domingo, 29 de setembro de 2019

Marte - Temporadas 1 e 2, por Eduardo Antunes


Título originalMars (2016– )

O elemento que apresentou desde o início esta série é o mesmo que apresenta maiores desafios à medida que a mesma vai avançando. Entre as duas primeiras temporadas, a comunicação entre uma parte documental e uma outra ficcional, em cada episódio, faz com a que nossa atenção esteja constantemente dividida, sempre à espera que uma parte termine, para que possamos assistir à qual realmente foi focada a atenção.

Sendo criada no âmbito do canal da National Geographic, existe um nível de compreensão e exposição da realidade que é sempre expectável e bem vindo. Todos os eventos ficcionais que são retratados têm um nível de precisão científica aparentemente acertada, facto para o qual contribui a base documental mostrada em paralelo a cada episódio. 
Na primeira temporada, serve esta para ilustrar de forma clara todas as dificuldades que qualquer missão espacial acarreta, sendo de extrema eficácia a compreensão do fascínio pela descoberta do espaço sideral, mas sendo mais desolador a observação da expectativa e consequente destruição completa de anos de trabalho em meros segundos, durante um lançamento teste, exposta nas faces de todos os trabalhadores que para tal contribuíram.

E contra esse ponto forte, fica a narrativa ficcional de uma expedição a Marte décadas mais tarde, aquém do que nos foi antes mostrado. Personagens inicialmente pouco interessantes e bastante convencionais - cujas nacionalidades parecem ser o traço mais característico de cada uma - não nos fazem preocupar com uma viagem que desde os primeiros momentos acarreta perdas pessoais, supostas relações já estabelecidas e quaisquer complicações que a partir da descolagem surgem, tudo algo que The Martian um ano antes já fizera com maior eficácia. Ainda assim, no final da temporada dá-se algum destaque aos efeitos de um tempo demasiado num planeta (literalmente) alienígena na mente dos exploradores, o que torna o futuro dos mesmos bastante incerto.

É, na verdade, na segunda temporada que a história das nossas personagens ganha ímpeto. Depois de um final que deixa possibilidades em aberto para uma possível colonização do planeta vermelho, a segunda temporada retoma a história com algum tempo passado, com o estabelecimento de uma colónia científica já em franco desenvolvimento, agora com a "ameaça" da exploração dos recursos do planeta por parte de uma empresa exterior, para entendimento da habitabilidade a longo prazo.



É nesta temática e dinâmica que surge todo o interesse mas igualmente todas as fraquezas desta temporada. As personagens partilham agora uma dinâmica mais fortalecida e, mais importante, a exploração do planeta toma uma escala cujos problemas já não são quase apenas técnicos. Surgem agora problemas de consciência, económicos, ideológicos e políticos, numa constante disputa entre as relações estratégicas no nosso planeta e como afectam ou não, de forma profunda, as acções tomadas a 225 milhões de quilómetros daí, já por si potencialmente problemáticas.

Mas se na primeira temporada a ficção parecia ser apenas uma reflexão tardia, com o documentário a ser a parte essencial da série, na temporada seguinte os papéis parecem reverter, tomando a parte documental o papel de apenas corresponder às questões levantadas na ficção. E questionamos assim a razão da série continuar dividida em duas partes. Pois se a ficção levanta já a possibilidade de voltarmos a cometer os erros do passado num ciclo vicioso de intenções económicas egoístas, a parte documental apenas ilustra casos actuais que mostram precisamente o mesmo, tornando fútil uma ou a outra forma de o fazer. 

Se, ao olharmos a hipótese de explorarmos de forma irreflectida Marte como temos feito com a Terra, traçamos já as necessárias reflexões para as nossas acções actualmente, a parte documental serve como mais um programa sobre as alterações climáticas e a nossa participação nas mesmas, já não pertencendo à restante série, apenas servindo como um alerta que deveria funcionar isoladamente.

No final, a ideia base da divisão da série entre realidade e ficção como utensílio narrativo acaba por não permitir à série evoluir de forma constante, por em detrimento do desenvolvimento de uma parte, não saber exactamente o que fazer com a outra. Se a narrativa criada atingiu agora um bom patamar, na forma como as consequências dos riscos tomados em Marte afectam, mais que a colonização, as relações das personagens, resta agora entender como a parte documental acompanhará a evolução posterior da série.


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