domingo, 14 de junho de 2026

O Dia da Revelação, por Eduardo Antunes


Título original: Disclosure Day (2026)
Realização: Steven Spielberg
Argumento: David Koepp, Steven Spielberg

Aquando do lançamento de The Fabelmans, julgara aí findado o percurso cinemático de Spielberg, num exercício catártico de assunção do próprio percurso pessoal que influenciara a sua filmografia, um literal fechar do ciclo, finalizando esse filme com o seu início como realizador.
E preferia que fosse essa a memória a guardar, em vez desta fraca tentativa de reamaginar ou actualizar as suas mais antigas explorações de ficção científica. 

À medida que os lens flares iam tomando conta do ecrã em diversas cenas –recordando-me do seu uso na filmografia inicial de J. J. Abrams, cuja inspiração de Spielberg em filmes como Super 8 sempre foi assumida– apercebi-me de que o filme se sentia por demais genérico. Não se parecia com um filme do realizador em mãos, apesar da equipa se manter sensivelmente a mesma dos últimos esforços do autor, antes uma cópia de uma cópia de um dos seus filmes. Nem já tanto uma inspiração ou homenagem, como uma fraca tentativa de direccionar os mesmos jeitos sem uma percepção do que lhes dava o encanto mas suas anteriores versões. (Não significando isto que o realizador não traga ainda os seus saberes para o ecrã, como algumas das movimentações da câmara sabem demonstrar, particularmente em diálogos mais pessoais, ou em sequências de acção, frenéticas mas sempre legíveis.)

O maior problema é reconhecermos que havia um filme de maior interesse. Afinal, passamos a inteira duração da longa-metragem à espera do titular evento, para apenas visualizarmos a breve reacção de uma repórter ao revelado, o que não é suficiente para entendermos as repercussões a que o filme aspira a mostrar sem nunca o chegar a fazer. Através de um final em que a fala última da protagonista, um "Ouçam…" que parece igualmente direccionado à audiência, demarca a inaptidão do filme em responder à sua própria premissa. 
Koepp tenta até injectar falhadamente um pouco de elementos políticos mais ou menos actuais –são referidas nações à beira de uma terceira guerra mundial–, não fazendo por enveredar pelas implicações de tais eventos. O que significaria para essas nações à beira de um conflito a descoberta que é feita? Interessaria entender a reacção de diferentes populações a este evento, dos governos indiciados, a posterior tentativa de controlo, eventualmente inútil, o eventual pânico causado, o questionamento no âmbito de uma sociedade de cada vez maior divulgação de falsas informações. Interessava, no fundo, a eventual sequela.

A grande revelação do título do filme é, inclusivamente, ilustrada como um mistério, mas a qual sabemos basicamente desde o início, e que acaba apenas por incorporar as teorias conspiratórias que surgem desde o incidente ocorrido em 1947 em Roswell, no Novo México. Porque, numa aparente tentativa de mostrar uma globalização do evento, o filme acaba por se mostrar mais pequeno. Aqui, tudo cabe a um punhado de pessoas (convenientemente) estadunidenses. Ambos os protagonistas, de enorme importância, são estadunidenses, e todos os segredos, são escondidos por uma única agência dos EUA (inexplicavelmente dirigida por um britânico…).
Onde mesmo a "estética" dos extraterrestres é igual àquela que costuma ser imaginada: forma humanóide, com uma cabeça ligeiramente maior. Que face a sempre indicada vastidão do universo, parece torná-lo ainda mais pequeno no contexto do filme. Onde todas as visitações parecem ser de uma única outra raça, contrariando essa mesma ideia enunciada.


Já numa era moderna tivemos filmes, como Arrival há uma década, que fizeram por demonstrar mais eficazmente a actuação ao nível global –ainda que perante o prisma de investigadores e militares– perante um tal evento. Onde a cooperação para o entendimento da visitação, e os eventos finais acabavam por modernizar as ideias de Spielberg e Koepp de uma forma que estes não conseguem aqui fazer.
Da premissa do filme, Koepp acaba por nos oferecer uma personagem que deveria, ela sim, ter sido a protagonista do filme. A personagem de Jane, que apresenta um questionamento teológico perante a revelação dos "factos" em mãos, e que face esse questionamento, acaba por mudar o seu posicionamento e reforçar a sua fé –ainda que essa mudança surja apenas de uma pequena conversa com uma pessoa clerical, e a tempo de ajudar nos eventos do final do filme. Apresenta, ainda assim, um pequeno elemento do que os eventos provocariam em algumas pessoas, apresentando no entanto apenas uma única resolução.

Tudo isto acaba por se exacerbar perante os cento e cinquenta minutos totais de duração, tempo demasiado para um filme que durante dois terços não passa mais do que uma grande perseguição aos nossos protagonistas pela agência apresentada inicialmente. Onde são precisas decisões de enorme estupidez por parte dos protagonistas para fazer a agência aproximar-se, e novamente terem de arranjar uma forma de escaparem, num pára-arranca que a nada leva. Como quando sabendo que a agência pode controlar a companheira telepaticamente, o protagonista interpretado por O'Connor esconde tudo o que possa revelar a sua localização e ata-a à cama, não a vendando, e mantendo um papel à vista com o nome do hostel...
E embora o argumento seja o seu maior problema, é também a edição um dos aspectos de mais drástica fraca qualidade. A edição retira qualquer sensação de ritmo que o filme pudesse ter, fazendo-nos várias cenas questionar porque estamos a gastar tanto tempo em pormenores desnecessários. Não é melhor exemplo que isso que uma cena em particular. Quando durante o segundo acto, estando a personagem de Blunt em fuga, recebe um telefonema, sendo referido no final do mesmo para que destrua o telefone. Onde em qualquer outro filme, bastaria um arremesso do mesmo pela janela, aqui preferiram mostrar o carro a tentar passar por cima do telefone várias vezes sem sucesso, para Blunt ter que sair do carro para o pôr em frente ao pneu, para o carro passar duas vezes por cima, e no final ela ainda lhe saltar por cima. É inconcebível que, em nenhuma parte da pós-produção, nem o realizador nem o editor se tenham questionado pela validade de manter a cena por completo.

O que acabam por ser estes sinais, é um sintoma de um filme que nada mais tem a dizer, visual ou narrativamente, do que aquilo que o realizador já dissera com os seus primeiros filmes dedicados a visitas extraterrestres, em que a demonstração do sentimento de empatia enquanto resposta para uma melhor forma de relacionamento, sentimento tão explicitamente verbalizado numa cena do filme, era já o que os protagonistas, quer em Close Encountes quer em E.T., demonstravam perante os que pretendiam controlar a situação alienígena. Acaba por ser um filme inteiramente esquecível e despido de intuito, uma mancha evitável no eventual final do percurso deste realizador, o meu favorito.



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