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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Review: Please Like Me - Temporada 1

Por Joaquim Silva.

"You know that I'm greedy for love."


A adolescência é difícil. A puberdade manifesta-se, as hormonas tomam conta do físico e, sem que nada possa ser feito, alteram para sempre o psicológico. Sim, o plano de existência superior, metafísico, transcendente, aquele que atribuímos à personalidade, à cognição, ao zodíaco, enfim, a tudo menos às hormonas, é inquestionavelmente moldado (também) por elas. Mas e depois, quando se entra na idade adulta? Temos tudo resolvido ou a vida cada vez se complica mais?

Please Like Me aborda a vida de Josh, um jovem de 20 anos, que, pelo que se percebe, não estuda nem trabalha, mantém uma relação com Claire, é o melhor amigo de Tom e não gosta da namorada deste, Niamh. Abruptamente, Claire tem a epifania que Josh é gay, acaba com ele e destrói o seu pequeno mundo de tudo simples.

Ancorada numa formula simples, mas (extremamente) eficaz de comédia moderna, sem faixas de riso e sem situações inconcebíveis ao comum mortal, Please Like Me explora a redescoberta de Josh da sua vida, do ambiente que o rodeia, dos seus sentimentos em relação ao divórcio dos pais e tentativas de suícidio da mãe, e mais que tudo, das suas próprias necessidades de aceitação. É uma insuportavelmente leve e adequada metáfora da condição humana mais elementar: a vida em grupo. Josh revela-se um jovem emocionalmente fragilizado, infantil por vezes, e ingénuo ao efeito que a sua frieza e distância criam nos que o rodeiam - insegurança e exclusão. Assim, na sua busca pelo seu lugar, Josh acaba por forçar todos a repensarem os seus, desde Tom (que não consegue terminar com Niamh), a Geoffrey (o "namorado" demasiado bem resolvido de Josh), até Rose e Adam.

Apesar da sua orientação cómica, Please Like Me também lida com temas sensiveis, como a depressão nos mais velhos, a redefinição da orientação sexual e o processo de coming out - uma das cenas mais despretensiosas é a de Geoffrey a verbalizar que Josh é gay para a sua família, algo que o próprio ainda não havia feito.

Assim, Please Like Me é mais uma série que lida com a descoberta do eu - em todas as vertentes - e da sua influência no ambiente que o rodeia. A expressão de liberdade em Please Like Me é audivelmente muda, pois os limites de cada um são a cada momento manobrados para encaixar o outro, sem que seja necessário denotá-lo - assume-se esse fenómeno como natural.


ABC 2 / Netflix

Temporada 1

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Review: Rupaul's Drag Race - Temporada 9

Por Joaquim Silva.

"When Love Takes Over, You Know You Can't Deny"

Neste momento, já todos devem estar familiarizados com o fenómeno da cultura LGBT internacional RuPaul's Drag Race - um reality show em que um grupo de concorrentes, drag queens, atua numa série de desafios pelo direito ao título de America's Next Drag Superstar (relativamente aproximado do ainda mais popular America's Next Top Model).

Tipicamente, não me debruço sobre programas televisivos não roteirizados. Tecnicamente, RuPaul's Drag Race é um reality show, de natureza muito pouco scriptada (suspendamos a descrença, por uns momentos, e acreditemos). Assim, importa ressalvar: RuPaul's Drag Race é um fenómeno de popularidade, e isso sim justifica uma crónica de opinião.

Desde a sua estreia, em 2007, transmitida pela LogoTV (canal exclusivo dos EUA) que RuPaul's Drag Race apelou a um segmento específico de público. No entanto, a sua nona temporada foi transmitida pelo canal VH1, contou com o episódio mais visto de sempre (Oh My Gaga - episódio 1) e mais uma vez sofreu uma metamorfose artística e de storytelling. Os seus episódios consistiam numa fórmula mais ou menos constante: mini-challenge, main challenge, runway, lipsync for your life. Alguns desafios, como o Snatch Game, ou o Reading is Fundamental, são recorrentes em todas as temporadas e esperados ansiosamente pelos fãs do formato.

Mais do que um showcase de Drag Queens, o programa dá uma plataforma para a discussão de assuntos de interesse da comunidade LGBT, com uma leveza séria que só pessoas do meio artístico com maior expressão no mundo homossexual conseguem imprimir. Desde as pageant queens, às shady queens, às comic queens, até àquelas que ainda estão a descobrir a sua identidade (looking at you, Aja), o programa conta com um elemento chave que une todas estas personagens: a luta. Pela identidade, seja de género, de expressão, artística ou simplesmente o direito à existência.

Contudo, o que de mais impressionante existiu na temporada 9 foram as concorrentes: Charlie Hides, a mais velha participante de sempre, com 52 anos; Trinity Taylor, a maior surpresa da herstory; Shea Coulée, dançarina exímia e sempre preparada; Aja e Valentina, duas front-runners simultaneamente amadas e odiadas pelo público, que protagonizaram os dois momentos mais memoráveis dos episódios regulares ("You're perfect, you're beautiful" | Untucked ep 2) e o momento mais tenso de sempre no lipsync for your life ("maskgate" | Episódio 7).

O episódio final, com a coroação, criou a sua própria controvérsia: através de um modelo de morte súbita por lipsync, RuPaul criou intriga, expectativa, interesse e surpresa. Sasha Velour, uma das concorrentes com o histórico mais consistente, acabaria por gravar para sempre o seu nome nas páginas da história com as suas performances impressionantes de duas músicas do ícone Whitney Houston.

Assim, concorde-se ou não, Sasha Velour mereceu indubitavelmente a vitória na corrida, e torna-se legitimamente America's Next Drag Superstar. Com uma fórmula renovada, com algumas falhas mas acima de tudo com passagens inesquecíveis, RuPaul's Drag Race é uma aposta ganha, tanto do criador, RuPaul Charles, como da VH1, como de todos que um dia duvidaram que a cultura LGBT pudesse ter tanta expressão, importância e relevância na sociedade como hoje a vemos.



VH1

Temporada 9

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Por quê agora?: Academia e a polémica da diversidade

Por Walter Neto, cinéfilo, licenciado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade de Coimbra com ênfase em Cinema.


Foi um caminho tortuoso que levou o público até esta edição dos Oscars. Foi o ano no qual finalmente não pudemos mais virar nossas caras para não vermos o problema do qual a premiação se tornou o maior sintoma: a falta de diversidade em Hollywood. Chris Rock, em determinado momento de seu monólogo de abertura – brilhantemente escrito- pergunta para seu público:

Por quê agora?

Ora não chegamos a 89.ª edição da premiação vendo só actores brancos indicados pela primeira vez? Então por que só agora? O primeiro motivo e o mais claro de todos são as mudanças sociais e conquistas de direitos pelas minorias; uma vez que sua representatividade social aumenta, a arte como um reflexo da sociedade, deve acompanhar isso. Então, começamos a nos perguntar qual o motivo de isso não acontecer. Mas 2015 foi o ano no qual um filme como Creed, uma releitura, de um dos maiores nomes e personagens do cinema americano, pelo ponto de vista de jovens negros, Coogler, Jordan, Tessa Thompson, foi de frontrunner a esnobado, mas uma coisa foi constante: o reconhecimento, ainda que merecido, do único actor branco em cena, Sylvester Stallone. O mesmo ocorreu com Straight Outta Compton e sua única indicação ao Óscar pelos seu roteiro, escrito por roteiristas brancos. Os casos ao longo da história da premiação são vários, e assim um padrão claro pode ser estabelecido: mesmo quando os actores, realizadores, e outros artistas negros conseguem espaço, não conseguem o reconhecimento.

Outra pedra no caminho da realização dos Oscars desse ano foi sua posição histórica de prémio que encerra a temporada de premiações. Já se falava em Oscars So White quando membros de outras premiações como SAG, Spirit e outras guildas de críticos votavam em seus respectivos prémios. Aqui está uma parte do problema pouco comentada: o Óscar não é o problema, ele é um sintoma. Assim uma febre não é a doença em si, mas sim, um sinal que há algo de errado. A indústria é culpada pela falta de oportunidade, mas a indústria entrega o que o público de uma maneira geral espera ver. Temos culpa pelo estado das coisas. As premiações acabam reflectindo isso também.

Vencedores do Spirit 2016 nas categorias de interpretação.

Vencedores dos Oscars 2016 nas categorias de interpretação.

A Academia tentou tomar providências, anunciou mudanças nas regras da premiação, mas como qualquer decisão tomada rapidamente no meio de uma crise está longe de ser suficiente. A instituição ainda está entendendo o problema. Um exemplo de como o momento é complicado foi o não convite para a cantora Anohni , segunda transexual indicada a um Óscar na história, cantar sua canção indicada ao prémio, mesmo com toda a promessa de inclusão e diversidade. Mas nem tudo são críticas.

Ainda que esteja longe de solucionar o problema de falta de diversidade em suas indicações, a Academia definiu com esta premiação o tom de como lidará com o problema: reconhecendo que há um problema. O monólogo de Chris Rock deixou muitas pessoas presentes desconfortáveis porque essa era a intenção. Era um riso nervoso. Um riso por saber que o problema existe e ninguém se incomodou em reconhecer sua gravidade. Falamos de racismo, homofobia, machismo quando esses assuntos ganham as manchetes dos principais jornais, geralmente ligadas a um crime de ódio. Mas e no dia-a-dia como fica esse debate e como ficam nossas atitudes? Rock não escolheu o caminho mais fácil, porque o problema não é fácil e não será resolvido logo. Mas seu acerto foi deixar claro que a abertura foi para todos os actores negros presentes na premiação como convidados, não indicados. Para todos que acompanham os Oscars e não se vêem representados quando os indicados são anunciados. O monólogo não foi para uma Academia que é formada maioritariamente por homens, brancos, cisgéneros, heterossexuais com uma média de idade superior aos sessenta anos. O discurso de abertura foi para todo que não fazem parte desse clube e ficam de fora assistindo ainda que continuem contribuindo para a arte em geral.

Pós o conturbado 2015/2016 para a Academia fico com a certeza que ano que vem teremos alguma diferença em relação aos indicados este ano. No ano seguinte mais mudanças, e no outro, mais ainda. Ainda que a passos lentos, a mudança está chegando e não há espaço para o que ocorreu este ano se repetir. Para abraçar a diversidade a Academia se viu obrigada a abraçar seus críticos e ouvi-los.

"Trumbo": Perseguidos por um pensamento livre

Por Miguel Stichini.

Inúmeras vezes a indústria de Hollywood abordou a história da chamada Lista Negra. Dedos foram apontados àqueles que elencaram nomes, numa época onde fascistas tremiam perante os comunistas, ainda que sem grande razão aparente. Vários artistas foram vítimas desta caça às bruxas, sendo impedidos de trabalharem em frente ou atrás das câmaras. Contudo, na sua maioria, essas dramatizações de uma época negra de McCarthy, onde a pergunta ‘têm ou alguma vez teve ligações a’ surgia em tom histriónico pelos corredores do Congresso Americano.

O argumento de John McNamara, baseado na biografia de Bruce Cook, vai mais longe afirmando que todas as audiências da altura foram feitas enquanto teatro político, originando apenas uma indústria que vivia sob o medo de se ser banido e que via o número de desempregados a aumentar diariamente. No momento em que Hollywood e a Guerra Fria colidem é que o trabalho do argumentista nos apresenta algo de novo.

A obra de Jay Roach encontra o balanço perfeito entre entretenimento e representação de assuntos sérios de foro político, tal como seria de esperar por parte do cineasta que anteriormente tinha sido responsável pelo drama político Recount (2008) e pela trilogia sobre um homem internacional envolto em mistério, Austin Powers. Desta vez o realizador segue a vida de Dalton Trumbo, um dos dez argumentistas que constavam na lista negra de Hollywood por apoiar a ideologia comunista.

O cineasta, conhecido pelos seus trabalhos em comédias, deu o primeiro passo em caminhos dramáticos com o referido telefilme. De certa forma, podemos considerar este filme como a sua primeira tentativa de desenvolver um verdadeiro objecto de prestígio. Contudo, as suas predisposições cómicas colocam em causa grande parte das suas dignas ambições.

Desenvolver um argumento sobre a vida de um argumentista que documenta a sua luta contra a indústria cinematográfica através das suas obras vencedoras de um Oscar, parece torna-se em algo tão intrincado quanto Inception. Contudo, John McNamara fá-lo na perfeição, documentado a longa luta que actores, escritores, realizadores e produtores empreenderam durante mais de uma década contra a opressão governamental de alguns dos seus mais básicos direitos. Através de rápidos e impressionantes recursos léxicos da língua inglesa, a veia cómica e hilariante da história percorre toda a narrativa de forma a enfatizar os ridículos crimes pelos quais os protagonistas foram acusados. O argumento é impecável por entre momentos de raciocínio rápido e outros que nos colocam pensar. Existem alguns diálogos memoráveis que nos levam a questionar os nossos pensamentos, a nossa perspectiva face ao assunto e até nós mesmos.


Bryan Cranston é simplesmente incrível enquanto protagonista desta história. Ele eleva de tal modo a fasquia que o restante elenco não teve outro remédio que não segui-lo. O actor transforma- se em Dalton Trumbo perante os nossos olhos, encarnando verdadeiramente a personagem. O elenco secundário é igualmente soberbo. O comediante Louis C.K. é colocado contra o protagonista nas cenas iniciais, provando a existência de uma faceta do actor desconhecido do público. Helen Mirren consegue desenvolver alguém que é totalmente deplorável enquanto ser humano. Os actores que tiveram a cargo retratar pessoas tão conhecidas como John Wayne, Kirk Douglas e Otto Preminger submergem de tal forma nos seus personagens que criam a sensação de que estamos perante os verdadeiros. Todos estes actores em muito contribuem para criar profundidade e dimensão ao mundo em que habitam.

Apesar de grande parte do elenco ter em mãos personagens interessantes, algumas foram mal desenvolvidas e rapidamente percebemos que não levarão a lado algum. Existem narrativas paralelas como a que envolve a intriga entre o protagonista e a intolerante personagem de Adewale Akinnuoue-Agbaje, que não deviam existir. A única narrativa paralela importante, a que envolve a família de Dalton Trumbo, acaba por nos passar ao lado. Diane Lane é praticamente negligenciada, tendo apenas uma cena memorável enquanto esposa do protagonista.

O filme tem um esquema de iluminação e um humor musical familiar, que claramente invoca de forma nostálgica um Hollywood antigo, mas que acaba por dar ao produto final um tom caricatural. A introdução de figuras históricas da indústria torna-se num acto auto-congratulatório e os momentos de excessiva ode à indústria surgem como rebuscados uma vez que o foco principal do filme é um dos momentos mais negros da mesma.


É interessante verificar o frisson existente em torno deste filme, numa tentativa de nos recordar que os argumentos de Dalton Trumbo continham mensagens socialistas, como se isso revelasse o seu grau de cumplicidade num esquema magistral que não o absolve totalmente. Considerando os iniciais filosóficos do comunismo, parece questionável que alguém os incluísse no acto de contar uma história. Se as pessoas que tentam denegrir o nome do argumentista tivessem o mesmo grau de sensibilidade para com o filme de temas bíblicos, poucas seriam as obras cinematográficas a não serem consideradas propaganda.

Trumbo sente-se frequentemente como se se tratasse de uma história repetida inúmeras vezes. A forma como dramatiza um dos capítulos mais negros da história do cinema não produz nada de revelador sobre a indústria, ou sobre o seu protagonista, mas ainda assim consegue ser um retrato preciso de uma personagem central a uma trágica injustiça social.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

"Carol": Vidas privadas

Por Miguel Stichini.

O realizador norte-americano Todd Haynes é indiscutivelmente o Douglas Sirk do cinema gay contemporâneo da nossa geração. Ou pelo menos o Rainer Werner Fassbinder. Um artista talentoso e sensível responsável por obras-primas como Far from Heaven (2002), Safe (1995) e Velvet Goldmine (1998), Todd Haynes encontra-se no topo da lista de autores do cinema queer, ao lado de Gregg Araki e John Cameron Mitchell. Recorrendo inúmeras vezes ao melodrama technicolor, como pano de fundo para os seus filmes, o cineasta deixa-se inspirar em All That Heaven Allows (1955) e Ali: Fear Eats the Soul (1974). A narrativa pouco convencional das suas obras foca menos sobre os seus personagens sexualmente conflituosos, mas mais nas construções sociais que geram esses mesmos conflitos.

Muito mais astutas que a visão heterossexual sobre uma história homossexual de Ang Lee em Brokeback Mountain (2005) e menos chocantes que Mysterious Skin (2004) de Gregg Araki, as obras de Todd Haynes ocupam um espaço na história de Hollywood de quem apresenta um conhecimento profundo do melodrama clássico e uma grande atenção ao posicionamento da câmara, captação de imagem e edição, muito mais que os seus contemporâneos gostam de admitir.

O casamento de grandes mentes, claramente, exige um certo nível de impedimento. Qual a razão pela qual o cineasta volta a visitar o mesmo tempo e tom que visitara aquando de Far from Heaven? Simplesmente porque o período garante não só armadilhas românticas de alta-qualidade, como também um grau perfeito de frustração sem o qual um romance não se tornaria drama. Se tivesse adaptado The Price of Salt de Patricia Highsmith aos dias de hoje, o efeito jamais seria o mesmo. A destruição de um casamento heterossexual em nome de uma relação homossexual é hoje saudada cinematicamente por uma honestidade emocional, enquanto a obra de Patricia Highsmith mergulha por entre o crime, um silvo de desprezo social e ao perigo a ele subjacente.

A diferença entre as duas obras do realizador é que desta vez a iluminação incandescente, as paletas de cor saturada, diálogos over-the-top e a banda sonora de Elmer Bernstein são postas de lado. Este novo filme move-se para lá de uma simples homenagem ao género, capturando a sensação repressiva de uma América em plenos anos 50, apresentando uma estética mais íntima. Os rostos dos personagens são muitas vezes capturados através das janelas de um carro à chuva, cobertos por uma desfocada paisagem urbana, por entre diálogos pontuados por longas pausas e a angústia surge através de um desespero silencioso. Trata-se de um retrato definitivamente mais naturalista, mas não deixa de ser cuidado, rigoroso e maduro.


O argumento poderia simplesmente ter sido sobre um relacionamento vítima de uma época passada. Em vez disso, a dupla de argumentistas constrói um testamento à capacidade do amor em prosperar. Trata-se de uma história bela em parte devido à manipulação irrestrita do relacionamento lésbico das protagonistas e à precisão com que o mesmo é retratado. Existe uma certa rigidez tipicamente associada a filmes de época, onde guarda-roupa e diálogos apropriados se colocam no caminho das personagens. Tal não acontece no mais recente filme de Todd Haynes que recorre àquele período temporal como molde para um drama humanista.

O trabalho de fotografia de Edward Lachman evoca a memória de dias passados, adoptando a aparência inconfundível de um snapshot de cor em movimento tirado em 1952. A juntar-se a esta magia imagética quase perfeita encontram-se os atributos técnicos de Carter Burwell, cuja banda sonora se torna uma pontuação melancolicamente urgente; os guarda-roupas primorosamente envolventes de Sandy Powell e o detalhe onírico da direcção de arte de Jesse Rosenthal. A beleza do vintage que pontua o ecrã é rapidamente enfraquecida pela amarga e potencialmente sufocante realidade subjacente à época.

Em momento algum se sente a intenção em se criar uma tragédia, mas ainda assim ao evitar reconhecer as adversidades dos seus protagonistas, permite-lhes um raio de esperança no final das suas lutas interpessoais. Por entre toda a tolice e ignorância que as protagonistas enfrentam diariamente, no final do dia prevalece algo entre elas bem mais poderoso que coloca de lado os intrometidos e intolerantes que ousam empunhar as suas opiniões.

Sempre que se fala de filmes americanos com grandes nomes no elenco cuja história gere questões de género, a maioria das vezes a tendência dos críticos é sugerirem que os elencos e realizadores conseguem transformar a história em algo acessível e normativo. Trata-se de uma noção no mínimo insultuosa que involuntariamente sublinha uma agenda heteronormativa sobre qualquer obra romântica que ouse não conter um casal hetero no seu centro.


Cate Blanchett e Rooney Mara são as protagonistas de um dos romances mais marcantes do ano, e um dos casais mais magnéticos. A contenção de Carol e Therese exibida à medida que as duas conversam e aos poucos se tornam íntimas é retratada de uma forma honesta. O mesmo acontece aquando da consumação do seu relacionamento, que pungentemente rasca a narrativa. De um ponto de vista exterior, Carol de Cate Blanchett é impressionante, impecavelmente vestida, com o seu cabelo loiro ondulado enrolado apenas para a direita, exibindo um ar de confiança a cada a passo, mas onde nem tudo é perfeito na sua vida privada. A actriz é resplandecente a casa segundo, matreiramente hilariante num momento, desoladora no seguinte. O auge da sua crua e humanística disponibilidade surge no confronto final com Harge, numa sala repleta de advogados enquanto defende o direito de ser ao mesmo tempo mãe e alguém merecedor de afecto.

Para Therese a novidade da sua relação é ligeiramente perturbadora, mas não menos emocionante. A sua auto-descoberta sexual que, em última análise, a leva a tomar algumas decisões corajosas, é tratada sublimemente. Rooney Mara têm desenvolvido notoriamente quase todos os seus grandes papéis de forma contida. Por vezes funciona muito bem para a personagem, por vezes, inadvertidamente, dá-nos a sensação que a actriz tem falta de carisma. O estilo representativo da actriz assenta que nem uma luva na sua tranquilamente modesta personagem, onde actriz e personagem parecem ganhar confiança aos poucos simultaneamente.

Carol inteligentemente desenvolve um retrato de alguém que vive numa sociedade socialmente repressiva e o que isso realmente significa. Tristeza e esperança entrelaçam-se por entre a força gravitacional que atrai as duas protagonistas enquanto o universo de tudo faz para as separar.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

The Danish Girl: "Contra a hegemónica heteronormativa hollywoodiana"

Por Miguel Stichini.

Um filme que se preze tenta desenvolver uma ilusão de espelho da sociedade, oferecendo os seus pontos fortes e os seus pontos fracos ao escrutínio criterioso com a esperança de criar um mundo melhor. Ou simplesmente fornece um sentimento de entretenimento ultrajante que nos permite colocar de parte os nossos problemas por umas horas, enquanto nos deixamos deliciar pelas imagens e pela história.

O argumento adaptado de Lucinda Coxon, ao tentar desenvolver uma história que se enquadre no primeiro grupo, torna-se obediente às várias provocações e desafios que o casal de protagonistas enfrenta com a estrita linearidade da sua história. Diria mesmo que se torna rigidamente mais documental que ficcional. A sua estrutura narrativa aborda a progressiva jornada de mudança de Einar para Lili, mas sem nunca conseguir obter um ritmo orgânico que preencha os espaços em branco de um possível e convincente arco interno.

Por uma questão de foco e impulso, Lucinda Coxon poderia ter eliminado um conjunto de narrativas românticas paralelas que nunca chegam a lado algum. Existem momentos sucintos onde palavras são trocadas entre uma mulher atormentada e a pessoa que outrora fora o seu marido. A situação irretratável de alguém preso dentro do corpo errado surge com eximia exactidão. Depois, esse efeito rapidamente desvanece com one-liners que ameaçam neutralizar o factor surpresa.

É difícil entender de forma adequada a frustração e admiração que o filme de Tom Hooper tenta transmitir. Por um lado, a representação de um transgénero/transexual numa Europa na segunda década do século passado é algo refrescante, ainda que contido. No decorrer da acção não surgem inúmeros discursos de falso moralismo ou demasiadamente melodramáticos. Por outro lado, trata-se de uma história contada através de uma perspectiva de alguém que se pôde dar ao luxo de se submeter a uma intervenção de mudança de sexo e de estatuto social, sem grandes barreiras impostas pela sociedade.

Para um filme que retrata a história de uma das primeiras pessoas a transitar de sexo fisicamente, ela nunca nos transmite uma sensação de medo ou dificuldade face a algo que ainda hoje é extremamente difícil de concretizar. Não deveria ser uma história sobre o sofrimento, por si só, mas não deveria surgir como algo banal. As coisas nem sempre são cor-de-rosa para o protagonista, mas certamente que existirão momentos penosos e trágicos durante a sua jornada e esses nunca nos são apresentados.


Ainda assim, tecnicamente este é o trabalho do sobrestimado Tom Hooper que consegue atingir mais notas certas. O realizador opta por colocar de lado os seus floreados visuais mais irritantes de forma a criar um sentimento mais genuíno, mais imponente. O cineasta decide remeter sua tendência de recorrer a uma gama cinzenta e a espaços de uma negatividade inútil, que nos remetem para uma teatralidade amadora, a um canto deixando que aquelas pessoas ganhem vida e a história surja o mais natural possível.

Enquanto estudo de empatia o filme apresenta-se imparcial e inteligentemente evita tomar o partido de um dos protagonistas. Valentemente conta-nos uma história que precisava ser contada, ainda que o faça mais sobre a perspectiva de Gerda. A transformação de Einar em Lili não contém material suficiente para que se torne em algo profundo e que responda a todas as nossas perguntas. Contudo, é um testamento à versatilidade de Eddie Redmayne que consegue criar mais camadas a uma personagem que rapidamente se poderia ter tornado oca. O actor aceita novamente uma personagem que o desafia fisicamente. Ele consegue adoravelmente jogar com os seus traços andróginos e maneirismos femininos, criando duas personagens discretas, recatas e apaixonadas. Numa das cenas mais marcantes do filme, vemos Einar a visitar um peep-show, enquanto tenta duplicar os gestos da performer atrás do espelho.

O título do filme poderia estar no plural, pois o trabalho de Alicia Vikander não deve ser desvalorizado de forma alguma. A actriz consegue de forma exímia e repleta de nuances retratar uma mulher que se balanceia entre um sentimento de culpa auto-imposta, decepção e lealdade para com os desejos do marido. Argutamente o argumento não a transforma em algo unidimensional; ela suporta o marido de forma incondicional, ao mesmo tempo que o vê fugir-lhe por entre os dedos e com o decorrer da acção apenas a sua solidão persiste.


Dos actores secundários destacam-se três: Matthias Schoenaerts é sedutoramente viril e apresenta uma mentalidade bastante aberta para a época enquanto Hans Axgil, amigo de infância de Einar e futuro amante de Gerda; Ben Whishaw carrega uma sensibilidade intrigante como Henrik, o primeiro amor de Lili; e Amber Heard adiciona um toque de energia e frescura na pele de Ulla, uma bailarina de espírito livre e amiga próxima do casal de protagonistas.

The Danish Girl, tal como um grande artista, tenta ver o mundo a partir de inúmeras perspectivas. Enquanto tenta compreender a sua própria identidade, desenvolve em nós uma sensação de empatia para com a rebeldia e as normativas, os adaptados e os que não se deixam rotular, entre a ténue linha que separa os sexos socialmente estabelecidos.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

"Brooklyn": Exílio faz o coração crescer (e dividir-se)

Muitas vezes, enquanto visualizamos um filme, damos por nós atraídos como que magicamente pela história. Alguns filmes exigem toda a nossa atenção, outros hipnotizam os nossos sentidos, deixando-nos perdidos pela exuberância e técnica do cinema dito clássico.

O filme de John Crowley tem a sua quota-parte de sequências emocionalmente manipuladoras, principalmente porque a banda sonora é frequentemente arrogante e excessiva, sendo as suas nuances e perspectivas sobre o amor jovem e como uma pessoa consegue evaporar os medos e incertezas de alguém meramente peculiares. Tudo isto é consideravelmente poderoso. As cenas entre os dois protagonistas são inegavelmente românticas e nada exageradas ou representadas de forma pouco credível, como se tratassem de uma adaptação cinematográfica de um qualquer romance de Nicholas Sparks. Os dois exalam uma química bastante natural, que é impulsionada pela sua inocência, pelos seus sorrisos claramente autênticos e pelo carinho que nutrem entre si.

O argumentista Nick Hornby, autor dos romances About a Boy (2000) e High Fidelity (2000), desenvolve uma história que segue a linha tradicional de outras cautelosamente optimistas como Avalon (1990) e In America (2002). Estes filmes não são dramas, comédias ou romances, mas antes recaem num agradável lugar entre todos esses géneros. Como acontece em ambos, aqui o argumento também cria um mundo cheio de personagens texturizadas que ajudam a construir uma sensação de lugar e tempo. O argumentista adapta o romance de Colm Tóibín, articulando lindamente os sentimentos de alienação, perda, amor e esperança.

A protagonista não é apenas uma menina a ser cortejada, mas uma mulher que busca incessantemente pelo seu devido lugar, entre a América e a Irlanda. Simpatizamos com ela facilmente, porque ela demonstra uma interminável empatia pelo próximo. A mudança de humor e perspectiva é subtilmente espelhada peça câmara de Yves Bélanger. Durante as cenas de abertura em Enniscorthy, os seus movimentos são cautelosos, constrangidos, como se relutantes em chamar a atenção para si. Uma vez em Nova Iorque, os movimentos tornam-se mais soltos, surge uma sensação de liberdade e facilidade, mesmo por entre as ruas mais movimentadas ou por entre a azáfama de Coney Island. Quando regressa ao ponto de partida, parte dessa liberdade transatlântica viaja com ela. Esta transformação é ainda mais instigada pela textura da iluminação, que aos poucos passa de moderada a expansiva.

Ao mesmo tempo, o filme intrinsecamente americano e incrivelmente multi-cultural, apresenta, de forma complexa e emocional, a experiência daqueles que optaram por imigrar. O facto de recorrer à perspectiva de uma vibrante jovem irlandesa é o que faz com que a história seja excelente. É um triângulo amoroso, sem dúvida, mas a batalha interior da protagonista é o factor mais interessante. Yves Bélanger faz Brooklyn de 1950 emocionante e estranha, de início, e romântica à medida que a jornada de auto-descoberta da personagem principal avança. As imagens da Irlanda são espaçosas, abertas e caseiras.

Saoirse Ronan, que desde a sua estreia em Atonement (2007) tem vacilado na sua escolha de papéis, apresenta-nos uma performance subtil e discreta enquanto Ellis, uma jovem mulher que largamente instigada pela sua irmã mais velha deixa para trás a claustrofobia fofoqueira de uma cidade provincial da Irlanda e ruma em direcção ao burburinho impessoal de Nova Iorque.


O tempo, início dos anos 50, não é menos importante que o lugar. John Crowley recria ambos sem falhas, com uma desconcertante atenção aos detalhes, tanto no que diz respeito ao guarda- roupa, como ao diálogo. Aqui a distância torna-se mais importante que a conformidade social.

O momento mais comovente do filme surge mais cedo que o habitual. No primeiro Natal longe de casa, a protagonista ajuda o padre a servir um almoço para um grupo de idosos expatriados irlandeses que numa busca pelo sonho americano acabaram por cair em desgraça. Por entre o calor e o álcool que descongela a sua desolação, um dos homens presentes levanta-se e decide cantar em Erse, uma língua gaélica. Na sua voz encontra-se contida toda a doçura, dor e mágoa subjacente ao exílio.

Brooklyn é actual pois as questões que levanta sobre imigração e tolerância, no que diz respeito à diversidade racial, religiosa e étnica, continuam a ser as mesmas mais de cinquenta anos depois. Não apresenta nada de revolucionário, no entanto, a sua restrição com uma pitada tensão dramática, faz com que as suas diversas e complexas camadas emocionais se tornem intrigantes. O filme é uma bonita ilustração da experiência de um imigrante em meados do século XX, centrada num comovente romance.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

"Spotlight": Sexo, mentiras e catolicismo

Por Miguel Stichini.

Para um jornalista há uma linha que separa o acto de reportar uma história que poucas pessoas conhecem e o de dar a conhecer dimensões demasiadamente horríveis de uma história que muitos conhecem, mas que são incapazes de assumir. Acreditar em algo não é fácil. Por vezes, a nossa crença enfrenta uma perseguição injusta e por vezes é testada. O mundo tende a alinhar-se rapidamente em frente aos crentes com pedras na mão, com completa noção de quem irá atirar a primeira pedra. A história universal encontra-se repleta de desafios para os devotos. É muito difícil de se preparar para a dor que poderá provir de dentro de uma instituição. Mais difícil ainda é prepararmo-nos para uma luta após aprendermos que a nossa comunidade nos deixou para trás.

Thomas McCarthy e Josh Singer desenvolvem um retrato disso mesmo, de forma intrincado para assegurar que não seja visto como um ataque flagrante à Igreja Católica. É inegável que a sua presença em Boston, encobrindo um conjunto de crimes graves, roça a máfia local. No entanto, ambos fazem-no enquanto recusam explorar a narrativa que gratuitamente fazem da Igreja um vilão. O verdadeiro vilão deste argumento é a ideia de sigilo institucional.

Firmemente, os cineastas concentram-se na investigação da equipa Spotlight do jornal Boston Globe e as provações emocionais que esta enfrenta. Trata-se de um filme de elenco, onde todos os envolvidos se aproximam do material da melhor forma possível e sem perder um pingo de intenção astuta pelo caminho. Em vez de se perder por entre meditações sobre as virtudes do jornalismo de tempos antigos, celebra pessoas que mudaram o mundo, dia após dia, com trabalho, suor e lágrimas.

Fascinante, e potencialmente controversa, a obra de Thomas McCarthy está entre as melhores representações do jornalismo americano no grande ecrã. Ela merece ser mencionada no mesmo fôlego que Zodiac (2007), de David FincherThe Insider (1999), de Michael Mann e All the President's Men (1976), de Alan J. Pakula, enquanto melhores exemplos do género. Contém personagens ricamente e subtilmente detalhadas que investigam algo bem maior que os seus egos, recorrendo à sua fé na verdade e na justiça para superar o medo, abuso e complacência para com um dos mais horríveis crimes alguma vez cometidos. Ninguém se encontra acima da equipa ou da história, nem o elenco, nem os cineastas.


O argumento dá-se ao luxo de abordar um tema que todos nós já vimos e ouvimos inúmeras vezes e ainda assim conseguir aguçar o nosso investimento emocional. Detalhe após detalhes, tudo nos é apresentado. Qualquer pessoa que tenha o menor interesse nesta história deixar-se-á levar às memórias sobre os vários escândalos da Igreja Católica ao longo dos anos, a quão profundo esse buraco é. Quando uma das personagens finalmente explode perante tais atrocidades e o quão impregnadas estão na nossa sociedade, nós estamos tão irritados, frustrados, tristes como ela. O filme leva-nos pela mão, passo a passo, através da agonizante história. Não há nada de novo, mas ainda assim encontra uma forma de nos deixar com um nó no estômago.

Será porque nos apercebemos que grande parte da verdade se encontra encoberta por privilégios? Confidencialidade entre cliente e advogado, uma instituição que se protege a si mesma. Serão actos postos em prática para evitar a acusação, tornando difícil processar aqueles que realmente merecem a totalidade da acusação? Como se os padres ao saírem do confessionário olhassem para nós, relembrando-nos que há segredos que não podem ser partilhados.

Tudo isto leva-nos a um sentimento de remorso, pois nós sabíamos, todos nós sabíamos e nunca dissemos ou fizemos nada. Em vez disso, encolhemos os ombros, negamos e recuámos. Mesmo que não seja na nossa religião, as dezenas de actos hediondos que ocorreram afectaram pessoas não tão distantes de nós. Fica então a questão: teremos nós colocado em causa e na corda bamba o jornalismo investigativo? Os acontecimentos desta história têm catorze anos, mas podiam ter quarenta considerando a forma como o jornalismo em papel mudou. Nos dias de hoje, pessoas são julgadas e condenadas em menos de 160 caracteres, antes mesmo de qualquer facto ser conhecido.

Michael Keaton atinge novamente o seu expoente máximo pelo seu humanista retrato de Walter Robinson, amplamente porque a sua personagem, a contrário de Riggen Thomson em Birdman, nunca é demasiadamente dramático ou surge enquanto peixe fora de água. Enquanto isso, Mark Ruffalo faz um excelente trabalho enquanto um jovem jornalista, que foge ao cliché do repórter presunçoso ou engraçadinho que genericamente é retratado em Hollywood. Rachel McAdams presenteia-nos com um dos seus melhores e convincentes trabalhos da sua carreira. O mesmo se pode dizer de Brian d’Arcy James. O desempenho de Liev Schreiber é o mais bizarro, com uma personagem rígida que tenta não ser invasiva, mas que acaba por nos roubar a atenção cada vez que surge.


Spotlight ousa abordar um tema peculiar, evocando sentimentos de tristeza, desgosto, confusão, raiva e arrependimento. Ao longo dos anos, vários foram os documentários focados no escândalo de abuso sexual da Igreja Católica, mas Thomas McCarthy decide agora examinar o assunto incidindo sobre os esforços de uma pequena equipa de jornalistas focada numa teia de conspiração. É um filme que tinha o direito de ser inteiramente sisudo e deprimente, mas que se torna no oposto.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

"The Revenant": Selvajaria emocionante e desgastante

Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance) foi amplamente elogiado, impressionou críticos e espectadores um pouco por todo lado. O mundo inteiro queria saber que faria Alejandro González Iñárritu após tão singular objecto. A sua escolha recaiu na adaptação para o grande ecrã de um western biográfico sobre Hugh Glass. Filmado num meio selvagem durante o inverno rígido canadiano, o filme não se poderia afastar mais da realidade claustrofóbica da obra anterior do cineasta.

O revenant ou renascido do título, segundo se diz, é um fantasma visível ou um cadáver animado que se acredita ter regressado do túmulo para aterrorizar os vivos. Este significado popular encapsula na perfeição a temática do filme, a ideia de que as más acções por vezes não passam impunes, mesmo que as consequências não se observem de imediato. Afinal, um pássaro volta sempre ao mesmo ninho.

O filme pouco ou nada tem a acrescentar, quer em termos narrativos quer históricos, mas é impensável não se acreditar que esse seja exactamente o objectivo do realizador. Durante a acção paira sobre nós uma sensação de vazio, de falta de um sentido para a vida, para toda a violência que visualizamos no ecrã e para tudo o resto que acontece. No entanto, sobreviver a todo esse desespero e desapego é sem dúvida a razão de tudo. Vagamente adaptado a partir do romance de Michael Punke, o argumento de Alejandro González Iñárritu e Mark L. Smith projecta um filme mais experimental do que instigante, mais envolvente do que íntimo.

O maior problema do filme não é a sequência inabalável que mostra o protagonista a ser atacado por uma ursa, por entre gritos agonizantes, estalar de ossos e todo e qualquer detalhe desagradável que uma cena do género implica. O problema é a duração e a simplicidade do filme. Após uma obra subestimada, um conto verdadeiramente fascinante face ao potencial de lutar por um lugar próprio e digno, o realizador dá uma volta de 180.º, onde o ambiente é amplo e as motivações das personagens mais claras.

Depois de vermos o realizador a enfrentar abismais ideias na sua obra anterior, quando comparamos com a deste ano esta fica aquém das expectativas. Após termos conseguido superar o choque das sequências extremamente brutais no início do filme, o restante peso do mesmo e da narrativa recais sobre os ombros do seu actor protagonista, Leonardo DiCaprio que surge como que a lutar contra a superficialidade do seu personagem. A sua interpretação é a mais física de sempre, conseguindo um trabalho incrível, não nos parecendo brejeiro ou inacreditável. No entanto, o seu personagem apenas pode ser visto como alguém que procura vingança.

No seu amor declarado pelo enigmático e realista, que de tão realista se torna falso realismo, o realizador encosta-se completamente e de forma exaustiva ao trabalho do protagonista. Em qualquer imagem do filme o charme pueril de Leonardo DiCaprio está longe de ser encontrado, mascarado por uma pele envelhecida devido a uma vida dura e a todos os elementos que a rodeiam. O actor entrega-se completamente à sua personagem e nós ao final de alguns minutos rendemo-nos completamente a ele.


Embora seja ele a peça central da narrativa, Tom Hardy é o herói não reconhecido. Fitzgerald, o seu personagem, pode ser um autêntico covarde, um racista, um criminoso em fuga, mas o actor consegue fazer desses traços algo humano, mesmo que muitas vezes chegue a ser desconfortável. O seu bandido vicioso só se preocupa com a sua própria sobrevivência, fornecendo o ligeiramente desagradável humor negro que o filme possui. É ainda de ressalvar o trabalho de Domhnall Gleeson como o capitão da armadilhada expedição e Will Poulter como o jovem inocente que tenta não se perder por entre os literais e metafóricos vícios da vida.

As cenas com a ursa, que provavelmente serão aquelas que mais publicidade obtiveram, mesmo quando comparada com o próprio filme, são momentos cinemáticos angustiantes, independentemente do nosso conhecimento prévio relativo às cenas em questão. É graças exclusivamente ao trabalho de Leonardo DiCaprio, que nos leva a ficar momentaneamente sem fôlego e alarmados pela implacabilidade do momento.

O conceito de respiração aparece repetidas vezes durante o filme. Mesmo antes de tudo começar, da primeira imagem surgir no ecrã, podemos ouvir alguém a respirar de forma profunda enquanto dorme. Mais à frente a câmara é colocada tão em cima dos actores que a sua respiração embacia a lente. Engenhos como este não deveriam ser surpresa para ninguém quando pensamos que o responsável por eles é o director de fotografia Emmanuel Lubezki.

Célebre pelo seu trabalho em Gravity e Birdman, aqui consegue um trabalho não menos impressionante. As maravilhosas fotografias de paisagens sob a rigidez do inverno encapsulam a beleza da natureza e funcionam enquanto lembrete constante de que mesmo por entre toda a selvajaria dos que nos rodeiam, a nossa vida é algo pela qual vale a pena lutar. A envolvente cena da batalha entre os índios e o grupo de Hugh Glass é assustadoramente real e implacável. Meticulosamente coreografada, a cena repleta de mortes move-se a um ritmo frenético, com muito poucos cortes. A inclinação da câmara em direcção ao céu após o assentar da poeira informa-nos que alguém nos observa lá de cima.


A banda sonora composta por Ryuichi Sakamoto roça o perfeito ainda que seja deveras minimalista. Com maravilhosos efeitos visuais faz sentido manter a música a um nível de ambiente. O compositor contidamente mistura instrumentos sinfónicos com influências electrónicas de forma a criar momentos sobre o lado calmo da vida, de reflexão e meditação. The Renevant consegue deixar-nos boquiabertos visualmente e emocionalmente pelas melhores razões possíveis. Belo, polido e primorosamente construído consegue ser ao mesmo tempo cru, imperfeito e visceral. Trata-se de um teste de resistência pelo qual vale a pena terminarmos desgastados.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

"The Big Short": A crise financeira para principiantes

Por Miguel Stichini.

A economia mundial entrou em colapso em 2008, muito por causa do poder sem controlo do sector bancário e da sua predilecção para realizar apostas arriscadas e gigantescas face ao mercado imobiliário. O sector investiu milhares iludido que o retorno seria astronómico. Eis que lhes saiu o tiro pela culatra. Banqueiros por toda a América decidiram tratar as poupanças e empréstimos de milhares de pessoas como fichas de póquer num casino pessoal. Eventualmente acabaram por perder e quem pagou foram os contribuintes.

Talvez o póquer não seja a melhor das metáforas. Talvez eles estivessem antes a jogar blackjack ou roleta russa. Ou quem sabe estivessem a jogar Jenga e quando as pessoas deixaram de poder pagar empréstimos ou hipotecas a torre cedeu e caiu. O realizador e argumentista Adam McKay recorre a todas estas metáforas e mais alguma, ao ponto de colocar em cena uma mulher nua dentro de uma banheira para apimentar os argumentos sobre o assunto.

No seu mais recente filme o cineasta decide recontar, sem paninhos quentes, a história de um esquema financeiro que destruiu milhares de vidas em todo o mundo. É exactamente isso que ele faz, com as devidas precauções capta a raiva que os americanos sentiram quando viram milhares de dólares dos contribuintes serem gastos no resgate de um sistema defeituoso, fornecendo um pára-quedas aos bancos e assegurando que mais tarde ou mais cedo estes voltarão a governar.

A dupla de argumentistas, composta pelo realizador e por Charles Randolph, adapta o romance homónimo de Michael Lewis sublinhando cada detalhe repugnante com um ligeiro despeito contido, focando os grandes nomes por detrás destes acontecimentos enquanto coloca todas as cartas na mesa. Existe um momento em particular onde Mark Baum se senta à mesa com Mr. Chau,  que se ri na cara de cada pobre coitado que caiu no erro de comprar um dos seus pacotes CDO (collateralized debt obligation). Outra personagem, interpretada por Max Greenfield gaba-se de se aproveitar da ignorância de dançarinas exóticas quando estas concordam em contrair ultrajantes empréstimos que nunca conseguirão pagar.

Pode parecer ficção hollywoodiana, mas quando pensamos na difícil situação financeira que estas acções provocaram, como podemos negar a veracidade de tamanhas atrocidades que a sangue frio conseguiram afundar um mercado outrora indestrutível?

A transparência com que o assunto é abordado rapidamente se torna num dos pontos fortes do filme, pois este sabe o que os espectadores querem e sabe como servi-lo na perfeição. Apelativo às grandes massas, movido por estrelas com uma carinha laroca que nos alimentam com dados históricos e que nunca deixam o brilho de Hollywood prejudicar uma sensação de obscuridade e secretismo subjacentes aos referidos eventos.

Teria sido mais fácil focar o argumento na ambiguidade moral dos indivíduos que saíram a ganhar com a maior queda financeira americana, mas o argumento não poderia deixar de colocar o seu holofote sobre os bancos e entidades governamentais que tentaram (e que em quase todos os sentidos foram bem sucedidos) negar os seus actos fraudulentos e negligências. O realizador destaca a natureza duvidosa da indústria, mesmo quando troça dela. Por exemplo, a linguagem complicada do sector bancário é possivelmente útil para aqueles que nele trabalham, mas para os leigos não passam de meros sons, principalmente quando reduzida a siglas e acrónimos. Para desenvolver explicações visuais, o realizador recorre a um grupo de nomes conhecidos – Anthony Bourdain, Margot Robbie e Selena Gomez – que trocam por miúdos o significado de CDO ou subprime mortgage rates. Ainda assim, este filme demanda que o visualizemos algumas vezes para compreendermos plenamente a extensão da teoria económica e fiscal. Não nos podemos esquecer que não se trata de um documentário e não deve ser visto como tal.


Do esmagador elenco destaca-se um impressionante Steve Carell, que uma vez mais prova que o seu lado profundo e dramático tem sido mal aproveitado. Ele polvilha a sua personagem Mark Baum com o desprezo social de Michael Scott de The Office e com a intensidade de John Du Pont de Foxcatcher, adicionando uma raiva moral que une tudo isto de forma surpreendente. Christian Bale, um actor que parece incapaz de não submergir completamente nas suas personagens, combina o distanciamento e o peso da genialidade num personagem desconexa de tudo o resto, sendo talvez a mais empática e inspiradora.

No entanto, a verdadeira estrela do filme é, de longe, o seu realizador, que de forma retroactiva faz com que as suas comédias Talladega Nights: The Ballad of Ricky Bobby (2006) e Step Brothers (2008) ganhem um lado profundamente astuto, ao conseguir demonstrar a forma clara como habilmente consegue comicamente reflectir sobre o drama da vida real.

Por entre alguns pequenos problemas com os quais podemos facilmente lidar, há um que deixará muitos ligeiramente irritados. O filme é sobre Wall Street e como tal grande parte das suas personagens será do sexo masculino. Quando faz sentido que um filme apenas tenha um elenco masculino, como acontecera com The Thing (1982) de John Carpenter, a maioria das pessoas deixa passar esse lado pouco feminista. Contudo, só porque um filme é sobre referido género, não significa que tem de ser completamente patético no retratato que faz das mulheres. Todos os personagens femininos aqui presentes são caricaturas frágeis colocadas na história para apoiar ou impedir um dos personagens ou simplesmente como objectos sexuais com o mero intuito de manter o público interessado em algo que tende para o aborrecido. Margot Robbie aparece nua num banho de espuma para nos falar sobre hipotecas e uma stripper semi-nua para nos falar sobre o mercado imobiliário na Florida. Serão elementos como este totalmente necessários? Anthony Bourdain aparece para nos explicar um termo financeiro e está completamente vestido.


The Big Short poderia ser descrito como se tratasse de uma anomalia ou, pior, um projecto de vaidade ou prestígio de alguém que está a tentar algo diferente. Ainda assim, é um retrato de como os líderes mundiais nem sempre têm o interesse dos comuns em mente enquanto tomam decisões arriscadas. É uma das mais divertidas lições sobre história contemporânea e matemática dos últimos tempos.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

"Joy": Primeiro dançaram, agora esfregam o chão

Por Miguel Stichini.


Os mais recentes trabalhos de David O. Russell fundiram os caprichos neuróticos dos seus primeiros filmes, cujo tom improvisado nos remetia para um cinema independente pós-Cassavetes, com clássicos de comédia peculiar desgastada desde o seu ressurgimento com The Fighter (2010) e Silver Linings Playbook (2012). Ambos os filmes apresentavam uma nova roupagem aos géneros drama desportivo e comédia romântica, respectivamente, enquanto tentavam permanecer sintonizado com o interesse do realizador sobre a intimidade familiar e protagonistas cujo desejos e personalidades são levados ao limite, tanto por uma instabilidade interior como por uma pressão externa. American Hustle (2013) foi uma tentativa ocasionalmente impressionante, inúmeras vezes desconfortável em alargar a sua paleta e prestar homenagem a alguns dos mestres da década de 70 como Martin Scorsese e Robert Altman, mas que nunca chega a encontrar o seu foco dramático.

O seu mais recente trabalho é uma celebração do kitsch suburbano, uma ode às obras de John Waters ou Michael Ritchie, mantendo Frank Capra no horizonte enquanto antepassado espiritual. A reputação de Frank Capra como o mestre do cinema clássico mais optimista e sério, superficialmente parece não ser o par perfeito para a política voluntariamente anárquica do trabalho de David O. Russell. No entanto ambos estão unidos pelo fascínio para com o comportamento individualista presente nos americanos, ao mesmo tempo que partilham o gosto por um sentimentalismo intenso que muitas vezes está subjacente a uma sobreposição de cinismo. Tal como no seu filme anterior, o cineasta pega numa histórica verídica fascinante e submete-a aos seus caprichos de contador de histórias.

O argumento foca-se na biografia de Joy Mangano, a criadora da Magic Mop que passou de uma insolvência limítrofe a magnata, tornando-se a primeira vez que o realizador desenvolve um projecto que conta com uma personagem feminina no seu centro. A história da protagonista é efervescente e desenvolve-se enquanto um moderno conto de fadas irónico, se não mesmo cínico. Quando a heroína cria o seu talismã somos remetidos para o segmento de The Sorcerer’s Apprentice de Fantasia (1940). Tal como acontece com Mickey Mouse, Joy é impulsionada a multiplicar a sua galinha dos ovos de ouro.

Através da utilização de momentos narrados e sequências onde o sonho ganha uma dimensão de telenovela, o filme adquire uma qualidade que o distingue da maioria dos filmes biográficos. A obra tem o seu pontapé de partida no set de uma telenovela dando o tom para como pessoas cómicas e meio patetas se podem comportar na vida e, em especial, nas vendas. Outro elemento único é o totalmente actualizado mundo do canal QVC. É emocionante poder vislumbrar o que acontece por detrás das câmaras daquele canal, um mundo que raramente tem sido explorado, se é que alguma vez o foi.


A rodear o desconexo universo da polivalente princesa Joy e a sua avó Mimi, sempre com uma palavra de coragem, encontramos o arquétipo de família desenvolvido por Grimm-Perraut: uma mãe depressiva e viciada em telenovelas; um pai irresponsável, que após uma palmada nas costas imperdoavelmente humilha publicamente a filha; uma madrasta má que investe na ideia da protagonista mas exige retorno financeiro; uma meia-irmã feia que ressente o sucesso de Joy e, inconscientemente ou não sabotei-a; e um delirante príncipe que volta e meia surge com assomos de inteligência.

Cada vez mais o realizador apresenta-se dependente de interlúdios e momentos musicais; sem eles, e como o lançamento do seu projecto inacabado no início do ano, facilmente conseguiríamos prever um filme monocórdico, ao invés de atingir de forma consistente uma diversa gama de notas. Tal como acontece no mais recente filme de Xavier Dolan, o cineasta não vai longe para a sua selecção musical, sendo que na maioria das vezes os personagens conseguem ouvi-la. A popularidade das canções nem sempre funciona, mas a sobreposição de temas românticos (a Cinderella de Prokovief, a banda sonora de Vertigo (1958) por Bernard Herrmann e a de David Buckley para The Good Wife) e de uma orquestra é perpetuamente sublime, funciona.

Jennifer Lawrence é simplesmente fascinante naquele que é o seu papel mais maduro até à data. A actriz consegue ser exemplar nos embaraçosos momentos iniciais em que a sua personagem se debate para vender o seu produto, e convincente na sua ascensão ao poder. Ela catalisa as suas próprias oportunidades e luta contra as suas próprias batalhas, partindo para uma guerra contra um grupo de empresários por conta própria. Não é supressa alguma que o filme apresenta um elenco secundário de luxo. David O. Russell tem provado desde sempre ter um talento sublime para dirigir actores e este filme não é excepção. Robert De Niro encontra-se em forma, como o seu lado cómico no ponto. O actor parece conseguir estar sempre no seu melhor sobre a batuta do cineasta.

O principal problema desta obra cinemática é a tepidez de algumas das imposições estilísticas do cineasta, a sensação de que ele está a tentar compensar o seu embaraço de nos estar a presentear com uma história bem-disposta com mecanismos que em nada contribuem para o objectivo que inicialmente se propusera: uma supérflua narração auto-consciente de Mimi, que desaparece a meio do filme; interlúdios ineficazes de uma espécie de lirismos onde a câmara flutua por casas suburbanas; montras e outdoors publicitários, entre outros. Estes aparatos imagéticos fazem-nos recordar autores americanos que tentam imitar os estilos de David Lynch e Gus Van Sant na tentativa de extrair a beleza surreal de elementos brejeiros e efémeros de uma sociedade de consumo que apresenta uma lacuna de perspectiva ou contexto.


Joy é uma comédia frenética, ligeira e vivaz com um ritmo acelerado, onde adversidade não é sinónimo de desistência. Esta fatia de vida e perseverança rapidamente se torna num turbilhão onde empresários são inerentemente matreiros e os membros familiares são irremediavelmente aliados incompetentes.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Star Wars: Episódio VII - O Despertar da Força, por Walter Neto


Título original: Star Wars: The Force Awakens (2015)
Realização: J.J. Abrams
Argumento: Lawrence Kasdan, J.J. Abrams, Michael Arndt
“A psique humana é essencialmente a mesma, em todo o mundo. A psique é a experiência interior do corpo humano, que é essencialmente o mesmo para todos os seres humanos, com os mesmos órgãos, os mesmos instintos, os mesmos impulsos, os mesmos conflitos, os mesmos medos.”
Joseph Campbell em O Poder Do Mito

Pouco importa se você tenha nascido em uma vila europeia, ou em algum lugar dos trópicos, ainda que as diferenças culturais existam e sejam muitas, em todos os três casos sofremos as mesmas experiências comuns a condição humana: nascimento, aprendizagem, construção do “Eu”, descoberta sexual, dor, alegria e por fim, a morte. E é em cima dessas semelhanças que a narrativa do mito se constrói- ou seja, da análise de elementos comuns e que se repetem. E ainda, de como eles poderiam ser organizados. Este, talvez, seja o segredo, ou um deles, por trás do sucesso da saga Star Wars – Guerra nas Estrelas, agora em seu sétimo capítulo, o ótimo O Despertar da Força, de J.J. Abrams. A série se estrutura claramente em cima da ideia da jornada do herói/mito para narrar as histórias de um universo tão plural, seja em planetas ou formas de vida, e na dicotomia entre bem e mal, moral e imoral; representados pelo constante combate entre a Força e seu próprio lado negro. Dualidade comum a qualquer um de nós.

Ora, é exatamente isso que o antropólogo Joseph Campbell abordou em suas teorias: a dificuldade de se estabelecer um equilíbrio entre o nosso lado da luz e o lado sombrio, entre a capacidade de uma mesma pessoa fazer o bem e o mal. E a jornada que nos levaria a fazer tais escolhas. Este é o principal ponto positivo do novo elemento da franquia, entre meio a muitas homenagens ao material clássico, Abrams consegue desenvolver seus personagens e seus conflitos de uma forma que o criador daquele universo, George Lucas teve alguma dificuldade. Principalmente, na questionável trilogia que serve de prequela para a série clássica: A Ameaça Fantasma (1999), O Ataque dos Clones (2002) e A Vingança dos Sith (2005), na qual, os personagens escolhem entre um “bem” e um “mal” muito demarcados e nada na narrativa parece ser forte o suficiente para justificar a sua escolha.

Como o filme de Abrams usa e abusa de referências aos filmes anteriores é impossível não comparar O Despertar da Força com seus antecessores. O primeiro ato do filme se preocupa em homenagear e quase recriar planos do Uma Nova Esperança (1977). Se o filme de Lucas já começa com a Princesa Leia (Carrie Fisher), pedindo socorro através de uma mensagem enviada pelo robô R2D2 e ainda nos primeiros minutos de projeção, sendo capturada por Darth Vader, que surge ocupando todo o plano e já se apresentando, não apenas como o antagonista, mas mostrando toda sua obsessão por controle e poder; o filme de Abrams começa com o piloto Poe Dameron (Oscar Isaac) em uma missão para a resistência, procurando pistas sobre o paradeiro de Luke Skywalker (Mark Hemill) e após esconder a chave para encontra-lo em seu robô BB-8, durante uma tentativa de fuga, ele é capturado por Kylo Ren (um maravilhosos Adam Driver, que em poucas cenas sem sua máscara, constrói um personagem extremamente complexo e dividido, cuja vestimenta é uma clara referência a de Vader.). Por falar em referências, Abrams em determinado momento, surpreende ao construir uma clara rima visual com uma cena de Apocalypse Now (1979).   

Apocalypse Now, 1979 & The Force Awakens, 2015

Os paralelos entre o filme de Abrams e a trilogia original são muitos e talvez este seja o ponto negativo da franquia, não confiar apenas em sua narrativa para remeter ao material canónico, mas ter que criar constantes referências aos filmes clássicos constantemente.

A New Hope, 1977 & The Force Awakens, 2015

Basicamente, em O Despertar da Força, 30 anos após a destruição do Império Galáctico, uma nova força surge, a Primeira Ordem, que pretende continuar o trabalho iniciado e não concluído por Vader. Em meio ao fanatismo e obediência cega de seus seguidores que acreditam que tudo o que fazem é para um bem maior – outro paralelo com a realidade, neste caso com governos ditatoriais; conhecemos Finn (John Boyega) um stormtrooper que que recusa a obedecer a ordem de matar inocentes que estavam em uma vila atacada por Kylo e deserta. Boyega se mostra competente em construir um personagem que descobre para que recebera todo seu treinamento e ao ver os horrores da sua ordem, foge, mas não sabe ao certo o que fazer com sua vida. É ele também o responsável por muitos dos momentos cómicos do filme, que foram escritos com competência pelos roteiristas, o próprio Abrams e Lawrence Kasdan, que funcionam como um alívio para o público em uma trama claramente mais pesada e violenta que a dos filmes originais.

Para fechar o triângulo de protagonistas temos a jovem catadora de lixo Rey (Daisy Ridley) que não se lembra de seu próprio passado e descobre possuir em si a Força que até então, acreditava ser apenas histórias contadas pelos mais velhos. Toda a evolução da personagem lembra muito, novamente, o Uma Nova Esperança e a jornada de Luke. E é com seu novo trio de protagonistas, que em parte mais avançada da sua narrativa, O Despertar da Força consiga romper com a obrigação de ser apenas uma homenagem e se mostre como um filme que se sustenta sozinho.

Se Luke, na trilogia clássica, e Anakin, nas prequelas, são atraídos constantemente pelo lado negro da Força; não é um acaso que os dois personagens comecem sua respectiva narrativa num deserto – o mito cristão coloca a passagem de Jesus Cristo pelo deserto e a tentação feita a ele por um demónio como um dos momentos mais importantes de sua história. Mas Kyle já inicia sua narrativa completamente inserido no lado negro, ainda que seja atraído pelo lado da Luz da Força. É uma inversão e um acréscimo extremamente bem-vindo a franquia. E nesses momentos de apropriação e recriação que fazem o filme de Abrams ser tão bom e eficiente.

Basicamente vemos em Kylo e Rey, um novo Luke e Leia. Voltamos, então, ao ciclo do mito/herói criado por Campbell. Para ele, o herói passa por doze passos na sua jornada de descoberta e auto-conhecimento, senso a jornada dividida em três momentos principais: partida, iniciação e retorno.


Rey , por exemplo, não se lembra de seu passado, mas vive presa em seu planeta, esperando o retorno de uma família que ela não conhece ao certo. Graças ao seu encontro com BB-8 ela é chamada à aventura e ao seu destino, o que inicialmente é recusado e só após encontrar seu mentor, um velho Han Solo (Harrison Ford) ela rompe com seu mundo e embarca, ainda que relutante em sua missão. Durante sua jornada, encontra em Finn um parceiro e vê em seu confronto final com Kylo – uma sequência de luta com sabres de luz de deixar para trás qualquer filme clássico da série, um motivo para aceitar seu papel na Força e já transformada levar o público a resolução do mistério: onde está Luke Skywalker.

O saldo final não poderia ser mais positivo, para fãs antigos e para aqueles que ainda engatinham no universo criado por George Lucas, mantendo um ritmo constante e crescente até seu ato final, sua melhor parte por se distanciar mais do tom de homenagem e consegue funcionar como um filme independente do universo no qual está inserido, ele funciona além do cânone da franquia da qual faz parte. E o universo criado por Lucas agradece o fôlego novo recebido pelo seu sétimo episódio.


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