Título original: Playback (2026)
Realização: Sérgio Graciano
Argumento: Mário Cenicante, Joana Andrade
Apesar da tentativa de direccionar alguns esforços estéticos inspirados noutros exemplos cinematográficos, as reconhecíveis experimentações audiovisuais não são suficientes para salvar o que, de resto, acaba por ser um filme bastante básico e, pior, redutor da carreira do artista, não acrescentando nada para a posteridade do mesmo.
Consegue-se reconhecer nos últimos tempos uma larga aposta em biografias de autores musicais (estadunidenses maioritariamente), que de uma forma geral –conforme a própria popularidade do artista em si–, têm tido grande sucesso, mais que não seja pelo reviver num grande ecrã dos momentos musicais que nos marcaram num ou noutro momento.
Recentemente, antes mesmo de saber que este filme viria para as nossas salas de cinema, pensara que, na nossa riquíssima cultura musical, haveria também igual espaço para apostar nesse âmbito cinematográfico, dado até a tentativa de há uns anos com Variações.
Com este esforço dedicado ao músico Carlos Paião, o filme tenta-se inserir parcialmente no género do musical, desde a primeira sequência cantada. Se isso me deu alguma esperança inicialmente, ao mostrar uma sequência que tirava proveito da primeira aparição em público do artista para mostrar a sua maior desinibição enquanto cantor de uma forma criativa, rapidamente percebi que essa ideia não seria prolongada pelo filme, a partir do momento em que é escolhido fazer uma recriação da actuação televisiva de 'Playback'.
Nestas biografias de músicos, existem sensivelmente duas formas de inserir as sequências focadas nas músicas do artista: seja acompanhando a cronologia da própria concepção das músicas pela carreira do artista (exemplo disso será Bohemian Rhapsody), ou incorporando as músicas de forma mais integrada na própria narrativa, aproveitando a letra ou a própria sonoridade de uma canção específica para enaltecer um dado momento, por vezes através de uma sequência menos realista e mais "abstracta" (como Rocketman, ou o recente Better Man). Esta última, a meu ver, mais interessante de um ponto de vista cinemático, por se aproximar de uma visão menos documental dos eventos focados.
E porque o realizador acaba por usar ambas de forma intermitente, por não haver um compromisso com uma ou outra forma de ilustrar as canções, as que existem nessa forma mais abstracta poderiam ser quase retiradas do filme sem que o mesmo sofresse no seu todo, apesar de serem de longe as mais interessantes do filme.
Nessas cenas, o filme parece uma homenagem a uma homenagem, tirando inspiração de um "recente" –será uma década pensado como tal?– exemplo no género do musical, em La La Land. Quer seja a cena do casamento, pela coreografia natural e acompanhada num só plano, quer ainda mais a que acompanha 'Cinderela', relembrando mesmo a cena romântica no observatório astronómico desse outro filme.
A verdade é, a partir dessa inspiração, existe uma tentativa de ter uma identidade visual própria, baseada na época em que se insere. A própria cinematografia chega a assemelhar-se a gravações da época, e existe uma aposta em figurinos vibrantes, adaptados conforme a sensação pretendida para cada cena. Mesmo os arranjos de várias das músicas, assinadas pelo artista Paulo Furtado (mais conhecido por The Legendary Tigerman) estão muito bem conseguidas na sua transposição para uma linguagem mais cinemática, trazendo uma musicalidade associada à época a partir da instrumentalização, numa ligeira adaptação à ideia que se tende a criar das sonoridades dos anos 1980.
Mas simultaneamente, essas cenas teriam beneficiado de um enquadramento narrativo mais cuidado, para enaltecer o seu signficado. Olhe-se por exemplo, para a sequência que apresenta 'Cinderela'. A mesma é apresentada no momento em que foi conceptualizada por Paião, e como que surgida num sonho. Se a mesma tivesse sido enquadrada mais cedo no filme, para demonstrar de forma menos "explícita" (pelo menos, em diálogo) da relação de Carlos com Zaida; ou, se no momento em que é inserida no filme, tivesse sido melhor enquadrada como uma reanimação da relação do casal, após as discussões que começam a surgir no seio do mesmo, poderia a sequência ter o maior impacto dramático a que almeja na sua visualização.
Fora essas sequências, o argumento terá um mesmo problema que um anterior filme do realizador, dedicado a Salgueiro Maia, reconhecível a partir do fechar do primeiro acto com a apresentação da titular música: o de transformar o que certamente era primeiro uma série numa longa metragem curta e comercializável. Possa parecer injusta a leitura, a verdade é que a corrídia passagem por os momentos focados no filme deixa espaços em aberto, cenas em falta, e acaba por passar para o evento seguinte sem inteiramente fechar o anterior.
Por exemplo, após uma breve entrevista na rádio, porque briga repentinamente o casal de forma tão contrária à sua relação até então? Porque sequer surge a aparente atitude rebelde de Paião visível nessa entrevista? Teve de facto a derrota na Eurovisão um impacto tão grande em Carlos? Acabamos por acompanhar mais proximamente a reacção de Zaida que a do protagonista, sintoma que se reconhecerá no resto do filme.
O maior problema, apesar de tudo isto, é o filme reduzir a carreira do autor às suas músicas e momentos mais conhecidos, que perante o final trágico do artista, parece contraditório com a ideia focada no texto final, de que no pouco tempo que teve como cancioneiro, ter escrito mais de três centenas de músicas. Aliás, o facto de nem sequer focar, por exemplo, o fado por ele escrito que as editoras recusaram, até Amália escolher ela própria gravá-la; ou todas as músicas que escreveu para Herman José, que enaltecem a ideia expressada de criar divertimento para todas as faxas etárias, parece dizer que o único interesse do artista foi um punhado de canções que escreveu, e em particular as com que participou nos festivais musicais.
E fosse o intuito demonstrar o impacto nesse sentido, faz um trabalho paupérrimo, não dando real ideia do impacto no público português. Acaba por ser o filme ilustração do que parece uma biografia de apenas uma página do autor, com alguns momentos mais pessoais que de outra forma não seriam focados, mas que pouco dão a conhecer o artista para lá do óbvio.
Apesar de um reconhecível esforço de "importar" interessantes modelos de filmagem, e de um cuidado na realização, em momentos claramente adaptada ao sujeito e época retratados, o filme acaba por ser feito apenas para quem já conhece o historial de Carlos Paião, chegando a introduzir no final a ideia de um rumor espalhado anos após a sua morte, sem nunca expressar que rumor é esse. É criado para quem pretenda celebrá-lo de uma outra forma, mas sem nunca dar a conhecer mais da sua história enquanto músico, que mostraria a versatilidade e extensão da sua expressão artísitica.





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