quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Klaus, por Eduardo Antunes


Título original: Klaus (2019)
Realização: Sergio Pablos
Argumento: Zach Lewis, Jim Mahoney, Sergio Pablos

Klaus é tanto um filme para crianças se maravilharem como é um filme para relembrar adultos da sua juventude, inocência, da esperança que ainda retenham no seu âmago. É tanto um filme que fala sobre um mito do Natal como uma narrativa que demonstra a verdadeira natureza da época que retrata, a mensagem inerentemente humanista que todos devemos desta época retirar, cujo invólucro animado está embebido na nossas memórias e tradições sem, apesar disso, se sentir menos refrescante e moderno.

Numa época em que a Disney indiscutivelmente domina a oferta cinematográfica dedicada a toda a família, o seu estilo de animação, com maior ou menor subtileza e não pondo em quase a qualidade da sua oferta, acaba por encaixar num mesmo género de animação 3D a que já vamos estando habituados e que tem vindo a tornar-se a forma de animação dominante a passar pelas salas de cinema.
Mas se Into the Spider-Verse provou a possibilidade da animação tradicional ainda ter um papel enaltecedor quando aplicado à animação computacional, Klaus vem relembrar-nos as sensações que tínhamos enquanto jovens ao olharmos uma forma de animação agora cada vez mais esparsa, através do olhar renovado de um realizador que tem vindo a trabalhar no meio desde sempre.

Genuinidade, é o sentimento que se retém do esforço aqui empregado. Uma animação que presta tributo a várias gerações, tão moderna quanto tradicional, no seu revestimento de uma animação desenhada com uma pele que aproveita as oportunidades oferecidas pela animação tridimensional, no que o próprio realizador denomina como o passo lógico no seguimento do tipo de animação que povoou as nossas infâncias. Nota-se cada pormenorizado detalhe das peculiares e exóticas personagens que povoam a ilha de Smeerensburg, através de uma iluminação e coloração riquíssimas e transcendentais, que impregnam e enaltecem todo o filme, e não nos deixam retirar os olhos desde o seu primeiro plano.

Mais interessante é verificar que a narrativa também transporta a mesma temática subjacente à técnica de animação mista utilizada. A transmissão de uma herança, de um legado, que é reconhecido e mantido, transmitido. O reconhecimento do potencial de uma geração ir além das limitações dos seus antecessores.
É nesse âmbito que Jesper, no reconhecimento pelo seu pai da falta de um legado para além da herança que lhe promete, se vê envolto quando chegado à ilha. É nesse seu pequeno exílio que Jesper se vê necessitado de encontrar a responsabilidade que nunca quis reconhecer, quando confrontando comicamente com as famílias que, durante gerações, transportam uma rivalidade que julgam (ou pretendem) infindável. Mas mais, é aí que descobre o seu propósito quando confrontado com a presença de Klaus. A true selfless act always sparks another, relembra-se a si próprio o titular Klaus, permitindo-se também ele redescobrir que os brinquedos que deixa às crianças transportam mais que entretenimento, transportam as suas memórias, antes internadas no seu próprio luto.

É uma pequena história tão comum quanto necessária, de entendermos o significado original da época, envolta numa divertida possibilidade para a origem do mito do Pai Natal que, ao mesmo tempo, presta um pequeno tributo ao cenário nórdico em que se estabelece a narrativa.
Fica apenas o (pequeníssimo) desgosto de não nos ser oferecido um final em que essa herança, ao invés de ser remetida para uma literal magia do Natal, fosse realmente transmitida de uma para outra geração, como uma extensão simbólica do próprio esforço visual empregado, um testemunho que facilmente poderia ser agarrado pelos que a seguir virão. Mas fica igualmente a esperança de que, tal como o esforço de Jesper e Klaus inspirou todas as crianças de Smeerensburg, também este empreendimento ofereça inspiração, não só aos realizadores a explorar um meio animado com muito ainda a dar, como à sua audiência a não deixar de lado estas bem-vindas experiências.

Ainda que não seja possível levar a família propositadamente ao cinema para, no obscuro da sala, ser transportada para um universo tão familar quanto novo, que seja ainda mais rica a oportunidade de a reunir em casa para, em conjunto, partilhar uma emotiva experiência que certamente cativará os jovens de agora tanto quanto os jovens de outrora pela novidade da patente tradição.




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