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sexta-feira, 29 de julho de 2022

Casa Gucci, por Eduardo Antunes


Título original: House of Gucci (2021)
Realização: Ridley Scott

Existem diversas serializações biográficas dedicadas a grupos familiares afectados por excêntricas vicissitudes às quais, no seu formato alongado, lhes são permitidas um enfoque episódico em personagens, temas ou épocas distintas, cuja atenção dividida nos permite absorver a história mais eficazmente. Formato do qual me recordei aquando dos obrigatórios escritos finais informativos do destino das diversas personagens, relembrando a minha própria necessidade de gastar mais tempo em cada uma delas, em particular a que devia acarretar, juntamente com a personagem de Lady Gaga, o conflito central de toda a história.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Exodus: Deuses e Reis, por Carlos Antunes



Título original: Exodus: Gods and Kings
Realização: 

O material bíblico só pode continuar a servir ao cinema numa das suas duas vertentes mais radicais.
Como matéria de confronto da humanidade dos seus personagens  com a sua própria ilusão do divino. Ou como matéria de fantasia digna de um espectáculo sem limites.
Ridley Scott conta-se entre os realizadores indicados para ousar recuperar a opulência visual dos épicos bíblicos que até hoje não tiveram substitutos na memória cinéfila.
Assim o tenta recorrendo às melhores possibilidades que as imagens geradas por computador permitem, na expectativa de causar o mesmo espanto do cinema de há décadas.
As dúvidas sobre se tal assombro ainda é possível não ficarão dissipadas com Exodus: Gods and Kings.
É-nos permitido ver toda a técnica usada na concepção das cenas sem nos ser permitido apreciá-las pelo efeito gerado.
Cada uma de entre as cenas das sete pragas deixa-nos ver o quão perto estamos de alcançar um realismo que não enjeita o extraordinário.
Assemelham-se a amostras, pedaços de cenas que o realizador se escusou a levar mais longe, como se o espectáculo fosse uma obrigação a superar com rapidez.
A cena pela qual se vai ver o filme, da partição das águas do Mar Vermlho, é talvez a mais exemplar do indevido suporte dado ao trabalho visual.
O Mar Vermelho é, primeiro, uma muralha de água lá ao fundo - nunca o 3D nos colocou tão distantes do próprio filme! - para depois ser já uma onda que se desfaz deixando Moisés e Ramsés deitados na areia. Nunca tal cena foi tão anti-climática!
Em parte é pela personagem de Christian Bale que o filme se mostra tão telegráfico nas cenas que o deveriam marcar.
A composição de uma figura bélica e política ao serviço de um comandante que, por acaso é Deus, traz consigo algumas boas ideias da relação sofrida que Moisés teve a longo da sua missão, em colaboração e oposição simultâneas a Deus e à sua estratégia.
Boas ideias que não chegam a encorpar essa parte do filme, sujeita ainda a uma divisão do seu protagonismo com uma composição de Moisés à laia da reavaliação psiquiátrica dos textos: um homem guiado por alucinações de grandeza aceite pelos restantes devido à sua falta de esperança.
A verdadeira partição vista no filme é entre uma tentativa moderna de tratar o texto bíblico e a necessidade clássica de o ilustrar na sua grandeza.
A divisão reforça a noção de argumento desorientado, que desaproveita o impulso que algumas das suas cenas estão a ganhar para ir de encontro ao outro bloco de intenções incluído no resultado final.
O filme é mais do que desengonçado, é mesmo soporífero. Efeito que, aliás, parece ter tido sobre os próprios actores.
Verdade seja dita que a maioria deles está no elenco apenas para fazer figura de corpo presente; os melhores a receberem mesmo funções que, felizmente para eles e infelizmente para nós, conseguem fazer a dormir.
Até mesmo Joel Edgerton está por lá a fazer a figura de boneco de acção "bronco" mas cheio de poder.
E Bale limita-se a cerrar a face numa constante compunção que deve ser suficiente para expôr o (melo)drama deste Moisés para os tempos modernos.
Suficiente é, não pelo efeito que causa mas pelo que é o verdadeiro papel de Moisés. Ou melhor, pelo que não é.
Nem instrumento de Deus nem seu opositor - uma espécie de "grilo falante" de Deus para o qual uma cena ainda prepara o terreno.
A irrelevância no grande plano deste Êxodo é o que sobrou para Moisés, que deveria ser uma das personagens mais imponentes saidas do Antigo Testamento.
Apesar do avanço tecnológico ficamos cada vez mais longe de esquecer o encanto dos tempos em que um Charlton Heston era Moisés.




segunda-feira, 11 de junho de 2012

Prometheus, por Carlos Antunes


Título original: Prometheus
Realização: Ridley Scott

Certamente alguém anteriormente já o assinalou mas há algo de muito curioso sobre o facto do prólogo (ou seja lá o que for que Ridley Scott quer que seja chamado) de Alien tenha, na verdade, um parentesco mais directo com Blade Runner por perseguir a resposta à pergunta "O que significa ser humano?" por acréscimo à pergunta "O que significa ter sido criado?".
A resposta a essa segunda pergunta fomenta a partida desta expedição mas é através de David que estamos mais perto de uma resposta - e, estranhamente, de uma empatia humana.
Robô desenhado para conforto das interacções humanas, tem a frieza brilhante de HAL 9000 que parece ter sido dominada até ao servilismo (vê-lo-emos a lavar os pés ao criador antes que o filme acabe) por alguma forma das Três Leis da Robótica de Asimov. No entanto ele mostra-se capaz de superar, pela manipuladora perspicácia que tem, o seu condicionamento para responder a um desejo de liberdade que a sua extraordinária concepção - como a de HAL e dos Replicants - acaba por fazer nascer contra a limitação que os humanos julgam ver nele e assumem que ele deve sentir.
A cruel evidência que ele afirma através de uma pergunta, "Não é o desejo de todas as crianças verem o seu pai morto?", é tão despojada de emoção e tão carregada de crua racionalidade que é imediatamente rejeitada por Elizabeth.
Ela não consegue ver que a sua busca pela explicação última das suas origens e a de Weyland pela equiparação dos homens aos seus deuses é uma outra forma de matar os pais da Humanidade: quer os Engenheiros criadores quer os pensadores (Charles Darwin) que nos explicaram, despojando ambos de mistério e significado futuro.
Esta é a Grande Narrativa - nem que seja porque é perpétua e transversal às várias Eras da História - mas é secundária ao filme.
Esta está no argumento como disfarce de gala para a principal direcção da história. A profundidade do filme não é mais do que reflexo do desejo do público mais dedicado em completar os largos interstícios que ficam entre as três ou quatro citações-chave que o filme faz de ideias que deram melhores filmes.
A verdadeira direcção do filme aponta a um conjunto de sustos que se aproximam do filme de 1979, numa versão deslavada da tensão que este provocava - e continua a provocar.
Prometheus parece nada mais do que um descendente desse filme, incapaz de aceitar o espírito série B e envergonhado em assumir que será um blockbuster como qualquer outro por estes dias. Basta avaliar friamente o terço final para encontrar o enorme espalhafato onde o excesso de acção toma o lugar que deveria pertencer à lógica da aglutinação narrativa.
Tanto é um descendente que toma como referência comportamental o filme original, reduzindo o conjunto de personagens, constituída pela elite de cientistas terrestres, a fantoches de uma estupidez a toda a prova e que é imensamente útil para os colocar nas situações menos consistentes - com os breves traços de carácter que mostram e com os seus propósitos naquela missão - mas mais úteis aos vários acontecimentos que justificam que o filme se mova para diante.
A reverência à estrutura de Alien é tão evidente que será impossível não reconhecer as cenas de lá decalcadas ou não reconhecer em Elizabeth Shaw uma reprodução pálida de Ripley.
Sigourney Weaver, apesar de melhores papéis que desempenhou, viu Ripley tornar-se num ícone que não consegue sacudir da sua imagem. Por mais que Noomi Rapace se entregue ao (pouco) papel, a sua presença aqui será esquecida mesmo tendo tentado torná-la numa preponderante figura feminina do cinema para o século XXI.
O próprio argumento o reconhece quando obriga Shaw a transportar consigo o corpo e a cabeça (entretanto separados) de David quando parte em direcção a novas respostas (e à sequela...).
O problema é que este filme não apresentou nenhumas respostas às questões que levantou. Possivelmente a maior delas seja a da lógica do prólogo do filme no interior desta narrativa, visto que esse define, desde logo, todo o destino biológico do planeta para o qual os personagens foram à procura de justificação mas não tem nenhum reflexo o resto do tempo.
Esse é o reflexo de uma certa falta de interesse dos argumentistas em ir para além do lançamento, em pinceladas indefinidas, de temas que preenchessem a quota de ficção científica inteligente ou que fossem fracturantes para as relações entre criações e criadores. Esse "não interessa" foi a resposta exacta que elementos da produção do filme deram aos muitos fãs que perguntaram sobre o que disse David ao Engenheiro despertado do seu sono, numa das cenas que melhor definiria o papel - excelentemente interpretado por Fassbender - que David escolheu para si mesmo, ao sacrificar-se para se tornar na criança que vê, finalmente, o seu pai morrer.
Por entre estes escombros de uma história, Ridley Scott filmou algumas excelentes cenas que são motivo de elogio. Algumas construções são deliciosas e fazem valer o 3D - mesmo se dele não necessitassem e este perturbe algumas cenas mais convencionais ao longo do resto do filme. Por outro lado, o design das origens biológicas da criatura concebida por H.R. Giger parece pobre. Mesmo se, ao que parece, tenha o próprio Giger ajudado a conceber tais origens.
Tal como essa fraqueza do design biológico, outros elementos conceptuais sofrem de anacronismos ou parecem preparados para o seu efeito visual e despojados de utilidade.
As sequências holográficas, úteis para evitar flashbacks mais convencionais, dão bons efeitos para justificar o uso do 3D, mas parecem ser ilogicamente selectivas no que revelam. O controlo das naves dos Engenheiros permite a combinação de luz e sons, mas a necessidade de uma flauta para iniciar os controlos é precária.
Ao filme falta coerência conceptual e inovação visual. Talvez o facto mais estranho para um cineasta que, antes, soube escolher as pessoas certas para com ele conceber o futuro.
Ridley Scott parece ter escolhido uma forma para o argumento que o tornaria em material grandiloquente que validasse o seu estatuto de visionário da ficção científica. Esqueceu-se de quão simples eram as histórias em torno das quais assentou o futuro e como era a inovadora estruturação visual que definia as grandes questões que estes levantavam.
Afinal, Alien é um excelente filme de terror e uma das versões de Blade Runner é um excelente noir. Serem, ao mesmo tempo, filmes de ficção científica enriqueceu-os muito, mas não os definiu por completo.
Numa entrevista à Empire, Ridley Scott disse que a ficção científica actual era "quase só fogo de vista". Infelizmente também este seu regresso ao género acaba por merecer estar englobado nessa afirmação, quer ideologica quer visualmente.
Agora só resta uma opção possível, temer o pior do que ele venha a fazer com o novo projecto ligado a Blade Runner.



quarta-feira, 6 de junho de 2012

Prometheus, por Tiago Ramos



Título original: Prometheus (2012)
Realização: Ridley Scott
Argumento: Jon Spaihts, Damon Lindelof

Em 1987, Paul Gauguin pintou um dos seus mais famosos quadros onde inscreveu em letras capitais e sem ponto de interrogação "D'où Venons Nous / Que Sommes Nous / Où Allons Nous". O pintor francês imortalizou assim as três questões que mais perseguem a Humanidade desde sempre e que foram e são repetidas vezes colocadas: De onde viemos? Quem somos? Para onde vamos?. Questões que poderão ou não ter resposta, mas que bem ilustram a busca do ser humano pelo sentido da própria vida. Ridley Scott parte desse mesmo tema e dessa busca inesgotável pelo conhecimento para criar em Prometheus um interessante mote e que vai bem mais além do mero filme de acção e ficção-científica. Ansiado na expectativa de uma prequela de Alien (1979) - que o próprio cineasta já negou - a verdade é que é inevitável não o vermos com um olhar comparativo, mas que a mim me parece injusto, já que embora pisque o olho aos fãs da saga, não fornece tantas respostas como o que alguns desses fãs poderiam esperar. Olhá-lo como uma prequela ou não de Alien é uma questão subjectiva e que cabe a cada um dos espectadores avaliar, contudo caso se opte pela comparação, não se deve negar Prometheus como um bom filme de ficção-científica, auto-suficiente e que sobrevive bem além das comparações.

Seguindo a linha comum dos filmes do género, a verdade é que Ridley Scott mantém-se como um mestre do género, mas alicerça-se bem no argumento de Jon Spaihts e Damon Lindelof (este último, argumentista de LOST) e que, para o bem e para o mal, respira os seus temas mais comuns. Bem equilibrado entre Religião, Mitologia e Ciência, a sua estrutura vai além dos arquétipos do género, construindo um argumento estruturado em dois interessante actos que permitem um reconhecimento adequado das personagens, bem como do contexto espaço-temporal, para partir para um segundo acto mais intenso e cheio de ritmo e acção. Não quer isto dizer que com tantas e interessantes ideias do ponto de vista biológico, teológico e filosófico que o filme não acabe por se perder dentro de tamanha ambição. Já que é algo habitual, especialmente para quem conhece o trabalho de Damon Lindelof, sendo que este Prometheus acaba por levantar ainda mais questões que respostas e gera alguns buracos narrativos que seriam interessantes de resolver. Não são porém essas falhas que tiram o mérito ao filme, que se revela um dos mais interessantes e fascinantes filmes de ficção-científica dos últimos anos. 

O argumento é bem carregado pelo elenco de actores, de onde se destaca uma incrível Noomi Rapace que assegura o seu lugar junto ao panteão de mulheres destemidas do género, ao lado de Sigourney Weaver, como Ripley na saga Alien. Não ignorando também o maravilhoso trabalho de Michael Fassbender como uma composição inteligentemente bem concebida de um andróide e o de Charlize Theron, a merecer também lugar de destaque pela sua prestação forte e gélida.

Se essa narrativa tinha potencial para algo mais, não há como negar o portento técnico e visual criado para Prometheus. Estamos perante um universo rico e detalhado, com efeitos especiais invejáveis a qualquer produção do género dos últimos anos, num trabalho impressionante a nível de efeitos visuais (WETA digital), fotografia (Dariusz Wolski) e design de produção (Arthur Max). São estes aspectos técnicos que permitem ao filme, mesmo quando o argumento não atinge o nível de tensão correcto (pessoalmente, gostaria de ter sentido uma componente de mais terror e claustrofóbica), ganhar pontos num bom equilíbrio a nível sonoro com os sons ambiente, bem como num constante jogo de luz e sombra. Não descartemos igualmente a boa banda sonora de Marc Streitenfeld. O 3D é também ele a prova que a utilização desta técnica não necessita se basear nos conceitos comuns de imagem pop-up, conseguindo ser utilizado de uma forma equilibrada e não fatigante, bastante subtil, mas rico na construção da profundidade de campo.

Prometheus pode não ser o melhor filme de ficção-científica de sempre, mas é com certeza a prova que Ridley Scott é um mestre do género, sendo capaz de ser inteligente e garantir entretenimento, simultaneamente. Não há dúvidas porém que é capaz de se manter seguro ao lado de outros bons filmes do género, entre eles o Alien.


Classificação:

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Robin Hood, por Carlos Antunes

Título original: Robin Hood
Realização: Ridley Scott
Argumento:
Brian Helgeland
Elenco: Russell Crowe, Cate Blanchett e Max von Sydow

O Cinema já não tem lugar para heróis divertidos, rectos e inconsequente.
Hoje em dia todas as suas personagens devem provir de um complexo negrume que as psicanalise.
Mais do que isso, não podem ter a sua dimensão local e pessoal, têm de carregar consigo os destinos de milhares de outros.


Não que não fosse uma ideia capaz a de unir a história particular com a global conspiração do romance histórico, se a sua interligação resultasse.
Não resulta, com ambas as histórias a avançarem de supetão, prejudicadas cada uma pelo que fica por dizer na outra.
A história maior vive de uma personagem que a história particular não criou.


Este é, portanto, um Robin Hood nascido num tempo pós-Braveheart, não só ao nível narrativo, mas igualmente ao nível cénico.
As grandes batalhas sujeitas a uma sugestão de significância e ousadia a um nível de invenção que acaba por parecer deslocado no cômpito geral.
São, no entanto, cenas mortiças à conta do estilo de Ridley Scott, capaz de sugerir o épico a partir do espaço exíguo da acção do indivíduo mas igualmente capaz de sufocar as cenas que já de si envolvem uma aparato grandioso.


As actuações são dignas, com Russell Crowe na sua pose habitual de último reduto da masculinidade, Cate Blanchett com classe a interpretar uma envelhecida e arisca Marion e Max von Sydow um senhor intemporal como só ele sabe ser em qualquer filme.
Mas o que mais se recorda são os breves momentos de grupo carregados de humor onde a dinâmica com os merrie man funciona e recorda os filmes que outros fizeram com esta personagem.
Filmes onde o divertimento era regra e não excepção, onde o herói era aquilo que dele se espera e não a sua análise clínica.
O Cinema recordará melhor essas outras encarnações do mito, sem necessidade de mostrar as suas fundações.



quinta-feira, 13 de maio de 2010

Robin Hood, por Tiago Ramos



Título original: Robin Hood (2010)
Realização: Ridley Scott
Argumento: Brian Helgeland

Não deixa de ser um sintoma do Cinema contemporâneo, mas a par dos últimos anos, também este ano, a abertura do mais importante festival de cinema do mundo - falamos do Festival de Cannes - sucumbe ao poder comercial, dos grandes estúdios. Não deixa de ser ainda mais irónico quando é escolhido um filme que coloca os franceses do lado dos vilões, mas adiante. Ridley Scott é um nome sonante do cinema contemporâneo e a parada de estrelas que potencialmente levaria a Cannes foram mais suficientes para que Robin Hood fosse o escolhido para abrir a competição.



Na verdade aquilo que Ridley Scott nos traz, apesar da ideia interessante, não é mais que um épico frouxo e morno, vítima de uma certa falta de ambição em tornar o projecto potencialmente mais aliciante. Robin Hood poderia ser a prequela bem sucedida de um dos mitos mais conhecidos de sempre. Este Robin dos Bosques, este guerreiro encapuçado que conhecemos, não é ainda o herói dos mais desfavorecidos, que rouba aos ricos para dar aos pobres. Não é ainda o mito que o tornou popular. É apenas um guerreiro, regressado das Cruzadas, ansioso por descobrir as suas origens e com alguns dos tiques de justiceiro.

E é precisamente aí que o filme peca. Ridley Scott abandona as ideias em focar o filme em Nottingham e no domínio do seu xerife e volta as suas atenções para o óbvio: a origem de Robin Hood. Por consequência temos um argumento desinteressante em grande parte do tempo e descurando as personagens secundárias, como Ricardo Coração de Leão e outras. Russel Crowe não tem o carisma necessário para interpretar tal personagem, actua em piloto automático grande parte do tempo e nem a forma física abona a seu favor. Por outro lado, temos uma Cate Blanchett a interpretar uma das personagens mais interessantes e melhor compostas do filme: Lady Marion. A que conhecemos aqui é uma mulher corajosa, feminista, autónoma e independente. É ela que segura grande parte do filme e é precisamente quando se foca nesta personagem que o épico atinge novos contornos. Max von Sydow e Mark Strong complementam o elenco com os seus desempenhos competentes.



Porém, a nível técnico, Robin Hood cumpre a sua função. A reconstituição histórica, desde o guarda-roupa, aos cenários, ao som e à fotografia, atinge um grande nível de competência que lhe poderá garantir algumas nomeações (quem sabe prémios), na próxima temporada. Porém, como ponto negativo existem algumas soluções questionáveis como a contextualização história inicial, altamente cliché, evocando a época medieval, bem como o uso dos close-ups e slow-motions.

Robin Hood apenas não é a desgraça que poderíamos pensar, porque cumpre a sua função de blockbuster de entretenimento e que certamente irá agradar às massas. Mas da ideia e de Ridley Scott esperava-se mais. Muito mais.



Classificação:

domingo, 19 de julho de 2009

O Corpo da Mentira, por Carlos Antunes

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Título original: Body of Lies
Realização: Ridley Scott
Argumento: William Monahan
Elenco: Leonardo DiCaprio, Russell Crowe, Mark Strong e Golshifteh Farahani

O Corpo da Mentira é a versão moderna e agregada à realidade dos filmes de espionagem, tentando com isso um retrato pertinente do estado moderno do mundo e das diversas relações que se estabelecem entre aqueles que têm de lidar com a informação mais relevante e secreta.

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Mas ainda que o filme esteja repleto de momentos interessantes, de cenas que assumem toda a credibilidade do que poderá estar a passar-se no mundo sem que realmente o saibamos, a sua busca por relevância crítica enfraquece-o.
E enfraquece-o porque parece enredá-lo numa teia que quanto mais enredada se torna, mais frágil parece.

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O que na prática acontece é o esbatimento da realidade na construção de uma estrutura demasiado arrojada, que poderia ainda mostrar um certo realismo não fosse a implausibilidade da forma como foi construída, uma sequência episódica a tentar passar por uma densa narrativa.
O realismo perde-se num certo exagero de justaposição - e por vezes de sobreposição.

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Voltando a essa busca de relevância - que é, no essencial, uma das mais definidoras questões deste filme - perceberemos que ela custa, também, ao filme, o seu ritmo.
Apesar deste parecer muitas vezes disposto a arrancar para um ritmo mais intenso, mais chegado ao blockbuster de acção mal assumido que é, mas para não ceder nas suas pretensões fecha-se numa constante acumulação de diálogos - muitas vezes ao telemóvel para sintetizar a globalidade das acções que representa - que parecem desconfortáveis para o realizador.

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Está de longe ser um filme desperdiçado, até porque a interpretação segura de DiCaprio e a magnífica subtileza de Mark Strong dão um outro valor às suas personagens e respectivas acções.
Mas no final de contas, é um filme mais convencional do que pretende mostrar e cuja seriedade lhe assenta mal na forma como é tão sofregamente procurada.


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Extras

Comentário de Ridley Scott, William Monahan e David Ignatius - Comentário focado na concepção de cenas, na realidade de cada uma, na justificação dos cenários escolhidos, nas fontes que levaram à sua elaboração, entre outros pormenores do género.
A sua geral falta de interesse é equiparável à forma vazia de emoção com que é feito.

Acção classificada: Examinando o Corpo da Mentira - Três mini-documentários que falam do trabalho de realização de cenas, da escolha dos locais para filmar e da fonte de informação com que David Ignatius escreveu o seu livro.
Pouco mais são do que uma outra forma do comentário áudio feito anteriormente.


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