domingo, 30 de agosto de 2020

Tenet, por Eduardo Antunes


Título original: Tenet (2020)
Realização: Christopher Nolan
Argumento: Christopher Nolan

Tenet parece ser uma justificação de Nolan para o seu próprio contributo cinematográfico, no entanto reconhecendo-se a perda de um necessário foco emocional em detrimento de uma presumida originalidade na estrutura narrativa. A qual também não é pensada na totalidade da experiência que nos propõe, como se ao invés de construir a narrativa em volta da proposta mecânica, tivesse que ter construído em volta de uma ideia visual inicial um filme que, no final, nem retoma a nostalgia das suas influências nem oferece realmente nada de novo aparte a curiosidade inicial.

A maior falha do filme é a falta de uma clara ideia do que pretende ser, com uma narrativa que não gira em torno do truque que o realizador introduz (como já acontecia no anterior Dunkirk), antes funcionando em paralelo a este e tentando em pontos justificar a sua inclusão. Significa que, se o utensílio temporal utilizado faz aparentemente parte integrante da narrativa contada, como objectivo a ser alcançado de ambos os lados da barricada, a sua substituição por um qualquer outro dispositivo não modificaria em nada a história aqui contada. 
Numa duração aproximando-se dos 150 minutos, com o que parece material para diversos episódios, reconhecemos no entanto o vazio de uma história que durante os primeiros cem minutos apenas salta de local em local, sem termos noção de personagens ou consequências e que, no final, acaba por ser uma variação sobre a travagem de um mecanismo que terminará o mundo como o conhecemos, conceito a este ponto já tão cansativo quanto soa.

À partida, porque o que é apresentado como um filme de espionagem desde o seu prólogo, deriva na sua forma mais básica, assemelhando-se aos piores exemplos da saga do famoso espião britânico com que Nolan admitidamente cresceu e se inspirou, tentanto no entanto transparecer ao mesmo tempo um certo nível de dramatismo (inexistente) de um romance de John Le Carré. Aliás, reconhecemos na personagem de Elizabeth Debicki a sua exacta interpretação em The Night Manager; enquanto mulher de um traficante de armas, controlada através da sua relação com o filho e sem conhecimento das reais implicações dos negócios do marido, numa tentativa de oferecer um nível de humanidade, de outra forma, ausente.

Infelizmente, se nessa mini-série podíamos contar com o carisma ocasionalmente assustador de Hugh Laurie, numa narrativa habilmente contada através das relações entre as personagens centrais, não só não existe tempo para isso por entre tantos locais visitados e eventos dispersos, como a interpretação de Brannagh enquanto nada mais que um vilão unidimensional é, simplesmente, má. Desde a escusada nacionalidade russa (com o correspondente falseado sotaque), acompanhada de violentas e vazias ameaças e incompreensíveis motivações, é nas suas falas que reconhecemos o maior pecado de uma personagem que, a cada momento que entra em cena, nos faz revirar o olhar com a sua inaptitude nesta história. Aliás, quando ouvimos a deixa "Se eu não te posso ter, mais ninguém pode" dirigida à sua mulher, questionamos se não teremos entrado na sala errada (relembrando, no entanto, a falta de oferta cinematográfica para tal engano e imediatamente a tristeza de sabermos estar na sala correcta). 




Quanto à mecânica temporal que desta vez o realizador se propõe a utilizar, tal como no final de Interstellar as desnecessárias justificações apenas nos retiram da apreciação imediata, à procura de tentar entender o conceito e o sentido da sua formalização durante cada cena utilizada, em vez de simplesmente aceitarmos o mistério e nos embebermos no entretenimento da sua execução visual. Até porque as explicações, ao contrário de Inception, onde serviam de enquadramento para a restante acção do filme, aqui servem antes como pedaços de informação sobre um conceito mais complicado que complexo.
Pois, o que acabamos por ver representado no ecrã é o mesmo tipo de interacções temporais e paradoxos que já James Cameron utilizava em Terminator. Em vez, no entanto, de ser uma estrutura narrativa afectada por esse dispositivo ou um drama para o qual o mesmo é dispensável, este filme é um manual de funcionamento sobre o mesmo, escondido por trás de uma história genérica, sem quaisquer personagens ou eventos memoráveis.
Para além disso, a hipótese de reviver e revisitar eventos passados na nossa linha temporal através do acesso a uma segunda linha temporal que funciona de forma independente e contrária à primeira, acaba por juntar conceitos diferentes (de viagens no tempo e linhas temporais paralelas), sem justificar a evolução repentina da ideia.

E se Nolan nunca teve particular engenho para filmar cenas de acção, antes conseguido engendrar interessantes cenários onde colocar a câmara, não é mais óbvia essa inaptitude que aqui. Aparte a sequência passada no aeroporto (iniciada ainda assim com um desnecessário e desinteressante avião real a despenhar-se), mais tarde revisitada de outro ponto de vista, onde conseguimos ver com real efeito o engenho temporal a trabalhar em todas as suas vertentes e entender a acção na sua totalidade, nenhuma outra se aproxima sequer de um igual nível de entusiasmo.
O terceiro acto, aparentemente tirando total proveito da mecânica em jogo, não permite uma inteira compreensão da acção, com uma série de soldados semelhantemente vestidos a correr pelo meio de um ambiente deserto, sem entendermos objectivos ou quem devemos seguir para lá do Protagonista (também ele, escondido por uma máscara). Que resulta, no final, numa troca entre este e o vilão para impedir a activação do engenho antes da contagem final, tão vazia quanto as duas personagens envolvidas.

Mesmo as sequências mais casuais e que não requisitariam grande mestria, revelam uma falta de inspiração do realizador que, na sua aposta em acrobacias práticas, não as sabe aqui utilizar. Não se tornou isso mais óbvio que num assalto automóvel a uma carrinha, tão entediante na sua edição quanto desinspirada na execução, onde cada acção toma o triplo do tempo para decorrer. E aí, até se vê a composição musical de Ludwig Göransson necessitada de dar o ritmo que a cena não tem, transparecendo a esquizofrenia do nosso aborrecimento face uma música que nos tenta convencer do oposto.
Também a casualidade do jogo metalinguístico de nomeação do Protagonista (literalmente chamado assim sem qualquer outro nome oferecido) não serve qualquer propósito. Se a meio é posto em causa durante uns segundos o seu papel enquanto mero peão movido entre vontades e jogos de outras personagens com real intenção e poder de decisão, no final a sua "revelação" como o real protagonista não traz nada ao seu percurso, visto ter sido sempre participante activo ao longo da narrativa.

No final, o que parece ser o verdadeiro jogo temporal é a perda de tempo pela qual Nolan nos fez passar durante todo o filme. Tão imemorável quanto datado, o realizador vê-se cada vez mais perdido no orçamento inesgotável que lhe parecem dedicar, sem relembrar a genialidade das suas obras iniciais que, pegando num semelhante mecanismo, fez por o trabalhar em prol de uma história que de outra forma não poderia ser contada. Não salvando a crise actual do cinema, talvez possa retrospectivamente servir para relembrar ao autor o que o levou inicialmente a dedicar-se à indústria sem se aproveitar demasiado da mesma. 


1 comentário:

  1. Eu adorei este Tenet: 5*

    "Tenet" fez-me sentir dentro do filme e apesar de ser confuso tem efeitos visuais top, vejam no cinema.

    Cumprimentos, Frederico Daniel.

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