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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

"A Juventude": Mergulho às profundezas do desânimo

Por Miguel Stichini.

La grande bellezza impôs-se enquanto objecto cinematográfico ousado, ao apresentar-se enquanto actualização do clássico La dolce vita (1960), de Federico Fellini; uma tentativa evidente de reconhecer Paolo Sorrentino enquanto afilhado espiritual do mestre italiano. No seu mais recente trabalho, Paolo Sorrentino volta a inspirar-se na filmografia do realizador, mais precisamente em 8½ (1963). Contudo,   enquanto a obra de Federico Fellini se preocupava em explorar a natureza da crise criativa de um artista no topo da sua carreira, a de Paolo Sorrentino foca-se nos eclípticos anos de uma vida e o sentimento de se ser deixado apenas com um legado. Tudo isto enquanto se mistura a ansiedade subjacente à tentativa de se ser aceite pela sociedade e uma distracção meditativa. Os floreados surrealistas do mestre deram lugar a uma abordagem algo inexpressiva, embora não menos absurda, enquanto a câmara se deambula entre formas humanas, algumas velhas, algumas jovens.

O filme arranca enquanto reflexo brilhante e alegre sobre o que pensamos que queremos quando estamos demasiado embriagados sentimentalmente, para fazermos escolhas acertadas. Drapeando o elegante hotel e a sua luxuriante encosta montanhosa com um suave toque de melancolia, faz com que os nossos arrependimentos e memórias ganhem vida através dos irrisoriamente desenfreados gestos e palavras da personagem de Michael Caine. Esse suave toque envolve os convidados, na flor da idade,   do hotel com viris e núbeis membros do staff, como se a sublinhar a diferença entre paixão e perspectiva. Ocasionalmente é-nos dado a observar ambos os lados a interagir.

O realizador Paolo Sorrentino deliberadamente recorre a um ritmo lento, de forma a retratar o tédio e a sensação de rotina que se vive no resort, onde cada uma daquelas pessoas deambula entre espaços com apenas as suas memórias para lhes fazer companhia. Volta e meia surgem pequenas variações deste compasso: a relação do protagonista com a filha; o desejo de fazer um filme do segundo protagonista, bem como a relação com o seu filho; o medo de uma das personagens de ser para sempre recordado por algo insignificante, um trabalho onde o público nem conseguia ver o seu rosto. O cineasta alterna entre cenas lentas e explosões emocionais, tal como a curta cena de Jane Fonda ou o monólogo de Rachel Weisz. Ao surgirem por entre cenas onde pouco ou nada acontece, as cenas de explosão emocional ganham um maior impacto. Por outro lado, a natureza estilizada pode abrandar as coisas a ponto em que tudo se parece arrastar.

O argumento contém momentos tão subtis como subliminares. Quando a personagem de Paul Dano finaliza o desenvolvimento da sua personagem, profere as seguintes palavras: «I have to choose, I have to choose what is really worth telling: horror or desire? And I choose desire. You, each one of you, you open my eyes, you made me see that I should not be wasting my time on the senseless fear...» Estas palavras não podiam encontrar-se mais desprovidas de subtileza, mesmo que tivessem sido escritas por Michael Bay.


As personagens secundárias pouco dizem e as suas contribuições tendem a ser concisas e abstractas. Nada ou ninguém se movimenta, entra ou sai de cena em demasia; a todos lhes foi atribuída uma posição fixa no tableux vivants do filme, criando um perfeito quadro para a história. Estilo adquire assim uma importância sublime, sendo artisticamente capaz de elevar o familiar a novas profundidades.

O método de Paolo Sorrentino é arriscado, bem como é a sua ambição e grandeza no que toca à execução maximizada de cada uma das suas ideias. Desta forma, os momentos e observações deliciosas do filme tornam-se ainda mais deliciosas, e os poucos momentos maçantes ainda mais maçantes, especialmente quando estão demasiadamente elaborados. Com um público disposto a entregar-se e a perder-se por entre a magia das imagens, o cineasta consegue colocar o foco sobre questões como: de que forma reagimos e percebemos à passagem do tempo e de que forma o mundo olha para nós sob esse efeito? Todos estamos interessados ao tempo que passa e ao que fazemos com ele.

A liderar um elenco de luxo, Michael Caine restringe em si uma existência equilibrada contra o mundo que o rodeia. O seu lado frio e distante apenas se quebra com a chegada do fime, após um acidente, que nos remete para o abrupto desenlace de Ida (2013), de Pawel Pawlikowski. Nesse momento, o seu eventual compromisso trai a resignação das convicções de um rígido homem/marido/pai. Harvey Keitel sempre foi um actor de personagens em busca de uma gradação de versatilidade. A sua última frase é deveras comovente «emotion is everything», proferida num momento em que se tornara mártir das suas crenças, após uma fatal traição que abre portas para que as suas emoções comandem a sua vida uma vez mais. Jane Fonda numa versão larger-than-life de si própria, por entre uma maquilhagem ridiculamente pesada e um guarda-roupa ousado, apresenta-nos em sete minutos aquela que é uma das melhores cenas do filme, aquele que é um desempenho mais vistoso.

A imagem, requintadamente cristalina, de Luca Bigazzi dá vida às pretensões de padrões visuais de Paolo Sorrentino, contemplando os corpos humanos as mesmo tempo crus e abstractos, umas vezes pátinas artisticamente dispostas de luz e sombra, outras digitalizadas descuidadamente francas. Estas imagens ajudam o trabalho do realizador italiano a encontrar a profundidade certa na sua declaração sobre a forma humana durante a juventude e a velhice, a vida e a morte.

A obra não olha para os corpos das suas personagens enquanto frágeis vasos numa galeria. A imagem mais interessante onde o estado de um corpo se torna um ponto de obsessão surge quando contemplamos Maradonna, um outrora deus do desporto que agora se arrasta sobre uma massa de gordura, mas ainda com uma genialidade física remanescente enquanto alegremente pontapeia uma bola de ténis. Um mundo contido numa sequência de imagens, um monólogo mudo.


Youth consegue a proeza de nos fazer recordar do passado, bem como antecipar o futuro, ao mesmo tempo que nos mantém completamente de pés assentes no presente perante uma exibição deslumbrante e sinfónica da emoção humana.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Este é o Meu Lugar, por Tiago Ramos



Título original: This Must Be the Place (2011)
Realização: Paolo Sorrentino

O que mais me deixa curioso neste novo trabalho do realizador italiano Paolo Sorrentino é a forma como demonstra ser tão polarizador de opiniões, tal como foi evidenciado por exemplo nas exibições nacionais em festivais (Fantasporto e 8 ½  Festa do Cinema Italiano) com um burburinho no final da sessão entre divisões sobre quem não gostou absolutamente nada do filme e tantas outras a transmitirem o seu entusiasmo pelo filme. Não que não seja algo habitual no cinema, a diversidade de opiniões, mas neste Este é o Meu Lugar pareceu-me deveras mais evidente, sem perceber ao certo o motivo.

Reacções à parte, Este é o Meu Lugar é uma drama existencial com toques de uma inusitada e bizarra comédia assente especialmente no seu protagonista: uma estrela de rock caída no esquecimento, visualmente inspirada em Robert Smith, dos The Cure. Uma composição de Sean Penn que, longe de ser o seu melhor trabalho, é com certeza um dos mais estranhos e interessantes que teremos oportunidade de ver este ano. Um desempenho que se inicia de uma forma confrangedora, mas que rapidamente ganha coração e consistência, no papel de um homem que busca a sua própria identidade enquanto parte em busca da memória do seu pai. É esse o mote para o filme que acaba por subtilmente se desenvolver num road movie que culmina numa previsível viagem pessoal de crescimento do protagonista. Um road movie que serve também de justificação para uma primeira incursão do realizador italiano no mercado norte-americano e que permite também evidenciar a sua belíssima mise-en-scène bem como a fotografia de Luca Bigazzi. Uma jornada feita ao som da banda sonora de David Byrne - que também surge no filme em nome próprio - e Will Oldham.

Curiosamente é também quando essa viagem começa que o filme ganha forma de um nostálgico marasmo que ameaçava abater-se de início e que só parecia salvar-se graças ao desempenho de Frances McDormand. É aí que o argumento ganha contornos deliciosos numa história que mesmo bizarra e por vezes demasiado rebuscada contraria-se com referências culturais e subtis, num tom delicado e emotivo. E embora o seu final caia em grande previsibilidade, Este é o Meu Lugar deixará um sorriso nos lábios de tão evidente, mas afinal eficaz fórmula, de redenção e busca pessoal.


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