
Sem bases nas quais apoiar a qualidade e a intensidade que demonstra, o seu papel não ascende a um lugar de destaque que permita elogiá-lo com mais do que comedida sinceridade.
Não era uma "tarefa de leão" a equipa à sua volta fazer valer o drama natural do homem a quem dá corpo e comover quem visse o filme. Falhar em quase toda a linha é, por isso, uma sentença ainda mais grave.