domingo, 27 de outubro de 2019

Terminator: As Crónicas de Sarah Connor - Temporadas 1 e 2, por Eduardo Antunes


Título originalTerminator: The Sarah Connor Chronicles (2008–2009)
Criadores: Josh Friedman

Passada uma década sobre a conclusão antecipada desta série, e aproveitando a próxima "revitalização" de Terminator prometida em Dark Fate, aproveitei para finalmente pôr em dia este projecto que já rondava a minha mente havia algum tempo. Passada também após Judgment Day, as crónicas aqui contadas experimentam com a fórmula conhecida para oferecer um pouco mais, reforçando a personagem titular na sua relação com o filho que inicialmente parece não conhecer mas que deve proteger, numa dicotomia entre a maternidade que aprende a lhe oferecer e a condição militar na qual se vê obrigada a fazê-lo crescer.

Apesar de Rise of the Machines seis anos antes ter explorado a ideia de Skynet poder enviar exterminadores ao passado com outro objectivo que não apenas assassinar John Connor, a série apoia-se ainda mais nessa ideia, com exterminadores a executar diversas missões no passado para além de meros assassinatos, o que permite uma melhor adaptação daquilo que era uma dinâmica já repetitiva nos filmes para uma narrativa serializada mais eficaz. 
Os meros nove episódios que perfazem a primeira temporada exploram, desde o episódio piloto, a ideia de que a resistência humana faria o mesmo, enviando soldados e cientistas para o passado para construir armas e recolher mantimentos, para preparar os recursos necessários para a vitória, deixando a pairar sobre toda a série a ideia de que o passado e o futuro estão interligados de forma mais aprofundada, de que o futuro que tentam impedir foi desde logo preparado no passado, e de que esse mesmo futuro os preparou e os definiu.

We didn't chosse this life, this life chose us, diz-nos em certo momento Sarah, enquanto relembramos que, se Kyle Reese não tivesse regressado para a salvar, talvez o seu caminho tivesse sido outro, talvez nunca tivesse tido uma descendência, talvez pudesse ter tido uma vida diferente, que se assemelhasse a algo normal. Nesses momentos, relembramo-nos daquela Sarah assustada, duvidosa, que víramos no primeiro filme.
Em todo este percurso, Lena Headey é a perfeita sucessora ao trabalho de Linda Hamilton nos dois filmes. Se Hamilton demonstrava vulnerabilidade e incerteza no primeiro filme, para na sequela se forçar a tornar a guerreira esperada, Headey faz a ponte entre ambas passivamente, demonstrando quão maior (que o conflito que contextualiza toda a sua nova vida) é o seu conflito interno - entre demonstrar o carinho que tem pelo filho e proteger a vida da própria prole para garantir o seu futuro enquanto líder.




Quando começamos a perceber quão longe chega a preparação das máquinas, percebemos também as consequências que isso acarreta, mais que em termos práticos, na psique dos nossos protagonistas. Para impedir a exterminação completa da espécie humana, será justificável a perda de algumas vidas, ainda que essas vidas não tivessem consciência da sua contribuição para o próprio fim? Isso continuamente reafirma o crescimento que Sarah se permite ter, de forma a se diferenciar dos exterminadores que tenta combater, de forma a se diferenciar dos protocolos de Cameron.
É mais para o final da segunda temporada que começamos a perceber melhor de que forma esta vida começa a afectar Sarah, como o medo se torna em paranóia, esbatendo algumas linhas entre realidade e os pesadelos que a começam a assolar. A luta constante e os sacrifícios que começa a ter que fazer iniciam a sua inevitável influência negativa em Sarah.

Também o esforço de levar uma vida normalizada traz estranheza, não apenas por parecer ingrata ou disparatada essa hipótese para John, face a maior importância dos eventos de que tem conhecimento, mas pelo próprio desconhecimento de Sarah em lidar com o que pode ser um futuro para além dos constantes combates ou, em limite, pelo receio de não chegar a essa possibilidade:
John - Stopping Skynet, Judgment Day, that's important, that's... that's our life.
Sarah - That's ou mission. This is our life. If we stop caring about that, then you're lost.
Mas quando John vê essa possibilidade, os eventos que se vão materializando e impedindo um certo estabelecimento interpõem-se de modo a não o permitir seguir os seus mais básicos sentimentos sem constante medo, não se sentindo seguro. Surgem as dúvidas de quem realmente é, por o seu papel não ser certo, se é um rapaz ou um homem, se um adolescente ou um soldado. O trauma do que ainda não aconteceu afecta a sua apreciação de um presente incerto.



Neste processo, não será possível não apontar o contributo de Summer Glau como Cameron, a exterminadora que faz as vezes de Schwarzenegger no seu papel de Terminator 2, que demonstrou, há uma década, a possibilidade da franquia sobreviver sem o seu nome original. Enquanto nesse filme era claro o papel de Schwarzenegger, reprogramado para proteger John, à personagem de Glau, dada a maior longevidade da narrativa contada, é deixada uma maior ambiguidade nas suas verdadeiras intenções.
Se em momentos o seu único objectivo é também proteger John, noutros duvidamos de outros motivos secundários que a sua missão possa acarretar. Essa ambiguidade é ajudada pelo próprio facto de fazerem mais por a humanizar, seja pelo nome dado, seja pelo facto de a integrarem no seu quotidiano, fazendo John duvidar do que ela sequer pode significar para ele.

Apesar dessa caracterização ser realizada mais vincadamente no início da série, facilmente é deixada de lado para uma básica mecanização da interpretação de Glau (ainda que, felizmente, em serviço da restante narrativa). Se a primeira vez que vemos Cameron ela está socialmente infiltrada como adolescente no colégio, enquanto "irmã" de John poderia estar sempre em perfeita integração nesse ambiente, para que, regressada à missão em mãos, já não fosse possível discernir a mínima humanidade, por já não ser necessário qualquer comportamento dito normal. Isso traria uma maior confusão a John, na necessidade de encontrar algum sentido de normalidade no seu quotidiano, sem qualquer constante. Isso é, no entanto, reforçado positivamente ao longo dos diferentes momentos em que "retornamos" ao futuro apocalíptico, quando começamos a perceber que John parece passar a pôr a sua confiança mais nos inimigos convertidos que nos aliados que o acompanham.

Isso relembra-nos que, ainda que possamos duvidar constantemente de Cameron, ainda mais os diferentes humanos que vamos conhecendo, mesmo aliados, podem ser mais falíveis e incertos. Um ponto de particular interesse que surge na segunda temporada é, na possibilidade de regressar a um tempo sem uma inevitável guerra global, um humano poder deixar de parte a escuridão de um futuro fatalista para aproveitar a paz que nunca pensara vir a ter novamente.
Mas mesmo outras alianças que parecem (con)fiáveis, rapidamente se tornam perecíveis, questionáveis, ainda que muitas vezes apenas nós (e, de uma estranha maneira, Cameron) saibamos dessas dúvidas subjacentes, mantendo-nos obrigatoriamente atentos a qualquer mínimo desenvolvimento até ao final, na expectativa da resolução de todas as incertezas da missão. E essa paranóia, não só por parte de Sarah, mas de qualquer humano que é posto à prova perante Cameron ou qualquer exterminador, no presente ou futuro, é algo que toma particular destaque nos últimos episódios da segunda temporada de forma muito eficaz e que, no final, deixa saudades por uma série que, apesar de se iniciar lentamente, correspondeu às pretensões levantadas até ao seu epítemo.

Longe de uma série de excelência, existe uma constância na sua escrita e nas relações entre as personagens abordadas, sejam principais ou secundárias, mas em especial na relação entre Sarah e John, entre mãe e filho, cujos comportamentos revelam sempre a falta de uma relação parental normalizada, para a vermos crescer e vacilar ao longo de cada episódio. Se a primeira temporada era uma amostra do que viria a seguir, a segunda temporada foca ainda mais os conflitos entre humanos e máquinas e o preço que cobra às diferentes personagens, principalmente entre o grupo principal.
No final, só podemos imaginar o que a série se poderia ter tornado, já que neste caso não pecou por falta de ideias, mas antes por falta de interesse, seja dos seus expectadores da altura, seja pelo estúdio por trás da sua produção.

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