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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Review: Please Like Me - Temporada 1

Por Joaquim Silva.

"You know that I'm greedy for love."


A adolescência é difícil. A puberdade manifesta-se, as hormonas tomam conta do físico e, sem que nada possa ser feito, alteram para sempre o psicológico. Sim, o plano de existência superior, metafísico, transcendente, aquele que atribuímos à personalidade, à cognição, ao zodíaco, enfim, a tudo menos às hormonas, é inquestionavelmente moldado (também) por elas. Mas e depois, quando se entra na idade adulta? Temos tudo resolvido ou a vida cada vez se complica mais?

Please Like Me aborda a vida de Josh, um jovem de 20 anos, que, pelo que se percebe, não estuda nem trabalha, mantém uma relação com Claire, é o melhor amigo de Tom e não gosta da namorada deste, Niamh. Abruptamente, Claire tem a epifania que Josh é gay, acaba com ele e destrói o seu pequeno mundo de tudo simples.

Ancorada numa formula simples, mas (extremamente) eficaz de comédia moderna, sem faixas de riso e sem situações inconcebíveis ao comum mortal, Please Like Me explora a redescoberta de Josh da sua vida, do ambiente que o rodeia, dos seus sentimentos em relação ao divórcio dos pais e tentativas de suícidio da mãe, e mais que tudo, das suas próprias necessidades de aceitação. É uma insuportavelmente leve e adequada metáfora da condição humana mais elementar: a vida em grupo. Josh revela-se um jovem emocionalmente fragilizado, infantil por vezes, e ingénuo ao efeito que a sua frieza e distância criam nos que o rodeiam - insegurança e exclusão. Assim, na sua busca pelo seu lugar, Josh acaba por forçar todos a repensarem os seus, desde Tom (que não consegue terminar com Niamh), a Geoffrey (o "namorado" demasiado bem resolvido de Josh), até Rose e Adam.

Apesar da sua orientação cómica, Please Like Me também lida com temas sensiveis, como a depressão nos mais velhos, a redefinição da orientação sexual e o processo de coming out - uma das cenas mais despretensiosas é a de Geoffrey a verbalizar que Josh é gay para a sua família, algo que o próprio ainda não havia feito.

Assim, Please Like Me é mais uma série que lida com a descoberta do eu - em todas as vertentes - e da sua influência no ambiente que o rodeia. A expressão de liberdade em Please Like Me é audivelmente muda, pois os limites de cada um são a cada momento manobrados para encaixar o outro, sem que seja necessário denotá-lo - assume-se esse fenómeno como natural.


ABC 2 / Netflix

Temporada 1

sábado, 5 de março de 2016

Cinco razões porque "The Americans" é uma série a não perder


A quarta temporada de The Americans estreará dia 16 de Março, nos Estados Unidos, no canal FX.

Uma série que em Portugal passou praticamente despercebida (a primeira temporada foi exibida no canal FOX e a segunda e terceira - esta só agora no início do ano - no canal FOX Crime) e que mesmo nos Estados Unidos não tem ganho o protagonismo que merecia. Apesar de alguns dos grandes críticos a considerarem-no o "melhor programa actualmente em exibição" ou a "melhor série de espiões", constar em listas de melhores do ano (incluindo o American Film Institute) a série nunca conseguiu ser globalmente aclamada nos grandes circuitos de prémios televisivos norte-americanos (como os Golden Globes ou os Primetime Emmy), nem sequer uma audiência acima da média. Ainda assim é seguramente uma das melhores séries da actualidade, consistente, excitante, emocionante, dramática e acutilante, tudo no ponto certo. Porquê?

1. Genérico inicial.





Comecemos por algo tão básico como o genérico inicial. Pouco importante para muitos, mas que facilmente se torna icónico (quem não se lembra do genérico de séries como Six Feet Under ou Mad Men, por exemplo?) e que em The Americans não é de descartar. Isto porque estabelece de imediato o mote da série: a Guerra Fria, um conflito de ideais, um conflito de personalidades, uma era. Que começa por confrontar a propaganda soviética com a propaganda norte-americana da altura - e cujos métodos não eram assim tão diferentes entre si. Que mostra personagens soviéticas em poses familiares e recreativas - crescer na Rússia seria tão diferente de crescer na América. Que é curta e rápida, repleta de imagens e planos sobrepostos - uma grande técnica da Propaganda, repleta de mensagens subliminares e que origina uma overdose sensorial. Uma tipografia icónica, com palavras escritas em russo e que depressa surgem escritas em inglês. Um tema musical introdutório estranho e agressivo que não sai da cabeça.


2. Banda Sonora





Já falamos do tema musical dos genéricos inicial e final, mas toda a composição original de Nathan Barr é notável. Incorpora bem o espírito dos anos 80, com recurso ao piano, repercussão e baixo, mas introduz elementos da música russa, contribuindo para estabelecer a temática da série e enaltecer determinados elementos dramáticos ou emocionantes da história. Mas também a supervisão musical de Janice Ginsberg criou uma mixtape invulgar e consistente de hits musicais da década de 80, bem adequados à história (quem não se lembra da cena final do episódio piloto ao som de In the Air Tonight, de Phil Collins ou a season finale da primeira temporada ao som de Games without Frontiers, de Peter Gabriel?).

3. Os protagonistas são russos.




Este é um dos pontos mais surpreendentes da história e que mostra como a produção é destemida e corajosa. A série sobre espiões da Guerra Fria não é feita sob a perspectiva dos espiões norte-americanos, das investigações da CIA ou do FBI. É sim sobre os espiões soviéticos "adormecidos", ensinados a comportarem-se como norte-americanos, a viver o american dream com uma família e filhos nos subúrbios de Nova Iorque. Embora os actores protagonistas sejam norte-americanos (Keri Russell e Matthew Rhys em interpretações poderosas), falam frequentemente em russo. Outras personagens secundárias falam também muitas vezes em russo, sendo que a série recorre muito ao uso de legendas (algo que não é comum no mercado norte-americano). Existem ainda vários actores de origem russa ou nascidos na União Soviética, que falam fluentemente russo durante a narrativa: Annet Mahendru, Lev Gorn, Costa Ronin ou Vera Cherny, por exemplo.

4. A evolução da complexa narrativa.




Podia ser apenas uma simples série sobre espiões e já seria um grande trabalho. Ainda assim, não se limita aos clássicos de espionagem. É uma série repleta de momentos acção, drama e sexo, com algumas cenas bastante arrojadas, mas é também uma série sobre a família e a complexidade do casamento. Cada temporada evolui narrativamente e deixa o espectador no dilema de apoiar personagens que são simultaneamente heróis e vilões. Enquanto que a primeira temporada contextualiza a série no início dos anos 80, com um jogo do gato e do rato, onde Philip (Matthew Rhys) e Elizabeth (Keri Russell) tentam esconder as suas verdadeiras origens do seu vizinho, amigo e agente da CIA Stan (Noah Emmerich); a segunda temporada ultrapassa esse patamar. Começamos a seguir os dilemas morais de Philip e Elizabeth, à medida que os valores soviéticos entram em conflito com os novos valores que apreenderam ao longo dos anos enquanto cidadãos norte-americanos. Já na terceira temporada, a sua posição enquanto espiões é descoberta pela filha adolescente Paige, que começa a ganhar consciência social e política e adere à religião católica. Enquanto que do lado russo, o casal é incentivado a criar em Paige (Holly Taylor) uma nova geração de espiões, nascidos e criados em solo americano; do lado ocidental, o Pastor Tim (Kelly AuCoin) começa a incutir-lhe uma tendência de contra-inteligência.

5. Margo Martindale




Ironicamente chamada na série BoJack Horseman de Character Actress Margo Martindale, a actriz tem ao longo dos anos feito uma série de participações especiais em produções televisivas que se destacam muitas vezes das dos actores principais. Em The Americans, a actriz atinge esse patamar de excelência, num papel especial de Claudia, uma agente do KGB, responsável por monitorizar o casal Jennings. A sua personagem é perversamente manipuladora, agindo muitas vezes como mera observadora, mas também como orientadora das missões, intervindo em casos extremos, sempre com métodos duvidosos e entrando em conflito directo com Elizabeth. É sem dúvida, um dos pontos altos da série.

Em Portugal, o canal FOX Crime exibe ainda a terceira temporada de The Americans. A quarta temporada ainda não tem data de estreia prevista para o nosso país. As duas primeiras temporadas estão disponíveis no Netflix.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Por quê agora?: Academia e a polémica da diversidade

Por Walter Neto, cinéfilo, licenciado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade de Coimbra com ênfase em Cinema.


Foi um caminho tortuoso que levou o público até esta edição dos Oscars. Foi o ano no qual finalmente não pudemos mais virar nossas caras para não vermos o problema do qual a premiação se tornou o maior sintoma: a falta de diversidade em Hollywood. Chris Rock, em determinado momento de seu monólogo de abertura – brilhantemente escrito- pergunta para seu público:

Por quê agora?

Ora não chegamos a 89.ª edição da premiação vendo só actores brancos indicados pela primeira vez? Então por que só agora? O primeiro motivo e o mais claro de todos são as mudanças sociais e conquistas de direitos pelas minorias; uma vez que sua representatividade social aumenta, a arte como um reflexo da sociedade, deve acompanhar isso. Então, começamos a nos perguntar qual o motivo de isso não acontecer. Mas 2015 foi o ano no qual um filme como Creed, uma releitura, de um dos maiores nomes e personagens do cinema americano, pelo ponto de vista de jovens negros, Coogler, Jordan, Tessa Thompson, foi de frontrunner a esnobado, mas uma coisa foi constante: o reconhecimento, ainda que merecido, do único actor branco em cena, Sylvester Stallone. O mesmo ocorreu com Straight Outta Compton e sua única indicação ao Óscar pelos seu roteiro, escrito por roteiristas brancos. Os casos ao longo da história da premiação são vários, e assim um padrão claro pode ser estabelecido: mesmo quando os actores, realizadores, e outros artistas negros conseguem espaço, não conseguem o reconhecimento.

Outra pedra no caminho da realização dos Oscars desse ano foi sua posição histórica de prémio que encerra a temporada de premiações. Já se falava em Oscars So White quando membros de outras premiações como SAG, Spirit e outras guildas de críticos votavam em seus respectivos prémios. Aqui está uma parte do problema pouco comentada: o Óscar não é o problema, ele é um sintoma. Assim uma febre não é a doença em si, mas sim, um sinal que há algo de errado. A indústria é culpada pela falta de oportunidade, mas a indústria entrega o que o público de uma maneira geral espera ver. Temos culpa pelo estado das coisas. As premiações acabam reflectindo isso também.

Vencedores do Spirit 2016 nas categorias de interpretação.

Vencedores dos Oscars 2016 nas categorias de interpretação.

A Academia tentou tomar providências, anunciou mudanças nas regras da premiação, mas como qualquer decisão tomada rapidamente no meio de uma crise está longe de ser suficiente. A instituição ainda está entendendo o problema. Um exemplo de como o momento é complicado foi o não convite para a cantora Anohni , segunda transexual indicada a um Óscar na história, cantar sua canção indicada ao prémio, mesmo com toda a promessa de inclusão e diversidade. Mas nem tudo são críticas.

Ainda que esteja longe de solucionar o problema de falta de diversidade em suas indicações, a Academia definiu com esta premiação o tom de como lidará com o problema: reconhecendo que há um problema. O monólogo de Chris Rock deixou muitas pessoas presentes desconfortáveis porque essa era a intenção. Era um riso nervoso. Um riso por saber que o problema existe e ninguém se incomodou em reconhecer sua gravidade. Falamos de racismo, homofobia, machismo quando esses assuntos ganham as manchetes dos principais jornais, geralmente ligadas a um crime de ódio. Mas e no dia-a-dia como fica esse debate e como ficam nossas atitudes? Rock não escolheu o caminho mais fácil, porque o problema não é fácil e não será resolvido logo. Mas seu acerto foi deixar claro que a abertura foi para todos os actores negros presentes na premiação como convidados, não indicados. Para todos que acompanham os Oscars e não se vêem representados quando os indicados são anunciados. O monólogo não foi para uma Academia que é formada maioritariamente por homens, brancos, cisgéneros, heterossexuais com uma média de idade superior aos sessenta anos. O discurso de abertura foi para todo que não fazem parte desse clube e ficam de fora assistindo ainda que continuem contribuindo para a arte em geral.

Pós o conturbado 2015/2016 para a Academia fico com a certeza que ano que vem teremos alguma diferença em relação aos indicados este ano. No ano seguinte mais mudanças, e no outro, mais ainda. Ainda que a passos lentos, a mudança está chegando e não há espaço para o que ocorreu este ano se repetir. Para abraçar a diversidade a Academia se viu obrigada a abraçar seus críticos e ouvi-los.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Porto/Post/Doc 2015: as histórias que contamos


Há um par de anos, a actriz e realizadora canadiana Sarah Polley lançou um trabalho que dissertava sobre a incerteza das memórias pessoais e a forma como vamos ficcionando aquilo que nos acontece e que é, portanto, real. As razões para o fazermos poderão ser muitas, mas aquilo que Polley nos mostrava era que as barreiras entre o documentário e a ficção são ténues e que o nosso próprio cérebro funciona exactamente da mesma forma. Em Stories We Tell (2012), a realizadora viajava pela sua infância, partindo de fotos, filmes e entrevistas à sua família e encenando até alguns momentos. A cada entrevista o espectador ia-se apercebendo das múltiplas e distintas percepções da mesma realidade, a partir de cada membro da família. 

A segunda edição do Porto/Post/Doc que passou pela baixa portuense recentemente partia do mesmo princípio. Ou não lançasse o mote "as nossas histórias são reais" como veículo promotor do certame. E as histórias, projectos, filmes e vidas,programadas para esta edição assumiam bem esse lado documental, da constatação da realidade, desde os mais pequenos até aos maiores eventos da vida, do particular para o global. Mas vai também para além disso e aborda muito a percepção que temos das memórias: uma reinterpretação da realidade, como se a vida fosse ficcionada ou como se a ficção fosse real. O real e o imaginário: são o mesmo. Não há barreiras.


segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

"A Juventude": Mergulho às profundezas do desânimo

Por Miguel Stichini.

La grande bellezza impôs-se enquanto objecto cinematográfico ousado, ao apresentar-se enquanto actualização do clássico La dolce vita (1960), de Federico Fellini; uma tentativa evidente de reconhecer Paolo Sorrentino enquanto afilhado espiritual do mestre italiano. No seu mais recente trabalho, Paolo Sorrentino volta a inspirar-se na filmografia do realizador, mais precisamente em  (1963). Contudo,   enquanto a obra de Federico Fellini se preocupava em explorar a natureza da crise criativa de um artista no topo da sua carreira, a de Paolo Sorrentino foca-se nos eclípticos anos de uma vida e o sentimento de se ser deixado apenas com um legado. Tudo isto enquanto se mistura a ansiedade subjacente à tentativa de se ser aceite pela sociedade e uma distracção meditativa. Os floreados surrealistas do mestre deram lugar a uma abordagem algo inexpressiva, embora não menos absurda, enquanto a câmara se deambula entre formas humanas, algumas velhas, algumas jovens.

O filme arranca enquanto reflexo brilhante e alegre sobre o que pensamos que queremos quando estamos demasiado embriagados sentimentalmente, para fazermos escolhas acertadas. Drapeando o elegante hotel e a sua luxuriante encosta montanhosa com um suave toque de melancolia, faz com que os nossos arrependimentos e memórias ganhem vida através dos irrisoriamente desenfreados gestos e palavras da personagem de Michael Caine. Esse suave toque envolve os convidados, na flor da idade,   do hotel com viris e núbeis membros do staff, como se a sublinhar a diferença entre paixão e perspectiva. Ocasionalmente é-nos dado a observar ambos os lados a interagir.

O realizador Paolo Sorrentino deliberadamente recorre a um ritmo lento, de forma a retratar o tédio e a sensação de rotina que se vive no resort, onde cada uma daquelas pessoas deambula entre espaços com apenas as suas memórias para lhes fazer companhia. Volta e meia surgem pequenas variações deste compasso: a relação do protagonista com a filha; o desejo de fazer um filme do segundo protagonista, bem como a relação com o seu filho; o medo de uma das personagens de ser para sempre recordado por algo insignificante, um trabalho onde o público nem conseguia ver o seu rosto. O cineasta alterna entre cenas lentas e explosões emocionais, tal como a curta cena de Jane Fonda ou o monólogo de Rachel Weisz. Ao surgirem por entre cenas onde pouco ou nada acontece, as cenas de explosão emocional ganham um maior impacto. Por outro lado, a natureza estilizada pode abrandar as coisas a ponto em que tudo se parece arrastar.

O argumento contém momentos tão subtis como subliminares. Quando a personagem de Paul Dano finaliza o desenvolvimento da sua personagem, profere as seguintes palavras: «I have to choose, I have to choose what is really worth telling: horror or desire? And I choose desire. You, each one of you, you open my eyes, you made me see that I should not be wasting my time on the senseless fear...» Estas palavras não podiam encontrar-se mais desprovidas de subtileza, mesmo que tivessem sido escritas por Michael Bay.


As personagens secundárias pouco dizem e as suas contribuições tendem a ser concisas e abstractas. Nada ou ninguém se movimenta, entra ou sai de cena em demasia; a todos lhes foi atribuída uma posição fixa no tableux vivants do filme, criando um perfeito quadro para a história. Estilo adquire assim uma importância sublime, sendo artisticamente capaz de elevar o familiar a novas profundidades.

O método de Paolo Sorrentino é arriscado, bem como é a sua ambição e grandeza no que toca à execução maximizada de cada uma das suas ideias. Desta forma, os momentos e observações deliciosas do filme tornam-se ainda mais deliciosas, e os poucos momentos maçantes ainda mais maçantes, especialmente quando estão demasiadamente elaborados. Com um público disposto a entregar-se e a perder-se por entre a magia das imagens, o cineasta consegue colocar o foco sobre questões como: de que forma reagimos e percebemos à passagem do tempo e de que forma o mundo olha para nós sob esse efeito? Todos estamos interessados ao tempo que passa e ao que fazemos com ele.

A liderar um elenco de luxo, Michael Caine restringe em si uma existência equilibrada contra o mundo que o rodeia. O seu lado frio e distante apenas se quebra com a chegada do fime, após um acidente, que nos remete para o abrupto desenlace de Ida (2013), de Pawel Pawlikowski. Nesse momento, o seu eventual compromisso trai a resignação das convicções de um rígido homem/marido/pai. Harvey Keitel sempre foi um actor de personagens em busca de uma gradação de versatilidade. A sua última frase é deveras comovente «emotion is everything», proferida num momento em que se tornara mártir das suas crenças, após uma fatal traição que abre portas para que as suas emoções comandem a sua vida uma vez mais. Jane Fonda numa versão larger-than-life de si própria, por entre uma maquilhagem ridiculamente pesada e um guarda-roupa ousado, apresenta-nos em sete minutos aquela que é uma das melhores cenas do filme, aquele que é um desempenho mais vistoso.

A imagem, requintadamente cristalina, de Luca Bigazzi dá vida às pretensões de padrões visuais de Paolo Sorrentino, contemplando os corpos humanos as mesmo tempo crus e abstractos, umas vezes pátinas artisticamente dispostas de luz e sombra, outras digitalizadas descuidadamente francas. Estas imagens ajudam o trabalho do realizador italiano a encontrar a profundidade certa na sua declaração sobre a forma humana durante a juventude e a velhice, a vida e a morte.

A obra não olha para os corpos das suas personagens enquanto frágeis vasos numa galeria. A imagem mais interessante onde o estado de um corpo se torna um ponto de obsessão surge quando contemplamos Maradonna, um outrora deus do desporto que agora se arrasta sobre uma massa de gordura, mas ainda com uma genialidade física remanescente enquanto alegremente pontapeia uma bola de ténis. Um mundo contido numa sequência de imagens, um monólogo mudo.


Youth consegue a proeza de nos fazer recordar do passado, bem como antecipar o futuro, ao mesmo tempo que nos mantém completamente de pés assentes no presente perante uma exibição deslumbrante e sinfónica da emoção humana.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

30 Minute Love Affair - Arrested Development

Por Joaquim da Silva.

Arrested Development é uma das mais progressistas comédias de sempre. Esta série, que contou com três temporadas entre 2003 e 2006, revelou uma nova forma de ver e fazer comédia. Sem a quase omnipresente e profundamente insuportável laugh track, assentou preferencialmente na escrita de diálogo inteligente, subtil, de interpretação dúbia. E é essencialmente nesta última que reside a genialidade da série, que se apresenta ao espectador no início de cada episódio («Now the story of a wealthy family who lost everything, and the one son who had no choice but to keep them all together».) Desengane-se quem acha que vai ser mais uma série de lugares-comuns acerca de ex-ricos a passarem por "situações dos pobres". Apesar de terem perdido tudo, ninguém está disposto a admiti-lo, sendo que se comportam de forma bastante alheada da sua realidade. É esse o ponto de partida de Arrested Development. Contudo, a série é muito mais que uma infindável sucessão de paródias. Oferece uma luz séria sobre a dificuldade de aceitar a mudança, seja essa de estado social, estado civil - Lindsay (Portia de Rossi) e Tobias (David Cross), presos num casamento infeliz, que tentam tudo para fugir ao divórcio - ou apenas o estado de estar. Arrested Development não faz só piadas fáceis. Desde as frases sexualmente dúbias de Tobias, aos delírios de Lucille (Jessica Walter) e ao comportamento infantilizado de Buster (Tony Hale), todos os personagens experimentam situações quase sempre plausíveis, não forçando o comic relief em casos inusitados e com consequências imprevisíveis.

Considere-se por exemplo o desempenho de Portia de Rossi, que dá vida a Lindsay Bluth. Aparentemente fútil e vazia menina rica, que ao longo dos episódios e do desenrolar da trama vai evidenciando uma pluralidade de traços pessoais, como sejam o desligamento emocional do casamento, a busca de um novo amor (tentativas frustradas, típicas da peripécia de uma comédia), a ligação profunda que sente com o irmão gémeo ao mesmo tempo que quase não interage com o irmão mais novo.

Em última instância, Lindsay não é unidimensional, característica comum a todos os personagens principais, que neste ou naquele momento se descolam da sua imagem e revelam uma outra face. Lucille, ácida e distante, que é também uma mãe preocupada; G.O.B. (Will Arnett), o mulherengo inconsequente, é também um irmão disponível, ajudando Michael (Jason Bateman) diversas vezes, em esquemas mais ou menos mirabolantes; Buster, a criança-adulta, que é o mais sensato dos irmãos, que presta atenção real às palavras de Michael. Verifica-se assim profundidade narrativa, essencial para o espectador encadeie os acontecimentos que não são vistos, mas que são necessários inferir quando se analisa o porquê de a situação não piorar drasticamente com cada asneira de cada um.

Quando se abre a janela da piada à interpretação das personagens, forçando-as a tecer comentários e considerações sobre a sua própria condição, consegue-se um tipo de humor inteligente, direccionado a quem gosta de ler nas entrelinhas, de esmiuçar motivações e de encontrar respostas no silêncio, na linguagem corporal, nos elementos cénicos.

Arrested Development é assim uma série à frente do seu tempo, que desbravou horizontes e caminhos, e que deu origem a uma nova face do humor. Arrisco dizer que séries aclamadas como The Office, Parks and Recreation, Modern Family, Veep, e algumas novidades como The Last Man on Earth, partilham desta característica de humor inteligente, focado em acontecimentos plausíveis na vida de personagens com ligação não aleatória - famílias, colegas de trabalho - como mote de narrativa.


Por isso mesmo, é com regozijo que escrevo, com doze anos de atraso: Parabéns, Arrested Development. Michael, Lindsay, G.O.B., Buster, Tobias, George-Michael, Maeby, George Sr., e sem dúvida a minha preferida, Lucille Bluth, e bem-vindos de novo à nossa vida.

domingo, 21 de junho de 2015

Sense8 - A eterna busca por uma conexão

Por Walter Neto, cinéfilo, licenciado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade de Coimbra com ênfase em Cinema.

Eu sempre me perguntei o quanto do que eu carrego, não é meu para carregar. Pode parecer uma pergunta extremamente pessoal e em certo ponto é, mas acredito que ela seja compartilhada por muitos. Muitas pessoas com histórias de vidas completamente diferentes, com nacionalidades diferentes, com criações diferentes, valores diferentes- a lista é infinita; mas que esperam apenas uma coisa: conseguir assumir o controle da própria vida e se libertar deste peso extra. Recomeçando, fazendo novas conexões.

Esse talvez seja o principal dilema dos personagens de Sense8, uma busca por uma saída da vida que possuem e uma oportunidade de verdadeiramente começar algo novo. Um sentimento comum a várias pessoas, e aí está, então, a grandiosidade da série dos irmãos Andy e Lana Wachowski: um roteiro com várias tramas paralelas, conduzidas em várias partes do mundo e interpretadas por um elenco multinacional. Trazendo histórias que não se interligam, mas apenas servem como plano de fundo para uma trama maior, sobre a conexão mental compartilhada pelos oito personagens principais e conduzidas pelo misterioso Jonas Maliki (Naveen Andrews). Mostrando que todos aqueles sentimentos e sensações vividos por eles são comuns. 

Sem nenhum tipo de introdução, logo na abertura da série, somos apresentados a rivalidade entre Jonas Maliki e Mr Whisperer (Terrence Mann) pela posse da informação de quem seriam e onde estariam as oito pessoas que nasceram interligadas por uma conexão muito maior que qualquer outra experimentaria durante sua vida. E assim vamos sendo apresentados as peças desse complicado jogo de xadrez que ninguém se preocupou em explicar as regras. Sabemos tanto quando eles, quase nada, e este é o ponto forte do roteiro da série, ele foge de qualquer didatismos e explicações desnecessárias. Ficamos presos ao binge watch porque as pistas vão surgindo natural e lentamente, bem distribuídas ao longo da temporada.

Na trama acompanhamos Capheus Van Damme (Aml Ameen) um jovem de Nairóbi que tenta ganhar a vida como motorista de um autocarro velho que mais traz despesa que lucro, para comprar remédios para sua mãe seropositiva. Ele cresceu obcecado pelos filmes de Jean-Claude Van Damme e usa o que aprendeu com ele para sobreviver nas violentas ruas de sua cidade. Sun Bak (Doona Bae) gerencia o negócio da família e se vê por culpa do pai e irmão envolvida em um escândalo financeiro. Sun, treina artes marciais e participa de algumas lutas, não pelo dinheiro, mas pela oportunidade de extravasar o que sente através da violência. As ruas de Seul não violentas como as de Nairóbi, mas ela também precisa lutar para sobreviver.


Nomi Marks (Jamie Clayton), talvez a personagem mais pessoal já criada pelos Wachowskis, é uma transexual que mesmo sendo bem-sucedida e respeitada por amigos e conhecidos do seu meio de trabalho, ela era uma famosa hacker, luta contra a discriminação a própria família que insiste em chama-la pelo nome de batismo. Chegamos então a Lito Rodrigues (Miguel Ángel Silvestre) que sendo um famoso ator mexicano de filmes de ação, não poder viver publicamente como um homem gay e precisa lutar para esconder sua vida privada todos os dias da imprensa. 

Wolfgang (Max Riemelt) teve que aprender a bater desde cedo para sobreviver aos constantes abusos do pai, e vivendo uma vida perigosa e violenta como membro de uma gangue de Berlim, encontra em sua conexão mental com a indiana Kala (Tina Desai) uma pausa de toda aquela tensão. Uma redução na velocidade de sua vida. E Kala vê nele uma oportunidade de fugir de seu casamento sem amor, feito apenas para agradar aos pais. 

Fechamos esse círculo com o policial americano Will Gorski (Brian J. Smith), filho de policial, que luta contra um sistema social falido no qual é melhor deixar uma criança morrer sem atendimento médico - porque ela está envolvida em crimes, do que atende-la e lidar com o problema depois. Assim que se torna consciente de sua conexão com outras pessoas, Will conhece Riley (Tuppence Middleton), uma jovem islandesa, que fugiu para Londres para escapar das memórias da tragédia que viveu após uma gravidez não planeada na adolescência.  


Todas as tramas são conduzidas com extrema delicadeza por não haver pressão de interligar aquelas histórias em um plano maior. Eles estão conectados um ao outro. Todos compartilham a mesma data de nascimento, as mesmas sensações e à medida que a conexão se fortalece todas as emoções. Frio, calor, dor, alegria, raiva, medo, excitação. Tudo é compartilhado. O que é explicitado em um dos momentos mais ousados e bonitos da série – e candidato a cena do ano, para mim – quando todos os personagens transam entre si e compartilham um orgasmo em conjunto. Cena que lembra bastante o final de Perfume – A História de Um Assassino (Tom Tykwer, 2006) onde o protagonista é consumido por uma multidão que transcende da fúria a mais pura excitação. É importante mencionar que Tykwer é o diretor do episódio no qual a cena ocorre. 

Talvez esta proximidade dos criadores (J. Michael Straczynski e Irmãos Wachowski) e dos diretores (que além dos criadores incluem Tom Tykwer, James McTeigue e Dan Glass) com os temas, dão ênfase a sensação de proximidade e identificação com o que é abordado. Há muito do trabalho de Tykwer em Soul Boy (2010) nas cenas de Capheus, assim como há muito de Cloud Atlas (2012) na estrutura e maneira como as tramas paralelas são conduzidas. 


Um labirinto de emoções e sensações, Sense8 funciona como um belo retrata da caótica e complicada experiência humana. Uma série sobre o que é ser humano em seu nível mais básico: que é sentir e saber que se sente, mas acima de tudo, também sobre a busca de alguém para se compartilhar tudo isso. 

domingo, 29 de março de 2015

Procurando por uma despedida: Um adeus (forçado) a "Looking"

Por Walter Neto, cinéfilo, licenciado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade de Coimbra com ênfase em Cinema.


“I wish I was a more secure person, but I’m sorry. I’m not.”

Aquele que provavelmente é o último capítulo de sempre acaba e me pego imediatamente pensando em um livro que li há algum tempo – ainda que somente o tenha descoberto pela capa. Engraçado estar pensando mais em Arlington Park, o livro; que em Looking, a série. Mas aquele diálogo vai me assombrar por muito tempo ainda.

A insegurança e falta de confiança na minha própria identidade sempre foi meu demônio mais familiar. Minha batalha mais constante. E talvez tenha sido exatamente tal problema que fez com que eu me identificasse com Patrick (Jonathan Groff) e me fizesse seguir literalmente seus passos nesta season/series finale.

Looking, assim como seu protagonista, sempre sofreu pela busca de sua própria identidade como seriado e consequentemente, seu lugar na opinião pública. "Girls com gays" e vários outros termos foram usados para definir o programa que lutou para se entender com o seu próprio formato: os 30 minutos comuns a comédias e ao reduzido número de episódios de uma produção para a TV fechada, algo em torno de 10 episódios. Mas ao longo da segunda temporada, o problema com o ritmo, plots secundários e outros vários foram resolvidos, dando lugar a um programa infinitamente mais maduro e consciente de seu objetivo: retratar a diversidade e complexidade da vida daqueles amigos em uma São Francisco que poderia ser qualquer outra cidade. O que é ser gay em um mundo onde o tema está constantemente em debate? Independente se pelos motivos certos ou errados estamos falando sobre o assunto, mas o que estamos falando? Qual é esta identidade por trás da G-word.

“I am completely talked out.”

É assim que Patrick se reaproxima de Richie (Raúl Castillo) nesta finale e é assim que Agustin (Frankie J. Alvarez) se entrega ao seu relacionamento com Eddie (Daniel Franzese) superando suas inseguranças em relação ao fato do parceiro ser seropositivo. As inseguranças existem, o medo de uma eventual contaminação, a falta de informação, tudo está presente. Mas o que ele sente é mais forte e isso deve ser vivido até as últimas instâncias. Don, o mais velho, mas ainda assim, um dos que mais precisava crescer, entende que não poderia continuar vivendo em um casamento com a sua amiga Doris (Laureen Weedman) e que deveria aprender, por mais difícil que fosse, a andar com suas próprias pernas e honrar o legado do pai para quem nunca pode sair do armário.


Como o videojogo criado por Patrick e Kevin, estereótipos da comunidade LGBT são revirados, recriados e abordados em Looking para que a série consiga cumprir a difícil e ingrata missão de retratar o quotidiano. Ativos, passivos, ursos, soros positivos e negativos, monogâmicos ou não, e por fim até o “gay-home wrecker”, todos ali para fazer da suporta diversidade da atual programação da TV realmente diversa.

Volto a pensar naquele livro, e faço isso por que assim como em Looking seu final é marcado com uma grande mudança física. Lá, Juliet, mãe de dois e casada, se vê cansada não de sua vida, mas de explicar porque está cansada... “I am completely talked out.” De novo esta fala… assim sem nenhum tipo de planejamento, ela caminha para um salão e pede para que lhe cortem o cabelo. – TODO. – ela diz. Patrick faz o mesmo. E o mais simbólico é que isso seja feito por Richie, com quem nunca teve realmente chance de colocar todos os pingos nos i’s. Assim, Richie finalmente consegue cortar o cabelo do homem para quem ele mais se entregou.

É estranho pensar que é justamente com este tom de “inacabado” de “decisões para se tomar” que Looking se despedirá de seu público, ainda que um especial tenha sido prometido para concluir as histórias de Patrick, Don e Agustin. Há claramente um fôlego final para a história, embora acredite que um especial não será suficiente para terminamos aquilo que começamos a acompanhar: o crescimento daquelas pessoas, principalmente de Patrick.

É de senso comum que não temos como organizar a narrativa da nossa própria vida, as coisas vão acontecendo e vamos vivendo sem ser possível saber até quando. Por isso, nunca vi problema com histórias que terminam em cliffhangers ou com final em aberto. Exatamente assim é a vida e a arte não tem feito outra coisa senão imitá-la. Mas Patrick precisava de mais tempo que um dia morando com Kevin, Agustin também precisava de tempo, mas para lidar com suas inseguranças em relação a saúde do namorado e Don para reformar o lugar onde abrirá seu primeiro negócio. Já nós, precisávamos de mais tempo para nos prepararmos com a futura ausência destas histórias. E assim, caso o cancelamento seja mesmo irrevogável, Looking terminará com sua história não resolvida, algo contra o que seus próprios personagens lutaram durante as duas temporadas do programa.

Nada pior que conviver com o peso dessas irresoluções. Nada pior do que nos confrontarmos com nossa própria imobilidade. Com a insatisfação crónica que nos impede de crescer e seguir em frente. Com Richie ele não estava pronto, eram muito diferentes um do outro. Com Kevin não estão no mesmo lugar quanto a monogamia. Há e sempre haverá um problema, sempre haverá uma questão, um motivo para desistir e é isto que Patrick ainda não entendeu e é provável que ainda leve um tempo para entender.

O ato de cortar o cabelo, naquela que para mim será uma das cenas do ano, em Looking, ou em Arlington Park, sempre me seduziu. Naquele ato está a clara declaração de que ao menos sobre o cabelo exercemos algum controle. Eles decidem o que fazer com o cabelo, já que na vida não parecem ter o mesmo poder. E assim, externalizam uma necessidade, interna, de mudança, de recomeçar. E como é justamente a identificação que nos prende a esses personagens e histórias, assim como Patrick e Juliet também raspei meu cabelo pouco antes de escrever este texto por também me deparar com uma situação da qual não conseguiria sair apenas falando a respeito. Algo precisava ser feito e algo foi feito.

domingo, 22 de março de 2015

"Togetherness": O distanciamento da proximidade

Por Joaquim da Silva.

Nunca a vida foi tão difícil.

Paradoxalmente ao esperado, quanto mais avançamos, parece que mais obstáculos aparecem. Togetherness é a história de quatro adultos, com mais de 30 anos, ligados pela ligeireza com que procuram arrumar as suas cabeças. Brett (Mark Duplass) e Michelle (Melanie Lynskey), um casal com dois filhos, que luta pelo reencontro da chama que já não arde e que os manteria juntos. Tina (Amanda Peet), a irmã de Michelle, sem futuro, que salta de relacionamento em relacionamento e de emprego em emprego na esperança de encontrar o talento que a estabilizará. E Alex (Steve Zissis), o melhor amigo - actor cronicamente desempregado - de Brett, que se vê despejado e obrigado a viver no seu sofá. 

Uma história ao estilo Friends, que narra a luta pela sanidade mental e pelo sucesso de um grupo de adultos, no entanto, com uma nuance que a diferencia de muito do que já se tem feito: é plausível. É fácil de acreditar. Quase todos nós já partilhamos das emoções de Brett, que se sente frustrado profissionalmente e se sente a perder o controlo do seu casamento. Ou de Michelle, cansada de ser uma mãe a tempo inteiro que só quer sentir-se jovem, viva e resplandecente de novo. Tina e Alex fornecem o apoio à narrativa do casal, dando um alívio cómico às situações, pelas suas personalidades mais livres e desinibidas. Aliás, Tina é o epíteto da desinibição.

A aproximação é inevitável. Para além do laço do matrimónio, surgem o laço sanguíneo e o laço da amizade, que acaba por ser de todos o mais forte: a capacidade do ser humano em sacrificar-se pela amizade a outro, sendo essa capacidade personificada ao máximo por Alex, seja em relação a Brett, como a Tina (note-se que se verifica uma aproximação romântica, semi-correspondida neste último exemplo). Dos episódios já exibidos, é possível perceber que existe uma linha de pensamento comum a Mark Duplass e Jay Duplass, que permite reconhecer em Togetherness um dos mais fortes e positivos traços da série Transparent (Jay Duplass é Josh, o filho do meio): o realismo e o respeito pela condição. A acção, em ambas as séries, desenrola-se de uma forma tão natural e ligeira, que apesar de tratar de sentimentos e relações humanas dá ao espectador algo tão desesperadamente necessário neste mundo frenético - o tempo. Tempo de viver. Tempo de sorrir. Tempo de perceber que aquelas pessoas, aquele texto, aquele mundo, é tão deles como nosso. 

Aquelas frases podem e possivelmente já foram ditas, sentidas, pensadas, por cada um e por todos nós. A peripécia da tenacidade do jogo da lata, a disputa intergeracional, o regresso à infância, o choro, o riso, o incómodo, o embaraço. Quem nunca sentiu? Por tudo isto, Togetherness é um must-see. E leia-se "ver" no sentido mais abrangente. Sentir, pensar, conhecer, aprender.

Porque Togetherness ensina que não é preciso estar perto para estar próximo, mas é preciso muito ser muito próximo para conseguir viver perto.


P.S.: Melanie Lynskey descola-se indubitavelmente de Rose (Two and a Half Men). É a prova mais que provada que uma atriz, digna de ser chamada atriz, pode desempenhar um mesmo papel durante anos e mesmo assim conseguir desempenhar outros com perfeição. Choose a job you love, and you'll never have to work a day in your life.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

"Looking": Desconstruir o futuro, revisitando o passado

Por Joaquim da Silva.

Todos procuramos alguma coisa. No fundo da nossa alma, no lugar mais recôndito do nosso ser mora a essência da nossa busca. Looking é a história de três amigos. Homens, homossexuais, entre os 30 e os 40 anos, que vivem em São Francisco. Patrick, o protagonista da série, é um video game developer; Agustín é um aspirante a artista e Dom um empreendedor que sonha abrir o seu próprio restaurante.

Depois de uma aclamada primeira temporada, em que vemos as personagens desenvolverem o seu lado mais emocional, mais pessoal, mais profundo, com uma brilhante desconstrução de estereótipos e preconceitos, o espectador é brindado com uma das mais desapontantes continuações de que há memória. A segunda temporada, pelo menos os três episódios já exibidos, traz uma série de lugares comuns, tão tristes quanto desnecessários, àquilo que poderia um dos mais progressistas e modernos retratos dum segmento social já tão historicamente perseguido como são os homossexuais. Ora vejamos: Agustín (Frankie J. Álvarez), que apesar de ser a personagem mais unidimensional e emocionalmente perturbada, mantinha uma relação estável com Frank (O. T. Fagbenle), mas pela sua "arte sexual", essa mesma relação terminou, e em termos desfavoráveis à convivência dos ex-parceiros. E se o terminar de uma relação é sempre algo destruidor, Agustín certamente esquece rápido, pois não se faz nem se ouve mais alguma menção à dor ou ao desalento. Frank simplesmente desaparece e Agustín torna-se ainda mais um estereotipado gay dos anos 90 - promíscuo, abusador de substâncias, desempregado, sem rumo, sem ambição. Se já havia algum desinteresse por ele, então cada vez mais a personagem se torna aborrecida e previsível.

Na mesma linha de regresso ao cliché, existe agora Patrick (Jonathan Groff). Depois de no final da primeira temporada se envolver com o seu patrão Kevin (how Lewinski of him), vemo-lo agora a fazer o papel de cego e apaixonado amante, a ter de ocultar, esconder e mascarar aquilo que sente aos olhos do mundo, pois vive uma relação clandestina com um homem comprometido. Assiste-se ainda a uma das cenas mais ridiculamente estereotípicas e marcadas de qualquer bom filme de adolescentes americano: o beijo roubado debaixo da bancada de um jogo de rugby, poucos minutos depois de Kevin (Russell Tovey) desprezar qualquer ligação entre eles e falar apaixonadamente do seu namorado Jon (Joseph Williamson). No meio desta espiral descendente aparece Dom (Murray Bartlett), o único que parece coerente consigo próprio, que continua a lutar pelo seu objectivo de abrir o seu negócio enquanto lida simultaneamente com a definição dos seus sentimentos e da sua relação com Lynn (Scott Bakula). Doris (Lauren Weedman) continua a fornecer o alívio cómico situacional esporádico, e aqui acaba a acção. Richie (Raúl Castillo), que é a ponta solta na vida de Patrick volta a aparecer na história, e só nos resta esperar que seja ele o elemento que acabe com o marasmo que se assiste neste momento na trama.

Em suma, Looking tinha tudo para ser um sucesso. E ainda tem. Basta que se consiga voltar a escrever fora do quadrado. Basta que a equipa de argumentistas queira voltar a tratar com seriedade um tema que nada menos que isso merece: a afectividade entre seres humanos, independentemente do sexo, e a eterna busca. Seja pelo que for. O melhor da viagem não é o destino, mas sim a peripécia que aparece no caminho.


P.S.: Parabéns a Murray Bartlett, não só pela incrível forma física, mas também pelo surpreendentemente desempenho, pela profundidade, pela vida, pela energia, pelo carisma que dá a Dom, sem dúvida a melhor personagem da série.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

I can't hide my feelings from you now: amor e desejo em "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho"

Por Walter Neto, cinéfilo, licenciado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade de Coimbra com ênfase em Cinema.

Quais músculos da face reagem ao instante no qual uma pessoa, ou algum objeto, deixam de ser um pessoa ou objeto qualquer e passam a ser o centro de nosso afeto e atenção? Seria realmente possível determinar o exato momento no qual esse “encantamento” começa?

Divago sobre isso enquanto à minha mente vem a primeira vez que fui ao cinema. Meu pai me levou. Era uma sessão de O Rei Leão e a sala era um daqueles teatros da virada do século com camarotes e tudo mais que esses locais ofereciam. Assim que a sessão terminou, lembro-me de pedir para meu pai que mudássemos de lugar. Fôssemos para um daqueles assentos nos camarotes, “no alto”, e assistimos ao mesmo filme pela segunda vez, com minutos de intervalo entre as sessões.

E daquele dia em diante, nunca mais parei de ir ao cinema. Apaixonei-me por esse fenômeno na permanência da imagem na retina. Hoje, não penso em mim sem pensar em algum filme quase como uma extensão minha. E acredito que o mesmo se aplica a visão que meus amigos têm de mim. Bem, ao longo desses vinte e seis anos de vida, alguns amores vieram e se foram; permanecendo por mais ou menos tempo. Mas de alguma forma todos importantes. Mas todos esses, dividiram espaço com o cinema. Talvez seja isso que torne a experiência de uma sessão como a de Azul é a Cor Mais Quente [A Vida de Adèle: Capítulos 1 e 2, em Portugal] ou Hoje Eu Quero Voltar Sozinho. Ambos possuem a pretensão de retratar o mais sutil e talvez importante dos sentimentos: a paixão. Mais que simplesmente filmar a paixão, em ambos os casos, os diretores, Abdellatif Kechiche e Daniel Ribeiro, escolhem um muso(a), uma pessoa que foi corajosa o suficiente para por sua vida nas mãos de outra pessoa. Talvez, este seja o único jeito de realmente nos conhecermos: «Je est un autre» já disse Rimbaud.

A maior proeza de La vie d'Adèle não é técnica, não é um plano sequência mirabolante de vinte minutos sem cortes, mas sim, conseguir tornar público o que mais há de íntimo. De externalizar o que é interno. Talvez a maior questão proposta pelo cinema em 2013 tenha sido a relação entre o sexo, explícito, e a nudez (sensações físicas), com a paixão (emocional). O sexo e o enamoramento ocuparam a mesma porcentagem de tempo em tela nos filmes em questão.

Abdellatif usa o sexo de forma explícita por saber o peso o “tabu” sobre o tema. Assim ele força com que seu público se sinta constrangido ao longo da projeção por compartilhar tamanha intimidade com desconhecidos em uma sala de cinema. Assim, entendemos na pele, o quão difícil é aquele momento de intimidade para as personagens, tão bem retratadas por Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux. É o primeiro amor de Adèle e é ponto de vista dele que importa e é ele que o filme seguirá. A verdade de Adèle que importa.

Aí o filme de Daniel Ribeiro dialoga com o vencedor da Palma de 2013. Leo (Ghilherme Lobo), um adolescente cego que tem em sua amizade com Giovana (Tess Amorim), todo o seu mundo. Mas isso muda com a chegada de Gabriel (Fábio Audi). Leo, assim como Adéle, descobre sua sexualidade, ao mesmo tempo, que sua homossexualidade.


Somos voyeurs dessa descoberta. Vemos Leo se despir, vestir uma blusa de Gabriel e se masturbar, da mesma maneira que vemos Adéle acordar excitada ao sonhar com Emma. Vemos a importância de pequenos toques, como as mãos de Leo e Gabriel que se tocam quando um empresta uma borracha ao outro. Assim como vimos Adéle e Emma deitadas em um parque rindo. Completas pela companhia da outra. Há uma cena em Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, na qual Gabriel e Leo, após passarem o dia em uma piscina, tomam banho juntos e Gabriel representando o público, observa cada detalhe do corpo de Leo, cada milímetro da nudez de sua primeira paixão. Já Leo, devido a sua deficiência visual, é inocente a tal olhar, como aqueles personagens também são. Inocentes de que nós os observamos tão a fundo, tão a seco e sem alguma inibição seus mais íntimos segredos.

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho começa e termina, simbolicamente, sem nenhuma imagem em tela. Apenas um fundo preto enquanto a faixa de áudio do filme ainda está presente. Uma pequena mostra do mundo de Leo, sempre no escuro. O que é maravilhosamente retratado quando seu pai atende a um chamado do filho que toma banho e pede ajuda para se barbear. Ao chegar ao banheiro, ele encontra o filho no escuro em frente a um espelho.

Mas talvez o que há de mais simbólico nessas telas sem imagem aconteça antes dos créditos subirem: O título do filme é alterado para Hoje Eu NÃO Quero Voltar Sozinho. A transformação de Leo está completa. Ele que começou o filme não apenas lutando por independência, mas vendo na solidão a única maneira de encontra-la, não é mais o mesmo. Já não pensa mais em ficar sozinho. Ele tem Gabriel.


E mais uma vez, o filme de Daniel Ribeiro dialoga em mim com o filme de Abdellatif, que também termina com o titulo inserido em uma tela preta antes dos créditos. Mas Adéle faz o caminho inverso de Leo. A sua transformação também está completa. Adèle já não é mais uma adolescente descobrindo o sexo. Já estamos ao fim do segundo capítulo de sua vida. Mulher e adulta, ela escolhe ir embora sozinha e abraçar toda a melancolia que vem a partir dessa escolha. São filmes independentes e sem nenhuma relação aparente entre as produções, mas ter visto Azul é a Cor Mais Quente antes de ver Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, possibilitou que eu entendesse mais da personagem “Leo” e o visse como um duplo de Adéle. Outra possibilidade aquele universo de descobertas e paixões.

Como já dito antes, são belos filmes, mas nem por isso experiências fáceis. É agridoce perceber que nosso primeiro amor, nosso primeiro beijo, primeira transa, já passaram. Não que os outros beijos, transas e amores sejam menores, mas uma vez perdida, a inocência da descoberta, não pode ser mais retomada. Um viva a esses dois filmes e histórias sobre os prazeres e dores de amar.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Páginas vs. Fotogramas: Divergente


Divergente sofre de um problema de base. Literalmente, um problema de base, já que a história que nos é fornecida sobre a formação da sociedade e das suas facções é incoerente. O que é uma pena porque, ultrapassada a má base e os problemas de fluidez de escrita, a história em si até nem é má.

Comecemos pelo princípio. Ou seja, pelo livro em si. Divergente surpreendeu tudo e todos ao conquistar em 2012 o título de livro do ano no site Goodreads, embora este facto tivesse ocorrido antes de se dividirem os livros young adult (YA) dos restantes.

Li Divergente na sua versão original, uma vez que no início de 2013 o livro ainda não tinha sido publicado por terras lusas (entretanto a Porto Editora editou-o, bem como aos dois livros seguintes da trilogia, Insurgente e Convergente). E, tendo este livro sido um sucesso um pouco pelo facto de vir na sequência d'Os Jogos da Fome, também esta uma distopia YA, é impossível não comparar ambos os trabalhos, por muito injusto que isso possa parecer.

Enquanto que em Os Jogos da Fome a autora não se alonga particularmente sobre a história daquele mundo distópico, Divergente vai exactamente por esse caminho. Contudo, o problema está exactamente aí: aquilo que poderia ser entendido como se quisesse - a divisão de uma sociedade em facções incubidas de determinado comportamento e função na sociedade - é rapidamente posto em causa pela ausência de lógica da explicação fornecida. E, ao assistir ao filme, essa ausência de lógica tornou-se ainda mais notória quando é apressada nuns meros 2 ou 3 minutos de fita.

Por outro lado, temos também o facto desta trilogia ser o primeiro trabalho da autora. Isso nota-se, até demais. Não só na qualidade da escrita em si, como na tentativa forçada de contrariar aquilo que é esperado num livro (a protecção de certas personagens, por exemplo). A tentativa de fugir à típica narrativa é tão pronunciada que se torna expectável a direcção que vai tomar.

Contudo, e assinalados os pontos negativos desta história, há que assinalar os positivos. O primeiro é que, dado o facto de ter uma premissa de base tão má, era expectável que tudo o que vinha depois seria igualmente mau. Não é, na verdade consegue ter uma história relativamente interessante, que foi bem transladada para filme. O desenvolvimento da personagem principal, Tris (Shailene Woodley) dentro da facção por ela escolhida consegue ser o ponto mais interessante das cerca de duas horas de filme. Por outro lado, depois de tantos filmes YA com protagonistas masculinos questionáveis, encontro finalmente em Four (Theo James) um actor competente no papel que lhe foi atribuído.

Na adaptação foram perdidos alguns momentos-chave, talvez pela violência dos mesmos e o facto do filme ter sido gravado com o objectivo de obter uma classificação PG-13. Contudo, a natureza relativamente violenta da história era uma das coisas que dava interesse ao livro (lá está, a eterna procura por parte da autora em quebrar os estereótipos). Divergente tornou-se mais um filme de adolescentes quando podia ter arriscado, mas compreende-se que a faixa etária tenha de ser tida em conta.

sexta-feira, 7 de março de 2014

"Looking" e a busca pela identidade (de uma série)

Por Walter Neto, cinéfilo, licenciado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade de Coimbra com ênfase em Cinema.

Desde o anúncio da produção de uma série centrada no dia-a-dia da vida de um grupo de amigos gays em São Francisco, Looking tem vindo a ser erroneamente chamada de versão gay de Girls. Tal análise simplista baseia-se somente no fato de que as duas séries têm como proposta a pretensão de uma abordagem mais crua e, por consequência, sem qualquer glamour na retratação da vida de um grupo de jovens. É a geração que demora mais para crescer e sofre da famosa crise do quarto de vida. E é isso. A convergência acaba aqui. O que faz de Girls uma serie única e não uma releitura de Sex and The City, por exemplo, ainda que a série de Lena Dunham deva muito a ela, é justamente o fato de Girls ter tirado a “Cidade” da equação. Os conflitos de Jessa (Jemima Kirke), Hannah (Lena Dunham), Soshanna (Zosia Mamet) e Marnie (Allison Williams) são todos internos às personagens e aparecem para o público refletidos na maneira como elas lidam, com pouco ou nenhum sucesso, com o mundo ao redor.

E talvez seja exatamente por isso que episódios como One Man’s trash da segunda temporada de Girls e o mais recente Beach House funcionem tão bem dentro do universo da série. O que Dunham fez aqui foi externalizar a dissociação das suas personagens com o ambiente que as rodeia. O que já acontece mesmo em Nova Iorque, quando sempre as vemos dentro dos seus respectivos microcosmos: os seus apartamentos. É significativo pensar que não há grandes cena externas na cidade, como na pioneira série de Carrie Bradshaw, personagem icónico de Sex and The City, interpretada por Sarah Jessica Parker.

Em Looking, a escolha de São Francisco é um fator determinante no desenvolvimento da trama de Andrew Haigh e Michael Lannan. A cidade volta a ter a mesma importância do sexo ao estar tão fortemente associada às questões da comunidade LGBT e suas lutas. Mas mais que reconhecer as diferenças em relação a Girls ou perceber a cidade como um personagem (o que não é por si só novo: Sex and City, Vicky Cristina Barcelona [Woody Allen, 2008] não nos deixariam mentir) para perceber o que funciona e o que não funciona em Looking, deve-se voltar a Weekend, longa-metragem de estreia de Haigh.

Weekend foi um retrato intimista e honesto da vida de dois homens gays em momentos completamente diferentes da vida e em posições opostas quanto ao entendimento da sua sexualidade, mas que por capricho do destino, acabam-se envolvendo amorosamente ao longo de um fim-de-semana, como o título explicita. Um drama simples que chamou a atenção, não por um grande orçamento ou questões técnicas, mas pela naturalidade e realismos impostos aos diálogos entre os protagonistas Glen (Chris New) e Russell (Tom Cullen), que explicitaram a nossa condição de voyeur ao nos transportar, sem desculpas, para a intimidade daqueles dois homens.

É notável o esforço de Haigh em usar Looking para estender o universo da homossexualidade masculina, já abordada em Weekend, mas aí se cria o calcanhar de Aquiles da série do canal HBO. A progressão do relacionamento de Glen e Russell era completamente orgânico e, ainda que dure apenas 90 minutos, como o filme usou do relacionamento para retratar questões maiores, o realizador e o seu argumento puderam satisfatoriamente desenvolver a sua proposta.

Mas Looking é uma série de televisão e, ainda que muito parecida com Weekend, não é uma versão televisiva do filme. Novas personagens, novos conflitos e novos elementos foram criados para que o cotidiano de Patrick (Jonathan Groff), Agustin (Frankie J. Alvarez) e Dom (Murray Bartlett) em São Francisco, se sustente sozinho e não deva nada ao filme de Haigh ou a outros programas de televisão, como Queer as Folk.

Mas, pelo menos para mim, a série falha nesta que é a sua maior ambição: ser um universo autossuficiente. Espanta-me que a semelhança de planos em alguns episódios com Weekend, como as imagens abaixo sugerem, não tenha sido mais explorada pela mídia em geral.

Weekend, 2011

Looking, 2014
Mas a culpa não é de todo de Haigh, Lannan e a equipa de argumentistas. Como encaixar tanto de uma trama dramática na estrutura de episódios de 30 minutos de duração (já consagrados pelas comédias)? As tramas em Looking nunca conseguem ser plena e naturalmente desenvolvidas pela falta de tempo e acabam sempre por soar como um recorte superficial de algo que já foi, com mais profundidade, abordado em outro lugar, neste caso, sempre usando Weekend como referência.

Com Looking renovada para uma segunda temporada e a noticia de que atores do elenco de apoio como Russel Tovey e o óptimo Raúl Castillo foram promovidos ao elenco regular da série, sente-se a intenção de mudar o andamento de algumas tramas que não funcionaram bem, como Agustín e seu projecto artístico sobre a relação entre o sexo e a arte (outro tema abordado em Weekend: Glen tinha o mesmo projeto artístico) para focarmos mais nas conturbadas relações interpessoais e amorosas entre Patrick (Groff) seu namorado Richie (Castillo) e seu chefe Kevin (Tovey).

O que se espera de Looking é paciência para que a série encontre o seu ritmo e identidade. O que se deseja da série são mais episódios como “Looking for Future” (S01E05), no qual a série parou com as suas tramas "corridas" e mal desenvolvidas para nos presentear com um dia no relacionamento de Patrick e Richie e, ainda assim, todo o relacionamento dos dois num único dia.