sexta-feira, 29 de julho de 2022

Loki - Temporada 1, por Eduardo Antunes


Título original: Loki (2021)
Criadores: Michael Waldron

A personagem interpretada por Hiddleston volta a reforçar o seu carisma num primeiro esforço em almejar o que será o futuro do universo do qual deriva, não explorando totalmente o potencial informado, mas mostrando-se como uma das mais entretidas incursões por estas histórias serializadas em que a Marvel começa a vir apostando.

Se o início parece alienante, por aparentemente ilustrar todos os eventos do universo cinemático até então como apenas a decisão de um trio de entes alienígenas, os eventos durante a série demonstram a precisa rebelião (quer pelo protagonista, quer pelo público) face essa ideia, de que existe uma tentativa de (de)limitar algo para a qual não existe possibilidade de controlo. 
Inicialmente, a ideia do livre arbítrio destas personagens parece inexistente, para mais tarde entendermos que ela sempre existiu e que guia, precisamente, os eventos da série e da personagem de Loki. É preciso que tudo mude para tudo permaneça igual? Ou terá sido necessária a dica de que tudo está pré-determinado, para incitar à verdadeira mudança?

Loki aparenta ser um exercício metalinguístico sobre o próprio esforço de um universo cinemático, onde a visão é também necessariamente uma única, onde as visões que não se coadunam com a principal são dispensadas para evitar confusas variações. 
Aliás, inicia a série a ideia de que não existe possibilidade de escolha das personagens para lá do que está pré-definido, mas ainda que seja assim ilustrado, durante o desenvolvimento do argumento é-nos mostrado que tal não importa de um ponto de vista narrativo, já que não limita a liberdade narrativa dos próprios argumentistas que se possibilitaram a criar esta série. Novamente, brinca a Marvel com o desenvolvimento metalinguístico dos seus conteúdos após WandaVision, mas não de um ponto de vista técnico como nessa série.


A série imediatamente faz-nos questionar a sua própria lógica, ao afirmar que as deslocações temporais realizadas durante os eventos de Avengers: Endgame ocorreram de acordo com um plano pré-estabelecido. Entendemos, desta forma, que na verdade, nada é dessa forma. Desde esse filme, as implicações eram contraditórias, pois as deslocações temporais criam novas linhas temporais, apenas para serem aparentemente desfeitas regressando na linha temporal "correcta". Assim, algumas variações são permitidas, se existir desculpa suficiente para lidar com tais incongruências (ainda que Endgame não tenha conseguido fazê-lo).
Infelizmente, todos estes questionamentos que, desde o princípio, o nosso titular protagonista se faz por questionar ele próprio, não chegam para elevar esta série para lá dos seus limitados desvios por um ou outro ponto espácio-temporal e diversas variações sobre a mesma personagem. Ponto do qual a série acaba por retirar a sua maior valorização, num questionamento constante da personagem de Loki.

E se Loki se revela a personagem mais interessante de se apoiar neste contexto, visto possuir das maiores evoluções enquanto personagem ao longo das suas diversas aparições cinemáticas, podendo-se precisamente apoiar nos diferentes rumos que poderia ter tomado, acaba por ser apenas um veículo para, no final, deixar a porta aberta para delinear futuros encontros entre diferentes variantes das personagens (como demonstra já Spider-Man: No Way Home). Isto não deixa de ser potencialmente interessante por si só, mas também não chega a ter o devido desenvolvimento aqui, por entre outros pontos que pretende servir.
Se vemos na relação com a variante feminina de Loki um confronto de eventuais destinos e semelhantes atitudes, o mesmo potencial face inúmeras outras versões da personagem fica retido a um único episódio e um punhado de variações da personagem (reconhecíveis das BDs), servindo mais como aperitivo que não terá, infelizmente, sequência.


E também aqui reconhecemos a estranheza da evolução desta variante da personagem. Pois, se enquanto audiência, assistimos à evolução de Loki até ao seu sacrífico em Infinity War, a variante que nos é aqui apresentada é a que acabara de tentar conquistar um planeta. Assim, os desafios que teve que ultrapassar até ser relembrado do seu real valor durante vários filmes, são aqui rapidamente ultrapassados em poucos episódios. Não estranhamos esta variação da personagem, por a reconhecermos das suas últimas aparições, mas estranhamos quando nos relembramos esta ser a personagem saída de 2012.

[Spoilers] No final, mesmo o aparente antagonista, manipulador de todos os eventos e dito conhecedor de todo o passado, presente e futuro, chega a um momento que, sem explicação, não sabe mais o que se passará. É-nos mostrado aqui o beco a que os argumentistas tinham chegado, onde continuando nesta lógica de uma linha definida não seria possível fazer mais nada, apesar de pretenderem a continuação do chamado Multiverso em diante. [/Fim de spoilers]

Serve, assim, Loki enquanto uma primeira exploração da ideia de um vasto conjunto de possibilidades narrativas sem, no entanto, lhe corresponder o merecido potencial, seja na personagem central, seja na premissa desenvolvida. Servirá, como sabemos, enquanto forma de nos ser apresentado e explicados os eventos que virão, ainda que aqui bem apoiado na interpretação do carismático protagonista (cujo reconhecimento geral terá também sido incentivo para uma série lhe ser dedicada).



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