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sábado, 25 de maio de 2024

Furiosa: Uma Saga Mad Max, por Eduardo Antunes


Título original: Furiosa: A Mad Max Saga (2024)
Realização: George Miller
Argumento: George Miller, Nick Lathouris

Seria sempre inútil a esperançosa espera pelo mesmo sentimento que nos arrebatou naquele (parece) longínquo ano de 2015. Antes, o que George Miller aqui nos oferece é um complemento à sua obra-prima anterior, que não tanto nos pretende oferecer a mesma frenética envolvência, mas antes oferecer um outro grau de complexidade à segunda (ou primeira?) protagonista que vingou o percurso pela Estrada da Fúria.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

A Despedida, por Eduardo Antunes


Título original: The Farewell (2019)
Realização: Lulu Wang
Argumento: Lulu Wang 
Elenco: Awkwafina, Shuzhen Zhao, Tzi Ma, Diana Lin

É com grande pena que vejo The Farewell estrear em tão poucas salas em Portugal. Ainda que seja um filme que não peça por muitas audiências, é um filme que, dada a atenção merecida, recolheria certamente os frutos igualmente merecidos. De uma cultura quase inteiramente diferente à nossa, recolhemos o mesmo profundo sentimento de perda e celebração.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Klaus, por Eduardo Antunes


Título original: Klaus (2019)
Realização: Sergio Pablos
Argumento: Zach Lewis, Jim Mahoney, Sergio Pablos

Klaus é tanto um filme para crianças se maravilharem como é um filme para relembrar adultos da sua juventude, inocência, da esperança que ainda retenham no seu âmago. É tanto um filme que fala sobre um mito do Natal como uma narrativa que demonstra a verdadeira natureza da época que retrata, a mensagem inerentemente humanista que todos devemos desta época retirar, cujo invólucro animado está embebido na nossas memórias e tradições sem, apesar disso, se sentir menos refrescante e moderno.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Batman: The Telltale Series - Temporada 1, por Eduardo Antunes

https://splitscreen-blog.blogspot.com/2019/08/batman-telltale-series-temporada-1-por.html

Título original: Batman: The Telltale Series (2016)
Plataforma: PC, PlayStation 4, Xbox One, PlayStation 3, Xbox 360, iOS, Android, Nintendo Switch
Género: Aventura gráfica
Desenvolvimento: Telltale Games

Há já algum tempo que os videojogos se começaram a equiparar ao cinema e televisão como meio de representação narrativa, através do seu carácter interactivo particular a tornar-se uma ferramenta interessante para tornar mais imersivos os eventos que passam no ecrã. A Telltale tornou-se exímia a contar essas narrativas interactivas, fazendo por inovar a cada "série" que cria, e do qual esta dedicada a Batman se torna exemplo representativo de todos os seus pontos fortes.

domingo, 23 de dezembro de 2018

Homem-Aranha: No Universo Aranha, por Eduardo Antunes


Título original: Spider-Man: Into the Spider-Verse (2018)
ArgumentoPhil Lord, Rodney Rothman

Depois de nos trazerem filmes de extrema inteligência na subversão dos respectivos géneros, mantendo um nível de humor que muitos lutam por saber replicar, as mentes por trás de 21 Jump Street e The Lego Movie voltam a surpreender no que parece ser uma aposta complicada mas que nos agarra desde o primeiro teaser que surgiu.

terça-feira, 8 de maio de 2018

Our Madness, por Carlos Antunes



Título original: Our Madness
Realização: João Viana
Argumento: João Viana
Elenco: Rosa Mario, Mamadu Baio


Our Madness é um filme de dicotomias. Visões opostas condensadas nos mesmos fenómenos: loucura, cinema e misticismo.
Estes sim em sintonia entre eles, as mesmas notas do acorde que é a aplicação da imaginação à capacidade de criar.
Jesus e o Super-Homem podem estar lado a lado como divindades. O Cinema tanto é a contemplação de Deus como a projecção da luz do Diabo.
A loucura - o que alguém classifica como tal - tanto é força injustificada para uma fuga como é a fonte de uma demanda épica.
Demanda que é de reconstituição de uma família, uma família que é a humana como fica claro à medida que ela atravessa a história de um continente.
A protagonista que recebe o seu nome do nosso mais antigo antepassado chega a envergar bestes tribais, acompanhando o marido, militar a quem querem amputar uma perna. Procuram o filho, num resgate da geração que está por vir.
São as memórias de Moçambique concentradas onde duas culturas sempre estiveram entre a convivência e a batalha, como na lenda que nos contam de Mussa M’bique e do demónio Mwanande.
Juntas numa odisseia sobrenatural a que vai sendo dado corpo, como se tudo o que parece extraordinário viesse do nosso ponto de vista, sendo na verdade parte do quotidiano daquele país e daquele continente.
Desde logo as ruínas e os descampados, aproveitados para mais do que cenário, transformados pelos que os vivem em algo prático, até um hospial.
O magnífico olho de João Viana transforma esses lugares em pontos míticos. Com o apoio da fotografia de Sabine Lancelin, que faz refulgir o preto e branco com a dignidade da prata. (Olhem-se as peles!)
Quase sem diálogos, assente nessa construção visual, o realizador quer materializar aquilo que é conceptual - tal como em A Batalha de Tabatô -, aqui a forma como a imaginação dá corpo ao escape.
Das formas nunca vistas para instrumentos musicais, segue para algo mais transmissível a quem vê, nem por isso menos imaginativo.
Há uma progressiva transformação de uma cama de hospital psiquiátrico em aparelho de liberdade, primeiro instrumento musical depois avião
De uma cadeira de rodas numa câmara de filmar, expressando o ponto de partida que têm em comum e de como só as formas apropriadas permitem fazer ver o delírio como produtivo.
Essa materialização ajuda a que se atinja a fluídez que se espera num filme que viaja. Fluídez, também, do imaginário que transmite e que tornam assertiva a hipótese de que João Viana fala.
No filme alguém pergunta "Alguma vez viste Deus na casa do Diabo?". O realizador responde-lhe positivamente.




domingo, 6 de maio de 2018

O Processo, por Carlos Antunes



Título original: O Processo
Realização: Maria Augusta Ramos
Argumento: Maria Augusta Ramos
Elenco: Dilma Rousseff, José Eduardo Cardozo, Michel Temer


Apesar de ser uma excelente tirada da parte de Lindbergh Farias, até para dar o título ao filme, não estamos perante uma revisitação do impeachment por via de Kafka.
Desde logo porque se há alguém que não chega a ser personagem do mesmo é Dilma Rousseff. Uma presença pairando sobre o filme, cuja aparição se dá no final num remate de dignidade.
Maria Augusta Ramos não teria podido fazer esse contraponto ao que filmou antes se estivesse a lidar com o Absurdo labiríntico.
De que a realizadora poderia ter feito uma construção visual, a julgar por um dos raros desvios à filmagem processual, quando um cão se passeia pelos corredores de Brasília lado a lado com um político.
Neste filme vê-se a argumentação da realizadora acerca do processo, sem qualquer tentativa de manipulação de uma presença discreta no momento dos acontecimento, com um processo de montagem exímio - o que torna inevitável assinalar a importância de Karen Akerman, outra mulher envolvida neste projecto.
O trabalho delas passou por demonstrar como o espectáculo mediático sem auto-reflexão foi mais forte do que a lógica.
As imagens de abertura, e que ficarão como das mais representivas de todo este processo, são as dos que clamam em nome de Deus, da família, e do Brasil o seu voto no "Sim ao impeachment".
A partir daí só o lado do Partido dos Trabalhadores se mostra sem ser nessa farsa para as câmaras, abrindo as suas reuniões privadas à realizadora.
Reuniões onde acontece a auto-crítica, mesmo se não ficam algumas dúvidas sobre se o grau das mesmas é suficiente ou se resultará numa emenda futura à forma de fazer política.
Tanto faz que Maria Augusta Ramos tenha partido para o filme com uma convicção política firme ou que tenha formado uma visão mais direccionada porque só teve acesso priveligiado a um dos lado da contenda.
Não só os seus argumentos parecem fazer sentido contra aquela forma de espectáculo que sublinha um processo de resultado pré-determinado, como ela e a sua montadora tratam de criar um personagem destacado com quem se trava o combate, Janaína Paschoal.
O vazio processual não existe e é difícil sustentar duas horas de filme sem um "vilão" e Janaína pede para ser mal tratada. Também porque parece ser a única pessoa do lado contrário ao dos "petistas" que se prestou a ser filmada em alguns momentos mais privados.
Janaína permite-o porque, apesar do que possa dizer, a sua sede de protagonismo existe. As suas acções demonstrarão isso, seja pelas selfies que aceita tirar ou pelas mensagens de força que sente poder dar a localidades do Brasil onde nem sequer foi.
O seu folclore acerca da religiosidade da Consitutição - "único livro sagrado" - não a impede de fazer promessas a representantes religiosos (ou de seita?) que querem usar a celebridade contra a causa do aborto.
Ramos e Akerman tratam, depois, de caracterizar a jurista nos seus próprios moldes, infantilizando-a até quando se demoram nela a beber um pacotinho de leite com chocolate.
Fica esclarecido que a hipótese de um convicção desde o início do projecto é a mais válida, mulher filmando com mulheres um processo contra uma Presidenta.
Como todos os filmes, também este necessitava de um ponto de vista determinado, e a intimidade com o Partido dos Trabalhadores só faz crer que tal é justo pois os outros mantiveram as suas congeminações em segredo.
Chegado em 2018, quando imensos desenvolvimentos políticos se seguiram a este processo, terá menos urgência mas um sentido mais perene de rememoriação em tempos que a História corre demasiado depressa para ficar assente com convicção.
Mesmo essa memória do que ocorreu exige conhecimento prévio, visto que a realizadora evita contextualizar as figuras que filma - em certa medida as suas identidades são menos importantes do que as personagens colectivas que estão de cada lado da barricada.
Por outro lado, a falta de conhecimento profundo beneficia a visão do filme, aquilo que se capta não vem de viés pela convicção prévia.
Não só faz do decorrer do processo em si a figura central de reflexão para o público português, permite que a leitura do trajecto cinematográfico deste filme seja feito em descoberta, aceitando a construção que Maria Augusto Ramos faz dos acontecimentos. Mesmo que sejam verdadeiros.




quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Exterminador Implacável 2: O Dia do Julgamento 3D, por Eduardo Antunes

https://splitscreen-blog.blogspot.com/2017/11/exterminador-implacavel-2-o-dia-do.html

Título original: Terminator 2: Judgment Day (1991)
RealizaçãoJames Cameron
Argumento: James Cameron, William Wisher

Numa altura em que o 3D começa a tornar-se cada vez mais impopular e, na maioria das vezes, um pensamento secundário, valerá a pena revisitar este clássico do cinema de acção e da ficção científica um quarto de século depois da sua estreia original?

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Star Wars: Episódio VII - O Despertar da Força, por Walter Neto


Título original: Star Wars: The Force Awakens (2015)
Realização: J.J. Abrams
Argumento: Lawrence Kasdan, J.J. Abrams, Michael Arndt
“A psique humana é essencialmente a mesma, em todo o mundo. A psique é a experiência interior do corpo humano, que é essencialmente o mesmo para todos os seres humanos, com os mesmos órgãos, os mesmos instintos, os mesmos impulsos, os mesmos conflitos, os mesmos medos.”
Joseph Campbell em O Poder Do Mito

Pouco importa se você tenha nascido em uma vila europeia, ou em algum lugar dos trópicos, ainda que as diferenças culturais existam e sejam muitas, em todos os três casos sofremos as mesmas experiências comuns a condição humana: nascimento, aprendizagem, construção do “Eu”, descoberta sexual, dor, alegria e por fim, a morte. E é em cima dessas semelhanças que a narrativa do mito se constrói- ou seja, da análise de elementos comuns e que se repetem. E ainda, de como eles poderiam ser organizados. Este, talvez, seja o segredo, ou um deles, por trás do sucesso da saga Star Wars – Guerra nas Estrelas, agora em seu sétimo capítulo, o ótimo O Despertar da Força, de J.J. Abrams. A série se estrutura claramente em cima da ideia da jornada do herói/mito para narrar as histórias de um universo tão plural, seja em planetas ou formas de vida, e na dicotomia entre bem e mal, moral e imoral; representados pelo constante combate entre a Força e seu próprio lado negro. Dualidade comum a qualquer um de nós.

Ora, é exatamente isso que o antropólogo Joseph Campbell abordou em suas teorias: a dificuldade de se estabelecer um equilíbrio entre o nosso lado da luz e o lado sombrio, entre a capacidade de uma mesma pessoa fazer o bem e o mal. E a jornada que nos levaria a fazer tais escolhas. Este é o principal ponto positivo do novo elemento da franquia, entre meio a muitas homenagens ao material clássico, Abrams consegue desenvolver seus personagens e seus conflitos de uma forma que o criador daquele universo, George Lucas teve alguma dificuldade. Principalmente, na questionável trilogia que serve de prequela para a série clássica: A Ameaça Fantasma (1999), O Ataque dos Clones (2002) e A Vingança dos Sith (2005), na qual, os personagens escolhem entre um “bem” e um “mal” muito demarcados e nada na narrativa parece ser forte o suficiente para justificar a sua escolha.

Como o filme de Abrams usa e abusa de referências aos filmes anteriores é impossível não comparar O Despertar da Força com seus antecessores. O primeiro ato do filme se preocupa em homenagear e quase recriar planos do Uma Nova Esperança (1977). Se o filme de Lucas já começa com a Princesa Leia (Carrie Fisher), pedindo socorro através de uma mensagem enviada pelo robô R2D2 e ainda nos primeiros minutos de projeção, sendo capturada por Darth Vader, que surge ocupando todo o plano e já se apresentando, não apenas como o antagonista, mas mostrando toda sua obsessão por controle e poder; o filme de Abrams começa com o piloto Poe Dameron (Oscar Isaac) em uma missão para a resistência, procurando pistas sobre o paradeiro de Luke Skywalker (Mark Hemill) e após esconder a chave para encontra-lo em seu robô BB-8, durante uma tentativa de fuga, ele é capturado por Kylo Ren (um maravilhosos Adam Driver, que em poucas cenas sem sua máscara, constrói um personagem extremamente complexo e dividido, cuja vestimenta é uma clara referência a de Vader.). Por falar em referências, Abrams em determinado momento, surpreende ao construir uma clara rima visual com uma cena de Apocalypse Now (1979).   

Apocalypse Now, 1979 & The Force Awakens, 2015

Os paralelos entre o filme de Abrams e a trilogia original são muitos e talvez este seja o ponto negativo da franquia, não confiar apenas em sua narrativa para remeter ao material canónico, mas ter que criar constantes referências aos filmes clássicos constantemente.

A New Hope, 1977 & The Force Awakens, 2015

Basicamente, em O Despertar da Força, 30 anos após a destruição do Império Galáctico, uma nova força surge, a Primeira Ordem, que pretende continuar o trabalho iniciado e não concluído por Vader. Em meio ao fanatismo e obediência cega de seus seguidores que acreditam que tudo o que fazem é para um bem maior – outro paralelo com a realidade, neste caso com governos ditatoriais; conhecemos Finn (John Boyega) um stormtrooper que que recusa a obedecer a ordem de matar inocentes que estavam em uma vila atacada por Kylo e deserta. Boyega se mostra competente em construir um personagem que descobre para que recebera todo seu treinamento e ao ver os horrores da sua ordem, foge, mas não sabe ao certo o que fazer com sua vida. É ele também o responsável por muitos dos momentos cómicos do filme, que foram escritos com competência pelos roteiristas, o próprio Abrams e Lawrence Kasdan, que funcionam como um alívio para o público em uma trama claramente mais pesada e violenta que a dos filmes originais.

Para fechar o triângulo de protagonistas temos a jovem catadora de lixo Rey (Daisy Ridley) que não se lembra de seu próprio passado e descobre possuir em si a Força que até então, acreditava ser apenas histórias contadas pelos mais velhos. Toda a evolução da personagem lembra muito, novamente, o Uma Nova Esperança e a jornada de Luke. E é com seu novo trio de protagonistas, que em parte mais avançada da sua narrativa, O Despertar da Força consiga romper com a obrigação de ser apenas uma homenagem e se mostre como um filme que se sustenta sozinho.

Se Luke, na trilogia clássica, e Anakin, nas prequelas, são atraídos constantemente pelo lado negro da Força; não é um acaso que os dois personagens comecem sua respectiva narrativa num deserto – o mito cristão coloca a passagem de Jesus Cristo pelo deserto e a tentação feita a ele por um demónio como um dos momentos mais importantes de sua história. Mas Kyle já inicia sua narrativa completamente inserido no lado negro, ainda que seja atraído pelo lado da Luz da Força. É uma inversão e um acréscimo extremamente bem-vindo a franquia. E nesses momentos de apropriação e recriação que fazem o filme de Abrams ser tão bom e eficiente.

Basicamente vemos em Kylo e Rey, um novo Luke e Leia. Voltamos, então, ao ciclo do mito/herói criado por Campbell. Para ele, o herói passa por doze passos na sua jornada de descoberta e auto-conhecimento, senso a jornada dividida em três momentos principais: partida, iniciação e retorno.


Rey , por exemplo, não se lembra de seu passado, mas vive presa em seu planeta, esperando o retorno de uma família que ela não conhece ao certo. Graças ao seu encontro com BB-8 ela é chamada à aventura e ao seu destino, o que inicialmente é recusado e só após encontrar seu mentor, um velho Han Solo (Harrison Ford) ela rompe com seu mundo e embarca, ainda que relutante em sua missão. Durante sua jornada, encontra em Finn um parceiro e vê em seu confronto final com Kylo – uma sequência de luta com sabres de luz de deixar para trás qualquer filme clássico da série, um motivo para aceitar seu papel na Força e já transformada levar o público a resolução do mistério: onde está Luke Skywalker.

O saldo final não poderia ser mais positivo, para fãs antigos e para aqueles que ainda engatinham no universo criado por George Lucas, mantendo um ritmo constante e crescente até seu ato final, sua melhor parte por se distanciar mais do tom de homenagem e consegue funcionar como um filme independente do universo no qual está inserido, ele funciona além do cânone da franquia da qual faz parte. E o universo criado por Lucas agradece o fôlego novo recebido pelo seu sétimo episódio.


Classificação:

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Táxi de Jafar Panahi, por Tiago Ramos


Título original: Taxi (2015)
Realização: Jafar Panahi
Argumento: Jafar Panahi
Elenco: Jafar Panahi

Isto é um filme. E como disse Jafar Panahi a um jovem estudante de cinema que procurava saber quais os melhores filmes a comprar a um vendedor de cópias pirateadas: «todos os filmes merecem ser vistos». E Táxi de Jafar Panahi justifica essa afirmação, sendo um filme com muito cinema dentro. A começar pela referência óbvia ao cinema de Abbas Kiarostami (e o seu Dez, também ele filmado dentro de um carro) ou ao vendedor de cópias pirateadas de filmes (com produções interditas no Irão) que vende ao estudante de cinema e ao próprio Jafar Panahi (sabemos que comprou versões ilegais de Midnight in Paris e de Once Upon a Time in Anatolia). Multiplicam-se ainda as auto-referências ao seu próprio cinema: desde The Mirror (1997), passando por Crimson Gold (2003) a Offside (2006).

É um filme com muitos filmes, mais luminoso que os dois anteriores, posteriores à sua condenação que o deixou proibido de filmar durante vinte anos por um Governo que estipula uma cartilha estrita de regras e bons costumes para filmar. Essa é uma referência que Jafar Panahi faz, brincando com a sua sobrinha, também ela protagonista do filme, que na narrativa (a espaços fica a dúvida se é tudo é encenado ou se é isto um documentário), tem de realizar um filme para a escola. Um filme como deve ser, «distribuível» e que evite sobretudo o «realismo sórdido», que dá origem a um dos gags mais divertidos do filme. Neste filme, o cineasta utiliza novos dispositivos para fugir à sua interdição de filmar, mas de uma forma menos limitada que This Is Not a Film (2011) ou Closed Curtain (2013). Ali, Jafar Panahi, confinava-se a si mesmo, encerrava-se na escuridão de uma tristeza profunda para agora dar lugar a um lufada de ar fresco, num filme que é quase uma tragicomédia.

Num jogo de espelhos com os dispositivos da narrativa a serem continuamente desmontados - há até uma personagem que lhe diz «Eu sei quem é, senhor Jafar Panahi. Sei que anda a fazer um filme». Jafar Panahi é o protagonista do seu próprio filme que é mais uma provocação ao regime, um corajoso ultimato do Cinema que documenta ao mesmo tempo a realidade da vida no Teerão. É um filme onde o cineasta recupera um tom humano, bem-humorado, mais risonho e subtil. Um filme que nem merece créditos finais porque afinal não é distribuível no Irão.


Classificação:

domingo, 8 de março de 2015

Natan, por Carlos Antunes



Título original: Natan
Realização: Paul Duane, David Cairns
Argumento: David Cairns
Elenco: Serge Bromberg, Gisèle Casadesus, Niall Greig Fulton


Natan é um dos melhores e mais desafiantes filmes que o público português verá este ano, sobretudo aquele com uma maior militância cinematográfica.
O filme é um documentário em torno de um produtor essencial para a História do Cinema Francês que só será descoberto através deste trabalho.
Só isso chegaria para tornar o trabalho especial no coração dos cinéfilos, só que o trabalho em torno da sua vida vai revelando temas de reflexão que são definidores do século XX e dos seus avanços, até mesmo no campo do Cinema.
Bernard Natan é o responsável pela criação de uma indústria cinematográfica em França, pelo avanço dessa arte para o campo do negócio que a tornou duradoura.
Neste filme ficamos a saber como foi a reacção europeia ao nascimento da indústria americana e, por acréscimo, ficamos igualmente a saber como esta se reaproveitou do que se fazia deste lado do Atlântico.
Uma lição de inovação técnica e esforço artístico no cinema francês que é apaixonante e que coloca Natan como um dos apelidos a memorizar e a conhecer a fundo.
Só que são os próprios franceses a crer que Pathé é o nome por excelência de tal feito, quando foi Bernard Natan quem levou essa marca mítica para diante.
Obrigatório reconhecer que foi por questões financeiras - nascidas de uma visão ele teve e que Pathé não - que Natan terminou afastado da memória pública, muito embora o contexto da altura, com o avanço Nazi, tenha ajudado.
O julgamento de Bernard Natan poderá ser considerado um segundo Affaire Dreyfus, para dar uma referência clara do que lhe foi feito por ser judeu. Mas com resultados ainda mais graves.
Muito mais do que pela morte que ele havia de sofrer num campo de concentração, o resultado grave deste caso contra o do século XIX está na manipulação que tudo sofreu.
Não foram apenas falsificadas as provas contra Natan mas foi manipulado o registo fílmico do seu julgamento e, depois disso, apagado o seu nome de todos os registos acerca do cinema.
Num meio estruturante como esse foi para a memória do século XX, haver quem possa ser eliminado - mesmo sendo parte integrante dele - é uma surpresa tão grande quanto a própria fragilidade do conceito de verdade em filme.
A história é escrita pelos vencedores. Em certos casos, como fica demonstrado, esta continua a ser indevidamente escrita - melhor seria dizer apagada - pelos vencidos. Neste caso os colaboracionistas e os Franceses que lucraram com o ataque aos Judeus.
Isso acontece, sobretudo, porque quase ninguém está disposto a questionar a História e a procurar figuras como aquela aqui retratada.
Nunca, nem mesmo através de documentários, se atingirá uma verdade livre de interpretação e/ou manipulação.
O problema é quando a manipulação é técnica e lançada como a verdade, pois isso é quase impossível de contrariar.
Os realizadores mostram no documentário o excerto filmado do julgamento de Bernard Natan que foi mostrado ao público da época. E depois revelam a verdadeira filmagem do mesmo, demonstrando que a voz havia sido alterada de forma a que esta cumprisse com o estereótipo do "ridículo judeu".
Não apenas à época mas tambám no momento presente, os que escrevem sobre cinema parecem capazes de utilizar os fotogramas contra Bernard Natan, fazendo dele o actor de filmes pornográficos de qualidade rasteira.
No filme há a comparação de fotografias de Natan com as feições dos actores de tais filmes e é quase impossível não admitir que a única semelhança é um perfil de cara, em mais um preconceito acerca dos judeus e do seu nariz.
Paul Duane e David Cairns estão dispostos a defender Bernard Natan, embora não estejam a tentar limpar a sua imagem e torná-lo num herói.
A dupla não deixa de reconhecer, cumprindo com a exigência do olhar documentarista, que Bernard Natan teve os seus momentos de erro, fosse quando foi preso em posse de material pornográfico fosse quando cometeu uma ilegalidade para salvar da ruína os estúdios Pathé-Natan.
Uma das opções estéticas, de colocar um actor com uma máscara inspirada nas feições de Bernard Natan, é prova disso mesmo. Num reflexo da procura tanto das verdades como das falsidades de Gainsbourg (Vie héroïque), esta figura sobre a qual pende ainda tanta incerteza surge representada ao mesmo tempo com monstruosidade e com afectividade, pois ambas parecem ser características a ele atribuídas.
Só que eles, tal como o público acabará por fazer, reconheceram que Natan foi um homem cujo castigo superou em muito qualquer crime que pudesse ter cometido.
A injustiça que o próprio Cinema cometeu para uma das suas figuras essenciais havia que ser corrigida e se não o será por completo através deste filme, terá de continuar a partir dele e enquanto a verdade estiver esquecida e os mitos forem reproduzidos.
Se alguma vez será possível conseguir a correcção dos segundos pela primeira é uma questão difícil de responder através de uma previsão presente.
Aquilo de se tem a certeza é que Bernard Natan se importava em absoluto com a preservação da memória daqueles que contribuíram para que o Cinema fascinasse o público e, por isso, merece ele próprio que tal honra lhe seja garantida.
Se mais não fosse, porque o próprio Natan nunca deixou que Georges Méliès - o homem que o fascinara pela cinema - acabasse na pobreza e só isso merecia uma retribuição de igual medida mesmo a esta distância da sua morte.




quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Foxcatcher, por Carlos Antunes



Título original: Foxcatcher
Realização: 
Argumento: 
Elenco: 


Este é um filme de ambiência muito mais do que um filme "acerca de". A sua história resume-se em duas linhas e nesse resumo deixa dúvidas de que possa sustentar uma longa metragem.
Já o clima dessa pouca história tem a intensidade que sugere na exacta proporção para contar algo de mais profundo do carácter humano que é universal e não está limitado à estranheza das últimas décadas do século XX nos Estados Unidos da América.
Foxcatcher cria uma sensação permanente de desconforto constituída em partes iguais por medo e por caricato.
Estamos no limite da incompreensão da realidade, tentando desvendar as pulsões e as intenções subjacentes ao comportamento dos personagens centrais.
A dúvida advém de quantas camadas se escondem para lá do óbvio. Camadas que levam dum pojecto de patriotismo intenso - e, por isso, um pouco bacoco - à descoberta da infantilidade limitativa dos adultos que estão no ecrã.
Chegado aí o filme mantém-nos à distância da dimensão completa de John du Pont e Mark Schultz, dois abismos de humanidade que mesmo assim denotam que um é mais profundo que o outro.
John du Pont é esse abismo maior sem que seja porque sobre ele pende o conhecimento prévio de que ele se tornará num assassino mal justificado.
Steve Carell faz dele um personagem sempre deslocado da acção e a olhar para o quadro que se forma à sua volta. O seu olhar está cheio de ambiguidade pois aquele distanciamento com que vai tentando captar em demasia o comportamento alheio tanto sugere que ele é um idiota como que é um psicopata.
Pelas suas acções dir-se-á que é uma parte de ambos, criatura disfuncional que se vai impondo no mundo à conta do dinheiro e da influência. Algo que só aumenta a sua incapacidade de estabelecer relações que não comportem uma medida prática de sucesso.
O actor está exímio neste estado de ausência que suga a atenção e que é incómodo mas se confunde com imponência - por algum tempo!
Confunde-se enquanto John surge como figura determinante, antes de se ter de confrontar com a mãe e com a sua rejeição permanente. Um influenciador da acção governativa dos EUA sucumbe à necessidade de reconhecimento por parte da progenitora ao mesmo tempo que perante ela se rebela.
Novamente exarcebado o diálogo confrontacional entre o ridículo dos mommy issues e o foco no desenvolvimento da luta livre como alternativa pessoal à tradição familiar das corridas de cavalos, desde que igualmente vitoriosa.
Uma dicotomia na psique de du Pont que se expressa pelo diálogo entre gerações e as respectivas noções de elevação moral advinda da posição social. E a partir dele começamos finalmente a ver peladas outras camadas da personalidade de John, em particular a sugestão de uma homossexualidade escondida - reconhecida pela mãe - que pode ganhar espaço de expressão física naquele ambiente masculino por ele patrocinado e, logo, comandado.
O domínio de John sobre Mark faz lembrar a história de um amor em que uma das partes se prosta perante a grandez que vê na outra e por tal concede a sua identidade.
Algo nascido da confusão entre admiração real e a necessidade de encontrar uma figura paterna para si mesmo por parte de um Mark que se voluntaria perante quem o acolhe.
Também sobre ele as dúvidas se mantêm, não se descodificando com certeza se a aparição do irmão na equipa Foxcatcher o embaraça pelo seu comportamento transviado ou se o rouba da sua afirmação própria longe da influência do irmão mais velho.
Mark Schultz é o resultado  de um Channing Tatum a actuar contra a imagem que dele fazemos, numa entrega de uma honestidade surpreendente.
Méritos para Bennett Miller que tem vindo sempre a mostrar a disponibilidade - e não subserviência - às interpretações dos seus actores, deles retirando o máximo num registo moderado que ressoa mais afirmativamente com o público.
O realizador começou trabalhando para a perspectiva dos prémios a favor do seu actor mas tem, entretanto, reinventado actores em filmes que cada vez menos se assemelham à preconcepção da escolha fácil.
Com Foxcatcher dedicou-se mesmo a insinuar em quem vê uma rejeição das personagens com laivos de compreensão que o tornam num filme de prazer incómodo, daí desafiante.




sábado, 27 de dezembro de 2014

Dois Dias, Uma Noite; por Tiago Ramos


Título original: Deux jours, une nuit (2014)
Argumento: Jean-Pierre DardenneLuc Dardenne
Elenco: Marion Cotillard, Fabrizio Rongione

Que Marion Cotillard era uma excelente actriz já todos o sabíamos. Uma das mais completas e que oscila facilmente entre registos e personagens, um camaleão perante diferentes desafios e cineastas. Mas aquilo que ainda não tínhamos visto completamente (talvez o mais aproximado tenha sido em De rouille et d'os) era esta proeza que os irmãos Dardenne conseguiram: despir a actriz do seu estatuto de estrela. Aqui recuperam o seu realismo social sempre focado num tour de force do seu protagonista, mas aqui reduzem-nos ainda mais ao essencial. O contexto sócio-económico é facilmente enquadrado, o leitmotiv é dado logo nos minutos iniciais: Sandra será despedida da fábrica onde trabalha se não conseguir convencer os seus colegas a recusar um bónus salarial. A gravidade da situação económica é percebida pela estrutura familiar e como este evento afecta drasticamente a sua personagem principal. A câmara não se coíbe de filmar os pequenos momentos quotidianos que marcam a diferença: o saco do Lidl, a compra de um pão na padaria, o preço das cervejas, as viagens de autocarro. Sinais da actualidade do tema, do extremo realismo da situação e da conotação política que os cineastas gostam de lhe imprimir.

Ainda assim e se bem que o trabalho da dupla é por demais evidente e coerente com os seus anteriores trabalhos, o filme é sobretudo o desempenho de Marion Cotillard. A narrativa ganha um contorno sequencial, linear, mas praticamente episódico: em dois dias e uma noite, a personagem percorre todos os trabalhadores da fábrica como forma de luta pelo seu posto de trabalho. Uma situação perversa e moralmente controversa: como convencer pessoas que vivem no limite a abdicar de um bónus que lhes permitirá viver ligeiramente melhor em favor do teu próprio posto de trabalho? A câmara dos Dardenne segue Sandra frenética e desesperadamente numa odisseia contemporânea de sobrevivência a uma crise económica e de valores. Uma mulher que nem em si acredita, que viveu uma depressão, que está novamente à beira de outra (pudera) e que sofre também e precisamente desse estigma de mulher incapaz perante o seu empregador e alguns colegas. Um perigoso pensamento, mas com que o espectador facilmente se identificará sem qualquer problema numa sociedade vítima das novas noções de escravatura e perseguição em busca de uma qualquer eficiência empresarial.

A Sandra de Marion Cotillard é uma das mais belas composições dos últimos anos e que se mescla perfeitamente com a narrativa dos Dardenne. O filme é ela, aquele ímpeto meio desencorajado, no fio da navalha, aquele sprint final do desespero, mas ainda aqueles valores morais de quem tenta recuperar o seu trabalho - porém, não a todo o custo. É por isso que apesar de moral (nunca moralista) e extremamente austero, Dois Dias, Uma Noite consegue ser profundamente emocional e comovente. É pungente e marcante, sobretudo por ser tão real, por ser a nossa vida.


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domingo, 26 de outubro de 2014

Duas Vidas, por Tiago Ramos


Título original: Zwei Leben (2012)
Realização: Georg Maas, Judith Kaufmann
Argumento:  Georg MaasJudith Kaufmann, Christoph Tölle, Ståle Stein Berg
Elenco: Juliane Köhler, Liv Ullmann, Sven Nordin

Ainda que as temáticas da Segunda Guerra Mundial ou a Alemanha Nazi desde há vários anos façam parte de um tema comummente abordado no Cinema (europeu e não só), começa a ser difícil - e devido a essa abordagem frequente - encontrar um produto original o suficiente para não sofrer por comparação. Não que este Duas Vidas seja uma produção francamente original na abordagem, até porque há vários pontos de semelhança com a literatura e filmes de espionagem, mas consegue, tanto na narrativa como na concepção, primar por um olhar distinto. Mesmo que esteja indirectamente ligado ao Holocausto, o argumento pretende estender-se às largas consequências da Segunda Guerra Mundial e da polícia secreta alemã, mas de um ponto de vista mais humano, familiar e singular (foge ainda do universo geográfico exclusivamente alemão para assumir parte da narrativa no seio da comunidade norueguesa.

Ainda o interessante na construção do argumento e na montagem do filme, é que dá-se preferência à informação que se dá ao espectador, em detrimento da que se dá às personagens. Embora não seja um artifício incomum e mesmo que retire algum suspense, permite ao espectador colocar-se na pele da protagonista, assumindo o seu grande complexo moral. Com uma frequente divisão entre passado e presente (com os flashbacks a servirem também para contextualização geopolítica e histórica), o trabalho técnico do director de fotografia retrata-a de uma forma competente, mesmo que mais clássica e usual: as cenas do passado adoptam o grão e saturação extrema, assim como uma câmara à mão, enquanto que as cenas contemporâneas são filmadas com movimentos suaves e ligeira saturação das cores.

Destaque para as interpretações fabulosas de Juliane Köhler e Liv Ullmann, ainda que todo o elenco secundário seja particularmente competente. É o trabalho destes actores que potencia todo ambiente tenso em redor da espionagem e da vida dupla, que remete muitas vezes para as obras de John le Carré, um dos mestres da temática, mas que nunca abdica da componente melodramática e emocional.

Ainda que formalmente rígido e de estrutura clássica, a abordagem da narrativa e o talentoso trabalho do elenco de actores e equipa técnica, fazem deste Duas Vidas um filme que trabalha com competência, mesmo sobre um tema que já evoca alguma saturação na produção cinematográfica. Não esquecendo a sempre bem-vinda distribuição da produção cinematográfica alemã no nosso país, algo que é estranhamente cada vez menos frequentemente.


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quinta-feira, 23 de outubro de 2014

O Quarto Azul, por Tiago Ramos


Título original: La chambre bleue (2014)
Realização: Mathieu Amalric
Argumento: Mathieu Amalric, Stéphanie Cléau
Elenco: Mathieu Amalric, Léa Drucker, Stéphanie Cléau

O azul do quarto que dá nome ao filme e que inicia o espectador no thriller sinuoso e intrigante é o mesmo do tribunal que percorre e termina a narrativa. E pela cor fria que é, também Mathieu Amalric regressa à realização com um lado cerebral bem mais acentuado que na sua anterior longa-metragem, Tournée (2010). A visão que o realizador nos traz é também ela bem fria, optando por uma narrativa desfragmentada - que apesar de comum no Cinema, aqui consegue manter o interesse do espectador - e despojada de grandes artifícios. O Quarto Azul é pois, por isso, um filme de actores (principalmente Mathieu AmalricStéphanie Cléau) como amantes intensos obsessivos, que tentam perceber até onde vai o Amor.

Apesar da secura e racionalidade que percorre toda a narrativa, a visão de Mathieu Amalric não abdica da atmosfera intensa, que aposta nos cenários e nos olhares distintos das personagens (com um tom a evocar, por vezes, o Cinema de Hitchcock), como forma de prolongar o mistério. O realizador recupera também uma tendência sua: a de seguir protagonistas masculinos aprisionados num universo feminino; sensação esta de armadilha que o uso do Academy ratio reforça. É como se as personagens pressentissem os limites curtos do ecrã e como tal se sintam encurralados e forçados a agir. É por isso que a paixão dos dois não se consegue conter naquele quarto azul: é grande demais para não se expandir.

Ainda que simplista e de certa forma básico na sua estrutura, a verdade é que o filme funciona exactamente como é e está. Tenso, misterioso e atmosférico, O Quarto Azul aproveita bem o cenário e a luz, para dar continuidade à narrativa para além do papel, mantendo-nos a nós espectadores reféns daquela paixão tóxica.


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sexta-feira, 18 de julho de 2014

Ida, por Tiago Ramos


Título original: Ida (2013)

Em Ida, as personagens deambulam, falam e param nas extremidades da tela. (Quase) sempre cortadas pouco acima do pescoço, com muito espaço vazio acima do rosto, isoladas no plano, expressando o isolamento e a sua escala ínfima perante a paisagem ou as marcas do tempo de guerra. E o filme é muito sobre isso: a presença do ser humano (e especificamente daquelas duas belíssimas personagens femininas, tão contrastantes entre si), a sua busca por uma resposta, a vivência das memórias perante a História, por mais devastadora que ela seja. É um filme sobre a nostalgia, a perda e a dor de um passado que deixa marcas - aqui sobre os fantasmas de uma Polónia após a queda de Hitler.

Filmado em Academy ratio e num suave preto e branco, a direcção de fotografia nada deixa indiferente, nem nada está ali por acaso. É o registo de um período histórico, mas sobretudo de um grande peso emocional naquelas personagens complexas (soberbas interpretações de Agata Kulesza e Agata Trzebuchowska). É a história de duas visões tão opostas do mundo e o efeito que elas têm nas suas vidas: é o contraste entre a inocência e a paz e a dor e a inexistência de um propósito. É a história da libertação através das experiências da vida, um misto entre road movie e coming of age, no olhar da personagem homónima ao filme. Wanda tenta introduzir Ida ao mundo secular: «Como podes viver uma vida de sacríficio, se não sabes o que sacrificas?». A sua descoberta está dependente do seu confronto com o passado da sua família, explorando assim o esqueleto no armário do próprio realizador e da própria Polónia. Mas mais que essas dores históricas, o filme - um dos mais elegantes dos últimos tempos - traz a visão de um realizador, evocando por vezes um cinema de Béla Tarr, que opta por não dar respostas (elas existem, mas apenas nos múltiplos olhares do espectador), preferindo dar entoação e ênfase ao rosto e acções das suas personagens.

Aparentemente de narrativa simples, Ida traz a complexidade no olhar das actrizes, nas composições belíssimas que cria, na forma profundamente genuína e calma com que lida com um passado de terror. Um dos mais elegantes filmes dos últimos anos, Ida é um portento, um fantasma que teima em assombrar, mesmo dias depois.


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segunda-feira, 31 de março de 2014

Semana em Crítica - 6 de Março

Lições de Harmonia (2013), de 


História de desadequação de um rapaz à sua escola, da perseguição de que é alvo e da resposta violenta que lhe dá. Retrato de um Cazaquistão dividido em duas realidades que ali se tocam. A escola é a fronteira onde alunos vindos da vida dura das quintas se juntam aos que já sonham com a vida burguesa da cidade. Tal como é a fronteira entre as partidas infantis e a violência adulta de uma máfia organizada. Um inevitável ponto de eclosão de acções e consequências, todas gravosas e todas colocando em causa a estratificação mais óbvia - a inteligência como resultado dos meios de origem - daqueles jovens personagens. O último terço do filme, por isolar o protagonista num mundo exclusivamente adulto, não mantém a força do que foi o filme até aí, acabando por recorrer a alegorias para uma afirmação final que não lhe parece pertencer. Mas o resultado deste primeiro filme de Emir Baigazin merece ser visto. Uma estrelaUma estrelaUma estrela½ Carlos Antunes



Primária (2013), de Hugo Pedro


Uma observação dos últimos momentos de descontração e dos primeiros vislumbres de adversidade na vida de crianças portuguesas que se preparam para os exames da quarta classe. O filme é feito de um acompanhamento silencioso, uma presença que não afecta o jorrar de emoções. A capacidade de escolha dos "protagonistas" mais emotivos e de presença impositiva é o trunfo de Hugo Pedro para resgatar a curta à sua falta de noção de como intervir - sobre o material e não no contexto filmado - para além de esperar que a turma filmada faça acontecer algo relevante e, logo, cinematográfico. A curta tem um contraponto interessante para a feroz transição para a idade adulta de Lições de Harmonia, acabando por funcionar melhor assim apresentada do que aconteceria a solo. Uma estrelaUma estrelaUma estrela½ Carlos Antunes



Fim-de-semana em Paris (2013), de 


A ideia de comédia romântica com um casal rabugento vem do trailer e não prepara o público para a mudança de tom com que o filme aborda o drama da transformação do casamento numa formça de ressentimento não silenciado. A profundidade não filtrada do olhar sobre a vida tardia deste casal mostra uma seriedade no tratamento de um tema que costuma estar afastado do ecrã e que neste caso particular se encontra pequenos laivos de esperança na memória do próprio cinema: Paris como o palco de correrias e danças pertencentes a uma outra geração e uma outra mentalidade com que sonharam mas nunca alcançaram, as de Bande à part. Só a necessidade de tornar evidente a citação, passando o filme de Godard num televisor de hotel, esmorece de forma ligeira o entusiamo com que se vê esta complexa forma de elementos ganhar vida através das magníficas interpretações de Jim Broadbent e Lindsay Duncan. Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela Carlos Antunes



Um Novo Fôlego (2013), de 


A adolescente que entra na vida estável de uma família dos subúrbios para a perturbar é uma história vista e revista que exige alguma novidade para que a estreia de mais uma versão. O mais perto que o filme chega de tal novidade é a utilização da música como substituto de um trabalho mais profundo de escrita sobre os personagens e as ramificações das suas acções. Mas sem a coragem de levar a música a ser o corpo central das relações e de como estas se expressam, parece apenas que ela está lá a encher os muitos tempos vazios. Ficam apenas notas positivas para Guy Pearce e Amy Ryan, que dão uma interpretação respeitosa apesar dos defeitos do filme, bem como para uma Felicity Jones que parece ser capaz de dar muito mais quando lhe derem um papel devidamente exigente. Uma estrelaUma estrela Carlos Antunes



300: O Início de um Império (2014), de 


A apreciação de 300: Rise of an Empire depende em grande parte da satisfação com o original pois principais elementos visuais são os mesmos nesta história que se passa em paralelo com a dos 300 Espartanos. Não havendo o carisma que Gerard Butler impôs há as cenas entre Sullivan Stapleton e Eva Green que são o melhor deste filme (e de ambos). Não havendo as lutas corpo a corpo há os variados confrontos tácticos. Se este fica a perder para o outro é por ter uma história menos focada (Frank Miller ainda não concluiu a BD dedicada a Xerxes...) e alguns efeitos especiais - as cenas de barcos - de qualidade menor. Material para satisfazer que já estava convencido com 300Uma estrelaUma estrela Carlos Antunes



O Céu Sobre os Ombros (2011), de Sérgio Borges


O acompanhamento da câmara a pessoas com vidas bipolarizadas - uma prostituta transexual e ensaísta académica, um membro do Hare Krishna que também é membro de uma claque de futebol e um artista suicida que quer dar um futuro ao seu filho deficiente - acabará sempre por encontrar momentos de uma pungente intimidade. Sobretudo se esses momentos forem orientados por uma intrusão de ficção no documentário. Sem saber onde está a fronteira entre documentário e ficção, todo o filme acaba por se parecer com uma farsa da qual porque essa intimidade não se sabe se é real ou projectada, acabando-se por rejeitá-la. Sobretudo porque o acompanhamento da câmara aos personagens não corre qualquer risco e o filme não consegue demonstrar que a mescla de documentário e ficção possa alcançar um todo representativo de algo mais do que o próprio grupo de pessoas a braços com problemas "existenciais". Uma estrelaUma estrela Carlos Antunes