domingo, 9 de fevereiro de 2020

The Witcher - Temporada 1, por Eduardo Antunes


Título original: The Witcher (2019– )
Criadores: Lauren Schmidt
Elenco: Henry Cavill, Freya Allan, Anya Chalotra, Joey Batey, MyAnna Buring, Jodhi May, Wilson Radjou-Pujalte, Mimi Ndiweni, Lars Mikkelsen, Eamon Farren, Anna Shaffer

Entendo o potencial do que tenha atiçado o interesse dos seus expectadores, mais que não seja pela oferta de um inteiro universo de fantasia repleto do mesmo género de elementos "adultos" que Game of Thrones oferecia. Ironicamente, o problema do início desta série será o mesmo do final dessa outra, apressado e inexplicavelmente desconexo de qualquer entendimento conciso e consistente dos seus protagonistas. 

Ainda que Henry Cavill faça o melhor trabalho na transposição de um rígido e severo caçador de monstros, odiado por todos e em busca de uma calma sobrevivência, assim provocado pelo que vimos a descobrir ser a sua própria falta de controlo sobre a sua vida, Geralt não parece ainda assim ser tão visto como uma das abominações que o contratam para enfrentar, aparte os conflitos inescapáveis do episódio inicial e o seu posterior afastamento das pequenas populações. A sua companhia parece ser sempre desejada, mais do que pelas mulheres que encontra (ou contrata), por qualquer outro companheiro que encontra nas suas aventuras, no qual se inclui destacadamente o bardo Jaskier.

Felizmente, é daí que retiramos o maior prazer desta temporada, numa personagem cujo tom não é o da restante série mas, por isso mesmo, parece fazer mais sentido na mesma, nos seus comentários acertados sobre o absurdo de uma dada situação ou alguns dos lugares comuns que os eventos acarretam. Melhor, são algumas das canções compostas como um misto entre música folk e pop, perfeitamente cativantes para lá do final de cada episódio, que expressam quão baratucho, previsível e simplista parece todo o enredo, e arrancando de nós os únicos sorrisos sinceros ao longo da série.




Mas esse simplismo está escondido por trás de uma desnecessária complexidade. Certamente não será necessário apresentar todos os elementos que compõem o folclore da narrativa romanceada, pois nunca fará sentido transpor directamente do suporte escrito o que poderá não funcionar num meio audiovisual. Mas quando a própria estrutura ou cinematografia não pretendem esclarecer os diferentes elementos narrativos que vai lançando, o próprio público deve deixar de se preocupar com qualquer consistência que a narrativa devesse ter.

Conseguimos mesmo entender que existe uma certa presunção na transposição inortodoxa de diferentes épocas sem sequer um aviso inicial da sua não linearidade, como se defronte de um inteligente truque estivéssemos presente, quando na verdade não passa de falta de talento aplicado. Nem no envelhecimento das personagens humanas encontramos a ajuda para essa compreensão, já que ao quarto episódio, contado em analepse, as personagens aparentam a mesma idade aquando da sua aparição no início da série, apesar da década e meia de diferença (informação a qual tive inclusivamente que confirmar).

Não será precisa mais que uma rápida pesquisa para nos ser claro que os próprios criadores julgaram até necessária a apresentação de conteúdo interactivo para fazer sentido do que nos é apresentado a cada episódio. É claro, por um lado, que os mesmos estão perfeitamente embrenhados no material de origem, mas que na sua inabilidade de a transpor para um meio mais limitado (em tempo, ao menos), também nós ficamos no desconhecimento da tamanha riqueza que, à partida, não possuímos.




Todos os pedaços de informação que nos vão sendo oferecidos são sempre feitos de forma abrupta e forçada, muitas vezes julgando nós haver mais complexidade no que são na verdade elementos estranhamente simples, mesmo que possam permitir algum potencial narrativo. 
Mais não é isso óbvio aquando da nossa descoberta da Lei da Surpresa que, no contexto em que é transposto, aparenta uma fraca desculpa para explicar os eventos (por si só, nunca ilustrados e apenas narrados) do episódio, sem nunca termos tido uma dica de tal possibilidade. Mas entendemos no final do episódio que isso não é mais que um mecanismo apresentado para seguidamente estabelecer o conflito posterior de Geralt que, na sua tentativa de se dissociar de quaisquer compromissos, acaba por criar aquilo que todos referirão como o seu destino, no qual parece ser o único a não acreditar.

Estes autores também não entenderam ainda a prescindibilidade de oferecer um conflito de larga escala para criar algum tipo de urgência na narrativa episódica e potencialmente atiçar a permanência do público desde o início da série. Até porque, na pressa de chegar a uma possível resolução para tais hostilidades, esqueceram-se de, pelo caminho, desenvolver suficientemente os protagonistas que esperam que queiramos seguir. 
Por isso, chegados ao fim da curta temporada, quando o exército inimigo finalmente chega, após diversos episódios que acabam por ser meras aventuras paralelas em que o sentimento de perigo iminente é largamente esquecido, a cada morte vazia apenas olhamos para a barra inferior do vídeo, na esperança de que não falte muito para terminar e passar à próxima recomendação da plataforma.



Mas é na personagem de Yennefer e em todo o contexto circundante, no que toca aos diversos círculos societais de magos e bruxas, os seus aparentes conflitos internos, desconfianças e traições, que a série peca da maior e pior forma, por cada instância merecer poucos minutos. Apesar de lhe ser dedicado o maior tempo, aparte de Geralt, e se inicialmente as intenções da maga parecem claros quando esta pretende ganhar finalmente controlo sobre o seu corpo, as suas fraquezas, a sua vida e propósito, escolhendo a beleza e sexualidade como elementos que lhe permtirão atingir os objectivos a que aspira em detrimento da sua fertilidade, repentinamente essa sua escolha passa a ser a maior contradição.
De um para outro episódio, o seu único objectivo é ter um filho, servindo a partir daí todas as suas escolhas para esse propósito. E ainda que a tragédia da sua escolha pudesse assombrá-la à medida que se apercebe de que as suas antigas prioridades se esgotaram em si mesmas, esse instinto maternal nunca é merecido e parece absurdo face a frieza generalizada que experienciámos por parte da protagonista até então.

Não basta de facto expor os seus expectadores a cenas de sexo e violência gratuitas para os convencer do amadurecimento da sua história e personagens. É necessário convencê-los de que a riqueza do seu mundo fantasioso vai além dos lugares comuns, e aqui nem a realização o consegue fazer, por entre batalhas desinspiradas e cenários desaproveitados. Mas, como parece vir sendo costume, apenas posso esperar que o aparente interesse surgido neste universo (mais que não seja pela sua inclusão numa prévia subscrição) possa permitir o desenvolvimento renovado nas temporadas que certamente virão.




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