domingo, 10 de maio de 2020

Sex Education - Temporadas 1 e 2, por Eduardo Antunes


Ainda que a sua premissa sugira o contrário, numa abordagem totalmente livre da temática do sexo que se torna central no nosso acompanhamento das inúmeras personagens, principais e secundárias, Sex Education encontra-se longe de quebrar ou subverter inteiramente os paradigmas deste género de séries direccionadas (em princípio) a um público adolescente, por não se inclinar inteiramente sobre os elementos que efectivamente traz com interesse para uma discussão mais ampla sobre a sexualidade.

É interessante que a série, desde a primeira cena, demonstre uma total desinibição relativamente à forma como apresenta as relações sexuais, seja na sua representação física, seja na sua incorporação na construção das relações interpessoais dos diversos protagonistas. E isso até leva, em tempos, a pôr em causa se esta forma quase leviana como aborda o sexo não servirá apenas como ponto de venda da série, demonstrando a ousadia da novidade que rapidamente nos poderemos aperceber não interferir no restante desenvolvimento da mesma.
A verdade é que a forma banal de abordar a temática acaba precisamente por servir o propósito de demonstrar os mais complexos sentimentos que se escondem por trás do maior ou menor interesse nas relações sexuais. É o sexo aqui claramente utilizado como ferramenta que esconde os medos da puberdade, seja o desapontamento face às expectativas de cada um, ou a humilhação trazida pela falta de correspondência a um estatuto esperado, seja por si ou por outrém, parceiro ou colega. 

Mas ainda assim, na sua premissa e potencial, não parece desenvolver dramaticamente os pontos que, directamente relacionados com o sexo, poderiam transpor esta série para lá do óbvio, do (des)confortável. Se a sexualidade é aqui aberta e encarecidamente abordada, não tecendo comentários sobre as situações mais drásticas que daí surjam, seria nessa eventual interpretação que poderia procurar o seu particular contributo (apesar dos seus propósitos mais modestos equanto entretenimento).
Será na situação de Eric que encontraremos a mais clara exploração dramática durante a primeira temporada, onde a sua família aceita a sua homossexualidade independentemente das suas crenças reiligiosas, mas não lhe dá na verdade tempo para ser escutado. Sente nessa silenciosa aceitação da sua pessoa o espaço finito para se expressar, expandindo aos poucos os limites desse espaço para rapidamente o mundo desaprovador voltar a empurrá-lo para dentro do seu quarto, onde nem a sua amizade com Otis poderá ser sempre a constante expectável.





Mas aquele que se apresenta como o aspecto da série melhor conseguido até agora, e mais perto de uma problematização do sexo neste formato, será a subtil dramatização da personagem de Aimee. Aquela que literalmente inicia a série com uma inequívoca descontracção sexual e inerente entusiasmo, parecendo a partir daí servir como suporte cómico constante da série, na segunda temporada encontra nessa sua extrovertida e ingénua personalidade o contraste necessário para transpor a sua traumática experiência com maior surpresa e destaque.
Face uma indesejável experiência num transporte público onde se esperaria um certo nível de segurança, a inaparente perturbação de Aimee acaba por resvalar para os mais simples comportamentos para com quem lhe está mais próximo. Pela não assunção da sua condição, num bloqueio inconsciente da experiência, ao mínimo contacto com o namorado é ela relembrada do assédio a que foi sujeita. E precisamente por não ser alvo de uma das narrativas principais, a cada pequeno momento ou mínimo gesto em que vemos o seu trauma saltar à superfície, torna-se tão mais dramático imaginarmos o que seria passar por tal situação, numa das poucas instâncias em que a série se propõe a comentar mais aprofundadamente sobre a sua temática.

De resto, serve mais o tema do sexo como forma de ilustrar a maior ou menor confiança destes adolescentes, seja pela forma como se comportam confiantemente face os outros para esconder a sua inexperiência ou, contrariamente, como as suas seguranças nas relações sexuais que perpetuam escondem uma inabilidade na sua entrega emocional.
Não será mais clara esta última situação que em Jackson na primeira temporada, que não retém no núcleo do seu desenvolvimento o sexo enquanto catalizador, apesar da sua introdução através da relação casual com Maeve. Antes, sendo o miúdo de maior popularidade no liceu, é nessa popularidade que começamos a reconhecer as rachas que transparecem traumas e verdades escondidas, na abalada relação entre as mães que influencia a sua própria relação com elas e consigo próprio. E apesar de se tornar mais claro na segunda temporada, serão as casuais discussões entre as mães de Jackson que permitem entender a diferenças entre elas e a falta de um entendimento aprofundado dos desejos mutáveis de Jackson de qualquer um dos envolvidos.



O interessante é também quando a série experimenta expressar o mesmo tipo de inseguranças relacionais com as suas personagens adultas, demonstrando que o receio em expressar inequivocamente as nossas emoções pode transparecer nas subsequentes fases da nossa vida, independentemente da nossa própria capacidade em entender as suas causas e efeitos.
Em particular com a mãe do protagonista, Jean, após a sua separação menos que saudável e por inteira culpa do ex-marido, é incapaz no entanto de se conformar e comprometer a uma nova relação duradoura, projectando as suas frustrações no limite do desconhecimento em lidar com o que será a renovação da sua vida, ainda que ela domine todas as ferramentas para lidar com a situação enquanto terapeuta sexual.
Isso expressa-se igualmente desde logo no seu domínio dos problemas que sabe que afectam Otis, enquanto profissional, e na sua inabilidade em utilizar esse conhecimento com ele, enquanto mãe, tentando forçar a conversa quando não é pretendido ou expressando-se da pior forma quando finalmente lhe é permitido acesso aos problemas do filho.

No entanto, se a série se foca em grande parte nas complexidades acima expressadas, e se os pontos fortes da primeira temporada derivam da sua premissa original a qual permite a quebra dos nossos julgamentos primários sobre os conhecidos arquétipos presentes nestas séries, muitas vezes esse exercício aparenta algo superficial ou apressado. Para introduzir um novo nível de complexidade às relações amorosas de Otis, cai inclusivamente na segunda temporada no mesmo tipo de lugares comuns que conhecemos de séries de adolescentes, incluindo o mesmo triângulo amoroso em que a/o protagonista está dividida/o entre o amor correspondido mas não assumido e a aceitação da possibilidade de uma relação para lá das expectativas criadas. Numa série que se pretende diferenciar o máximo das suas congéneres na sua abordagem, ainda que estas situações possam surgir de uma realidade inconstante que nos habita enquanto na puberdade, a sua inclusão aqui lê-se enquanto um lugar comum que não deveria existir da forma óbvia como se expressa.

Apesar de tudo isso, não deixa esta de ser uma série de extrema eficácia ao nos deixar apegados às suas diversas personagens, com interpretações de um elenco maioritariamente jovem que nunca nos deixam de convencer da naturalidade das suas acções. Com uma dinâmica central que, nos aparentes opostos de Otis e Maeve que retrata, demonstra as similitudes que não esperamos encontrar, tão distantes quanto alcançáveis, não deixamos nunca de ficar na expectativa de que essa dinâmica se resolva e descubra o final feliz que, no entanto, a série nos prepara para a possibilidade de não existir. Se no seu seguimento, e como tantas outras séries, necessitou de buscar formas mais fáceis de criar conflito, com eventuais mudanças drásticas de apetências sexuais quando as relações se pareciam aproximar de uma qualquer normalidade, talvez a sua continuação permita a exploração mais complexa das dinâmicas que apresenta, apesar de tudo, corajosamente.


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