domingo, 29 de setembro de 2019

Joker, por Eduardo Antunes


Título original: Joker (2019)
Realização: Todd Phillips
Argumento: Todd Phillips, Scott Silver

Aparte as mais claras mas desnecessárias ligações ao universo do cavaleiro das trevas, este não é certamente o filme que corresponderá às expectativas que o público possa ter criado. Não é um filme sobre Joker, apesar do título, antes uma visão demasiado real sobre a condição de um homem conturbado levado ao mais extremo dos limites que uma sociedade descontrolada lhe impôs, sem filtros, assustadoramente actual e, de alguma forma, criticamente intemporal.

Embebido totalmente na expressão cinemática de Scorcese, como inspiração e homenagem, entre a realidade em parte acertada mas distorcida dos protagonistas de Taxi Driver e The King of Comedy, e uma visão bela e igualmente assustadora de uma Nova Iorque (aqui disfarçada) da década de 1980 mas contemporânea, Phillips não teve receio de contar a mais assustadora narrativa que poderia sair das premissas desta personagem ficcional.

O objectivo aqui não é empatizarmos com Arthur, mas antes entendermos as condições que o levaram a entrar em total decadência. A falta de qualquer tipo de empatia por parte de quem o rodeia, apesar dos seus maiores esforços por se integrar numa sociedade que o renega, leva-o a procurá-la em qualquer mínimo vestígio que atravesse o seu caminho. Empatia que procura numa constante quebra entre realidade e ficção, onde as linhas já não são distinguíveis, seja por ele ou por nós.

A cada final de dia, sentimos cada passo da penosa subida que Arthur Fleck tem que fazer, literalmente por entre uma cidade que o pressiona e esmaga, seguindo para o único reduto que ainda pode sentir como uma casa. E mesmo esse reduto acaba por cair, fruto de uma vida que não era na verdade a sua. Mentira ante mentira, apenas na simbólica e literal descida renovada pela escadaria, no finalizar do segundo acto, ao raiar de um novo dia e ao som de Rock 'n' Roll de Gary Glitter, reconhecemos a sua desconcertante confiança, não mais Arthur, apenas Joker.

E sem necessidade já de demonstrar mais a sua genialidade enquanto interpretador, Joaquin Phoenix magistralmente transporta tudo isto numa actuação que merece todo a aflição, riso, horror que cada fala, acto e olhar nos faz sentir perante a sua insignificância ou abundância, ao som tenso e belo, contraditório, do violoncelo que compõe as composições de Hildur Guðnadóttir.

















E em si só, a utilização de um óbvio conflito entre classes sociais como pano de fundo, influenciado e tangencial mas não correspondente às suas intenções, é forma de demonstrar como os actos irreflectidos e inconscientes de uma pessoa podem ser interpretados à luz das vontades de outros, sem reflexão, demonstrando que a própria condição de Arthur não se encaixa em qualquer uma dessas visões extremistas sobre o problema. Se os meios utilizados o pintam acertadamente como o vilão, o desconhecimento por parte de quem o pinta como tal demonstra o escorregadio que é tomar certas afirmações como absolutas.

É neste raciocínio que, chegado ao programa de Murray, o discurso de Fleck, agora inteiramente embebido na sua persona de Joker, como pede para ser apresentado, sente-se como um manifesto que não é propriamente seu, reflectindo a condição dele mas não o seu propósito, como o já entenderamos ao longo de todo o seu declínio e como havia referido antes. Aliás, talvez bastasse a mudança do que seria a punchline da sua aparição televisiva o suficiente para ilustrar a expressão final da sua mudança. Levando a famosa frase de The King of Comedy "(...) better to be king for a night than schmuck for a lifetime" ao seu exponencial distorcido, Arthur acaba por descobrir o propósito que todos os eventos lhe foram delineando até então.

Deveria ter sido apenas na visualização final das consequências dos seus actos que Fleck seria levado à ruína final, ao acto último de se assumir como símbolo de algo que não o expressa obrigatoriamente. Para todos os "palhaços" que entram em revolta em Gotham, os fins justificam os meios; para Joker, os meios não têm qualquer fim senão o reverter da sua própria condição.

Inspirador na transposição de uma visão cinematográfica única a uma personagem retirada de uma banda desenhada, perturbador na visão real(ista) da narrativa e personagem retratadas. Uma experiência aconselhada, ainda que extrema e surpreendentemente perturbadora. Não é de ânimo leve que nos levantamos do assento, mas é-nos no final facilmente reconhecível a perícia de toda a equipa envolvida para contar esta história de forma tão aprofundada.



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