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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Por quê agora?: Academia e a polémica da diversidade

Por Walter Neto, cinéfilo, licenciado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade de Coimbra com ênfase em Cinema.


Foi um caminho tortuoso que levou o público até esta edição dos Oscars. Foi o ano no qual finalmente não pudemos mais virar nossas caras para não vermos o problema do qual a premiação se tornou o maior sintoma: a falta de diversidade em Hollywood. Chris Rock, em determinado momento de seu monólogo de abertura – brilhantemente escrito- pergunta para seu público:

Por quê agora?

Ora não chegamos a 89.ª edição da premiação vendo só actores brancos indicados pela primeira vez? Então por que só agora? O primeiro motivo e o mais claro de todos são as mudanças sociais e conquistas de direitos pelas minorias; uma vez que sua representatividade social aumenta, a arte como um reflexo da sociedade, deve acompanhar isso. Então, começamos a nos perguntar qual o motivo de isso não acontecer. Mas 2015 foi o ano no qual um filme como Creed, uma releitura, de um dos maiores nomes e personagens do cinema americano, pelo ponto de vista de jovens negros, Coogler, Jordan, Tessa Thompson, foi de frontrunner a esnobado, mas uma coisa foi constante: o reconhecimento, ainda que merecido, do único actor branco em cena, Sylvester Stallone. O mesmo ocorreu com Straight Outta Compton e sua única indicação ao Óscar pelos seu roteiro, escrito por roteiristas brancos. Os casos ao longo da história da premiação são vários, e assim um padrão claro pode ser estabelecido: mesmo quando os actores, realizadores, e outros artistas negros conseguem espaço, não conseguem o reconhecimento.

Outra pedra no caminho da realização dos Oscars desse ano foi sua posição histórica de prémio que encerra a temporada de premiações. Já se falava em Oscars So White quando membros de outras premiações como SAG, Spirit e outras guildas de críticos votavam em seus respectivos prémios. Aqui está uma parte do problema pouco comentada: o Óscar não é o problema, ele é um sintoma. Assim uma febre não é a doença em si, mas sim, um sinal que há algo de errado. A indústria é culpada pela falta de oportunidade, mas a indústria entrega o que o público de uma maneira geral espera ver. Temos culpa pelo estado das coisas. As premiações acabam reflectindo isso também.

Vencedores do Spirit 2016 nas categorias de interpretação.

Vencedores dos Oscars 2016 nas categorias de interpretação.

A Academia tentou tomar providências, anunciou mudanças nas regras da premiação, mas como qualquer decisão tomada rapidamente no meio de uma crise está longe de ser suficiente. A instituição ainda está entendendo o problema. Um exemplo de como o momento é complicado foi o não convite para a cantora Anohni , segunda transexual indicada a um Óscar na história, cantar sua canção indicada ao prémio, mesmo com toda a promessa de inclusão e diversidade. Mas nem tudo são críticas.

Ainda que esteja longe de solucionar o problema de falta de diversidade em suas indicações, a Academia definiu com esta premiação o tom de como lidará com o problema: reconhecendo que há um problema. O monólogo de Chris Rock deixou muitas pessoas presentes desconfortáveis porque essa era a intenção. Era um riso nervoso. Um riso por saber que o problema existe e ninguém se incomodou em reconhecer sua gravidade. Falamos de racismo, homofobia, machismo quando esses assuntos ganham as manchetes dos principais jornais, geralmente ligadas a um crime de ódio. Mas e no dia-a-dia como fica esse debate e como ficam nossas atitudes? Rock não escolheu o caminho mais fácil, porque o problema não é fácil e não será resolvido logo. Mas seu acerto foi deixar claro que a abertura foi para todos os actores negros presentes na premiação como convidados, não indicados. Para todos que acompanham os Oscars e não se vêem representados quando os indicados são anunciados. O monólogo não foi para uma Academia que é formada maioritariamente por homens, brancos, cisgéneros, heterossexuais com uma média de idade superior aos sessenta anos. O discurso de abertura foi para todo que não fazem parte desse clube e ficam de fora assistindo ainda que continuem contribuindo para a arte em geral.

Pós o conturbado 2015/2016 para a Academia fico com a certeza que ano que vem teremos alguma diferença em relação aos indicados este ano. No ano seguinte mais mudanças, e no outro, mais ainda. Ainda que a passos lentos, a mudança está chegando e não há espaço para o que ocorreu este ano se repetir. Para abraçar a diversidade a Academia se viu obrigada a abraçar seus críticos e ouvi-los.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Star Wars: Episódio VII - O Despertar da Força, por Walter Neto


Título original: Star Wars: The Force Awakens (2015)
Realização: J.J. Abrams
Argumento: Lawrence Kasdan, J.J. Abrams, Michael Arndt
“A psique humana é essencialmente a mesma, em todo o mundo. A psique é a experiência interior do corpo humano, que é essencialmente o mesmo para todos os seres humanos, com os mesmos órgãos, os mesmos instintos, os mesmos impulsos, os mesmos conflitos, os mesmos medos.”
Joseph Campbell em O Poder Do Mito

Pouco importa se você tenha nascido em uma vila europeia, ou em algum lugar dos trópicos, ainda que as diferenças culturais existam e sejam muitas, em todos os três casos sofremos as mesmas experiências comuns a condição humana: nascimento, aprendizagem, construção do “Eu”, descoberta sexual, dor, alegria e por fim, a morte. E é em cima dessas semelhanças que a narrativa do mito se constrói- ou seja, da análise de elementos comuns e que se repetem. E ainda, de como eles poderiam ser organizados. Este, talvez, seja o segredo, ou um deles, por trás do sucesso da saga Star Wars – Guerra nas Estrelas, agora em seu sétimo capítulo, o ótimo O Despertar da Força, de J.J. Abrams. A série se estrutura claramente em cima da ideia da jornada do herói/mito para narrar as histórias de um universo tão plural, seja em planetas ou formas de vida, e na dicotomia entre bem e mal, moral e imoral; representados pelo constante combate entre a Força e seu próprio lado negro. Dualidade comum a qualquer um de nós.

Ora, é exatamente isso que o antropólogo Joseph Campbell abordou em suas teorias: a dificuldade de se estabelecer um equilíbrio entre o nosso lado da luz e o lado sombrio, entre a capacidade de uma mesma pessoa fazer o bem e o mal. E a jornada que nos levaria a fazer tais escolhas. Este é o principal ponto positivo do novo elemento da franquia, entre meio a muitas homenagens ao material clássico, Abrams consegue desenvolver seus personagens e seus conflitos de uma forma que o criador daquele universo, George Lucas teve alguma dificuldade. Principalmente, na questionável trilogia que serve de prequela para a série clássica: A Ameaça Fantasma (1999), O Ataque dos Clones (2002) e A Vingança dos Sith (2005), na qual, os personagens escolhem entre um “bem” e um “mal” muito demarcados e nada na narrativa parece ser forte o suficiente para justificar a sua escolha.

Como o filme de Abrams usa e abusa de referências aos filmes anteriores é impossível não comparar O Despertar da Força com seus antecessores. O primeiro ato do filme se preocupa em homenagear e quase recriar planos do Uma Nova Esperança (1977). Se o filme de Lucas já começa com a Princesa Leia (Carrie Fisher), pedindo socorro através de uma mensagem enviada pelo robô R2D2 e ainda nos primeiros minutos de projeção, sendo capturada por Darth Vader, que surge ocupando todo o plano e já se apresentando, não apenas como o antagonista, mas mostrando toda sua obsessão por controle e poder; o filme de Abrams começa com o piloto Poe Dameron (Oscar Isaac) em uma missão para a resistência, procurando pistas sobre o paradeiro de Luke Skywalker (Mark Hemill) e após esconder a chave para encontra-lo em seu robô BB-8, durante uma tentativa de fuga, ele é capturado por Kylo Ren (um maravilhosos Adam Driver, que em poucas cenas sem sua máscara, constrói um personagem extremamente complexo e dividido, cuja vestimenta é uma clara referência a de Vader.). Por falar em referências, Abrams em determinado momento, surpreende ao construir uma clara rima visual com uma cena de Apocalypse Now (1979).   

Apocalypse Now, 1979 & The Force Awakens, 2015

Os paralelos entre o filme de Abrams e a trilogia original são muitos e talvez este seja o ponto negativo da franquia, não confiar apenas em sua narrativa para remeter ao material canónico, mas ter que criar constantes referências aos filmes clássicos constantemente.

A New Hope, 1977 & The Force Awakens, 2015

Basicamente, em O Despertar da Força, 30 anos após a destruição do Império Galáctico, uma nova força surge, a Primeira Ordem, que pretende continuar o trabalho iniciado e não concluído por Vader. Em meio ao fanatismo e obediência cega de seus seguidores que acreditam que tudo o que fazem é para um bem maior – outro paralelo com a realidade, neste caso com governos ditatoriais; conhecemos Finn (John Boyega) um stormtrooper que que recusa a obedecer a ordem de matar inocentes que estavam em uma vila atacada por Kylo e deserta. Boyega se mostra competente em construir um personagem que descobre para que recebera todo seu treinamento e ao ver os horrores da sua ordem, foge, mas não sabe ao certo o que fazer com sua vida. É ele também o responsável por muitos dos momentos cómicos do filme, que foram escritos com competência pelos roteiristas, o próprio Abrams e Lawrence Kasdan, que funcionam como um alívio para o público em uma trama claramente mais pesada e violenta que a dos filmes originais.

Para fechar o triângulo de protagonistas temos a jovem catadora de lixo Rey (Daisy Ridley) que não se lembra de seu próprio passado e descobre possuir em si a Força que até então, acreditava ser apenas histórias contadas pelos mais velhos. Toda a evolução da personagem lembra muito, novamente, o Uma Nova Esperança e a jornada de Luke. E é com seu novo trio de protagonistas, que em parte mais avançada da sua narrativa, O Despertar da Força consiga romper com a obrigação de ser apenas uma homenagem e se mostre como um filme que se sustenta sozinho.

Se Luke, na trilogia clássica, e Anakin, nas prequelas, são atraídos constantemente pelo lado negro da Força; não é um acaso que os dois personagens comecem sua respectiva narrativa num deserto – o mito cristão coloca a passagem de Jesus Cristo pelo deserto e a tentação feita a ele por um demónio como um dos momentos mais importantes de sua história. Mas Kyle já inicia sua narrativa completamente inserido no lado negro, ainda que seja atraído pelo lado da Luz da Força. É uma inversão e um acréscimo extremamente bem-vindo a franquia. E nesses momentos de apropriação e recriação que fazem o filme de Abrams ser tão bom e eficiente.

Basicamente vemos em Kylo e Rey, um novo Luke e Leia. Voltamos, então, ao ciclo do mito/herói criado por Campbell. Para ele, o herói passa por doze passos na sua jornada de descoberta e auto-conhecimento, senso a jornada dividida em três momentos principais: partida, iniciação e retorno.


Rey , por exemplo, não se lembra de seu passado, mas vive presa em seu planeta, esperando o retorno de uma família que ela não conhece ao certo. Graças ao seu encontro com BB-8 ela é chamada à aventura e ao seu destino, o que inicialmente é recusado e só após encontrar seu mentor, um velho Han Solo (Harrison Ford) ela rompe com seu mundo e embarca, ainda que relutante em sua missão. Durante sua jornada, encontra em Finn um parceiro e vê em seu confronto final com Kylo – uma sequência de luta com sabres de luz de deixar para trás qualquer filme clássico da série, um motivo para aceitar seu papel na Força e já transformada levar o público a resolução do mistério: onde está Luke Skywalker.

O saldo final não poderia ser mais positivo, para fãs antigos e para aqueles que ainda engatinham no universo criado por George Lucas, mantendo um ritmo constante e crescente até seu ato final, sua melhor parte por se distanciar mais do tom de homenagem e consegue funcionar como um filme independente do universo no qual está inserido, ele funciona além do cânone da franquia da qual faz parte. E o universo criado por Lucas agradece o fôlego novo recebido pelo seu sétimo episódio.


Classificação:

domingo, 15 de novembro de 2015

Split Screen é nomeado a quatro categorias dos TCN Blog Awards 2015


Na sexta edição dos TCN Blog Awards 2015, o Split Screen foi nomeado em quatro categorias. Os prémios, organizados por Miguel Reis do blogue Cinema Notebook, visam premiar anualmente o que de melhor se faz na blogosfera portuguesa de cinema e televisão. Os vencedores serão conhecidos a 9 de Janeiro de 2016.

Entre as nomeações alcançadas na edição de 2015 constam Melhor Blogue Colectivo, Melhor Iniciativa (Círculo de Críticos Online Portugueses), Melhor Artigo de Televisão (Procurando por uma despedida: Um adeus forçado a "Looking", por Walter Neto) e Melhor Crítica de Televisão ("Togetherness": O distanciamento da proximidade, por Joaquim da Silva).

Num ano particularmente pobre para este blogue, não deixa de ser um motivo de orgulho estas nomeações, sobretudo as alcançadas por dois dos autores convidados que colaboram frequentemente connosco. Parabéns a eles e sobretudo um obrigado ao Miguel Reis por todo o trabalho que fez durante estes anos, contra todas as dificuldades, como agregador da blogosfera portuguesa de cinema e televisão, por puro amor ao que faz.

domingo, 21 de junho de 2015

Sense8 - A eterna busca por uma conexão

Por Walter Neto, cinéfilo, licenciado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade de Coimbra com ênfase em Cinema.

Eu sempre me perguntei o quanto do que eu carrego, não é meu para carregar. Pode parecer uma pergunta extremamente pessoal e em certo ponto é, mas acredito que ela seja compartilhada por muitos. Muitas pessoas com histórias de vidas completamente diferentes, com nacionalidades diferentes, com criações diferentes, valores diferentes- a lista é infinita; mas que esperam apenas uma coisa: conseguir assumir o controle da própria vida e se libertar deste peso extra. Recomeçando, fazendo novas conexões.

Esse talvez seja o principal dilema dos personagens de Sense8, uma busca por uma saída da vida que possuem e uma oportunidade de verdadeiramente começar algo novo. Um sentimento comum a várias pessoas, e aí está, então, a grandiosidade da série dos irmãos Andy e Lana Wachowski: um roteiro com várias tramas paralelas, conduzidas em várias partes do mundo e interpretadas por um elenco multinacional. Trazendo histórias que não se interligam, mas apenas servem como plano de fundo para uma trama maior, sobre a conexão mental compartilhada pelos oito personagens principais e conduzidas pelo misterioso Jonas Maliki (Naveen Andrews). Mostrando que todos aqueles sentimentos e sensações vividos por eles são comuns. 

Sem nenhum tipo de introdução, logo na abertura da série, somos apresentados a rivalidade entre Jonas Maliki e Mr Whisperer (Terrence Mann) pela posse da informação de quem seriam e onde estariam as oito pessoas que nasceram interligadas por uma conexão muito maior que qualquer outra experimentaria durante sua vida. E assim vamos sendo apresentados as peças desse complicado jogo de xadrez que ninguém se preocupou em explicar as regras. Sabemos tanto quando eles, quase nada, e este é o ponto forte do roteiro da série, ele foge de qualquer didatismos e explicações desnecessárias. Ficamos presos ao binge watch porque as pistas vão surgindo natural e lentamente, bem distribuídas ao longo da temporada.

Na trama acompanhamos Capheus Van Damme (Aml Ameen) um jovem de Nairóbi que tenta ganhar a vida como motorista de um autocarro velho que mais traz despesa que lucro, para comprar remédios para sua mãe seropositiva. Ele cresceu obcecado pelos filmes de Jean-Claude Van Damme e usa o que aprendeu com ele para sobreviver nas violentas ruas de sua cidade. Sun Bak (Doona Bae) gerencia o negócio da família e se vê por culpa do pai e irmão envolvida em um escândalo financeiro. Sun, treina artes marciais e participa de algumas lutas, não pelo dinheiro, mas pela oportunidade de extravasar o que sente através da violência. As ruas de Seul não violentas como as de Nairóbi, mas ela também precisa lutar para sobreviver.


Nomi Marks (Jamie Clayton), talvez a personagem mais pessoal já criada pelos Wachowskis, é uma transexual que mesmo sendo bem-sucedida e respeitada por amigos e conhecidos do seu meio de trabalho, ela era uma famosa hacker, luta contra a discriminação a própria família que insiste em chama-la pelo nome de batismo. Chegamos então a Lito Rodrigues (Miguel Ángel Silvestre) que sendo um famoso ator mexicano de filmes de ação, não poder viver publicamente como um homem gay e precisa lutar para esconder sua vida privada todos os dias da imprensa. 

Wolfgang (Max Riemelt) teve que aprender a bater desde cedo para sobreviver aos constantes abusos do pai, e vivendo uma vida perigosa e violenta como membro de uma gangue de Berlim, encontra em sua conexão mental com a indiana Kala (Tina Desai) uma pausa de toda aquela tensão. Uma redução na velocidade de sua vida. E Kala vê nele uma oportunidade de fugir de seu casamento sem amor, feito apenas para agradar aos pais. 

Fechamos esse círculo com o policial americano Will Gorski (Brian J. Smith), filho de policial, que luta contra um sistema social falido no qual é melhor deixar uma criança morrer sem atendimento médico - porque ela está envolvida em crimes, do que atende-la e lidar com o problema depois. Assim que se torna consciente de sua conexão com outras pessoas, Will conhece Riley (Tuppence Middleton), uma jovem islandesa, que fugiu para Londres para escapar das memórias da tragédia que viveu após uma gravidez não planeada na adolescência.  


Todas as tramas são conduzidas com extrema delicadeza por não haver pressão de interligar aquelas histórias em um plano maior. Eles estão conectados um ao outro. Todos compartilham a mesma data de nascimento, as mesmas sensações e à medida que a conexão se fortalece todas as emoções. Frio, calor, dor, alegria, raiva, medo, excitação. Tudo é compartilhado. O que é explicitado em um dos momentos mais ousados e bonitos da série – e candidato a cena do ano, para mim – quando todos os personagens transam entre si e compartilham um orgasmo em conjunto. Cena que lembra bastante o final de Perfume – A História de Um Assassino (Tom Tykwer, 2006) onde o protagonista é consumido por uma multidão que transcende da fúria a mais pura excitação. É importante mencionar que Tykwer é o diretor do episódio no qual a cena ocorre. 

Talvez esta proximidade dos criadores (J. Michael Straczynski e Irmãos Wachowski) e dos diretores (que além dos criadores incluem Tom Tykwer, James McTeigue e Dan Glass) com os temas, dão ênfase a sensação de proximidade e identificação com o que é abordado. Há muito do trabalho de Tykwer em Soul Boy (2010) nas cenas de Capheus, assim como há muito de Cloud Atlas (2012) na estrutura e maneira como as tramas paralelas são conduzidas. 


Um labirinto de emoções e sensações, Sense8 funciona como um belo retrata da caótica e complicada experiência humana. Uma série sobre o que é ser humano em seu nível mais básico: que é sentir e saber que se sente, mas acima de tudo, também sobre a busca de alguém para se compartilhar tudo isso. 

domingo, 29 de março de 2015

Procurando por uma despedida: Um adeus (forçado) a "Looking"

Por Walter Neto, cinéfilo, licenciado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade de Coimbra com ênfase em Cinema.


“I wish I was a more secure person, but I’m sorry. I’m not.”

Aquele que provavelmente é o último capítulo de sempre acaba e me pego imediatamente pensando em um livro que li há algum tempo – ainda que somente o tenha descoberto pela capa. Engraçado estar pensando mais em Arlington Park, o livro; que em Looking, a série. Mas aquele diálogo vai me assombrar por muito tempo ainda.

A insegurança e falta de confiança na minha própria identidade sempre foi meu demônio mais familiar. Minha batalha mais constante. E talvez tenha sido exatamente tal problema que fez com que eu me identificasse com Patrick (Jonathan Groff) e me fizesse seguir literalmente seus passos nesta season/series finale.

Looking, assim como seu protagonista, sempre sofreu pela busca de sua própria identidade como seriado e consequentemente, seu lugar na opinião pública. "Girls com gays" e vários outros termos foram usados para definir o programa que lutou para se entender com o seu próprio formato: os 30 minutos comuns a comédias e ao reduzido número de episódios de uma produção para a TV fechada, algo em torno de 10 episódios. Mas ao longo da segunda temporada, o problema com o ritmo, plots secundários e outros vários foram resolvidos, dando lugar a um programa infinitamente mais maduro e consciente de seu objetivo: retratar a diversidade e complexidade da vida daqueles amigos em uma São Francisco que poderia ser qualquer outra cidade. O que é ser gay em um mundo onde o tema está constantemente em debate? Independente se pelos motivos certos ou errados estamos falando sobre o assunto, mas o que estamos falando? Qual é esta identidade por trás da G-word.

“I am completely talked out.”

É assim que Patrick se reaproxima de Richie (Raúl Castillo) nesta finale e é assim que Agustin (Frankie J. Alvarez) se entrega ao seu relacionamento com Eddie (Daniel Franzese) superando suas inseguranças em relação ao fato do parceiro ser seropositivo. As inseguranças existem, o medo de uma eventual contaminação, a falta de informação, tudo está presente. Mas o que ele sente é mais forte e isso deve ser vivido até as últimas instâncias. Don, o mais velho, mas ainda assim, um dos que mais precisava crescer, entende que não poderia continuar vivendo em um casamento com a sua amiga Doris (Laureen Weedman) e que deveria aprender, por mais difícil que fosse, a andar com suas próprias pernas e honrar o legado do pai para quem nunca pode sair do armário.


Como o videojogo criado por Patrick e Kevin, estereótipos da comunidade LGBT são revirados, recriados e abordados em Looking para que a série consiga cumprir a difícil e ingrata missão de retratar o quotidiano. Ativos, passivos, ursos, soros positivos e negativos, monogâmicos ou não, e por fim até o “gay-home wrecker”, todos ali para fazer da suporta diversidade da atual programação da TV realmente diversa.

Volto a pensar naquele livro, e faço isso por que assim como em Looking seu final é marcado com uma grande mudança física. Lá, Juliet, mãe de dois e casada, se vê cansada não de sua vida, mas de explicar porque está cansada... “I am completely talked out.” De novo esta fala… assim sem nenhum tipo de planejamento, ela caminha para um salão e pede para que lhe cortem o cabelo. – TODO. – ela diz. Patrick faz o mesmo. E o mais simbólico é que isso seja feito por Richie, com quem nunca teve realmente chance de colocar todos os pingos nos i’s. Assim, Richie finalmente consegue cortar o cabelo do homem para quem ele mais se entregou.

É estranho pensar que é justamente com este tom de “inacabado” de “decisões para se tomar” que Looking se despedirá de seu público, ainda que um especial tenha sido prometido para concluir as histórias de Patrick, Don e Agustin. Há claramente um fôlego final para a história, embora acredite que um especial não será suficiente para terminamos aquilo que começamos a acompanhar: o crescimento daquelas pessoas, principalmente de Patrick.

É de senso comum que não temos como organizar a narrativa da nossa própria vida, as coisas vão acontecendo e vamos vivendo sem ser possível saber até quando. Por isso, nunca vi problema com histórias que terminam em cliffhangers ou com final em aberto. Exatamente assim é a vida e a arte não tem feito outra coisa senão imitá-la. Mas Patrick precisava de mais tempo que um dia morando com Kevin, Agustin também precisava de tempo, mas para lidar com suas inseguranças em relação a saúde do namorado e Don para reformar o lugar onde abrirá seu primeiro negócio. Já nós, precisávamos de mais tempo para nos prepararmos com a futura ausência destas histórias. E assim, caso o cancelamento seja mesmo irrevogável, Looking terminará com sua história não resolvida, algo contra o que seus próprios personagens lutaram durante as duas temporadas do programa.

Nada pior que conviver com o peso dessas irresoluções. Nada pior do que nos confrontarmos com nossa própria imobilidade. Com a insatisfação crónica que nos impede de crescer e seguir em frente. Com Richie ele não estava pronto, eram muito diferentes um do outro. Com Kevin não estão no mesmo lugar quanto a monogamia. Há e sempre haverá um problema, sempre haverá uma questão, um motivo para desistir e é isto que Patrick ainda não entendeu e é provável que ainda leve um tempo para entender.

O ato de cortar o cabelo, naquela que para mim será uma das cenas do ano, em Looking, ou em Arlington Park, sempre me seduziu. Naquele ato está a clara declaração de que ao menos sobre o cabelo exercemos algum controle. Eles decidem o que fazer com o cabelo, já que na vida não parecem ter o mesmo poder. E assim, externalizam uma necessidade, interna, de mudança, de recomeçar. E como é justamente a identificação que nos prende a esses personagens e histórias, assim como Patrick e Juliet também raspei meu cabelo pouco antes de escrever este texto por também me deparar com uma situação da qual não conseguiria sair apenas falando a respeito. Algo precisava ser feito e algo foi feito.

sábado, 1 de novembro de 2014

Split Screen é nomeado em sete categorias dos TCN Blog Awards 2014


Na quinta edição dos TCN Blog Awards, o Split Screen foi nomeado em sete categorias. Os prémios, organizados por Miguel Reis do blogue Cinema Notebook, visam premiar anualmente o que de melhor se faz na blogosfera portuguesa de cinema e televisão. Os vencedores serão conhecidos a 10 de Janeiro de 2015, numa cerimónia em Lisboa.

Entre as nomeações alcançadas na edição de 2014 estão Melhor Entrevista (Entrevista a João Miller Guerra, por Tiago Ramos), Melhor Crítica de Cinema (Debaixo da Pele, por Tiago Ramos), Melhor Página de Facebook (Split Screen), Melhor Iniciativa (Círculo de Críticos Online Portugueses), Melhor Artigo de Cinema («I can't hide my feelings from you now: amor e desejo em "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho"», por Walter Neto). Pelo quinto ano consecutivo, o blogue recebe também nomeações nas categorias de Melhor Blogue Colectivo e Blogger do Ano (Tiago Ramos).

As votações para os prémios são também públicas e este ano estarão dispersas pela blogosfera, pelo que apresentamos a lista completa dos locais onde podem votar nas categorias em que o Split Screen está nomeado. As votações decorrerão de 1 de Novembro a 25 de Dezembro.

Melhor Entrevista - Brain-Mixer
Melhor Crítica de Cinema - TVDependente
Melhor Página de Facebook - Créditos Finais
Melhor Iniciativa - Espalha-Factos
Melhor Artigo de Cinema - girl on film
Melhor Blogue Colectivo - Antestreia
Blogger do Ano - Cinema Notebook

sexta-feira, 11 de abril de 2014

I can't hide my feelings from you now: amor e desejo em "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho"

Por Walter Neto, cinéfilo, licenciado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade de Coimbra com ênfase em Cinema.

Quais músculos da face reagem ao instante no qual uma pessoa, ou algum objeto, deixam de ser um pessoa ou objeto qualquer e passam a ser o centro de nosso afeto e atenção? Seria realmente possível determinar o exato momento no qual esse “encantamento” começa?

Divago sobre isso enquanto à minha mente vem a primeira vez que fui ao cinema. Meu pai me levou. Era uma sessão de O Rei Leão e a sala era um daqueles teatros da virada do século com camarotes e tudo mais que esses locais ofereciam. Assim que a sessão terminou, lembro-me de pedir para meu pai que mudássemos de lugar. Fôssemos para um daqueles assentos nos camarotes, “no alto”, e assistimos ao mesmo filme pela segunda vez, com minutos de intervalo entre as sessões.

E daquele dia em diante, nunca mais parei de ir ao cinema. Apaixonei-me por esse fenômeno na permanência da imagem na retina. Hoje, não penso em mim sem pensar em algum filme quase como uma extensão minha. E acredito que o mesmo se aplica a visão que meus amigos têm de mim. Bem, ao longo desses vinte e seis anos de vida, alguns amores vieram e se foram; permanecendo por mais ou menos tempo. Mas de alguma forma todos importantes. Mas todos esses, dividiram espaço com o cinema. Talvez seja isso que torne a experiência de uma sessão como a de Azul é a Cor Mais Quente [A Vida de Adèle: Capítulos 1 e 2, em Portugal] ou Hoje Eu Quero Voltar Sozinho. Ambos possuem a pretensão de retratar o mais sutil e talvez importante dos sentimentos: a paixão. Mais que simplesmente filmar a paixão, em ambos os casos, os diretores, Abdellatif Kechiche e Daniel Ribeiro, escolhem um muso(a), uma pessoa que foi corajosa o suficiente para por sua vida nas mãos de outra pessoa. Talvez, este seja o único jeito de realmente nos conhecermos: «Je est un autre» já disse Rimbaud.

A maior proeza de La vie d'Adèle não é técnica, não é um plano sequência mirabolante de vinte minutos sem cortes, mas sim, conseguir tornar público o que mais há de íntimo. De externalizar o que é interno. Talvez a maior questão proposta pelo cinema em 2013 tenha sido a relação entre o sexo, explícito, e a nudez (sensações físicas), com a paixão (emocional). O sexo e o enamoramento ocuparam a mesma porcentagem de tempo em tela nos filmes em questão.

Abdellatif usa o sexo de forma explícita por saber o peso o “tabu” sobre o tema. Assim ele força com que seu público se sinta constrangido ao longo da projeção por compartilhar tamanha intimidade com desconhecidos em uma sala de cinema. Assim, entendemos na pele, o quão difícil é aquele momento de intimidade para as personagens, tão bem retratadas por Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux. É o primeiro amor de Adèle e é ponto de vista dele que importa e é ele que o filme seguirá. A verdade de Adèle que importa.

Aí o filme de Daniel Ribeiro dialoga com o vencedor da Palma de 2013. Leo (Ghilherme Lobo), um adolescente cego que tem em sua amizade com Giovana (Tess Amorim), todo o seu mundo. Mas isso muda com a chegada de Gabriel (Fábio Audi). Leo, assim como Adéle, descobre sua sexualidade, ao mesmo tempo, que sua homossexualidade.


Somos voyeurs dessa descoberta. Vemos Leo se despir, vestir uma blusa de Gabriel e se masturbar, da mesma maneira que vemos Adéle acordar excitada ao sonhar com Emma. Vemos a importância de pequenos toques, como as mãos de Leo e Gabriel que se tocam quando um empresta uma borracha ao outro. Assim como vimos Adéle e Emma deitadas em um parque rindo. Completas pela companhia da outra. Há uma cena em Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, na qual Gabriel e Leo, após passarem o dia em uma piscina, tomam banho juntos e Gabriel representando o público, observa cada detalhe do corpo de Leo, cada milímetro da nudez de sua primeira paixão. Já Leo, devido a sua deficiência visual, é inocente a tal olhar, como aqueles personagens também são. Inocentes de que nós os observamos tão a fundo, tão a seco e sem alguma inibição seus mais íntimos segredos.

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho começa e termina, simbolicamente, sem nenhuma imagem em tela. Apenas um fundo preto enquanto a faixa de áudio do filme ainda está presente. Uma pequena mostra do mundo de Leo, sempre no escuro. O que é maravilhosamente retratado quando seu pai atende a um chamado do filho que toma banho e pede ajuda para se barbear. Ao chegar ao banheiro, ele encontra o filho no escuro em frente a um espelho.

Mas talvez o que há de mais simbólico nessas telas sem imagem aconteça antes dos créditos subirem: O título do filme é alterado para Hoje Eu NÃO Quero Voltar Sozinho. A transformação de Leo está completa. Ele que começou o filme não apenas lutando por independência, mas vendo na solidão a única maneira de encontra-la, não é mais o mesmo. Já não pensa mais em ficar sozinho. Ele tem Gabriel.


E mais uma vez, o filme de Daniel Ribeiro dialoga em mim com o filme de Abdellatif, que também termina com o titulo inserido em uma tela preta antes dos créditos. Mas Adéle faz o caminho inverso de Leo. A sua transformação também está completa. Adèle já não é mais uma adolescente descobrindo o sexo. Já estamos ao fim do segundo capítulo de sua vida. Mulher e adulta, ela escolhe ir embora sozinha e abraçar toda a melancolia que vem a partir dessa escolha. São filmes independentes e sem nenhuma relação aparente entre as produções, mas ter visto Azul é a Cor Mais Quente antes de ver Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, possibilitou que eu entendesse mais da personagem “Leo” e o visse como um duplo de Adéle. Outra possibilidade aquele universo de descobertas e paixões.

Como já dito antes, são belos filmes, mas nem por isso experiências fáceis. É agridoce perceber que nosso primeiro amor, nosso primeiro beijo, primeira transa, já passaram. Não que os outros beijos, transas e amores sejam menores, mas uma vez perdida, a inocência da descoberta, não pode ser mais retomada. Um viva a esses dois filmes e histórias sobre os prazeres e dores de amar.

sexta-feira, 7 de março de 2014

"Looking" e a busca pela identidade (de uma série)

Por Walter Neto, cinéfilo, licenciado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade de Coimbra com ênfase em Cinema.

Desde o anúncio da produção de uma série centrada no dia-a-dia da vida de um grupo de amigos gays em São Francisco, Looking tem vindo a ser erroneamente chamada de versão gay de Girls. Tal análise simplista baseia-se somente no fato de que as duas séries têm como proposta a pretensão de uma abordagem mais crua e, por consequência, sem qualquer glamour na retratação da vida de um grupo de jovens. É a geração que demora mais para crescer e sofre da famosa crise do quarto de vida. E é isso. A convergência acaba aqui. O que faz de Girls uma serie única e não uma releitura de Sex and The City, por exemplo, ainda que a série de Lena Dunham deva muito a ela, é justamente o fato de Girls ter tirado a “Cidade” da equação. Os conflitos de Jessa (Jemima Kirke), Hannah (Lena Dunham), Soshanna (Zosia Mamet) e Marnie (Allison Williams) são todos internos às personagens e aparecem para o público refletidos na maneira como elas lidam, com pouco ou nenhum sucesso, com o mundo ao redor.

E talvez seja exatamente por isso que episódios como One Man’s trash da segunda temporada de Girls e o mais recente Beach House funcionem tão bem dentro do universo da série. O que Dunham fez aqui foi externalizar a dissociação das suas personagens com o ambiente que as rodeia. O que já acontece mesmo em Nova Iorque, quando sempre as vemos dentro dos seus respectivos microcosmos: os seus apartamentos. É significativo pensar que não há grandes cena externas na cidade, como na pioneira série de Carrie Bradshaw, personagem icónico de Sex and The City, interpretada por Sarah Jessica Parker.

Em Looking, a escolha de São Francisco é um fator determinante no desenvolvimento da trama de Andrew Haigh e Michael Lannan. A cidade volta a ter a mesma importância do sexo ao estar tão fortemente associada às questões da comunidade LGBT e suas lutas. Mas mais que reconhecer as diferenças em relação a Girls ou perceber a cidade como um personagem (o que não é por si só novo: Sex and City, Vicky Cristina Barcelona [Woody Allen, 2008] não nos deixariam mentir) para perceber o que funciona e o que não funciona em Looking, deve-se voltar a Weekend, longa-metragem de estreia de Haigh.

Weekend foi um retrato intimista e honesto da vida de dois homens gays em momentos completamente diferentes da vida e em posições opostas quanto ao entendimento da sua sexualidade, mas que por capricho do destino, acabam-se envolvendo amorosamente ao longo de um fim-de-semana, como o título explicita. Um drama simples que chamou a atenção, não por um grande orçamento ou questões técnicas, mas pela naturalidade e realismos impostos aos diálogos entre os protagonistas Glen (Chris New) e Russell (Tom Cullen), que explicitaram a nossa condição de voyeur ao nos transportar, sem desculpas, para a intimidade daqueles dois homens.

É notável o esforço de Haigh em usar Looking para estender o universo da homossexualidade masculina, já abordada em Weekend, mas aí se cria o calcanhar de Aquiles da série do canal HBO. A progressão do relacionamento de Glen e Russell era completamente orgânico e, ainda que dure apenas 90 minutos, como o filme usou do relacionamento para retratar questões maiores, o realizador e o seu argumento puderam satisfatoriamente desenvolver a sua proposta.

Mas Looking é uma série de televisão e, ainda que muito parecida com Weekend, não é uma versão televisiva do filme. Novas personagens, novos conflitos e novos elementos foram criados para que o cotidiano de Patrick (Jonathan Groff), Agustin (Frankie J. Alvarez) e Dom (Murray Bartlett) em São Francisco, se sustente sozinho e não deva nada ao filme de Haigh ou a outros programas de televisão, como Queer as Folk.

Mas, pelo menos para mim, a série falha nesta que é a sua maior ambição: ser um universo autossuficiente. Espanta-me que a semelhança de planos em alguns episódios com Weekend, como as imagens abaixo sugerem, não tenha sido mais explorada pela mídia em geral.

Weekend, 2011

Looking, 2014
Mas a culpa não é de todo de Haigh, Lannan e a equipa de argumentistas. Como encaixar tanto de uma trama dramática na estrutura de episódios de 30 minutos de duração (já consagrados pelas comédias)? As tramas em Looking nunca conseguem ser plena e naturalmente desenvolvidas pela falta de tempo e acabam sempre por soar como um recorte superficial de algo que já foi, com mais profundidade, abordado em outro lugar, neste caso, sempre usando Weekend como referência.

Com Looking renovada para uma segunda temporada e a noticia de que atores do elenco de apoio como Russel Tovey e o óptimo Raúl Castillo foram promovidos ao elenco regular da série, sente-se a intenção de mudar o andamento de algumas tramas que não funcionaram bem, como Agustín e seu projecto artístico sobre a relação entre o sexo e a arte (outro tema abordado em Weekend: Glen tinha o mesmo projeto artístico) para focarmos mais nas conturbadas relações interpessoais e amorosas entre Patrick (Groff) seu namorado Richie (Castillo) e seu chefe Kevin (Tovey).

O que se espera de Looking é paciência para que a série encontre o seu ritmo e identidade. O que se deseja da série são mais episódios como “Looking for Future” (S01E05), no qual a série parou com as suas tramas "corridas" e mal desenvolvidas para nos presentear com um dia no relacionamento de Patrick e Richie e, ainda assim, todo o relacionamento dos dois num único dia.

sábado, 14 de setembro de 2013

INDIE 2013 (Belo Horizonte) - Último dia



Heli (2013), de Amat Escalante Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela


Toda ação gera uma reação. Não uma reação qualquer, mas uma de força equivalente, proporcional. Esse preceito parece ser o fio condutor de Heli do mexicano Amat Escalant, premiado como melhor realizador este ano em Cannes. Heli, o jovem protagonista da história, trabalha para manter a casa que divide com o pai, a irmã mais nova, a esposa e o filho, a funcionar. Como reação, a sua irmã, de apenas 12 anos, não precisa trabalhar, apenas estuda e ocupa todo o seu tempo vago com o namorado. Ela teme entregar-se a ele e engravidar. Ele promete um casamento. Ela aceita. Eles precisam de dinheiro para fugir. Eles roubam e escondem cocaína na casa de Heli que descobre e deita a droga fora. Os donos da substância aparecem e alguém terá de pagar pelo prejuízo. Basicamente esta é a trama de Heli, o diferencial está na maneira como Escalant conta a sua história.

Heli (Armando Espitia) e a sua irmã (Linda González Hernández) dividem o tempo em tela. Primeiro entendemos a dinâmica distorcida do namoro de uma menina de 12 anos e um rapaz bem mais velho, que divide seu tempo entre ela e o treino para entrar numa milícia de combate às drogas. Neste momento, Heli é uma mera personagem secundária da qual pouco sabemos. Após o incidente com as drogas, os donos aparecem e Heli, a sua irmã e o seu namorado são sequestrados, dando início a segunda e mais difícil parte do filme. Aqui Heli assume seu papel de protagonista nas longas e explícitas sequências de tortura, o que talvez tenha sido a melhor decisão de Escalant. O realizador não nos apresenta a Heli na primeira parte do filme. Ele mal aparece. Não o conhecemos e pouco nos importamos com ele. Heli torna-se um de nós. Nós que vivemos em grandes e violentos centros urbanos, possíveis vítimas, independemente de nos colocarmos em situações de risco ou não.

E não há nada de bonito num ato de violência. Num mundo sem beleza,numa situação tão adversa, não há para Escalant outra maneira de filmar que não explicitando as monstruosidades das quais somos capazes. Há uma sequência, que muito lembra do trabalho de Haneke nas duas versões de Funny Games, na qual Heli é amarrado ao teto e torturado na frente de crianças que assistem a tudo, sentadas num sofá. Elas nada fazem e assim como nós, sentam-se confortavelmente e assistem àquele “espetáculo”. E assim como nos filmes de Haneke, se o propósito é elevar a experiência do público como espectador a um nível raramente visto no cinema, devemos, assim como aquelas pessoas sentadas no sofá, ver tudo. Sem corte ou filtros.

Há muito já se conheceu e entendeu o poder de sugestão do cinema. Basta pensarmos que os aliens mal aparecem no primeiro filme da série, Alien (Ridley Scott, 1979), ou em Rosemary's Baby (Roman Polanski, 1968), a criança não tem o seu rosto focado em nenhum momento da projeção. Ainda assim, o monstro do universo criado por Ridley Scott, ou o bebé do filme de Polanski estão gravados no fundo das nossas mentes após as sessões. E casos assim, em que não mostrar é uma decisão mais sábia que mostrar, não são raridades no cinema. Mas em Heli vemos o exato oposto. E aqui, isso funciona tão bem quanto o suspense funcionou nos exemplos dados. Escalant filma sem filtro, sem cortes, sem qualquer pudor a violência que pretende retratar. E o que poderia ser mais um caso de torture porn, torna-se uma resposta a um fenómeno do cinema contemporâneo: a glamourização da violência. Escalant seria a antítese ao cinema, por exemplo, de Jacques Audiard.

Vemos tudo e ainda que desviemos os olhos algumas vezes, rapidamente voltamos a olhar. Não queremos perder nada. Até quando ele resistirá? Quanta dor, mutilação e violência um corpo consegue suportar? Para respondermos às perguntas, devemos continuar a olhar. E assim fazemos. Compactuamos com o que o realizador nos mostra, por pior que seja. Assistimos a tudo. Calados. Tão calados quanto um jovem que após um discurso de um oficial do governo sobre uma campanha anti-drogas do governo mexicano, sobe ao palanque utilizado por um político e ainda que tenha um microfone em mãos, não tem nada a dizer e nada diz.


As opiniões são de Walter Neto, cinéfilo, licenciado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade de Coimbra com ênfase em Cinema, a quem muito agradecemos pela contribuição.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

INDIE 2013 (Belo Horizonte) - Dia 4


Big Sur (2013), de Michael Polish Uma estrelaUma estrelaUma estrela


Um dos debates mais calorosos quando se pensa em cinema certamente é o da adaptação cinematográfica. Muitos ainda vêem uma hierarquia entre literatura e cinema, na qual a sétima arte sempre viria em segundo plano. Seja por ser mais recente, ou por ser desde o nascimento uma arte massificada, o oposto da literatura; ainda que de tempos em tempos esbarremos em algum fenómeno literário. 

Quando uma adaptação chega às telas, não devemos cobrar fidelidade - o cinema tem recursos que a literatura não tem, assim como a literatura não possui todos os meios dos quais o cinema dispõe. Devemos entender que estamos a comparar “leituras” ou “interpretações” do realizador, do argumentista, do produtor e que de uma forma ou de outra isso sempre será diferente do que o escritor pretendeu (ainda que nunca tenhamos acesso a essa informação) e do que nós imaginamos. Peço desculpas pela grande divagação, embora eu a sinta necessária. 

Um dos nomes mais adorados da literatura mundial é, sem sombra de dúvidas, o de Jack Kerouac, o rei dos beatniks. Movimento que, mesmo após anos de seu surgimento e declínio, nunca deixou de fato de influenciar muitos dos que o lêem. Lembro-me de ter lido em algum lugar que não havia nada mais triste que um jovem conservador. E essa frase vem-me sempre à mente quando penso nas obras de Kerouac e porque razão elas ainda continuam tão relevantes. Talvez essa inquietação seja natural aos jovens, essa sensação de não possuir um lugar no mundo, esse medo da certeza de que eventualmente nos tornaremos como nossos pais. Kerouac continua um rei, embora nunca tenha clamado para si o título, de quem passa por esses momentos turbulentos da juventude. Mais uma divagação, peço desculpas novamente. 

Mas após a sessão de Big Sur não conseguia deixar de pensar que a única coisa que havia ficado do filme em mim era a impressão de que os poucos mais de 90 minutos não apresentaram nada além das digressões de Kerouac, bem interpretado por Jean-Marc Barr. E talvez isso ocorra pelo tom de reverência que se tem ao se falar da obra ou ao adaptar a obra do autor. O filme tem os seus belos momentos, como todo o primeiro ato no qual somos apresentados a um Kerouac pouco conhecido. Cansado, com medo, acuado por tamanha repercussão conseguida pelo seu On The Road. Mas depois o filme cai no lugar comum das adaptações de Kerouac. O mesmo problema que me incomodou bastante durante a sessão de On The Road (Walter Salles): mais texto, seja narrado em off ou mesmo filmado, vemos Kerouac digitando e digitando o que seria o livro Big Sur. Logo mais reverência e menos cinema. 

O filme é bom, as atuações estão todas corretas, a realização é segura, mas fica-se com aquela sensação de que logo esqueceremos sobre esse encontro com Kerouac e sua loucura e inquietação em Big Sur, que ironicamente fica como secundário no filme. 




Há cineastas que não se preocupam em facilitar a vida do espetador e que consequentemente não desejam que o seu público caia na ilusão de realidade criada pelo cinema, em relação ao que é projectado no ecrã. Um exemplo disso é o português Manoel de Oliveira que parece querer filmar a linguagem, o meio cinematográfico, mais que a própria história sendo contada. Ainda utilizando-me do exemplo dado com Oliveira, basta vermos a forte presença de uma mise-en-scène teatral nos seus filmes, uma marcação rígida dos atores, a câmara sempre parada à frente do plano, tal como o público fica sentado diante de um espetáculo teatral, isso tudo somado ao texto sempre declamado pelos atores. 

Eis que me deparo com Història de la meva mort, de Albert Serra e passo toda a projeção do filme pensando em Oliveira. A história é teatral, sim, mas assim como em Oliveira, não é teatro filmado. A diferença é enorme entre as duas situações e não pode ser esquecida. Atores sempre filmados em longuíssimos planos, quase todos primeiríssimos planos; vemos tudo bem de perto. A boca e o texto declamado é o objeto de desejo de Serra que, em raros momentos, permite filmar o fundo no qual os atores estão inseridos. 

A narrativa é bastante simples, vemos figuras barrocas, exageradas, caricatas até. Aqui, Casanova e Drácula, mas poderiam ser homens comuns que viviam no velho continente em períodos de transformação social e filosófica. O pensamento estava mudando: a razão e fé batalhavam por quem tinha mais influencia e espaço no velho continente. E o homem comum via-se no meio dessa disputa. 

Os personagens lêem, comem e até defecam – o que é explicitamente filmado por Serra. Tudo para construir um momento histórico e situar o filme nele sem se apoiar em grandes cenários ou figurinos para reconstrução de época. É certamente um belo estudo das possibilidades da linguagem cinematográfica e de seu poder, mas ao longo das quase três horas de duração esbarramos em alguns problemas. 

Claro que é um filme tão barroco quanto seria de se esperar: um exagero de elementos, figuras satíricas e a longa duração. Mas há um questionamento que faço: Serra coloca todos aqueles elementos, porque a sua narrativa pede ou para “sofisticá-lo” e “adequá-lo” aos festivais? Se for este último caso, parece ter dado certo, já que o filme venceu em Locarno. Talvez seja um daqueles filmes que, com o tempo e outras “visitas” do público, cresça, mas eu (e grande parte do público, já que muitas pessoas foram abandonando a sessão ao longo da projeção), saímos do cinema com a sensação de que uma grande obra foi atrapalhada por uma grande pretensão. Ou talvez este tenha sido o real propósito de Serra: complicar e não nos dar um segundo de descanso ao longo da projeção. E se um dos papéis da arte é incomodar e nos tirar do comodismo, o seu filme é um grande êxito para o qual não estava preparado.


As opiniões são de Walter Neto, cinéfilo, licenciado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade de Coimbra com ênfase em Cinema, a quem muito agradecemos pela contribuição.

domingo, 8 de setembro de 2013

INDIE 2013 (Belo Horizonte) - Dia 3


Tradicionalmente além das mostras MUNDIAL e INDIE BRASIL, o Indie é conhecido por fazer uma retrospectiva de algum cineasta influente no atual panorama do cinema independente mundial. Em edições anteriores foram realizadas retrospectivas completas de cineastas como Apichatpong Weerasethakul e Béla Tarr. Essas retrospectivas são tão aguardadas quanto o próprio line-up das mostras principais, afinal de contas, em que outra ocasião poderíamos ver as mais de sete horas de duração de Sátántagó do húngaro Tarr numa sala de cinema? 

Este ano a retrospectivas contempla dois realizadores bem distintos entre si. O chinês Wang Bing que entrou para a história do cinema mundial com os seus longos e contemplativos documentários sobre o declínio do modo de produção e vida na China Comunista. Já o francês Jean-Claude Brisseau sempre se destacou pelas polémicas evocadas pelos seus filmes, sempre filosofando sobre o feminino, a nudez, o sexo e a violência e por não ter pretendido encaixar-se em alguma das correntes estéticas do cinema que a sua carreira atravessou. 

Nesta primeira parte abordarei o épico A Journal of Crude Oil (Caiyou riji, 2008) de Bing e seus 840 minutos de duração. A segunda parte das críticas sobre as retrospectivas será dedicada ao francês Brisseau. 



Este talvez seja um dos projetos mais ambiciosos do cinema contemporâneo. Originalmente Bing pretendia utilizar setenta horas de imagens capturadas sobre o dia-a-dia de um grupo de trabalhadores de uma petrolífera no deserto de Gobi (região sul da Mongólia). Mesmo após uma significativa redução, o documentário manteve as suas proporções épicas tendo uma duração de aproximadamente 840 minutos. 

A proposta estética de Bing envolve uma delicada relação com o tempo, levando a outro extremo o que já vem sido visto no cinema europeu, ainda que toda generalização seja perigosa. Não se trata aqui simplesmente de planos longos e poucos cortes. Mas sim de entender que na proposta realista é justamente na montagem, na mesa de edição, nos cortes que a ilusão de realidade se desfaz. A vida é percebida em uma contínua progressão do tempo e ao contrário do cinema, não somos capazes de determinar o exato momento do começo e o fim de uma ação.

Este é o primeiro fetiche ou sintoma do cinema de Bing: querer prolongar o efeito enganoso de realidade causado pela projeção das imagens no seu público. O que faz com maestria. Mergulhamos tão intensamente naquelas imagens/realidade que a passagem do tempo deixa de ser medida por Chronos, o tempo cronológico, sequencial dos gregos para o Kairos que mede a duração de uma experiência como um todo sem reduzi-la em minutos e horas. 

Os homens acordam, comem, saem para o trabalho, almoçam, voltam para o trabalho, comem mais uma vez e por fim, dormem. Em A Journal of Crude Oil, ainda que acompanhemos apenas um dia na vida daqueles trabalhadores, é onde o segundo fetiche do realizador se torna mais explícito: a repetição e banalidade do cotidiano. Ainda que seja na vida daqueles homens que lidam com máquinas tão grandes e com a produção do bem natural mais cobiçado da contemporaneidade: o petróleo. 

E como bom documentarista cabe ao realizador ser capaz de entender que a sua simples presença, somada ao fato do objeto de interesse perceber que estar a ser filmado é suficiente para quebrar e alterar a rotina daquelas pessoas. É aí que está a diferença do cinema de Bing para outros documentaristas: a capacidade de diminuir ou ao menos diluir a sua intervenção ao longo das horas de projeção, a ponto de torná-la quase imperceptível em alguns momentos. 

Muito se questionou se o projeto resultaria em algum tipo de instalação de arte mais que um documentário. Mas tal crítica parece prender-se mais com as delimitações geográficas da sala de cinema e a dificuldade de distribuição encontrada por filmes mais longos, para definir o que é ou não cinema e seu valor artístico. Bing pouco se importa com isso e usa todo o tempo que possui a favor da sua narrativa e estética. Não é uma experiência fácil, sentar e contemplar o cotidiano, ainda mais aquele árduo cotidiano, em tempos de velocidade na transmissão de informação. Mas porque a nossa experiência de observador deveria ser fácil, se a do observado não é? Por algumas horas, os olhos de Bing são os nossos. Contemplamos e é só isso que podemos fazer. Assim como o realizador durante a filmagem do documentário, não cabe ao público interferir. 


As opiniões são de Walter Neto, cinéfilo, licenciado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade de Coimbra com ênfase em Cinema, a quem muito agradecemos pela contribuição.