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domingo, 14 de junho de 2026

O Dia da Revelação, por Eduardo Antunes


Título original: Disclosure Day (2026)
Realização: Steven Spielberg
Argumento: David Koepp, Steven Spielberg

Aquando do lançamento de The Fabelmans, julgara aí findado o percurso cinemático de Spielberg, num exercício catártico de assunção do próprio percurso pessoal que influenciara a sua filmografia, um literal fechar do ciclo, finalizando esse filme com o seu início como realizador.
E preferia que fosse essa a memória a guardar, em vez desta fraca tentativa de reamaginar ou actualizar as suas mais antigas explorações de ficção científica. 

quinta-feira, 29 de março de 2018

Ready Player One: Jogador 1, por Carlos Antunes



Título original: Ready Player One
Realização: Steven Spielberg
Argumento: Zak Penn, Ernest Cline
Elenco: Tye Sheridan, Olivia Cooke, Ben MendelsohnMark Rylance


Ready Player One não é o caso de um filme em que cabem todas as referências. É o caso de um filme que tem de as albergar. Está de tal maneira repleto delas que não é possível capturá-las por inteiro.
Se isso significa que há pelo menos uma mão cheia de referências para que cada espectador sinta o abraço caloroso da nostalgia, significa por outro lado que há que ignorar as referências para dar o devido apreço ao filme à nossa frente.
Afinal estamos perante material alheio com que Spielberg se pôde identificar e, a partir daí, criar um divertimento próprio fácil de partilhar com o público.
Nada mais do que uma aventura, com três provas a superar, uns inimigos em formato boss e a exploração obsessiva 
Spielberg é um artesão do cinema e mesmo num mundo totalmente virtual não abdica de fazer o melhor em função do espectador.
A corrida que vem logo no início do filme bastaria para o provar, excitante do princípio ao fim. Um espectáculo visual onde a velocidade, a cor e as ocorrências são exageradas. E em a realização permite que o todo seja compreensível.
Há tempo para que cada etapa da corrida se mostre e sem deixarem de estar unidas numa fluência que serve o resultado final. A acção está pensada para dar fôlego à cena e não para que a montagem se evidencie criando sensações que não existissem no trabalho do realizador.
Essa cena é tudo aquilo que Speed Racer pretendia ter sido e, por comparação, um ensinamento simples sobre como identificar talento.
Spielberg oferece o seu melhor sempre que pode - não muitas vezes pois o material de Ernest Cline não o permite - por estar embuído do espírito de reverência aos seus ídolos que está na origem do projecto.
Aproveitando e remexendo num dos mais pessoais filmes de um dos seus - e de quantos de nós? - realizadores de eleição, Spielberg entra por The Shining dentro.
Outra das melhores cenas do filme, que sumariza o que é o resultado possível. A criatividade que Spielberg introduz num cenário cinematográfico bem conhecido acaba por desembocar nas formas de videojogo que condicionam o pensamento do escritor.
O filme avança para um resultado previsível, facilitando o percurso dos heróis à medida que avança pois tem um objectivo definido - uma moral contra a imersão nas obsessões que afastam o contacto humano que não faz por merecer e que, por isso mesmo, aparece despachada em voz off durante um beijo.
Para percorrer o percurso até ao seu final, o filme não tem tempo para construir os personagens nem para manter o equilíbrio entre o mundo real e o virtual.
A partir de um certo ponto a tensão deixa de existir pois o confronto está a acontecer na grande batalha final que é cenário para um expoente de referências visuais e de pouco entrelaçamento emocional com a vida de Wade.
Nesse instante se vê que Steven Spielberg levou esta imersão em cultura pop tão longe quanto podia, criando mesmo aquilo que será uma referência em dar novos pontos de vista a filmes pré-existentes.
O que, reconhecidamente, traz alguma estranheza a este mundo, como ouvir Rosebud servir de metáfora na boca de um adolescente viciado em cultura dos anos 1980.
Este é o mundo obsessivo em que The Shining não é uma referência mas antes o 11º filme de terror favorito de James Halliday. Citizen Kane é a referência de um homem que pensa a arte como algo mais do que acumulação do que alheio.
Valha que ele não se importa de ser criador de um momento de escapismo depois de ter criado muitas das referências que alguém entretanto agrupou.





quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Lincoln, por Tiago Ramos


Título original: Lincoln (2012)
Realização: Steven Spielberg
Argumento: Tony Kushner
Elenco: Daniel Day-Lewis, Sally Field, David Strathairn, Joseph Gordon-Levitt, James Spader, Hal Holbrook, Tommy Lee Jones, John Hawkes, Jackie Earle Haley e Jared Harris

O cinema de Steven Spielberg frequentemente mergulhou no melodrama, com tendência excessiva para a emoção e lamechice, tão visível por exemplo na sua anterior longa-metragem, War Horse (2011). Habitualmente conhecido pela sua imagem de marca clássica, do entretenimento familiar mesmo quando mergulha em géneros distintos (embora com claras e honrosas excepções), a incursão do cineasta na biografia do presidente norte-americano Abraham Lincoln revelou ser uma produção atípica no currículo do realizador. Não que não seja visível esse olhar habitual de um realizador apaixonado pelos seus trabalhos, mas principalmente porque Lincoln, além de se afastar das normas da biografia clássica no cinema (prefere focar-se num evento específico e mais nos bastidores), refugia-se num tom mais minimalista, clínico e histórico que o habitual. Diferença que, numa primeira instância, parece bem-vinda no trabalho de quem não raras vezes se perde no sentimentalismo. E de facto, Lincoln é uma obra visivelmente superior ao já referido War Horse, bem como um dos seus melhores trabalhos dos últimos anos. O trabalho de Steven Spielberg é dignamente orquestrado de uma forma tecnicamente exímia (e notável desde os pequenos pormenores a nível de design sonoro, passando pelo guarda-roupa, direcção artística ou a fotografia frequentemente escura de Janusz Kaminski). Um trabalho cuidado que mostra uma maior preocupação do cineasta em filmar mais do que um simples filme.

Mas apesar de receber o seu nome, o filme não é tanto sobre o Presidente norte-americano como é efectivamente do processo de bastidores que conduziu à aprovação da conhecida 13.ª emenda (que no sentido lato significou a abolição da escravatura nos Estados Unidos). E o problema de Lincoln começa precisamente pelo argumento de Tony Kushner, que é claramente um trabalho merecedor de destaque pela sua importância histórica, mas que também por aí, significará muito mais para um público norte-americano do que qualquer outro. E embora todo o grau de interesse que tenha esse combate de palavras, a forma clínica e académica com que é conduzida provoca com que seja um objecto demasiadamente apático e, por conseguinte, por vezes aborrecido das cerca de duas horas e meia de duração. E pior que isso, explora superficialmente as personagens (Abraham Lincoln parece reduzido a um estereótipo, Mary Todd merecia ser aprofundada, assim como a história de Thaddeus Stevens), reduzindo-as a arquétipos, preocupando-se apenas com a precisão histórica. Mas apesar de ser um objecto aparentemente preocupado em revelar a sua intenção anti-esclavagista, não deixa também de ser profundamente redutor, abordando apenas o lado heróico de uma luta parlamentar que era mais aparente do que realmente nobre.

Daniel Day-Lewis faz o que pode com esse arquétipo que lhe é dado através do argumento. O seu trabalho é elogiável, mas também superficial na forma como revela uma figura mítica, ao invés de uma visão realmente humana. O seu trabalho digno de nota é a transfiguração física e não por isso menos importante. Mas quando a personagem é menos humana como esta, parece que frequentemente estamos perante um "boneco", decalcado de uma figura mítica. Na realidade, quem mais se destaca em Lincoln são os actores que interpretam personagens ainda mais negligenciadas pelo argumento: caso de Sally Field como a esposa Mary Todd Lincoln e cuja força interpretativa é estrondosa e de Tommy Lee Jones como Thaddeus Stevens, um dos maiores apoiantes da abolição da escravatura e um dos membros mais influentes do Congresso. Duas personagens e interpretações dignas de nota (e superiores em larga escala à de Daniel Day-Lewis), mas reduzidas a uma superficialidade imerecida.

Mas mesmo essa visão clínica e heróica de uma fase importante da História dos Direitos Humanos nos Estados Unidos e um passo importante na política mundial, pode ser de facto elogiável também por não se afundar frequentemente no melodrama excessivo do cinema de Spielberg. Uma visão histórica (mesmo que tendenciosa) que o realizador soube manter a maioria do tempo, mas que é visivelmente desvirtuada num final que, através de uma breve junção de imagens, à luz da vela, deixa revelar um sentimentalismo bacoco, antiquado e absolutamente desnecessário, que deita por terra grande parte do trabalho até aí.


Classificação:

domingo, 23 de janeiro de 2011

Relatório Minoritário, por Débora Ramos


Título original: Minority Report
Realização: Steven Spielberg
Argumento: Scott Frank

Relatório Minoritário coloca várias questões pertencentes a um hipotético futuro mas que já são essenciais hoje.
Questões sobre o confronto do ser humano com a aceitação de um controlo da informação fornecida sem a questionar e com a entrega do seu livre-arbítrio como preço de uma segurança inabalável.


Essas questões destacam-se na beleza azulada de um mundo credível, que tanto pode parecer um paraíso de segurança como uma ala hospitalar sem vida.
O mundo criado é mesmo o que Spielberg precisa para mostrar todo o seu estilo no que ele tem de melhor, o espectáculo com um toque humano.


Afinal de contas, Tom Cruise tem um dos seus melhores papéis de sempre.
Com boas cenas de acção de que ele é um dos melhores executantes, é também dos filmes onde a angústia humana está melhor retratada.
Interessamo-nos pela sua personagem e pelo destino que ela terá tanto quanto nos interessamos pela trama policial que vai decorrendo.


Um filme com questões de moral e filosofia que continua a ser um excelente entretenimento.
Um filme pleno de acção e com um mistério bem manipulado até ao final, ou não fossem os nomes dos Precogs referências a Agatha Christie, Dashiell Hammett e Arthur Conan Doyle.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Relatório Minoritário, por Miguel Duarte


Título original: Minority Report
Realização: Steven Spielberg
Argumento: Scott Frank

Acho que Relatório Minoritário é ficção científica quase por acaso.
Isso é apenas o que serve para Steven Spielberg mostrar o talento da sua execução ao construir um mundo onde o futuro é credível e compreensível.
Um ambiente que abre novas possibilidades para mostrar em ritmo acelerado a batalha interna de homem de enorme rectidão.
Tom Cruise é o protagonista que dedicou a sua vida a um combate policial que o compensa pela perda do filho.
Mas essa dedicação sofre uma ruptura quando é a sua própria vida que é colocada em causa, quando é o seu empenho que é colocado em causa.
Nessa altura torna-se num polícia perseguido que foge para provar que está a ser incriminado ou que é vítima de um erro.
É a estrutura de um noir, só que o thriller não utiliza noções do que aconteceu mas do que vai acontecer!
Esse entendimento do filme é confirmado pelas suas cores carregadas em azul e cinzento, que entendemos como o preto e branco do futuro.
O filme é uma viagem electrizante pela impossibilidade de flexibilizar a moral e as crenças de cada um, mesmo que no final se tenha de contrariá-las para provar o valor da vida que ficou para trás.