Mostrar mensagens com a etiqueta Óscares. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Óscares. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 26 de abril de 2021

"Nomadland" vence Melhor Filme, Melhor Realizadora e Melhor Actriz Óscares 2021


Face um ano de especiais particularidades, a aparente menor oferta de filmes acabou por ilustrar títulos não tão apoiados pelos estúdios. Dentro desses, Nomadland acabou por ser a boa surpresa do evento, não apenas arrecandando o Óscar de Melhor Filme, como também oferecendo o reconhecimento à sua realizadora Chloé Zhao. Torna-se, assim, a sétima realizadora a ser nomeada na história dos Óscares (este ano a par com Emerald Fennell por Promising Young Woman), assim como a segunda mulher a ganhar o prémio e a primeira de origem asiática.

Mank, filme do realizador David Fincher sobre o argumentista de Citizen Kane, Herman Mankiewicz, parecia ser o favorito da academia, dada a sua temática reflectiva da própria indústria do cinema, tendo arrecadado um total de 11 nomeações, incluindo Melhor Filme e Melhor Realizador. Apesar disso, acabou por ganhar apenas em duas categorias técnicas, de Design de Produção e Fotografia.

Desta forma, este ano acabou por ser uma oportunidade para o reconhecimento de filmes menos sonantes e, particularmente, maior representatividade e visibilidade para profissionais perante a falta de oferta igualitária de oportunidades na indústrica cinematográfica. Esperemos que esta continue a significar uma mudança de paradigma, e não apenas uma momentânea adaptação às cada vez maiores e positivas reinvidicações.

Melhor Filme
Nomadland

Melhor Realizador
Chloé Zhao por Nomadland

Melhor Actor

Melhor Actor Secundário

Melhor Actriz
Frances McDormand em Nomadland

Melhor Actriz Secundária

Melhor Argumento Original
Emerald Fennell por Promising Young Woman

Melhor Argumento Adaptado

Melhor Filme de Animação

Melhor Filme Estrangeiro

Melhor Documentário

Melhor Curta de Animação

Melhor Curta

Melhor Curta Documental

Melhor Montagem

Melhor Fotografia

Melhor Banda Sonora Original

Melhor Canção Original
“Fight For You”, de Judas and the Black Messiah

Melhor Guarda-Roupa
Melhor Maquilhagem e Cabelo

Melhor Design de Produção
Mank

Melhor Som
Sound of Metal

Melhores Efeitos Visuais

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

"Parasite" vence Melhor Filme e arrecada quatro Óscares 2020


Apesar do recente e crescente favoritismo face a 1917, cujo realizador Sam Mendes era um dos principais favoritos ao Óscar de Melhor Realizador, o mesmo acabou por receber prémios apenas em categorias técnicas, dos quais se destaca positiva e merecidamente o de Melhor Fotografia, para Roger Deakins, um veterano da indústria e conhecido pelo recente Blade Runner 2049 e pelas suas colaborações com Sam Mendes e os Irmãos Coen. 

A surpresa, apenas face a concorrida lista de nomeados, terá sido Parasite que, além do Óscar de melhor filme, arrecadou ainda de Melhor Realizador e Melhor Argumento Original. O filme sul-coreano levou ainda para casa o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, que se poderá pôr em causa face a sua inclusão em duas listas para melhor filme. Talvez de futuro se possa considerar juntar ambas as categorias, ou evitar a nomeação nas duas categorias de um mesmo filme, para não retirar o reconhecimento e potencial visibilidade de outro filme estrangeiro.

Talvez o único restante prémio que deixe algum desapontamento será o de Melhor Filme de Animação que, tendo sido atribuído a Toy Story 4, perde a oportunidade de reconhecer filmes de menor visibilidade e igual qualidade como Klaus (cujo lançamento no Netflix terá certamente contribuido para o seu não reconhecimento) ou Missing Link (que tira proveito a cada vez menos utilizada técnica de stop-motion).

Melhor Filme
Parasite

Melhor Realizador
Bong Joon Ho por Parasite

Melhor Actor

Melhor Actor Secundário

Melhor Actriz

Melhor Actriz Secundária

Melhor Argumento Original
Bong Joon Ho e Jin Won Han por Parasite

Melhor Argumento Adaptado

Melhor Filme de Animação
Toy Story 4

Melhor Filme Estrangeiro
Parasite

Melhor Documentário

Melhor Curta de Animação

Melhor Curta

Melhor Curta Documental

Melhor Montagem

Melhor Fotografia
Roger Deakins por 1917

Melhor Banda Sonora Original

Melhor Canção Original
“(I’m Gonna) Love Me Again”, de Rocketman

Melhor Guarda-Roupa
Melhor Maquilhagem e Cabelo

Melhor Design de Produção
Once Upon a Time in... Hollywood

Melhor Edição de Som
Ford v Ferrari

Melhor Mistura de Som
1917

Melhores Efeitos Visuais
1917

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Jojo Rabbit, por Eduardo Antunes


Título original: Jojo Rabbit (2019)
Realização: Taika Waititi
Argumento: Taika Waititi
Elenco: Roman Griffin Davis, Thomasin McKenzie, Scarlett Johansson, Sam Rockwell, Taika Waititi, Archie Yates, Alfie Allen, Rebel Wilson

Hilariante, ternurento, dramático, comovente, o último filme de Taika Waititi não é de todo o filme que estejamos imediatamente à espera. Não é apenas o que esperamos já do realizador, no seu brilhante uso da comédia do absurdo que tanto o caracteriza. Suplanta as nossas superficiais expectativas para se tornar em algo verdadeiramente memorável e digno da maior das recomendações, em toda a honesta humanidade esparrameirada no argumento e encapsulada na caracterização dos seus protagonistas, de onde retiramos nós próprios o mais puro sentimento de afeição.

quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Klaus, por Eduardo Antunes


Título original: Klaus (2019)
Realização: Sergio Pablos
Argumento: Zach Lewis, Jim Mahoney, Sergio Pablos

Klaus é tanto um filme para crianças se maravilharem como é um filme para relembrar adultos da sua juventude, inocência, da esperança que ainda retenham no seu âmago. É tanto um filme que fala sobre um mito do Natal como uma narrativa que demonstra a verdadeira natureza da época que retrata, a mensagem inerentemente humanista que todos devemos desta época retirar, cujo invólucro animado está embebido na nossas memórias e tradições sem, apesar disso, se sentir menos refrescante e moderno.

domingo, 29 de setembro de 2019

Joker, por Eduardo Antunes


Título original: Joker (2019)
Realização: Todd Phillips
Argumento: Todd Phillips, Scott Silver

Aparte as mais claras mas desnecessárias ligações ao universo do cavaleiro das trevas, este não é certamente o filme que corresponderá às expectativas que o público possa ter criado. Não é um filme sobre Joker, apesar do título, antes uma visão demasiado real sobre a condição de um homem conturbado levado ao mais extremo dos limites que uma sociedade descontrolada lhe impôs, sem filtros, assustadoramente actual e, de alguma forma, criticamente intemporal.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Era Uma Vez em... Hollywood, por Eduardo Antunes

https://splitscreen-blog.blogspot.com/2019/08/era-uma-vez-em-hollywood-por-eduardo.html

Título original: Once Upon a Time in... Hollywood (2019)
RealizaçãoQuentin Tarantino
Argumento: Quentin Tarantino

Tendo iniciado o meu percurso pela filmografia de Tarantino com o(s) último(s) do que eu denomaria como a primeira parte da sua carreira, e enveredando pela sua segunda parte, chegando a este Era Uma Vez em... Hollywood, fica um pouco mais clara a sua contínua predilecção por temas que reflictam a época abordada, mas denotando-se também uma aparente vontade de manter alguns aspectos que se tornaram agora uma sua imagem de marca, seja por ser esperado pelos fãs ou pela sua própria saciedade.

terça-feira, 6 de março de 2018

A Forma da Água, por Carlos Antunes



Título original: The Shape of Water
Realização: Guillermo del Toro
Argumento: Guillermo del ToroVanessa Taylor
Elenco: Sally Hawkins, Octavia Spencer, Michael ShannonRichard Jenkins


Um conto de fadas para adultos. Espera-se um filme em que os elementos fantásticos impulsionam a descoberta pessoal à medida que expõem os desafios que aguardavam tornar evidente o percurdo do "herói".
No "para adultos" está o cerne da questão, havendo de estabelecer o ponto de depressão de onde parte quem busca a sua própria superação.
A Elisa, por ter sido maltratada em criança, falta-lhe a voz o que a fez sentir incompleta pela vida fora. Até ver a criatura enclausurada, não se percebe que incompletude significativa é essa
Parece viver um contentamento silencioso. Apaixonada por musicais, rodeada de outros excluídos como ela e com um trabalho sem glamour mas onde a sua falta de cordas vocais a deixa mais confortável do que o contrário.
A única falha expressa é a de um parceiro sexual. Nada que não tenha um cariz genérico, capaz de gerar empatia sem qualquer desafio.
O mesmo se deve dizer dos amigos que a rodeiam, uma mulher afro-americana que com ela partilha o trabalho e um velho homossexual encapotado que com ela partilha a morada. Mais dois elementos desprezados pela sociedade e unidimensionais.
Para se opôr a eles há o vilão de Michael Shannon que, apesar de ser escrito para que não restem dúvidas que quem estiver contra ele está do lado correcto, é o personagem que mais perto está de ter ambiguidade.
Apesar de ser a encarnação do Mal - ou, como a narração de abertura diz, o verdadeiro "monstro" do filme - ele tem de cumprir com as difíceis exigências de sucesso, sinónimos de masculinidade: as da sociedade-modelo vinda dos anos 1950 e as da vida militar. Não por acaso o apelido do seu personagem é Strickland.
Por comparação com esta caracterização, olhe-se para o espião russo, cujo pensamento científico coloca a admiração pela espécie acima de qualquer lealdade pátria, e para o Anfíbio, que mesmo ao alimentar-se de uma gata é desculpado pela sua natureza selvagem.
Mesmo no sexo - incorporação pela qual Guillermo del Toro pensa ter atingido o estatuto "para adultos" - é Strickland a protagonizar algo pensável.
Ele é exposto ao público comportando-se de acordo com as pulsões que sente. Para ser caracterizado como bruto, naturalmente, mas tornando-se assim a única personagem a assumir a dimensão realista da matéria.
Elisa masturba-se e que acabará por fazer sexo com o Anfíbio. O primeiro acto não passa de um apontamento e o segundo ocorre de uma casta forma dançada, numa cena tão exageradamente fantasiosa que torna difícil haver um envolvimento emocional com a mesma.
Essa cena de sexo tem, aliás, uma (posterior) representação mais assertiva através do dedo de uma mão do que nos brilhos coloridos do Anfíbio!
O realizador achou que bastaria referenciar de forma inofensiva - e inexpressiva! - o sexo para ele estar desenvolvido no subtexto do filme.
Para um filme inspirado em Creature from the Black Lagoon, parece não ter a noção correcta da expressão de sexualidade que era a cena de perseguição aquática, intensa mesmo sob o sufoco do Código Hays.
Como o fez para o sexo, fê-lo para o racismo, a homofobia e a obsessão pela Guerra Fria. Traçou um mundo moral a preto e branco que não exige esforços de entendimento.
Um mundo com as cores dos musicais que ele tanto referencia ao longo do filme e os quais chega mesmo a tentar reproduzir, num momento desfasado do restante do filme e cuja pouca desenvoltura o evidencia como sucedâneo sem aspiração à grandeza.
De verdadeiramente grandioso no filme temos Sally Hawkins e Alexandre Desplat, enquanto tudo o resto é agradável mas inóquo.
Num ano de nomeações arriscadas, o Oscar principal para A Forma da Água é Hollywood a admitir que prefere qualquer elogio a si mesmo e aos seus tempos maiores do que exercer a possibilidade de falar sobre o seu tempo.




sábado, 3 de março de 2018

Chama-me Pelo Teu Nome, por Carlos Antunes



Título original: Call Me by Your Name
Realização: Luca Guadagnino
Argumento: James Ivory
Elenco: Armie Hammer, Timothée Chalamet, Michael Stuhlbarg


Filmar a disputa de intelectos num encontro de corpos é um dos trabalhos hercúleos com que se deparam os cineastas.
Criar a subtileza dos gestos que se substituiem às palavras sem apagar tanto do que rodeia os personagens que se apague a urgência do que está para acontecer.
Dentro dessa subtileza, não se abstrair dos personagens, ser capaz de lhes dar substância e, sobretudo, elevá-los a um mesmo patamar que os faça disputar a atenção um do outro antes de cederem à pulsão filmada.
Luca Guadagnino lança-se ao filme demonstrando a intencionalidade de ser bem sucedido sem encontrar os elementos para alcançar tão difícil equilíbrio.
Se a expressão física fica garantida pela escolha de Armie Hammer e Timothée Chalamet, há batota na forma como se expressa a inteligência de ambos.
O recurso a obras alheias, sobretudo os textos de Heidegger para as divagações de Oliver, emoldura o que ele e Elio são.
Filhos da intelectualidade prestes a demonstrar falta de argúcia sentimental para lidar com uma relação que parece ser a primeira que têm com alguém do mesmo sexo.
O realizador tem a sorte de ter encontrado Timothée Chalamet. Um foco no meio de tudo o resto - para o realizador se orientar e o público fixar -, ele é a presença capaz de sugerir um pouco do que James Ivory não conseguiu escrever.
Uma inveja capaz de se confundir com a rejeição inicial da atracção que sente. Inveja de uma primeira vez em que não é ele o rapaz que atrai os outros para si.
Os pais de Elio admiram o conhecimento de Oliver, as raparigas admiram-no por comparação com estudantes de anos anteriores.
Guadagnino de imediato torna evidente o desconforto da atracção daquele rapaz. Chalamet acrescenta-lhe a hesitação sobre o papel que deve assumir como homem.
O actor é capaz de sugerir temas ocultos numa relação que o filme trata como um caminho a percorrer com firmeza em vez de uma paisagem em que demorar o olhar.
É verdade que as cenas entre os dois são lânguidas, deixando repousar os corpos no ecrã. Só que a delonga não traz a subtileza que se pretendia encontrar.
Onde existem silêncios o filme deveria ter discussões veladas sobre o entendimento que os personagens fazem do que lhes acontece.
O tempo passa limitando-se a ter os corpos cada vez mais perto um do outro, num fluxo inevitável onde nunca surge um interregno que faça duvidar da união por acontecer.
Apesar de todos os seus conhecimentos, eles não falam senão na cena da confissão que transforma de imediato os companheiros relutantes em amantes decididos.
Tudo o que neste Verão de amadurecimento de Elio ficou por dizer e que fez tardar o romance tem de ser resolvido na cama onde os interessadoss hesitantes dão lugar a amantes experimentados.
Num filme que assume fortemente o homo-erotismo em espera, parece que a sua concretização deixa o realizador mal-gradado.
Quando o sexo é heterossexual, a câmara não se incomoda com a presença desnudada de Esther Garrel. Quando se passa entre Oliver e Elio, desvia-se para as folhas de árvore acariciadas pela brisa.
Mesmo a cena do alperce, apesar de todo o aparato do que poderia acontecer, redunda num abraço. Um pudismo que se estranha e que afasta da intimidade a ser sugerida.
Uma intimidade que é muito mais credível nessa magnífica - e quase deslocada - cena em que o pai fala da Elio de como a sua própria vida teve um episódio como o dele mas falhado.
Esse instante magnífico de Michael Stuhlbarg prova que faltou ver muito mais dele. Mais do que isso, no final do filme relembra como todos à volta daquela relação evitaram intervir.
Nem um conselho, nem uma discussão. Os personagens que não os protagonistas do romance estão ausentes.
Esses outros personagens, imagina-se, terão acabado no chão da sala de montagem onde Guadagnino foi reduzindo as quatro horas de filme iniciais.
A sua indulgência poderá ter sido reduzida em parte mas a sua escolha parece ter ido para a permanência das cenas menos substanciais - e só em teoria mais sugestivas!
Essas cenas que fazem com que, mesmo pouco acima de duas horas, o filme seja demasiado longo para o tem para dizer acerca deste coming-of-age.




quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

A Hora Mais Negra, por Carlos Antunes



Título original: Darkest Hour
Realização: Joe Wright
Argumento: Anthony McCarten
Elenco: Gary Oldman, Kristin Scott ThomasBen Mendelsohn


Gary Oldman não necessita de confirmação estatuária para o seu percurso de perfomances extraordinárias. A acontecer, teria até sido mais elegante dar-lhe há seis anos atrás, quando a Academia não lhe opôs ninguém à altura do seu George Smiley.
O seu Winston Churchill deverá sair premiado apesar disso pois são estas construções que dão mais prazer a quem vota nos Oscars, o desaparecimento do actor no interior de uma figura pública. Sobretudo quando há materiais através dos quais comparar o original à sua reprodução.
Merecerá o prémio. Oldman deleita-se com a oportunidade de fazer de Churchill. Não pelo político larger-than-life recordado mas pelo homem pleno de teimosias e caprichos com que ele pode dar verve ao papel.
Este é o tipo de interpretação que "faz" um filme por si só. Apenas quando o filme não está a combatê-la cena a cena.
Devia ser Anthony McCarten a proporcionar cenas onde Churchill encontrasse matéria para se afirmar, pela personalidade vincada que Oldman faz sobressair, como o grande estadista que ousou defender uma posição mesmo quando esta era minoritária entre os seus colegas e divisiva para o país.
O argumento devia destacar-lhe a força de actuação e não contradizê-la como na já famosa - e ridícula ao máximo! - cena do metropolitano em que Churchill vai tomar o pulso à vox populi para saber como actuar.
Apagar a crença que Churchill tinha de saber responder ao que o Reino Unido precisava e não ao que queria apenas para culminar o filme com uma cena sentimentalista é um erro gigantesco para um filme que quer ser condigno com a História.
Como o é a personagem de Elizabeth Layton, bengala para que a composição de Churchill progrida no sentido de se tornar tocante. Como se fosse necessário nutrir carinho por Churchill para admirar a sua actuação ao longo daquele mês.
Havia, isso sim, de lhe ter sido dado um adversário digno de nota, para ser arrumado de forma virulenta. Ainda que a comicidade de um "importa-se de parar de me interromper quando o estou a interromper a si" seja parte daquilo com que Oldman se diverte a ser Churchill.
Em cima disso vem Joe Wright combater Oldman pelo destaque maior de cada cena, afirmando um discurso descoordenado com a interpretação, mas que lhe permite mostrar os seus dotes de executante.
A sua composição cénica é mais uma vez teatral, sempre dependente de um foco de luz que, mesmo quando pretende representar a luz natural grita com falsidade.
Churchill é a luz no meio das trevas. Isto quando não está claustrofobicamente enclausurado por elas.
Ou quando não é o único rosto lúcido por entre os alertas vermelhos que engolem o seu país... A menos que essa luzes vermelhas sejam já o anúncio do inferno que só ele prevê.
As metáforas de Wright permitem quase todas as interpretações dentro daqueles lugares-comuns que se têm de aplicar a Churchill.
Não permitem que se sinta vida nas cenas, cada vez mais estruturas isoladas entre si. Se antes Wright fazia uma cena de alto valor (artístico) acrescentado por filme que não se ligava com o restante que ele filmava, agora parece convencido a fazê-lo em todas as cenas. O resultado é cansativo, nada mais.
Argumento pífio e realização presunçosa. Muitas vezes contradizendo-se entre si e criando a confusão sobre o que o filme alguma vez pretendeu ser.
Admirável é que a interpretação de Oldman seja entretida e envolvente dentro de um filme que nunca vem em seu auxílio. (Só por isso Oldman vai merecendo a estatueta que no início se refere.)
Tenderá a ver-se nisso a forma de melhor expressar a isolada grandiosidade da figura de Churchill. A execução do filme como a expressão imprevista do que este queria dizer e não conseguiu.




segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Mudbound - As Lamas do Mississípi, por Carlos Antunes



Título original: Mudbound
Realização: Dee Rees
Argumento: Virgil WilliamsDee Rees
Elenco: Carey MulliganGarrett HedlundJason Clarke, Mary J. Blige


A necessidade de expressar os paralelos e as contradições entre famílias brancas e negras da classe mais pobre na América interior continua a ser premente neste início do século XXI, como a situação política bem demonstra.
Entende-se a aspiração a abordar os anos 1930 e 40 na forma de um épico que ressoe na consciência da actualidade.
Um épico que atravessa a Grande Depressão e a II Guerra Mundial apontado a um sentido de intimidade que possa tocar o público.
Daí o foco na amizade entre dois heróis de guerra tratados de forma oposta no seu regresso a casa. Amizade que contradiz o histórico entre as suas duas famílias e as regras sociais do Mississípi.
O traçado de um drama antigo e que continuará, será inevitável, a ser comum. Aqui focado em dois homens que ajudam a trazer para diante dois grandes temas, o stresse pós-traumático e o racismo - sobretudo este!
Ousar um discurso sobre tais temas por via de um microcosmos assim estreitado traz um perigo, resvalar para o melodrama restrito daqueles personagens.
A ele sucumbe o filme, um longo melodrama pincelado pelos acontecimentos que lhe dão um Tempo, sem o imergir na sua representação.
Sente-se que, em parte, o problema vem da vontade de falar do Presente por via do Passado e, assim, não poder Dee Rees arriscar que uma recriação intensa daquele mundo se sobreponha ao entendimento da sua palestra.
Culpa maior vem da construção dos personagens, todos eles transformados em marcos para dar forma ao melodrama e para marcar o fundo cultural da história.
O soldado negro regressado que perde a dignidade e o reconhecimento que vivera na Europa. O soldado regressado que se embebeda para esquecer os horrores da morte e é olhado como um fraco. A mulher inteligente reduzida a ser apêndice da vontade do marido. O homem determinado que faz face às dificuldades pela casmurrice e a força de braços. O velho racista que nem perante a evidência da sua pobreza perde a sua arrogância. O pai negro que acredita em resgatar a família àquela sociedade por via da obediência e do trabalho.
Serão identidades verdadeiras e abundantes daqueles anos, mas são lugares-comuns da ficção. Sobretudo se não lhes são dadas cenas onde as suas linhas definidoras possam mostrar as suas matizes ou os seus extremos.
Os actores estão no filme sem que alguma exigência lhes seja feita. Por isso se nota que, mesmo havendo quem sinta os temas, nada consegue entregar ao filme.
Dee Rees trata-os como trata os cenários, elementos de sinalização sem uma identidade a contribuir para a construção da obra. Mesmo as lamas não metafóricas do título são raras e pouco convincentes como símbolo da captura que todas as personagens sentem naquele estado americano.
Aquilo em que tudo se afunda é a narração omnipresente com que a realizadora tenta dar gravitas ao filme e que trai as suas origens livrescas. A nomeação ao Oscar de Melhor Argumento Adaptado é pouco menos que um absurdo.
Aquelas décadas continuam a ter ensinamentos a prestar à população americana - "branca" - para que, hoje, deixe de reforçar um século de conflitos nascidos de uma desigualdade que nunca parece ter existido.
Não será, decerto, este filme a conseguir fazê-lo, incapaz de se elevar da lama formada pela combinação da historieta central com a transversal negação de uma identidade aos nela envolvidos.




domingo, 22 de janeiro de 2017

Manchester by the Sea, por Tiago Ramos


Título original: Manchester by the Sea (2016)
Realização: Kenneth Lonergan

A lente de Kenneth Lonergan movimenta-se em redor da personagem de Lee como se obedecesse a um princípio geométrico da dor. São padrões, rotinas, deambulações e sobretudo expressões de apatia, que movimentam a personagem em redor de um fosso muito seu, que embora ainda não conheçamos, já conseguimos antever. Lee está morto por dentro. Enquanto deita móveis velhos de outros ao lixo, desentope sanitas e conserta canalização, os outros falam. Falam e muito, sobre a sua vida, a dos outros, as suas expectativas, Lee é um faz-tudo, mas podia ser também um psicólogo, não fosse ele estar tão absorto na sua própria dor, que em seu redor tudo lhe é aparentemente alheio.

Casey Affleck faz uma construção poderosa e até desconcertante da personagem de Lee. Sufocante e até deprimente, mas chega a ser, por vezes, de tão marginal aos princípios da sociedade que se tornou, difícil ao espectador não esboçar um sorriso. Um sorriso ou até um riso nervoso, do desconcertante que é observar a figura deste homem simples, consumido por uma dor avassaladora, que é ao mesmo tempo a sua razão de viver. O espectador ri porque se sente constrangido, porque aquelas reacções extremas, são simultaneamente tão distantes quanto próximas.

Também porque dentro de todo aquele cinzentismo, há lugar para o coração. Mas é também aí nesses pequenos ensaios de redenção, que a narrativa tende a cair num excesso de melodrama. Dentro do Inverno profundo de Manchester, há também aquela ideia poética de afirmar que mesmo no cenário mais negrume há tempo para uma segunda oportunidade. E por mais que nos possamos identificar com isso, é aí que o filme perde, a espaços, por se refugiar em subterfúgios do drama que não necessitava.

Ainda assim, entre tantos ensaios de redenção, Manchester by the Sea nunca chega a ser um filme sobre tal. É sim, uma história crua e dura (aqueles minutos de confronto entre Lee  e Randi são extraordinários) sobre o cinzentismo da vida e sobre como, apesar de tudo, há dores na vida que são inultrapassáveis. Nem sempre há finais felizes.


Classificação:

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Lion - A Longa Estrada Para Casa, por Carlos Antunes



Título original: Lion
Realização: Garth Davis
Argumento: Luke Davies
Elenco: Dev Patel, Nicole Kidman, Rooney MaraSunny Pawar


Lembre-se The Barefoot Contessa de Joseph L. Mankiewicz para falar de Lion: um guião tem de fazer sentido, a vida não.
Este sentido não trata apenas da coerência do que se passa mas da relevância dramática do que se passa e da capacidade do argumento de envolver o público naquilo que narra.
Os traços gerais das duas grandes componentes da história parecem ser aquilo que Lion precisava para que o seu guião fizesse sentido.
Por um lado a história de há vinte anos atrás quando um menino se perde do irmão e fica preso num comboio que viaja 1600 km até Calcutá onde ele acabará na rua e, depois, num orfanato antes de ser adoptado por uma família da Nova Zelândia.
Por outro a história de como em 2008 as suas memórias da família que perdeu na Índia se tornam mais intensas e, com o nascimento da ferramenta Google Maps, o fazem procurar as suas origens de forma tão obsessiva que começa a destruir os laços emocionais que construiu.
O filme conta a primeira metade da história de forma directa, sem tentar dar-lhe uma sofisticação que as dificuldades de vida de uma criança não precisa.
Como esses momentos se julgam a preparação da história mais complexa que estará para vir depois - ideia que o subtítulo português reforça - o seu esquematismo perdoa-se.
Esta parte da história, com o seu realismo que infelizmente ainda é um cliché, captura a atenção enquanto o público ainda está disponível para fazer o investimento emocional, no que é incentivado pela carismática presença de Sunny Pawar, uma descoberta que valerá a pena ver no cinema mais vezes, sobretudo se lhe permitirem manter a naturalidade que fazer parte da sua actuação.
Quando o tempo salta para a imagem de um feliz surfista Neo-Zelandês, que só o tom de pele denuncia como tendo outras origens, não foi estabelecido um passado significativo para o personagem central para lá daquele episódio na Índia.
A partir daí era difícil que o filme se erguesse acima do resumo de uma história de vida certamente mais substancial e que aqui se vai resumir a "o que eu andei para cá chegar e agora o que eu vou andar para lá voltar".
O esquematismo narrativo mantém-se mas como a substância deixou se estar nas ocorrências que assolam Saroo para estar nos elementos dramáticos da sua vida, qualquer sombra de consistência se esboroa.
Na tentativa vã de construir um personagem adulto com quem se conectar o filme atira com elementos dramáticos ao público com uma brusquidão que se torna absurda.
Não há lógica na maneira como as revelações são feitas e o público é deixado a adivinhar o que se terá passado até que novo efeito surpresa surja.
Isso é péssimo quando o filme tem de estabelecer uma identidade familiar pela qual Saroo tenha sentimentos contraditórios que o façam hesitar no momento em que tem de optar entre a família que outrora perdeu e a que agora se arrisca a alienar.
Primeiro sabe-se que Saroo tem uma desavença com o seu irmão (igualmente Indiano e adoptado), depois que a mãe sofre de prolongada depressão por causa desse irmão muitas vezes desaparecido, até que por fim surge a informação de que são as drogas que minam a harmonia.
Esta linha dramática permanece no filme para que Nicole Kidman tenha direito a uma cena em que se mostra vulnerável e comovente mas pouco mais do que isso, para infortúnio de David Wenham e Divian Ladwa que poderiam ser substituídos por imagens de cartão de si próprios.
O foco deveria ir para a busca que Dev Patel faz pelo seu passado, acometido pela lembrança de um bolo frito que cobiçava em rapaz, e que encontra notáveis dificuldades nas poucas lembranças que ele tem e na imensidão de correspondências que com ela faz num país da dimensão da Índia.
Aqui se tem de retornar ao sentido que o guião deveria fazer e que, não acontecendo, corta os últimos fios que conectam espectador e filme.
O Saroo adulto parece não ter uma dose de lógica na sua abordagem à busca que tem de fazer. E isto apesar dos cálculos que executa e das linhas de mapa que traça.
Persistindo no seu isolamento emocional contra aqueles que o querem ajudar só se enrodilha na tarefa quase impossível.
Para, no instante em que ela se torna avassaladora, descobrir a resposta numa deambulação sem nexo pelos mapas da Google.
Admite-se que as coisas se passaram desta forma na história real, mas o filme faz com que pareça tudo um acto de providência. Um toque de magia quando tudo parece perdido.
Está assim validado os erros de comportamento de Saroo que atingiu o seu final feliz. Ainda para mais com a recompensa adicional do compromisso da personagem de Rooney Mara, a mesma que ele abandonou por estar obcecado com a sua busca.
Para fazer crer que Saroo estava destinado a ser bem sucedido o filme tinha de justificar esse mérito com algo mais do que o infortúnio de vinte anos antes.
Pela forma como Saroo desperdiça as excelentes oportunidades e o muito amor que recebe, ele deixa a sensação de merecer o preciso oposto.
Muitas sãos as opções erradas do argumento, que selecciona mal os elementos humanos essenciais à história e que tudo relata sem centelha de vida.
Garth Davis deveria ter sido capaz de fazer o resultado final superar esse problema de base, elevando o retrato que faz do seu protagonista.
Até terá almejado a tal mas a sua escolha visual de ter Dev Patel a olhar o horizonte e a ter visões do seu irmão há muito perdido é demasiado pobre, ainda que aconteça sob um excelente trabalho de fotografia de Greig Fraser.
O actor Inglês está comprometido com o papel, acredita nos feitos que o acaso colocou no percurso de vida do homem que emula.
Sem bases nas quais apoiar a qualidade e a intensidade que demonstra, o seu papel não ascende a um lugar de destaque que permita elogiá-lo com mais do que comedida sinceridade.
Não era uma "tarefa de leão" a equipa à sua volta fazer valer o drama natural do homem a quem dá corpo e comover quem visse o filme. Falhar em quase toda a linha é, por isso, uma sentença ainda mais grave.




quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Lista das submissões ao Óscar 2017 de Melhor Filme Estrangeiro


O Split Screen mantém uma lista actualizada com as submissões oficiais de cada país ao Oscar 2017 de Melhor Filme Estrangeiro. Nesta categoria, cada país pode apenas indiciar um representante oficial para que seja submetido à apreciação de um comité especializado da Academia norte-americana de Artes e Ciências Cinematográficas.

Este ano, foram oitenta e nove as produções que submeteram filmes à categoria, mas apenas oitenta e cinco foram aceites. Os filmes de Afeganistão (Parting), Camarões (Yahan Ameena Bikti Hai) e Tunísia (As I Open My Eyes) não foram incluídos na lista final da Academia, enquanto que a submissão da Arménia (Earthquake) foi desqualificada. O Iémen (I Am Nojoom, Age 10 and Divorcedsubmeteu pela primeira vez um filme à categoria.

África do Sul: Call Me Thief, de Daryne Joshua
Albânia: Chromium, de Bujar Alimani
Alemanha: Toni Erdmann, de Maren Ade
Arábia Saudita: Barakah Meets Barakah, de Mahmoud Sabbagh
Argélia: Le puits, de Lotfi Bouchouchi
Argentina: El ciudadano ilustre, de Mariano Cohn e Gastón Duprat
Austrália: Tanna, de Martin Butler, Bentley Dean
Áustria: Stefan Zweig: Farewell to Europe, de Maria Schrader
Bangladesh: The Unnamed, de Tauquir Ahmed
Bélgica: The Ardennes, de Robin Pront
Bolívia: Sealed Cargo, de Julia Vargas Weise
Bósnia e Herzegovina: Death in Sarajevo, de Danis Tanovic
Bulgária: Losers, de Ivaylo Hristov
Brasil: Pequeno Segredo, de David Schürmann
Cambodja: Before the Fall, de Ian White
Canadá: Juste la fin du monde, de Xavier Dolan
Cazaquistão: Amanat, de Satybaldy Narymbetov
Chile: Neruda, de Pablo Larraín
China: Xuan Zang, de Huo Jianqi
Colômbia: Alias Maria, de José Luis Rugeles Gracia
Coreia do Sul: The Age of Shadows, de Kim Jee-woon
Costa Rica: About Us, de Hernán Jiménez
Croácia: S on strane, de Zrinko Ogresta
Cuba: El acompañante, de Pavel Giroud
Dinamarca: Land of Mine, de Martin Zandvliet
Egipto: The Clash, de Mohamed Diab
Equador: Such Is Life in the Tropics, de Sebastián Cordero
Eslováquia: Eva Nová, de Marko Skop
Eslovénia: Houston, We Have a Problem!, de Ziga Virc
Espanha: Julieta, de Pedro Almodóvar
Estónia: Mother, de Kadri Kousaar
Filipinas: Ma'Rosa, de Brillante Mendoza
Finlândia: The Happiest Day in the Life of Olli Mäki, de Juho Kuosmanen
França: Elle, de Paul Verhoeven
Geórgia: House of Others, de Russudan Glurjidze
Grécia: Chevalier, de Athina Rachel Tsangari
Holanda: Tonio, de Paula van der Oest
Hong Kong: Port of Call, de Philip Yung
Hungria: Kills on Wheels, de Attila Till
Iémen: I Am Nojoom, Age 10 and Divorced; de Khadija Al-Salami
Índia: Interrogation, de Vetri Maaran
Indonésia: Letters from Prague, de Angga Dwimas Sasongko
Irão: The Salesman, de Asghar Farhadi
Iraque: El clásico, de Halkawt Mustafa
Islândia: Sparrows, de Rúnar Rúnarsson
Israel: Sand Storm, de Elite Zexer
Itália: Fuocoammare, de Gianfranco Rosi
Japão: Living with My Mother, de Yôji Yamada
Jordânia: 3000 Nights, de Mai Masri
Kosovo: Home Sweet Home, de Faton Bajraktari
Letónia: Dawn, de Laila Pakalnina
Líbano: Very Big Shot, de Mir-Jean Bou Chaaya
Lituânia: Seneca's Day, de Kristijonas Vildziunas
Luxemburgo: La supplication, de Pol Cruchten
Macedónia: The Liberation of Skopje, de Rade Serbedjiza,Danilo Serbedzija
Malásia: Beautiful Pain, de Tunku Mona Riza
Marrocos: A Mile in my Shoes, de Sai Khalaff
México: Desierto, de Jonás Cuarón
Montenegro: The Black Pin, de Ivan Marinovic
Nepal: The Black Hen, de Min Bahadur Bham
Noruega: The King's Choice, de Erik Poppe
Nova Zelândia: A Flickering Truth, de Pietra Brettkelly
Palestina: The Idol, de Hany Abu-Assad
Panamá: Salsipuedes, de Ricardo Aguilar Navarro, Manolito Rodríguez
Paquistão: Mah-e-Mir, de Anjum Shahzad
Peru: Videophilia (and Other Viral Syndromes), de Juan Daniel F. Molero
Polónia: Afterimage, de Andrzej Wajda
Portugal: Cartas da Guerra, de Ivo M. Ferreira
Quirguistão: A Father's Will, de Bakyt Mukul e Dastan Zhapar Uulu
Reino Unido: Under the Shadow, de Babak Anvari
República Checa: Lost in Munich, de Petr Zelenka
República Dominica: Flor de Azúcar, de Fernando Baez Mella
Roménia: Sieranevada, de Cristi Puiu
Rússia: Paradise, de Andrei Konchalovsky
Sérvia: Train Driver's Diary, de Milos Radovic
Singapura: Apprentice, de Boo Junfeng
Suécia: A Man Called Ove, de Hannes Holm
Suíça: Ma vie de courgette, de Claude Barras
Tailândia: Karma, de Kanittha Kwunyoo
Taiwan: Hang in There, Kids!, de Laha Mebow
Turquia: Cold of Kalandar, de Mustafa Kara
Ucrânia: Ukrainian Sheriff, de Roman Bondarchuk
Uruguai: Bradcrumbs, de Manane Rodríguez
Venezuela: Desde allá, de Lorenzo Vigas
Vietname: Yellow Flowers on the Green Grass, de Victor Vu

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

"Cartas da Guerra" é o candidato oficial de Portugal nos Oscars e Goya


O filme Cartas da Guerra é o representante oficial de Portugal na categoria de Melhor Filme Estrangeiro nos Oscars 2017 e na categoria de Melhor Filme Ibero-Americano nos prémios Goya. A decisão foi feita pela Academia Portuguesa de Cinema, que o ano passado tinha escolhido As Mil e Uma Noites: Volume 2, O Desolado. A produção foi escolhida em detrimento de Montanha, Cinzento e Negro e Amor Impossível, numa votação que foi pela primeira vez extensível a todos os membros inscritos na academia.

Cartas da Guerra é um filme de Ivo M. Ferreira, protagonizado por Miguel Nunes e Margarida Vila-Nova, que adapta as cartas que o escritor português António Lobo Antunes escreveu à mulher, enquanto servia como médico na Guerra Colonial. O filme estreou no Festival de Berlim onde competiu pelo Urso de Ouro, foi um dos finalistas do prémio LUX 2015 e figura na pré-lista para os prémios da Academia Europeia de Cinema. Encontra-se em exibição nos cinemas portugueses onde já foi visto por cerca de 12 mil espectadores.

No caso dos Goya, os mais famosos prémios de cinema espanhol, a categoria de Melhor Filme Ibero-Americano premeia a melhor longa-metragem produzida em qualquer país da comunidade ibero-americana, cujos diálogos-base sejam na língua oficial dos países integrantes. Em 2008, o tema "Fado da Saudade", do português Carlos do Carmo, venceu o prémio Goya para Melhor Canção Original. Fados esteve nomeado na categoria de Melhor Documentário.

Para os Oscars, cada país pode apenas submeter um filme para a categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Portugal já submeteu trinta e duas candidaturas oficiais desde 1980 sem nunca ter conseguido qualquer nomeação. Este ano o nosso representante compete por uma vaga entre filmes como Toni Erdmann (Alemanha), Julieta (Espanha) ou Sieranevada (Roménia).

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Por quê agora?: Academia e a polémica da diversidade

Por Walter Neto, cinéfilo, licenciado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e Universidade de Coimbra com ênfase em Cinema.


Foi um caminho tortuoso que levou o público até esta edição dos Oscars. Foi o ano no qual finalmente não pudemos mais virar nossas caras para não vermos o problema do qual a premiação se tornou o maior sintoma: a falta de diversidade em Hollywood. Chris Rock, em determinado momento de seu monólogo de abertura – brilhantemente escrito- pergunta para seu público:

Por quê agora?

Ora não chegamos a 89.ª edição da premiação vendo só actores brancos indicados pela primeira vez? Então por que só agora? O primeiro motivo e o mais claro de todos são as mudanças sociais e conquistas de direitos pelas minorias; uma vez que sua representatividade social aumenta, a arte como um reflexo da sociedade, deve acompanhar isso. Então, começamos a nos perguntar qual o motivo de isso não acontecer. Mas 2015 foi o ano no qual um filme como Creed, uma releitura, de um dos maiores nomes e personagens do cinema americano, pelo ponto de vista de jovens negros, Coogler, Jordan, Tessa Thompson, foi de frontrunner a esnobado, mas uma coisa foi constante: o reconhecimento, ainda que merecido, do único actor branco em cena, Sylvester Stallone. O mesmo ocorreu com Straight Outta Compton e sua única indicação ao Óscar pelos seu roteiro, escrito por roteiristas brancos. Os casos ao longo da história da premiação são vários, e assim um padrão claro pode ser estabelecido: mesmo quando os actores, realizadores, e outros artistas negros conseguem espaço, não conseguem o reconhecimento.

Outra pedra no caminho da realização dos Oscars desse ano foi sua posição histórica de prémio que encerra a temporada de premiações. Já se falava em Oscars So White quando membros de outras premiações como SAG, Spirit e outras guildas de críticos votavam em seus respectivos prémios. Aqui está uma parte do problema pouco comentada: o Óscar não é o problema, ele é um sintoma. Assim uma febre não é a doença em si, mas sim, um sinal que há algo de errado. A indústria é culpada pela falta de oportunidade, mas a indústria entrega o que o público de uma maneira geral espera ver. Temos culpa pelo estado das coisas. As premiações acabam reflectindo isso também.

Vencedores do Spirit 2016 nas categorias de interpretação.

Vencedores dos Oscars 2016 nas categorias de interpretação.

A Academia tentou tomar providências, anunciou mudanças nas regras da premiação, mas como qualquer decisão tomada rapidamente no meio de uma crise está longe de ser suficiente. A instituição ainda está entendendo o problema. Um exemplo de como o momento é complicado foi o não convite para a cantora Anohni , segunda transexual indicada a um Óscar na história, cantar sua canção indicada ao prémio, mesmo com toda a promessa de inclusão e diversidade. Mas nem tudo são críticas.

Ainda que esteja longe de solucionar o problema de falta de diversidade em suas indicações, a Academia definiu com esta premiação o tom de como lidará com o problema: reconhecendo que há um problema. O monólogo de Chris Rock deixou muitas pessoas presentes desconfortáveis porque essa era a intenção. Era um riso nervoso. Um riso por saber que o problema existe e ninguém se incomodou em reconhecer sua gravidade. Falamos de racismo, homofobia, machismo quando esses assuntos ganham as manchetes dos principais jornais, geralmente ligadas a um crime de ódio. Mas e no dia-a-dia como fica esse debate e como ficam nossas atitudes? Rock não escolheu o caminho mais fácil, porque o problema não é fácil e não será resolvido logo. Mas seu acerto foi deixar claro que a abertura foi para todos os actores negros presentes na premiação como convidados, não indicados. Para todos que acompanham os Oscars e não se vêem representados quando os indicados são anunciados. O monólogo não foi para uma Academia que é formada maioritariamente por homens, brancos, cisgéneros, heterossexuais com uma média de idade superior aos sessenta anos. O discurso de abertura foi para todo que não fazem parte desse clube e ficam de fora assistindo ainda que continuem contribuindo para a arte em geral.

Pós o conturbado 2015/2016 para a Academia fico com a certeza que ano que vem teremos alguma diferença em relação aos indicados este ano. No ano seguinte mais mudanças, e no outro, mais ainda. Ainda que a passos lentos, a mudança está chegando e não há espaço para o que ocorreu este ano se repetir. Para abraçar a diversidade a Academia se viu obrigada a abraçar seus críticos e ouvi-los.

"Spotlight" vence Melhor Filme, "Mad Max" arrecada seis Óscares 2016


Apesar das polémicas, a cerimónia dos Óscares 2016 decorreu tranquilamente, mas ainda houve tempo para adereçar assuntos importantes como a falta de diversidade racial, inclusão e o abuso sexual. O anfitrião, Chris Rock, foi mais comedido que o habitual, mas sempre que pode abordou o assunto do dia, a controvérsia #OscarsSoWhite, sem esquecer de criticar hipocrisia Jada e Will Smith e culminando com um "Black Lives Matter", depois de largar uma piada genial: «This year, in the In Memoriam package, it’s just going to be black people that were shot by the cops on their way to the movies».

Spotlight surpreendeu ao destronar The Revenant do trono de Melhor Filme, depois de uma corrida final apontar para o contrário. O filme venceu apenas outro Óscar, o de Melhor Argumento Original, tornando-se na segunda produção vencedora do Óscar de Melhor Filme, a vencer em apenas duas categorias. Ainda assim The Revenant levou três estatuetas importantes: Melhor Realizador (Alejandro González Iñárritu é apenas o terceiro realizador a vencer duas vezes consecutivas a categoria, depois de Joseph L. Mankiewicz [1949-1950] e John Ford [1940-1941]); Melhor Actor (Leonardo DiCaprio) e Melhor Fotografia (Emmanuel Lubezki é o primeiro a vencer três vezes consecutivas a categoria).

Mas Mad Max: Fury Road foi o principal vencedor da noite, ao levar para casa seis estatuetas e dez possíveis, de onde se inclui Melhor Montagem. Ex Machina também surpreende ao vencer a importante categoria de Melhores Efeitos Visuais, com um orçamento de apenas 15 milhões de dólares, comparativamente com nomeados como Star Wars: The Force Awakens, Mad Max: Fury Road, The Revenant ou The Martian. Mark Rylance também suplanta a concorrência de Sylvester Stallone ao receber o Óscar de Melhor Actor Secundário. O mesmo aconteceu com Sam Smith que levou para casa o prémio de Melhor Canção Original, apesar do favoritismo cair para Lady Gaga e Diane Warren.

Melhor Filme
Spotlight

Melhor Realizador
Alejandro G. Iñárritu por The Revenant

Melhor Actor
Leonardo DiCaprio em The Revenant

Melhor Actor Secundário
Mark Rylance em Bridge of Spies

Melhor Actriz
Brie Larson em Room

Melhor Actriz Secundária
Alicia Vikander em The Danish Girl

Melhor Argumento Original
Josh Singer e Tom McCarthy por Spotlight

Melhor Argumento Adaptado
Charles Randolph e Adam McKay por The Big Short

Melhor Filme de Animação
Inside Out

Melhor Filme Estrangeiro
Son of Saul (Hungria)

Melhor Documentário
Amy

Melhor Curta de Animação
Bear Story

Melhor Curta
Stutterer

Melhor Curta Documental
A Girl in the River: The Price of Forgiveness

Melhor Montagem
Mad Max: Fury Road

Melhor Fotografia
Emmanuel Lubezki por The Revenant

Melhor Banda Sonora Original
Ennio Morricone por The Hateful Eight

Melhor Canção Original
"Writing's on the Wall", de Spectre

Melhor Guarda-Roupa
Mad Max: Fury Road

Melhor Maquilhagem e Cabelo
Mad Max: Fury Road

Melhor Design de Produção
Mad Max: Fury Road

Melhor Edição de Som
Mad Max: Fury Road

Melhor Mistura de Som
Mad Max: Fury Road

Melhores Efeitos Visuais
Ex Machina