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quinta-feira, 3 de abril de 2014

Páginas vs. Fotogramas: Divergente


Divergente sofre de um problema de base. Literalmente, um problema de base, já que a história que nos é fornecida sobre a formação da sociedade e das suas facções é incoerente. O que é uma pena porque, ultrapassada a má base e os problemas de fluidez de escrita, a história em si até nem é má.

Comecemos pelo princípio. Ou seja, pelo livro em si. Divergente surpreendeu tudo e todos ao conquistar em 2012 o título de livro do ano no site Goodreads, embora este facto tivesse ocorrido antes de se dividirem os livros young adult (YA) dos restantes.

Li Divergente na sua versão original, uma vez que no início de 2013 o livro ainda não tinha sido publicado por terras lusas (entretanto a Porto Editora editou-o, bem como aos dois livros seguintes da trilogia, Insurgente e Convergente). E, tendo este livro sido um sucesso um pouco pelo facto de vir na sequência d'Os Jogos da Fome, também esta uma distopia YA, é impossível não comparar ambos os trabalhos, por muito injusto que isso possa parecer.

Enquanto que em Os Jogos da Fome a autora não se alonga particularmente sobre a história daquele mundo distópico, Divergente vai exactamente por esse caminho. Contudo, o problema está exactamente aí: aquilo que poderia ser entendido como se quisesse - a divisão de uma sociedade em facções incubidas de determinado comportamento e função na sociedade - é rapidamente posto em causa pela ausência de lógica da explicação fornecida. E, ao assistir ao filme, essa ausência de lógica tornou-se ainda mais notória quando é apressada nuns meros 2 ou 3 minutos de fita.

Por outro lado, temos também o facto desta trilogia ser o primeiro trabalho da autora. Isso nota-se, até demais. Não só na qualidade da escrita em si, como na tentativa forçada de contrariar aquilo que é esperado num livro (a protecção de certas personagens, por exemplo). A tentativa de fugir à típica narrativa é tão pronunciada que se torna expectável a direcção que vai tomar.

Contudo, e assinalados os pontos negativos desta história, há que assinalar os positivos. O primeiro é que, dado o facto de ter uma premissa de base tão má, era expectável que tudo o que vinha depois seria igualmente mau. Não é, na verdade consegue ter uma história relativamente interessante, que foi bem transladada para filme. O desenvolvimento da personagem principal, Tris (Shailene Woodley) dentro da facção por ela escolhida consegue ser o ponto mais interessante das cerca de duas horas de filme. Por outro lado, depois de tantos filmes YA com protagonistas masculinos questionáveis, encontro finalmente em Four (Theo James) um actor competente no papel que lhe foi atribuído.

Na adaptação foram perdidos alguns momentos-chave, talvez pela violência dos mesmos e o facto do filme ter sido gravado com o objectivo de obter uma classificação PG-13. Contudo, a natureza relativamente violenta da história era uma das coisas que dava interesse ao livro (lá está, a eterna procura por parte da autora em quebrar os estereótipos). Divergente tornou-se mais um filme de adolescentes quando podia ter arriscado, mas compreende-se que a faixa etária tenha de ser tida em conta.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Páginas vs. Fotogramas - "O Amor é o Melhor Remédio" de Jamie Reidy

Título Original: Hard Sell: The Evolution of a Viagra Salesman
Autor: Jamie Reidy
Editora: Editorial Presença
Páginas: 272

Julgo que o título original do livro não deixará dúvidas sobre a diferença de direcção que o filme levou.
É surpreendente que alguém tenha achado uma comédia romântica num livro assim violentamente irónico, mordaz e, acima de tudo, auto-depreciativo.
Mas acaba por ser uma surpresa agradável, pois gerou uma comédia adulta, capaz de abordar a sexualidade sem um tom condescendente ou palerma.
Ainda assim, aquela redenção sentimental e aquele final moralista são um pouco demais no filme que é e são a diferença maior para o livro, todo ele revelações da parte mais obscura da vida do autor.

O livro revela que o mundo da farmacêutica é tão sórdido como qualquer outro. Digno de um filme, de facto, mas indigno de uma consciência pacificada.
Revela como se vende a medicina nos EUA e o grau de imaginação que é necessária para se ir conquistando um mercado sobressaturado e tão ferozmente competitivo como o da alta finança.
Um mercado de vários milhões que, por tudo isto, leva a que exista muita vontade e outras tantas hipóteses de desonestidades e exageros.
O livro é uma revelação sobre os patamares mais mundanos da medicina dos grandes laboratórios.
Consegue ser cómico pela forma descomplexada como
Jamie Reidy revela tudo e não se esquiva a castigar-se a si próprio deixando a nú o seu papel no meio de tudo isso.
Porque ele não tem orgulho no que fez, mas também não tem vergonha. Ganhou apenas um sentido crítico para o que foi a sua vida que lhe serve de experiência e de tema para escrever um livro muito interessante.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Páginas vs. Fotogramas - "O Diabo veste Prada" de Lauren Weisberger

Título Original: The Devil Wears Prada
Autor: Lauren Weisberger
Editora: Editorial Presença
Páginas: 368

O Diabo veste Prada é um livro que envolverá mais significativamente quem se interessa pelo mundo da Moda dado que explora parte dos seus meandros de forma fofoqueira.
Mas, apesar disso, trata-se de um diário de crescimento e aprendizagem pessoal relatado por uma mulher a tentar conquistar o sucesso num trabalho de que não gosta e de que nunca desejou enquanto lida com uma vida
Não é auto-ajuda, mas está cheio de lições de vida dirigidas, sobretudo, a mulheres sujeitas a dificuldades de conciliação entre o trabalho e a relação, para ser directo.

O filme seria pouco mais interessante do que isso não fosse por um factor aparentemenre secundário, Meryl Streep.
Ela, senhora actriz, continua a ser o chamariz para muitos filmes que, de outra forma, não teriam mais do que uma nota de rodapé.
A sua composição não tem um grão de humor, é altiva, mas gera um desajustamento em torno de si, em torno da sua eficácia, que é a origem do melhor do filme e da maioria do seu humor.

Um caso em que vale mais ver o filme - se houver um desejo declarado de o fazer - do que ler o livro. Sobretudo se para o possível leitor, dizer Prada é o mesmo que nada.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Páginas vs. Fotogramas - "Relatório Minoritário" de Philip K. Dick

Título Original: The Minority Report (conto)
Autora: Philip K. Dick
Editora: Editorial Presença
Páginas: 86


O livro - do qual julgo todos terão, pelo menos, uma ideia do que trata - explora diversos temas com enorme intensidade, concentrando-os numa narrativa breve mas densa no que toca às direcções apontadas.
Desde logo, o paradoxo criado pelo conhecimento humano que influencia a actuação de forma a impedir que qualquer predição do que será o futuro possa ser tomada como correcta.
Neste caso, acrescenta-se a isso a possibilidade de criação de universos (ou, pelo menos, linhas temporais) alternativos por assunção de um pressuposto teórico como verdadeiro.
Trata-se de uma metáfora evidente da evolução do conhecimento através do método de tentativa e erro, sublinhando a possibilidade perturbadora para a existência de persistir num erro permanente.
No final do livro sobra ainda espaço para um sacrifício idealista mas, fundamentalmente, pessimista. Que as pessoas acreditem de tal forma no benefício de um sistema que se sacrifiquem para que ele sobreviva é uma forma de distopia que parece, pela história do século XX, mais familiar do que inventada.


Foi o próprio Spielberg a dizer em Chambre 666 que é o último dos optimistas. Daí que a sua versão de Minority Report tenha acabado por ser sobre a liberdade individual contra a grande máquina opressora que controla o ser humano através de pré-determinação.
A derrota da submissão acrítica acontece tanto para quem faz parte do sistema, para quem lhe é subserviente e para quem é explorado por este.
O valor humano individual sobrepõe-se a qualquer outra visão do mundo.
O filme é, por esta diferença, já uma obra de identidade própria. Ainda mais porque se faz de um saudável entretenimento que combina alguma da mais original e enérgica concepção de acção que ainda podemos ver no cinema.
Aliás, foi este um dos filmes que ajudou a marcar um dos melhores períodos de Tom Cruise em Hollywood, com filmes mais exigentes e maduros, mas que aqui conseguiu combinar esse crescimento com o seu género favorito – ou, no mínimo, mais recorrente.

Fica de fora a comparação directa com o livro (mais precisamente, com o conto).
São, de facto, duas obras distintas a merecer igual dose de atenção.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Páginas vs. Fotogramas - "O Exorcista" de William Peter Blatty

Título Original: The Exorcist
Autora: William Peter Blatty
Editora: Gailivro
Páginas: 344

O filme de William Friedkin definiu um género e, à conta disso, nunca poderá ser ignorado entre a componente popular da cultura cinematográfica.
No entanto, tantos anos depois da sua estreia, o filme não tem efeito nenhum senão o de aborrecer.
Digo isto sem desconsideração pelos efeitos ou pelas ideias que possam agora parecer datados.
Digo-o porque o filme tem muitos defeitos, o maior deles a sua má escrita, incapaz de dar substância que resista à exploração gráfica.
Outro é a canastrice generalizada das interpretações - acima de todas as outras a de Jason Miller - e a que só Max von Sydow escapa com alguma dignidade intacta.
Canastrice que é inescapável à pouca espessura dada a qualquer das personagens, estereótipos funcionais a um filme de terror que ainda guarda bons truques mas que se arrasta por demasiado tempo sem ritmo nem resultados eficazes quer em arrepios ou memórias duradouras.


O livro é melhor por comparação directa. Ainda que o filme tenha todos os actos essenciais do livro, não consegue compreender a essência por detrás de cada um que apenas a escrita consegue explanar com a devida calma.
O livro versa mais sobre a dúvida e propõe-se a expôr grandes quantidades de informação (de forma dissimulada, felizmente) que o filme foi obrigado a - ou simplesmente preferiu - reduzir a cenas exploratórias do lado mais gráfico do texto.
Mas a grande diferença, para mim, está no pequeno prólogo que ambos os meios têm antes da história central.
O prólogo do livro dá o mote e cria o ambiente para o que se vai passar. Já o do filme tem uma grandiloquência que o parece separar de tudo o resto e que baralha a expectativa do que será apenas um virulento filme de terror.
A diferença é entre um prólogo acertado e um outro cabotino. E isto apesar de ser precisamente a mesma cena em ambos.


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Páginas vs. Fotogramas - "Homens que Matam Cabras Só com o Olhar", de Jon Ronson

Título Original: The Men Who Stare at Goats
Autora: Jon Ronson
Editora: Civilização Editora
Páginas: 232
Tipo: Capa Mole

Homens que Matam Cabras Só com o Olhar não é um romance, nem é um livro de ficção. Esta é uma obra característica do jornalismo gonzo cujo foco são as acções do jornalista e narrador enquanto procede aos vários passos para conseguir a sua reportagem sobre as técnicas não-convencionais usadas pelos serviços secretos e pelo exército americano, desde a Guerra do Vietname até aos dias de hoje. Tal como todas as obras deste género, é uma narrativa carregada de subjectividade, exagero e sarcasmo, que a coloca nos antípodas do jornalismo sério e imparcial. Contudo, poder-se-ia argumentar que, de facto, esta não é uma peça jornalística, mas sim uma narrativa cujo objectivo era chegar ao leitor no formato de um livro e que por isso requeria um tom mais ligeiro e próximo do leitor.

Outra questão que deve ser ponderada é que, dado o tema abordado no livro, não existe uma forma certa de o fazer. Na verdade, qual será a melhor forma de falar de sargentos que estavam convencidos que se a sua mente estivesse no estado certo, conseguiriam atravessar a parede do seu escritório? Ou de comandantes que passavam horas a fixar cabras tentando matá-las apenas com o olhar? Não existe uma maneira certa de abordar estes temas sem parecer um crente ou alguém que despreza tudo o que ouviu da boca das pessoas que entrevistou. Também é difícil fazê-lo sem que o livro pareça uma amálgama de conspirações contra as agências secretas e o exército norte-americano. Afinal de contas, a internet encontra-se repleta de teorias da conspiração, ninguém precisaria de comprar um livro para ler mais algumas. É nesse campo que Jon Ronson consegue o melhor do seu livro: a contextualização dos factos, embora por vezes um pouco confusa dada a quantidade de nomes referidos ao longo do livro, é certeira e o jornalista britânico conseguiu sempre, através de um ou outro envolvido nos acontecimentos descritos, chegar ao interveniente seguinte.

Homens que Matam Cabras Só com o Olhar não é uma peça jornalística exímia, mas é um estudo interessante da desmoralização do exército norte-americano após a guerra do Vietname e da resposta de alguns baseando-se nos ideais da New Age. É também curioso como antes e após essa era os serviços secretos pareciam estar dispostos a ter vantagem sobre os seus inimigos através de seres humanos com capacidades especiais e de métodos capazes de interferir com a consciência alheia.

sábado, 23 de outubro de 2010

Páginas vs. Fotogramas - "Por Favor, Não Matem a Cotovia", de Harper Lee

Título Original: To Kill a Mockingbird
Autora: Harper Lee
Editora: Difel
Páginas: 400
Tipo: Capa Mole

Por Favor, Não Matem a Cotovia é possivelmente um dos retratos mais exactos da sociedade americana sulista no período da Grande Depressão. A característica mais marcada neste livro é o facto de ser contado na primeira pessoa por uma criança, que permite que sejam feitas todas as observações que um adulto não poderia fazer. Esse ponto joga tanto a favor como contra o livro: na época a sociedade começava reticentemente a aceitar os negros como parte da sociedade e não apenas como escravos incapazes de serem literados e cultos, factor que se reflecte nos raciocínios de Scout Finch, a narradora de seis anos. Assim, muitos comentários e reflexões que seriam naturais numa criança daquela idade inserida numa sociedade isolada estão muito presentes no livro, dando aos que menos compreendem o livro a sensação de que é o livro mais racista que já leram.

Na verdade, o livro é simplesmente realista. Embora Harper Lee o tenha escrito com cerca de 40 anos (em 1960), a verdade é que atravessou os anos da Depressão com uma idade semelhante à de Scout e embora pudesse ter evitado alguns comentários por parte da personagem principal para tentar não ofender ninguém, se o tivesse feito o livro não seria a obra-prima que é. O livro vinga no meio de tantos outros exactamente pela acutilante precisão dos comentários de uma criança que, embora criada numa sociedade gerida por homens caucasianos racistas e de baixo nível cultural, tem em casa um exemplo de sobriedade moral: o seu pai Atticus Finch, advogado incumbido de defender um negro acusado de violar uma jovem branca.

As passagens mais interessantes da obra são as que nascem do conflito entre aquilo em que Scout foi levada a acreditar que eram verdades inquestionáveis e absolutas da sociedade e o raciocínio lógico derivado daquilo que observa no seu dia a dia. Contudo, e dado que a narrativa decorre ao longo de alguns anos, é também curiosa a evolução das personagens (em especial Scout e o seu irmão mais velho Jem) no sentido do crescimento intelectual e compreensão do funcionamento da sociedade, bem como a resposta da sociedade ao caso defendido por Atticus.

Por Favor, Não Matem a Cotovia é uma obra literária incontornável e de leitura obrigatória e, dado que este ano se comemoram os 50 anos da publicação desta obra, nenhuma altura é melhor do que o agora para o fazer.

Harper Lee ganhou um prémio Pulitzer por Por Favor, Não Matem a Cotovia e recentemente alguns dos mais importantes livreiros norte-americanos elegeram-no como o melhor romance do século XX. O filme com nome homónimo em inglês e que em Portugal teve a designação Na Sombra e no Silêncio encontra-se na posição #57 no Top250 do iMDB.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Harry Potter: dos livros ao grande ecrã


Harry Potter chegou ao mundo em 1997 e a Portugal em fins de 1999 pelas mãos da Editorial Presença, inserido numa colecção na altura recente e com pouca visibilidade. Contudo, a verdade é que chegado o ano 2000 o início da saga já se tinha tornado um exemplo crónico de popularidade, e assim continua até aos dias de hoje.

Anunciado como literatura infanto-juvenil, os livros são, na realidade, bastante mais obscuros do que deveriam ser para estarem assim catalogados. Aliás, a tendência para "piorar" neste sentido é crescente ao longo dos livros. Enquanto que nas pessoas da minha geração que apanharam o primeiro livro no início da adolescência e acabaram a ler o último já na faculdade essa obscuridade crescente tornou os livros interessantes, para os que estão agora a chegar à fase de começar a ler os livros e o vão fazer em muito menos tempo, talvez essa tendência não seja positiva.

Contudo, há que ressalvar que sou apologista da saga (aliás, o último livro acabei por lê-lo no verão na versão original para não ter de esperar 3 ou 4 meses, altura em que já teriam recomeçado as aulas na faculdade) e há também que dar os créditos a J. K. Rowling por ter levado muita criança e adulto a ler livros relativamente grandes. É, de facto, o único caso em que me lembro de existirem duas capas diferentes para cada livro, uma para adultos e uma para crianças. Também a destacar, desta vez pelo lado negativo, é o mau trabalho efectuado pelos tradutores portugueses. No decurso de uma saga editada ao longo de alguns anos, é natural que exista mais do que um tradutor. Contudo, sendo este um mundo totalmente à parte de tudo o resto, convém que haja um cuidado extra na tradução em manter os nomes de locais e pessoas exactamente como foram referenciados pela primeira vez de modo a haver uma sensação de continuidade, coisa que por diversas vezes não aconteceu ao longo dos sete livros (com especial ênfase no sexto livro, onde diversos nomes foram alterados de forma gritante, a ponto de não se reconhecerem os locais mencionados).


Quanto ao ambiente envolvente de Harry Potter, J. K. Rowling construiu um mundo de fantasia sólido, com alicerces suficientemente bem construídos para suportar os sete (mais dois) livros sem grandes falhas que pudessem ser apontadas. Na verdade, é possivelmente dos mundos mais bem construídos da literatura recente, havendo bastante cuidado a nível de pormenores. Teremos um épico ao nível de J. R. R. Tolkien? Certamente que não, mas a verdade é que dificilmente algum dia teremos.

Assim sendo, o salto para o grande ecrã era apenas uma questão de tempo, e o primeiro realizou-se logo em 2001 com a estreia da adaptação do primeiro livro, "Harry Potter e a Pedra Filosofal" pelas mãos de Chris Columbus. Como todas as adaptações, muitos pormenores ficaram por referir e alguma estória foi alterada, mas apesar de tudo foi um filme mediano (mesmo da perspectiva de adolescente, a minha na época em que o vi pela primeira vez). Chris Columbus trouxe também o segundo capítulo da saga apenas um ano depois, algo que se traduziu num registo um pouco apressado e que fez de "Harry Potter e a Câmara dos Segredos" um filme assustador com pouca estória. Contudo, ambos os filmes trouxeram a fase de maior inocência da saga, bem como a de introdução a todo um mundo de fantasia. Nos restantes filmes, o envelhecimento dos actores relativamente à idade dos personagens não foi positivo, notando-se por vezes uma grande disparidade.


Na terceira parte da saga Harry Potter nos cinemas, temos provavelmente uma das melhores realizações. Desta feita, "Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban" trouxe-nos, pela primeira vez, o lado negro e perigoso do mundo criado por J. K. Rowling. Não é portanto de admirar que a escritora tenha ficado extremamente satisfeita com trabalho do realizador Alfonso Cuarón, e muitos leitores desiludidos. Foi este o filme de quebra com o lado infantil da saga, preparando os espectadores para o que ainda estava para vir.

Mike Newell teve o trabalho mais facilitado com "Harry Potter e o Cálice de Fogo", uma vez que o deslumbramento com a introdução de novas personagens e novos seres é um bom aliado das boas classificações. Contudo, o choque da parte final do filme também ajudou, mantendo a linha de trabalho iniciada no capítulo anterior. O facto de ser um dos livros preferidos do público em geral gerou também alguma expectativa extra com que Newell soube jogar, dando aos espectadores aquilo que mais desejavam ver.


Ainda assim, foi apenas em 2007 que a saga conheceu o seu realizador mais fixo. David Yates continuou o trabalho dos restantes ao trazer-nos "Harry Potter e a Ordem da Fénix" e até hoje, fase final do projecto, é ele que se mantém na realização dos filmes da saga. No seu primeiro trabalho, Yates soube manter-se fiel ao espírito dos livros, mas teve momentos pouco coerentes e confusos na realização, perdendo-se por vezes em pormenores insignificantes. Já em "Harry Potter e o Príncipe Misterioso", a realização tomou um rumo mais coerente. Pode-se dizer que, finalmente, J. K. Rowling encontrara o realizador de Harry Potter, um realizador que sabia misturar o mundo de fantasia de Harry Potter com o terror da possibilidade do regresso de Voldemort e balanceá-los de modo a criar um filme negro no mundo do fantástico.

Não se poderá dizer que estarei ansiosamente à espera que o próximo filme vá para os cinemas, contudo não afasto a curiosidade de quem cresceu a ler os livros. O trailer de "Harry Potter e os Talismãs da Morte" promete muito mais de David Yates, desta vez livre do mundo de Hogwarts e da obrigatoriedade de permanecer nos mesmos locais. Esperemos que o último capítulo da saga, dividido em duas partes, possa fechar bem estas adaptações ao cinema.


quinta-feira, 30 de julho de 2009

Páginas vs. Fotogramas - Twilight, de Stephenie Meyer



Stephenie Meyer está para os vampiros como Nicholas Sparks está para os grandes romances: atropelam-se e nenhum chega lá.

Dito isto, passemos então à crítica em si. Comecei por ler os livros desta saga e só de ver o trailer, percebi o que me esperava no filme: uma tentativa de colocar em cena os diálogos e monólogos mais "marcantes" do livro e atropelar o resto da estória.

O livro, apesar de ter uma escrita claramente para adolescentes e uma persistência irritante em reafirmar como Edward Cullen incapacitava Bella Swan, conseguia desenvolver as personagens e dar-lhes um passado mais ou menos desvendado que permitia compreendê-las. Havia alguma profundidade nelas que se traduzia nas suas acções.

Para quem não conhece a estória a partir do livro, Twilight será certamente um filme confuso. Tudo o que dava sentido às acções e reacções é colocado de lado em prol do romance e das cenas bonitas do filme. Conhecendo os restantes livros da saga, pergunto-me como se irão desenvecilhar nos próximos filmes quando necessitarem de explicações que deviam ter sido dadas anteriormente.


A escolha dos actores também me deixou um pouco em dúvida. Certamente ninguém esperaria que a intérprete de Bella tivesse de ter grande expressão facial, já que uma das suas características era exactamente a falta de reacção à maioria das situações. Mas quando se chega ao ponto de Kristen Stewart ser tão má actriz que me fez soltar uma gargalhada no que devia ser um dos momentos mais tensos do filme, então se calhar já haverá algum problema. O mesmo se passa com Robert Pattinson, intérprete de Edward, pois durante algum tempo estive indecisa entre a possibilidade de ele estar a ter um aneurisma ou estar a tentar representar a angústia que era tão bem retratada no livro. Em termos de características físicas tive pena que a intérprete de Alice, Ashley Greene, não fosse a minorca saltitante tão marcante na estória original.


Em termos mais técnicos, o filme de Twilight teve algumas falhas. A realização estava bastante razoável, se bem que os flashbacks fossem tão clichê que chegava a doer. Um bom momento de realização e fotografia foi o jogo de basebol da família Cullen e a posterior chegada dos vampiros nómadas Laurent, James e Victoria. Contudo, a escolha da música foi um erro fatal, já que em alguns momentos não se coadunava com a cena a que foi associada. Como exemplo é fácil pensar na colectânea de imagens de Bella e Edward acompanhada de uma música digna de uma perseguição.


Twilight, o livro, conseguiu cumprir aquilo a que se comprometeu, embora a liberdade criativa que Stephenie Meyer usou na mitologia de vampiros tenha sido um pouco excessiva, levando à ideia de que não conseguiria contar a estória se não modificasse todos os mitos a seu belo prazer. É um livro tipicamente para adolescentes que consegue seguir um fio condutor e basear-se em personagens sólidas.

Twilight, o filme, não passou de uma tentativa de ganhar mais uns trocos abusando da sorte e contando com que as adolescentes estivessem tão concentradas nos personagens masculinos e no romance que não necessitariam de nada mais que visualizar os momentos bonitos deste capítulo da saga. Aos restantes espectadores, restou tentar apreciar a realização e compreender com grande esforço a motivação das personagens.

domingo, 28 de junho de 2009

Páginas vs. Fotogramas - Choke, de Chuck Palahniuk

Título Original: Choke
Autor: Chuck Palahniuk
Editora: Editorial Notícias
Páginas: 258
Tipo: Capa Mole

Chuck Palahniuk continua com a mesma crítica social que nos habituámos ao seu primeiro romance: Fight Club. Mas neste seu Asfixia - Choke o autor inicia uma ainda mais mordaz à sociedade moderna como todo o seu consumismo e o excesso de informação que produz.

Abusando de uma prosa crua e feroz, capaz de ferir a susceptibilidades de muitos leitores, Chuck Palahniuk não se coíbe de utilizar termos politicamente incorrectos, palavrões ou abordar uma temática aversa ao pudor da sociedade: o vício do sexo e tudo o que isso implica. O humor negro e preverso que muitos apontaram em relação ao filme que foi recentemente adaptado da obra, é ainda mais ácido no livro. É uma obra extremamente dura sobre a luxúria e a salvação, a culpa e a redenção, o sagrado e o profano.

Em relação ao filme de Clark Gregg, é uma adaptação bastante fiel ao livro, muito mais do que foi o Fight Club de David Fincher. Ambos os livros são diferentes, bem como os filmes, mas a corrosão e acidez de Chuck Palahniuk continua lá, marcando-o como um dos melhores autores contemporâneos.

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sexta-feira, 12 de junho de 2009

Páginas vs. Fotogramas - The Reader, de Bernhard Schlink

Título Original: The Reader
Autor: Bernhard Schlink
Editora: Edições ASA
Páginas: 144
Tipo: Capa Mole

Da bibliografia de Bernhard Schlink fica-nos de imediato na lembrança de The Reader. Leitura obrigatória na Alemanha, esta é uma meditação pouco usual sobre os destinos do país, virada para um romance complexo e doloroso.

O estilo de escrita do autor é simples e acessível, leitura quase infanto-juvenil não fosse a sua forte temática. Narrada na primeira pessoa, é uma história de vida, um romance estranho e intenso, com a leitura em voz alta como elo de ligação, um grande elogio à literatura clássica. De uma forma simples, explica que todas as nossas acções têm consequências, podendo afectar tanto a nossa como a vida de outros. The Reader é dividida em três partes: a história de amor, o julgamento e o pós-julgamento; onde o protagonista é sempre Michael Berg e não Hanna Schmitz.

É precisamente desse ponto de vista que o livro difere da adaptação. Apesar de o filme de Stephen Daldry ter sido muito bem adaptado, em alguns momentos praticamente cena a cena, a verdade é que em questões de protagonismo a questão difere, dando muito mais importância a Hanna Schmitz. Ora no livro, a história é de Michael Berg e não dela. As cenas do julgamento são muito mais longas e mais perceptíveis, bem como é dada uma maior importância ao pai do protagonista, que no filme é substituído pelo professor de Direito.

É sobretudo no final que a versão cinematográfica difere do romance original. Percebemos muito melhor o motivo do suícidio de Hanna Schmitz e como isso de certa forma afectou a posterior vida de Michael Berg.

Bernhard Schlink tem aqui uma bela obra da literatura contemporânea, que não deve ser menosprezada.

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quinta-feira, 11 de junho de 2009

Páginas vs. Fotogramas - Revolutionary Road, de Richard Yates

Título Original: Revolutionary Road
Autor: Richard Yates
Editora: Civilização Editora
Páginas: 300
Dimensões: 155 x 235 mm
Tipo: Capa Mole

Richard Yates tem neste seu primeiro romance datado de 1961 um retrato cruel e estranhamente ainda actualizado da sociedade norte-americana. Uma espécie de tratado de promessas por cumprir, de sonhos não concretizados e uma tentativa de busca de um european dream, quando o americano não resultou.

A sua escrita é altamente descritiva, por vezes acusada de alguma monotonia, mas que ilustra bem a estagnação e o conflito de interesses vivido por um casal que, em suma, é um retrato de muitos dos casais que nos anos 50 viviam nos subúrbios dos Estados Unidos. Apesar de altamente dramático, com nuances ousadamente pesadas para um livro, Richard Yates acaba por revelar alguma ligeireza humorística e crítica na forma como aborda temas complexos como o adultério ou o aborto.

As personagens são aprofundadas minuciosamente permitindo revelar um Frank Wheeler que luta para sair daquele estado monótono de vida, sem grande sucesso e uma April Wheeler enigmática e bastante complexa, que luta contra os seus demónios interiores de uma forma altamente intensiva. Estas personagens são desenvolvidas num ambiente altamente ilusório, que irradia uma aparente felicidade, onde as personagens secundárias servem de contrabalanço às suas vidas, mas que no fim sofrem do mesmo mal conformista. Destas personagens secundárias, John Givings é a que mais se destaca, funcionando como uma espécie de consciência que revela uma tendência inconformista que acaba por influenciar o casal de protagonistas.

Relativamente ao filme homónimo, realizado por Sam Mendes, justificamos a adaptação como uma tarefa árdua dado o dramatismo e a teatralidade da história. É certamente um filme excelente, que não fica aquém do livro. Uma adaptação excelente, perfeitamente minuciosa, que serve como um transposição visual do livro.

Este Revolutionary Road inspira no leitor uma série de reflexões perturbadoras, um duelo entre o conformismo e o inconformismo, numa sábia e inteligente escrita de Richard Yates.

Leia também:

sexta-feira, 13 de março de 2009

Páginas vs. Fotogramas - The Curious Case of Benjamin Button


O Estranho Caso de Benjamin Button figura entre os filmes e mais aplaudidos pela crítica deste ano, tendo sido nomeado para cinco Globos de Ouro, 11 BAFTA Awards e 13 Óscares.

A história tem como base uma adaptação livre do conto de F. Scott Fitzgerald, um escritor norte-americano, considerado um dos maiores do século XX e autor de romances mundialmente conhecidos como The Great Gatsby e Tender Is The Night.

Se o leitor, ao pegar no livro procurar uma história romanceada semelhante à do filme, vai ficar desiludido. Contudo, o conto de Fitzgerald é muito mais abrangente que a sua versão cinematográfica. Na génese do conto publicado em 1922 estará, segundo F. Scott Fitzgerald, uma observação de Mark Twain em que lamentava que a melhor parte da vida fosse ao início e a pior no fim.

No conto, Benjamin Button vem ao mundo com a aparência, o tamanho, os vícios e a “rezinguice” de um homem de 70 anos. A partir daí, todo o conto é uma tragicomédia, em que o relógio biológico e cronológico de Benjamin Button entram em conflito com os valores morais de uma sociedade preconceituosa. O Estranho Caso de Benjamin Button de F. Scott Fitzgerald é ironicamente mordaz, com poucos floreados ou romances, criando uma visão mais racional do processo de rejuvenescimento, constituindo uma crítica maliciosa a quem vê e julga pela aparência e que recusa tudo o que não viva pelas normas vigentes, sejam elas feitas pelo Homem ou impostas pela Natureza.

O conto O Estranho Caso de Benjamin Button encontra-se à venda em Portugal, pela Editorial Presença e com tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, em 76 páginas e de capa flexível.

Vale a pena conhecer o conto por detrás do filme.