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domingo, 9 de maio de 2021

Godzilla vs. Kong, por Eduardo Antunes


Título originalGodzilla vs. Kong (2021)
Realização: Adam Wingard
ArgumentoTerry RossioMichael DoughertyZach ShieldsEric PearsonMax Borenstein
Elenco: Kaylee Hottle, Rebecca Hall, Alexander Skarsgård, Brian Tyree Henry, Millie Bobby Brown, Demián Bichir, Eiza González, Julian Dennison, Kyle Chandler, Shun Oguri
 
Este seria a recomendação indicada para regressar às salas de cinema, num aproveitamento da escala do conflito patente no título que, de outra forma, não seria tão bem experienciada. E no entanto, prefiro resistir à recomendação de assistir a este filme, seja de que forma for, já que a apreciação por parte do público está dependente da sua aceitação do restante deambular por idióticas situações e personagens.

sábado, 19 de dezembro de 2020

Mulher Maravilha 1984, por Eduardo Antunes


Título original: Wonder Woman 1984 (2020)
Realização: Patty Jenkins
Argumento: Geoff Johns, Patty Jenkins, Dave Callaham
ElencoGal GadotChris PinePedro PascalKristen WiigConnie NielsenRobin Wright
 
É com bastante desapontamento que vejo esta sequela, para lá das boas intenções que guiam a mensagem pretendida para lá dos créditos, não utilizar o potencial que apresentara previamente com a sua inspiradora protagonista, antes deixando-se cair numa confusão de antigas referências, personagens não desenvolvidas e, pior, uma protagonista completamente descaracterizada e distante do seu interesse original.

terça-feira, 21 de janeiro de 2020

Star Wars: Episódio IX - A Ascensão de Skywalker, por Eduardo Antunes


Realização: J.J. Abrams
Argumento: Chris Terrio, J.J. Abrams, Derek Connolly, Colin Trevorrow

Este filme é um produto da sociedade fanática em que surge e a qual serve, sendo o seu público na verdade o único culpado pelo resultado. O desapontamento generalizado e crescentemente verbalizado face as expectativas criadas para com o empreendimento anterior, levaram a máquina corporativa que infelizmente consumiu este outrora produto arriscado a procurar responder ao e com o previsível, proporcionando resultados ainda piores que o expectável.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

Velocidade Furiosa: Hobbs & Shaw, por Eduardo Antunes

https://splitscreen-blog.blogspot.com/2019/07/velocidade-furiosa-hobbs-shaw-por.html

Título originalFast & Furious Presents: Hobbs & Shaw (2019)
RealizaçãoDavid Leitch
ArgumentoChris MorganDrew Pearce

A excentricidade nas sequências de acção de hoje em dia, aparentemente necessária para pedir a atenção do público, cada vez deixa menos margem de manobra para alguma inventividade nas mesmas, caindo num espectáculo de efeitos especiais que, muitas das vezes, parecem inacabados e quebram a possível imersão nessa realidade, mesmo que exagerada. E nem uma dinâmica entre personalidades de bom calibre salva a falta de controlo que claramente falha ao realizador nas sequências de grande escala deste filme.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

A Hora Mais Negra, por Carlos Antunes



Título original: Darkest Hour
Realização: Joe Wright
Argumento: Anthony McCarten
Elenco: Gary Oldman, Kristin Scott ThomasBen Mendelsohn


Gary Oldman não necessita de confirmação estatuária para o seu percurso de perfomances extraordinárias. A acontecer, teria até sido mais elegante dar-lhe há seis anos atrás, quando a Academia não lhe opôs ninguém à altura do seu George Smiley.
O seu Winston Churchill deverá sair premiado apesar disso pois são estas construções que dão mais prazer a quem vota nos Oscars, o desaparecimento do actor no interior de uma figura pública. Sobretudo quando há materiais através dos quais comparar o original à sua reprodução.
Merecerá o prémio. Oldman deleita-se com a oportunidade de fazer de Churchill. Não pelo político larger-than-life recordado mas pelo homem pleno de teimosias e caprichos com que ele pode dar verve ao papel.
Este é o tipo de interpretação que "faz" um filme por si só. Apenas quando o filme não está a combatê-la cena a cena.
Devia ser Anthony McCarten a proporcionar cenas onde Churchill encontrasse matéria para se afirmar, pela personalidade vincada que Oldman faz sobressair, como o grande estadista que ousou defender uma posição mesmo quando esta era minoritária entre os seus colegas e divisiva para o país.
O argumento devia destacar-lhe a força de actuação e não contradizê-la como na já famosa - e ridícula ao máximo! - cena do metropolitano em que Churchill vai tomar o pulso à vox populi para saber como actuar.
Apagar a crença que Churchill tinha de saber responder ao que o Reino Unido precisava e não ao que queria apenas para culminar o filme com uma cena sentimentalista é um erro gigantesco para um filme que quer ser condigno com a História.
Como o é a personagem de Elizabeth Layton, bengala para que a composição de Churchill progrida no sentido de se tornar tocante. Como se fosse necessário nutrir carinho por Churchill para admirar a sua actuação ao longo daquele mês.
Havia, isso sim, de lhe ter sido dado um adversário digno de nota, para ser arrumado de forma virulenta. Ainda que a comicidade de um "importa-se de parar de me interromper quando o estou a interromper a si" seja parte daquilo com que Oldman se diverte a ser Churchill.
Em cima disso vem Joe Wright combater Oldman pelo destaque maior de cada cena, afirmando um discurso descoordenado com a interpretação, mas que lhe permite mostrar os seus dotes de executante.
A sua composição cénica é mais uma vez teatral, sempre dependente de um foco de luz que, mesmo quando pretende representar a luz natural grita com falsidade.
Churchill é a luz no meio das trevas. Isto quando não está claustrofobicamente enclausurado por elas.
Ou quando não é o único rosto lúcido por entre os alertas vermelhos que engolem o seu país... A menos que essa luzes vermelhas sejam já o anúncio do inferno que só ele prevê.
As metáforas de Wright permitem quase todas as interpretações dentro daqueles lugares-comuns que se têm de aplicar a Churchill.
Não permitem que se sinta vida nas cenas, cada vez mais estruturas isoladas entre si. Se antes Wright fazia uma cena de alto valor (artístico) acrescentado por filme que não se ligava com o restante que ele filmava, agora parece convencido a fazê-lo em todas as cenas. O resultado é cansativo, nada mais.
Argumento pífio e realização presunçosa. Muitas vezes contradizendo-se entre si e criando a confusão sobre o que o filme alguma vez pretendeu ser.
Admirável é que a interpretação de Oldman seja entretida e envolvente dentro de um filme que nunca vem em seu auxílio. (Só por isso Oldman vai merecendo a estatueta que no início se refere.)
Tenderá a ver-se nisso a forma de melhor expressar a isolada grandiosidade da figura de Churchill. A execução do filme como a expressão imprevista do que este queria dizer e não conseguiu.




segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Mudbound - As Lamas do Mississípi, por Carlos Antunes



Título original: Mudbound
Realização: Dee Rees
Argumento: Virgil WilliamsDee Rees
Elenco: Carey MulliganGarrett HedlundJason Clarke, Mary J. Blige


A necessidade de expressar os paralelos e as contradições entre famílias brancas e negras da classe mais pobre na América interior continua a ser premente neste início do século XXI, como a situação política bem demonstra.
Entende-se a aspiração a abordar os anos 1930 e 40 na forma de um épico que ressoe na consciência da actualidade.
Um épico que atravessa a Grande Depressão e a II Guerra Mundial apontado a um sentido de intimidade que possa tocar o público.
Daí o foco na amizade entre dois heróis de guerra tratados de forma oposta no seu regresso a casa. Amizade que contradiz o histórico entre as suas duas famílias e as regras sociais do Mississípi.
O traçado de um drama antigo e que continuará, será inevitável, a ser comum. Aqui focado em dois homens que ajudam a trazer para diante dois grandes temas, o stresse pós-traumático e o racismo - sobretudo este!
Ousar um discurso sobre tais temas por via de um microcosmos assim estreitado traz um perigo, resvalar para o melodrama restrito daqueles personagens.
A ele sucumbe o filme, um longo melodrama pincelado pelos acontecimentos que lhe dão um Tempo, sem o imergir na sua representação.
Sente-se que, em parte, o problema vem da vontade de falar do Presente por via do Passado e, assim, não poder Dee Rees arriscar que uma recriação intensa daquele mundo se sobreponha ao entendimento da sua palestra.
Culpa maior vem da construção dos personagens, todos eles transformados em marcos para dar forma ao melodrama e para marcar o fundo cultural da história.
O soldado negro regressado que perde a dignidade e o reconhecimento que vivera na Europa. O soldado regressado que se embebeda para esquecer os horrores da morte e é olhado como um fraco. A mulher inteligente reduzida a ser apêndice da vontade do marido. O homem determinado que faz face às dificuldades pela casmurrice e a força de braços. O velho racista que nem perante a evidência da sua pobreza perde a sua arrogância. O pai negro que acredita em resgatar a família àquela sociedade por via da obediência e do trabalho.
Serão identidades verdadeiras e abundantes daqueles anos, mas são lugares-comuns da ficção. Sobretudo se não lhes são dadas cenas onde as suas linhas definidoras possam mostrar as suas matizes ou os seus extremos.
Os actores estão no filme sem que alguma exigência lhes seja feita. Por isso se nota que, mesmo havendo quem sinta os temas, nada consegue entregar ao filme.
Dee Rees trata-os como trata os cenários, elementos de sinalização sem uma identidade a contribuir para a construção da obra. Mesmo as lamas não metafóricas do título são raras e pouco convincentes como símbolo da captura que todas as personagens sentem naquele estado americano.
Aquilo em que tudo se afunda é a narração omnipresente com que a realizadora tenta dar gravitas ao filme e que trai as suas origens livrescas. A nomeação ao Oscar de Melhor Argumento Adaptado é pouco menos que um absurdo.
Aquelas décadas continuam a ter ensinamentos a prestar à população americana - "branca" - para que, hoje, deixe de reforçar um século de conflitos nascidos de uma desigualdade que nunca parece ter existido.
Não será, decerto, este filme a conseguir fazê-lo, incapaz de se elevar da lama formada pela combinação da historieta central com a transversal negação de uma identidade aos nela envolvidos.




quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

O Paradoxo Cloverfield, por Eduardo Antunes

https://splitscreen-blog.blogspot.com/2018/02/o-paradoxo-cloverfield-por-eduardo.html

Título original: The Cloverfield Paradox (2018)
RealizaçãoJulius Onah
ArgumentoOren UzielDoug Jung

A grande pergunta com que saímos da visualização de The Cloverfield Paradox é se, em qualquer circunstância, poderiam a mera promessa de atar as pontas soltas de um franchise que ninguém pediu, e a falta de pagamento de uma taxa de entrada numa sala de cinema, ser suficientes para valer o esforço de gastar o nosso tempo num tal empreendimento sem qualquer recompensa.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Liga da Justiça, por Eduardo Antunes

https://splitscreen-blog.blogspot.com/2017/11/liga-da-justica-por-eduardo-antunes.html

Título original: Justice League (2017)
Realização: Zack Snyder
ArgumentoChris Terrio, Joss Whedon, Zack Snyder

Depois do sucesso crítico de Wonder Woman, ficou claro que a fórmula pela qual os filmes da DC se regiam e a direcção geral que Zack Snyder pretendia injectar nestas narrativas, estavam necessitadas de uma revisão. E por muito que este Justice League tente revitalizar o tom deprimente em que Batman v Superman insistia, a volta é tão grande que acaba por falhar em quase tudo.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Transformers: O Último Cavaleiro, por Eduardo Antunes


Título original: Transformers: The Last Knight (2017)
RealizaçãoMichael Bay

Se recentemente Pain & Gain mostrou alguma coisa é de que Michael Bay não tem receio em abordar outros géneros e histórias fora da sua zona aparente de conforto, com sucesso patente. Mas o dinheiro certamente falará mais alto para Michael Bay, e assim aqui regressa ele, sem grande investimento extra posto na sua própria realização, para mais um filme de Transformers cheio de acção mas sem emoção que a alimente.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Bem-Vindos... Mas Não Muito, por Carlos Antunes



Título original: Le grand partage
Realização: 
Argumento: 
Elenco: 


Aceita-se que a comédia parta de um pressuposto mal engendrado quando quer ser crítica da sociedade contemporânea. O problema está em que nem com a quebra das regras de lógica política Bem-Vindos... Mas Não Muito consegue ter algo a dizer.
O filme assenta em clichés gastos que devem estar mais perto de um mito do que uma verdadeira memória da vida em Paris. Veja-se aqueles que terão de aceder a receber em sua casa algumas pessoas durante o Inverno.
O casal burguês, naturalmente de "direita", que dorme em quartos separados e tem uma empregada de origem africana, que despreza de tal maneira a nova lei do governo que vai buscar a velha mãe ao lar para onde foi desterrada.
O casal de esquerda, de ideas vanguardistas até na decoração da casa, mas que na hora da verdade mostram o seu pouco comprometimento com o que defendem.
O homossexual solitário que tomou conta da mãe toda a vida e está agora desejo de ter alguém em casa com quem passar um pouco de tempo.
Há ainda uma porteira que teme os emigrantes e certamente vota em Marine Le Pen (porque já não pode votar no pai) mais um casal de velhos em que ele só quer ter sossego enquanto ela passa o tempo a bisbilhotar a vida dos vizinhos e a rabujar.
Se isto é o retrato do universo que constitui um prédio de um dos mais chiques arrondissements parisienses, nem para se safar ao frio haveria quem lá quisesse ir parar!
Para os personagens o cliché não é o pior que lhes está reservado. Eles são fantoches de uma contínua mudança de mentalidade que impossibilita qualquer consistência.
Nenhum dos personagens é no final aquilo que era no início. E muito menos aquilo que foi de permeio.
Não porque sejam transformados por contacto humano de cinco minutos que só no cinema muda as crenças mais duradouras, mas porque as decisões contraditórias têm de acontecer pela mão dos mesmos intervenientes ou não haveria maneira do filme continuar.
Uma excepção, a porteira. Ela, entretanto, descobriu o prazer de ter um amante africano, que em tamanho é "tal e qual como dizem". Ela faz tão pouco no filme que tiveram de lhe dar a piada final - e umas rastas! - para que chegasse a ser uma memória.
O que é mais do que o casal idoso, que poderiam ser denominados como o casal Not-Appearing-In-This-Film se os Monty Python fossem para aqui chamados!
Isto está longe de querer dizer que o filme termina com aquela nota de esperança de que as pessoas melhoram o seu carácter e vivem de forma comunitária.
Contrariamente ao que o filme ameaçou durante a sua duração, no final ninguém quer gastar o seu tempo com a conversa dos vizinhos ou sequer parece ter para eles uma atitude diferente do desprezo inicial. No final apenas o transformaram em conversa de circunstância.
Não havendo imaginação, nem personagens, nem consistência, houvessem ao menos piadas que funcionassem. Não há e não vale a pena dizer mais nada sobre o assunto.
Sem talento nem como argumentista nem como realizadora, não se compreender como Alexandra Leclère reune o bom elenco que aqui se vê ou como supera um milhão de espectadores em França.
Um país conhecido pela sua militância política tem de reflectir quando esta visão grosseira de si próprio apela a tantas pessoas.




quarta-feira, 1 de julho de 2015

Ted 2, por Carlos Antunes



Título original: Ted 2
Reaização: 
Argumento: Alec SulkinWellesley Wild
Elenco: 


Ted foi uma surpresa como o buddy film que não obedecia  a regras e que tinha um carismático protagonista cuja origem digital era esquecida em segundos.
Depois veio o falhanço (absoluto) de A Million Ways to Die in the West e uma demonstração de que o género de humor de Seth MacFarlane não se adapta à exigência de longa-metragem estruturada.
Ted 2 vem confirmar que perante a necessidade de um foco o estilo de Seth MacFarlane estraga o efeito global e apaga até o carisma do personagem que era o essencial do primeiro filme.
Com menos meia hora, que levasse consigo todo aquele humor que faz nascer pequenas linhas narrativas cuja única consequência é uma punch line, poderia este filme ser uma fábula curiosa sobre a identidade humana através de um personagem
Entre um melodrama de um casamento a correr mal ou a historieta infantil do roubo de Ted para o tornar num boneco à escala global, o filme vai-se desconjuntando, afastando-se cada vez mais daquele combate simples em que um peluche que ganhou vida deve provar a sua relevância ao mundo.
Ted vai perdendo o carisma porque não evolui e deixa de ser um personagem para ser o boneco de ventríloquo do seu criador e dependente das circunstâncias para fazer valer a sua suposta personalidade cómica.
Que tenha a seu lado um Mark Wahlberg que já se nota ser velho demais para o personagem que interpreta, fazendo do filme uma paródia de si próprio, e uma Amanda Seyfried que parece pouco talhada para a comédia (de certeza que é a mesma actriz que vimos em While We're Young?), mesmo se prejudicada por um papel escrito como a mais inverosímil e irritante alienação da cultura popular já vista, só ajuda a que Ted se torne num incómodo que não fora à primeira.
São três moldes de personagens que servem de escape a uma única voz de comédia. Um filme monótono até nesse aspecto.
Levados pelo humor derivativo de Seth MacFarlane percebemos, em definitivo, ele só funciona mesmo em formatos curtos.
Por lá, mesmo das vezes em que falha, as consequências são quase nulas. Numa sala de cinema onde se exige um pouco mais o falhanço só se acumula.
Mesmo sem uma narrativa que justifique o tempo gasto, Seth MacFarlane faz pior e prova que não tem sentido de ritmo que impulsione o filme. Nem sentido de timing!
De tal forma que o realizador faz uma piada com Liam Neeson, ainda no início do filme, que fica em aberto. Quando a tirada final finalmente surge, é necessário ter visto a totalidade dos créditos finais.
Por altura deles começarem já ninguém se lembrava da piada e a prova é que quando a sua (parca, senão mesmo nula) recompensa chegou mais ninguém estava na sala a meu lado.
Mas se o humor de MacFarlane não parece ter funcionado para a ideia de filme, pelo contrário a ideia de ser um filme parece ter passado para MacFarlane que faz por enviar o público de volta a casa com um sorriso mais "limpo".
O final do filme diz que MacFarlane teve de render o seu arrojo à convenção. Depois de termos visto Wahlberg coberto de sémen, somos escudados de lhe ver ser atirado uma fralda com cocó.
A meio do filme o realizador pode ser nojento porque ainda muito virá que o fará esquecer, no final não o pode fazer. Ou não o deixam. Seja como for, é o seu falhanço como comediante.
Uma pena que se conclua por essa rendição que torna o resto mais inóquo do que ele quer fazer crer que é quando o único bom momento do filme é uma cena - totalmente inútil à história, obviamente - que faz pensar na discussão dos limites do humor em The Aristocrats.
Ted e John vão a um clube de comédia de improviso e quando lhes pedem sugestões de pessoas, eventos e locais eles respondem (entre outras) com Hitler, 11 de Setembro e o cockpit da Germanwings.
O primeiro filme de Ted terá sido o grande acaso sustentado por uma disposição para descobrir o urso de peluche que ganhava vida. Quando foi preciso construir sobre isso, Seth MacFarlane mostrou que o seu humor tem mais valor de choque do que espicaçante eficácia.




quarta-feira, 8 de abril de 2015

Coração de Leão, por Carlos Antunes



Título original: Leijonasydän
Realização: 
Argumento: 
Elenco: 


Não é apenas o inferno que está preenchido com boas intenções. Coração de Leão vem encher o cinema com mais um pouco delas.
Aqui a de demonstrar que o amor pode tudo, até converter o mais convicto dos nacionalistas Finlandeses, líder de um grupo neo-nazi violento.
Trata-se de parolismo e não de ingenuidade aquilo que guia o filme e que exige que se acredite não só no pressuposto acima mas que uma mulher com um filho mulato dá uma ansiosa segunda oportunidade a um racista por conta de um amor à primeira vista.
Se ela estava crente em que o conseguiria moldar para ser o pai ideal para o seu filho não sabemos pois a caracterização dela termina em "bela mãe solteira a lutar como empregada de mesa para sustentar um filho".
Que o pai do miúdo tenha dinheiro suficiente para um carro topo de gama parece não ter qualquer ligação à construção desta personagem. Não que isso interesse, pois ela vai permanecer desaparecida durante a maioria do que se segue...
O que se segue é Teppo a passar o tempo a tomar conta do filho da mulher que ama enquanto o tenta esconder do grupo que lidera.
Rhamadhani vai tentar provocá-lo primeiro e matá-lo depois. Quando essa estratégia coloca em risco a própria mãe, entretanto grávida, uma trégua é estabelecida entre ambos e a relação torna-se mesmo de confiança quando Teppo defende Rhamadhani de uns bullies.
Antes que o filme se possa transformar no espectro de como se desenvolve uma relação entre dois "inimigos" agora dispostos a encontrarem terreno comum devido aos laços que os unem a uma mesma mulher eis que, qual telenovela a precisar de ser apimentada, o irmão de Teppo e o pai de Rhamadhani se cruzam.
O primeiro é um racista ainda mais convicto do que o irmão que desertou porque o exército não se manteve puro. O segundo é um bem sucedido empresário de ascendência africana que alcançou um posto de relevo no exército antes de se mudar para a Suécia.
A cena serve para demonstrar - em resumo acelerado - a inversão do lugar-comum no confronto entre estratos sociais, graus de inteligência e capacidades para o sucesso, todas elas com resultados desfavoráveis para o racista.
Interpretado por Jasper Pääkkönen que deixa boas impressões apesar - ou por causa?- de um papel demasiado esquemático, esse racista tem um diálogo que deixa a ideia de ser o seu ódio um mecanismo de defesa contra a própria filiação não totalmente ariana, o que o tornaria num tema mais interessante do que o próprio irmão.
Só que esse é mais um elemento lançado para o molho da confusão moralista do filme e que é logo resolvido à lei da bomba para não ter de ser desenvolvido mais.
Se as restantes interpretações fossem mais do que aceitáveis - e não são! - poderia ser que o filme assomasse com alguma dignidade entre tantos lugares-comuns mal desenvolvidos.
Pelo contrário, o filme termina com um acto final de boa vontade para com Teppo da parte do gangue que pouco antes rejeitara o líder.
Num final acto de fraternidade eles usam uma lixa eléctrica para lhe proporcionar uma vida sem o peso dos seus antigos pecados, arrancando-lhe do peito a tatuagem do Leão da Finlândia.
O final exactamente contrário ao de Inglourious Basterds, que é ainda mais difícil de engolir do que tudo o resto até aí impingido.
Fosse este filme uma produção televisiva portuguesa ou americana e não haveria pejo em classificá-lo como risível. Como se trata de uma produção Finlandesa com honras de estreia em sala talvez houvesse hesitação em condená-lo com a severidade que merece.
Não deve o público deixar-se enganar por um produto tão medíocre que nem mostra esforço mínimo para ter um momento de originalidade, um traço de desafio moral ou sequer um foco.




sábado, 16 de agosto de 2014

Os Mercenários 3, por Carlos Antunes



Título original: The Expendables 3
Realização: 


Trata-se de um absurdo que um filme como The Expendables 3, um filme "de tiros" sem história para mais de uma linha, tenha mais de duas horas de duração.
Ao terceiro filme o que era para ter sido uma temporária reunião revivalista com alguma auto-consciência e ironia (sobretudo no segundo filme) passou a um conjunto de filmes que se começam a levar a sério.
Tão a sério que já vimos Stallone e Schwarzenegger regressarem a solo em filmes de acção para os quais, realmente, já não têm idade - mesmo que se mantenham em forma, a nossa noção dos anos que passaram custam-lhes a credibilidade.
Vemos isso também neste filme em que os duplos de Wesley Snipes e Antonio Banderas surgem - muito mal disfarçados - a fazer acrobacias e Parkour.
Não há nenhum efeito de ilusão criado nesses momentos e a única conclusão é que estamos perante um filme de acção igual a tantos outros mas em que os protagonistas não podem fazer-nos fingir acreditar no que vemos.
Fossem essas cenas interessantes e poderíamos tolerar a incredibilidade plenos de adrenalina machista - há uma personagem feminina entre os Mercenários que pouco conta - acumulada há 30 anos. Não o são.
Depois de ter realizado o primeiro destes filmes, Sylvester Stallone deu o comando do segundo filme a um realizador com algum talento - Simon West, vindo de The Mechanic, mas que curiosamente não se reergueu desde servir esta "saga" - para agora chamar um Patrick Hughes que não parece ter olho para este género, nem uma amostra cinematográfica que justifique a escolha.
Aborrecidas e limitadas, assim são as cenas de acção na mão deste realizador que deixa a clara impressão de que se deve ter medo por o remake the The Raid já estar a si atribuído.
Seria até simples tornar o filme um pouco menos mau deixando-o ser um pouco mais escorreito, uma forma de aumentar a tolerância do público se não o seu apreço.
Bastaria ter cortado todo aquele ridículo bloco durante o qual Stallone se dedica a juntar uma equipa de miúdos para o assistir depois de ter afastado os seus velhos parceiros porque não quer ser responsável pelas suas mortes.
O tempo perdido aí, para que eles acabem raptados pouco depois e os velhos tenham de os ir salvar, torna tudo intolerável porque nem sequer são os protagonistas esperados a receberem tempo de ecrã e amedontra-nos com a ideia de que Stallone esteve a lançar as bases de um grupo mais novo que poderá prolongar este título indefinidamente.
Das novas chamadas entre os velhos actores há pouco a dizer. Banderas tem um ou outro momento de graça degladiando a memória de Zorro. Snipes recuperado depois de três anos de prisão merecia um pouco mais por ser melhor do que a maioria. Ford faz uma perninha, pouco mais do que um cameo, sem falas realmente interessantes.
Sobra Mel Gibson, dos poucos com verdadeiro talento e com tempo para o mostrar. Ou melhor, para transformar uma caricatura num vilão.
Tal como Snipes teve o seu momento negro mas para o ver fazer o que faz aqui sem nenhuma esforço vale a pena apagar a memória dos seus problemas.
Só que Mel Gibson está no meio de um mar (de chamas?) de conveniência, previsibilidade, clichés e ridículo.
Tendo sido dos menos tolerantes com o regresso de Stallone e uma série de parceiros que escolheu, não deixei - por motivos mais ou menos casuais - de acompanhar o progesso de The Expendables para The Expendables 2.
Espero que este terceiro segmento deste cinema de acção para reformados seja o ponto final neste revivalismo, mas será certamente o último a que eu darei atenção - e julgo que também assim será com a generalidade do público.




domingo, 8 de junho de 2014

Grace de Mónaco, por Carlos Antunes


Título original: Grace of Monaco

A ideia de que Grace Kelly ao tornar-se Grace do Mónaco teve de continuar a ser uma actriz em palcos diferentes não é rejeitada pelo público como parte importante de um carácter mais amplo.
Que essa ideia seja o traço maior - quase único - da personalidade de uma mulher que marcou o século XX e que continua no imaginário global até hoje já o é. Sobretudo da maneira como essa ideia é forçada sobre público.
Esperar que um episódio isolado defina uma personagem - e uma personagem real, ainda para mais - na sua natural complexidade é um exercício fútil que fica a cargo dos criadores do filme e não do público.
A ânsia de voltar a actuar manifesta-se em Grace Kelly quando Hitchcock lhe oferece o papel em Marnie, num momento em que uma crise política evidencia o afastamento que se criou entre ela e Rainier, o que a tornou numa mulher negligenciada e infeliz.
O filme poderia ter aproveitado para reflectir na mais dura das realidades, que até uma mulher de extraordinária beleza e talento, uma mulher que se tornou Princesa, sofre o mesmo drama mundano de todos os outros casamentos.
Em vez disso, limita-se a afirmar que, contra esse desejo, o Amor fala mais alto e inspira nela um o Sentido de Estado que interrompe o projecto apenas para que se revele que a sua performance maior haveria de ser a de Princesa.
Um conto de fadas dentro do conto de fadas. O amor tudo conquista... excepto o público.
O público já apresentava desconfiança da hipótese de ser olhado como limitado na sua relação com a história e vai vendo esta confirmada a cada cena do filme.
De todas as abordagens que poderiam ser usadas pelo filme, esta em que os problemas só podem desaguar num final feliz é a mais insignificante.
A Grace Kelly do filme tenta assegurar o filme e garantir o restauro de um hospital. Isto até que descobre uma intriga palaciana e logo se decide a enfrentá-la.
A desesperada mulher que tentava ter algum projecto seu lança-se na vertigem da arte da política e não só salva o marido como salva o país.
Decide-se a ter lições sobre o Mónaco e o seu papel político e no intervalo de uma semana consegue transformar-se na Princesa que o povo crê que ela deve ser. A Princesa que salvará o reino com um plano secreto que comove os líderes de todo o mundo.
A conveniência que deveria ser usada meramente como ferramenta de síntese torna-se na única solução do argumento, reduzindo-o a um simplismo confrangedor.
Só que ainda mais absurdo - e ridículo - é que essa semana de lições de etiqueta , o professor tem a arrogância de tentar ensinar a Grace Kelly o ofício da representação. São cenas de um pretenso simbolismo e que sem subtileza obrigam (ou tentam) o público a engolir o único argumento que o filme tem sobre quem foi Grace Kelly: uma actriz num papel "maior que vida" mas absolutamente real.
A escolha de Olivier Dahan para este filme justifica-se amplamente pelo seu currículo. Já havia tornado ridícula a vida de Edith Piaf e garantido a Marion Cottillard um Oscar por isso, porque não haveria de fazer o mesmo com Grace Kelly e Nicole Kidman?
A sua abordagem é a de envolver a actriz na mais precisa reprodução de época. Tão precisa que transmite quase sempre a sensação de artificialidade. Uma verdadeira casa de bonecas em estilo opulento.
E o seu tratamento da actriz passa por lhe filmar pormenores do rosto (veja-se o poster!) na esperança de que consigamos confundir Nicole Kidman com Grace Kelly - impossível em absoluto.
Olivier Dahan estava, provavelmente, a tentar disfarçar o facto de Nicole Kidman estar a fazer de Nicole Kidman e nada mais...
Mas é irónico que num filme em que Hitchcock recomenda a Grace Kelly que não se deixe ficar demasiado perto do limite do enquadramento essa seja a única das soluções do seu realizador.
A haver algo de menos mau no filme, será Tim Roth, que dá vida a um Príncipe Rainier algo misterioso. Isso se quisermos ver num homem reservado e hesitante uma forma de mistério por desvendar. Caso contrário é mais um papel pouco trabalhado a quem Tim Roth concede o seu enorme talento até disfarçar tal vazio.
Como o vazio é a condição que se estende a todo o filme, apesar das revelações que tenta apresentar, o público pode sair da sala ainda com a garantia de que o mistério de Grace Kelly permanece intacto e que a podemos apreciar cada vez mais por isso.


sexta-feira, 7 de março de 2014

Semana em Crítica - 27 de Fevereiro

Nebraska (2013), de Alexander Payne


Alexander Payne conseguiu, de forma discreta, surpreender o espectador com um filme que, além de um dos melhores da sua carreira, é também aquele que reúne grande parte dos elementos que o caracterizaram ao longo da sua filmografia. Está lá tudo, o desconforto dramático-cómico, a América rural, a comicidade inadvertida e o sentimentalismo melodramático, com uma narrativa que recorda em muitos aspectos, About Schmidt (2002). E esta aparente ligeireza no seu cinema - que transmite na verdade um poderoso e desconcertante sentimento melancólico - é possível muito graças à fotografia a preto e branco, que integra o filme, não como um artifício decorativo, mas sim como um propósito narrativo, mas também à estrondosa colaboração do seu elenco. E não vale a pena falarmos neste poderoso regresso de Bruce Dern num perfeito encaixe entre personagem e actor envelhecido, neste Will Forte dramático como nunca o tínhamos visto ou até nesta improvável e tão deliciosa personagem de June Squibb. Não vale a pena, porque o seu talento é inegável. Mas também porque este retrato de uma América adormecida, de um homem iludido, num misto entre resiliência e coragem, está também estampada nos rostos da grande maioria dos não-actores que pela tela se dão a conhecer. Aqueles rostos, aquelas opiniões, aquelas atitudes, são reais. Daí que Nebraska não seja uma criação narrativa. É um espelho sentido e trágico-comovente de uma realidade. Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela½ Tiago Ramos

Alexander Payne tem mantido um capital de apreço dentro da indústria do cinema e em boa parte do mundo cinéfilo que os seus filmes depois de Election não têm merecido. Os Oscares que ganhou chegaram-lhe no momento em que os seus filmes se mostravam cada vez mais desinteressantes - e, curiosamente, menos bem escritos. Com Nebraska, também por ter servido para o realizador se opôr à indústria, temos finalmente um filme de Payne a confirmar o potencial de há quinze anos atrás. Estamos perante o filme que Payne quis fazer com About Schmidt e conseguiu apenas até certo ponto, um tratado da velhice num meio que costuma escondê-la desde logo deixando de oferecer trabalho aos actores que ultrapassam uma certa barreira etária. Uma velhice que encontra triste sintonia com o desoladmaneto do espaço (e espaço social) em redor, num filme escrito com tanta consciência quanto sensibilidade. Ainda assim, o filme continua a ter uma certa dose de humor menos apropriado ao ambiente do filme, algo que em 1999 era fonte de irreverência e agora é consequência de alguma imaturidade. Nada que deixe marcas significativas numa história tratada com a fotografia irrepreensível de Phedon Papamichael e a realização sentida e controlada de Alexander Payne. Logo este filme é que não levou nenhum Oscar "para casa", talvez porque não dá às pessoas "reais" uma dose de glamour do " cinema alternativo". Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela Carlos Antunes



Ciclo Interrompido (2012), de 


O trato sensível da câmara de Felix Van Groeningen para com os seus actores é um dos factores que chama a atenção para Ciclo Interrompido, a par da utilização do Bluegrass como tema de importância capital numa história de amor belga. A simpatia que essas duas características merecem não compensa o número de falhas que o filme vai revelando desde cedo. A montagem que descontrói a noção de linha narrativa leva a que a história não consiga estabelecer um momento de ruptura entre construção e destruição da história do casal e que vá, pelo contrário, partindo em demasia a ligação desses momentos à história do terceiro elemento do filme: a filha do casal que sofre de cancro. Mas é a sofreguidão de querer integrar todas as ideias que ocorreram aos argumentistas, e que vai acrescentando elementos supérfulos (a questão religiosa) à essência do drama pessoal, que causa uma estranheza da qual o filme não recupera. Uma estrelaUma estrela Carlos Antunes

Nas nomeações ao Óscar 2014 de Melhor Filme Estrangeiro, o candidato belga acabou por ser ofuscado pela popularidade de La grande bellezza e The Hunt. Contudo, Ciclo Interrompido é uma daquelas discretas, mas valiosas, pérolas que chegam ao mercado de distribuição cinematográfico. Uma mistura entre melodrama, tragédia, romance e musical, o filme tem muito para se tornar um fenómeno de culto (aliás, já o é um pouco por todo o lado). Muito pelas interpretações da sua dupla protagonista, mas também pelo regresso corajoso ao melodrama e pelo recurso à música (interpretada pelos actores, como parte crucial de muitas das cenas) - esta última que se ouve tão bem dentro como fora do filme. Só se limita, por vezes, na narrativa fragmentada que manipula emocionalmente, mas o produto final é tão consistente e cativante que acaba por diminuir a importância dessa falha. Uma estrelaUma estrelaUma estrela½ Tiago Ramos



Um Quente Agosto (2013), de John Wells


Um filme repleto de "estrelas" é (quase) sempre problemático. Isto porque na maioria das vezes se ofuscam entre si ou o espectador passa demasiado tempo a reconhecer os actores por detrás das personagens, em vez de se deixar levar pela narrativa. O mesmo se passa com Um Quente Agosto, com muitos dos actores a terem um papel que ficava melhor entregue a um actor mais desconhecido ou menos reconhecível, não por uma questão de qualidade interpretativa, mas sim pela sua menor relevância e pela sua interferência com a interiorização da história. Ainda assim, há que reconhecer a força e extraordinários desempenhos de Meryl Streep e Julia Roberts, assim como as secundárias Margo Martindale e Julianne Nicholson. O pior é mesmo a realização de John Wells que não soube trazer à história a força visual que ela necessitava (e que só não cai em grande, por força do seu elenco que carrega o filme). Ainda assim, há que notar o tom trágico-cómico, repleto de humor negro, mas também de um melodrama frequentemente inteligente - se bem que talvez seja mais pela força da sua versão teatral, do que por mérito próprio da versão longa-metragem. Uma estrelaUma estrelaUma estrela Tiago Ramos

Um núcleo forte em torno de duas personagens em confronto - e em descoberta de indesejada aproximação - que é, também, o de mentalidades geracionais perante o próprio território americano profundo. As duas actrizes que sustentam esse núcleo merecem destaque e as respectivas nomeações aos Óscares, mas o restante (excelente) elenco parece ter sido escolhido com demasiada ambição para aquilo que o argumento lhes pode proporcionar. À volta de Meryl Streep e Julia Roberts, as personagens tornam-se simplistas e o dramatismo das suas histórias é inculcado à força pelos arquétipos melodramáticos - adultério, pedofilia, incesto - para uma caracterização súbita que John Wells e, sobretudo, Tracy Letts não souberam demonstrar de forma mais progressiva ou subtil. Uma estrelaUma estrelaUma estrela Carlos Antunes



Pompeia (2013), de Paul W.S. Anderson


Quando esta história surgia nos pepla sabíamos com o que contar, a aventura era implausível naquela forma bigger than life que assegurava que o casal sobrevivia contra todas as probabilidades. Agora a história parece ter de submeter-se a um realismo que condena tudo à destruição logo à partida - e por tudo falo tanto dos cenários (que nem existem) como do próprio filme. Com a destruição total em fundo, o argumento gasta o tempo em inúteis investimento dramáticos com personagens pelas quais não nos vamos interessar. Com uma história (mal) decalcada de Gladiador - e evita-se falar no que esse filme já citava - temos de suportar que a narrativa leve o seu tempo a resolver conflitos quando já há lava a tombar sobre as personagens. Essas cenas de destruição chegam tardiamente e intercalam o bom com o tosco. Tudo combinado, está-se demasiado perto do ridículo. E, para piorar, é em 3D. Uma estrela Carlos Antunes



O Filme Lego (2014), de Phil Lord e Christopher Miller


Há que assumir que o filme é bem melhor do que o material promocional deixava antever. Ainda assim e apesar do seu tom frequentemente divertido e até bastante inteligente, não deixa de ser, narrativamente falando, bastante linear e até algo básico - apesar dos pontuais momentos de humor adulto e de referências cinematográficas e literárias. Redime-se (e muito bem) pela inteligência como conduz a animação - um híbrido entre digital, stop-motion fotorreal - mas também pelo o último terço do filme que, apesar de soar muitas vezes a anúncio publicitário à empresa que dá nome ao filme, lhe dá um forte valor sentimental, emocional e adulto (como talvez já não se via desde Toy Story 3). Uma estrelaUma estrelaUma estrela½ Tiago Ramos

Já devia ser evidente para a maioria das distribuídoras que os filmes de animação (pelo menos os de algum pedigree) devem ser estreados em versão original e dobrada ao mesmo tempo para que satisfaçam os cinéfilos de todas as idades. Pode ser que este seja o filme a tornar isso evidente, pois está carregado de referências que escapam por completo aos mais novos. O argumento é bastante divertido para os adultos enquanto que os espectadores de palmo e meio estranham a narrativa saltitante que aproxima a história do que é a experiência de não ter regras ao "brincar bem" mas não é a mais fácil de seguir para eles. Naquilo em que todos podem concordar é que as soluções de stop-motion com as peças Lego dão origem a um dos visualmente mais distintos e criativos filmes de animação em bastante tempo. Uma estrelaUma estrelaUma estrela½ Carlos Antunes



Solteira e Fabulosa (2014)


Mais uma comédia, o género que tem constituído a maioria dos filmes que estreiam na Sala de Cinema Francês e cuja slecção parece advir de um acaso que de vez em quando lá no traz um bom filme. Desta vez não temos tal sorte, apenas uma comédia romântica previsível e, ao mesmo tempo, um pouco caótica. Uma ou outra ideia mais interessante não chegam para resgatar a sensação de estarmos a ver uma Bridget Jones que atravessou o Canal da Mancha. O problema é que Josephine ainda consegue ser uma personagem menos aprazível do que a sua contraparte britânica, sobretudo porque as personagens secundárias que deveriam complementar o quotidiano dela nunca têm espaço de manobra. E isto nem é uma referência aos excessivos implantes glúteos que Marilou Berry utiliza e que parece terem que ver com a banda desenhada de onde isto foi adaptado - e que nós não conhecemos por cá! Uma estrelaUma estrela Carlos Antunes