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quinta-feira, 21 de novembro de 2019

Klaus, por Eduardo Antunes


Título original: Klaus (2019)
Realização: Sergio Pablos
Argumento: Zach Lewis, Jim Mahoney, Sergio Pablos

Klaus é tanto um filme para crianças se maravilharem como é um filme para relembrar adultos da sua juventude, inocência, da esperança que ainda retenham no seu âmago. É tanto um filme que fala sobre um mito do Natal como uma narrativa que demonstra a verdadeira natureza da época que retrata, a mensagem inerentemente humanista que todos devemos desta época retirar, cujo invólucro animado está embebido na nossas memórias e tradições sem, apesar disso, se sentir menos refrescante e moderno.

domingo, 27 de outubro de 2019

Terminator: As Crónicas de Sarah Connor - Temporadas 1 e 2, por Eduardo Antunes


Título originalTerminator: The Sarah Connor Chronicles (2008–2009)
Criadores: Josh Friedman

Passada uma década sobre a conclusão antecipada desta série, e aproveitando a próxima "revitalização" de Terminator prometida em Dark Fate, aproveitei para finalmente pôr em dia este projecto que já rondava a minha mente havia algum tempo. Passada também após Judgment Day, as crónicas aqui contadas experimentam com a fórmula conhecida para oferecer um pouco mais, reforçando a personagem titular na sua relação com o filho que inicialmente parece não conhecer mas que deve proteger, numa dicotomia entre a maternidade que aprende a lhe oferecer e a condição militar na qual se vê obrigada a fazê-lo crescer.

terça-feira, 1 de maio de 2018

Baronesa, por Carlos Antunes



Título original: Baronesa
Realização: Juliana Antunes
Argumento: Juliana Antunes
Elenco: Leidiane Ferreira, Andreia Pereira de Souza, Felipe Rangel dos Santos, Gabriela Souza


Andreia quer mudar-se de (Vila) Mariquinha para Baronesa. Uma bela metáfora da dignificação da mulher que este filme aspira representar.
Uma história de mulheres pela mão de mulheres, que dá a sensação de que todas estão na descoberta do que podem fazer com o poder que têm.
Um poder que o cinema reforça, sobretudo no interior de uma favela, território de imposíção masculina.
Os homens estão todos ausentes. Sobretudo na prisão. O único homem que vemos interagir com elas está, também ele, preso. A pulseira electrónica permite-lhe estar de volta delas, tentar envolver-se, para acabar no mesmo caminho de violência e morte dos que estão fora das imagens.
As mulheres, pelo contrário, ridicularizam esse caminho. Tornam os disparos de metralhadora em passos de dança e brincam a uma espécie de roleta russa que não pode dar em morte mas que acaba em tiros sem bala.
O mais importante está longe de ser o retrato dessa mitologia da favela. Leidiane e Andreia vivem uma comunhão que partilha as forças Só em conjunto são capazes de aprofundar as emoções a transmitir numa carta de despedida.
As mulheres juntas não se inibem de aprofundar temas de profunda intimidade, ajudando a conhecer-se e, de novo, demonstrando o poder que falha aos homens.
Riem-se de como Leidiane se mostra embaraçada por saber que as outras mulheres se masturbam e analisam a mente dos homens presos que se mostram incapazes de fazer sexo como há tanto anseiam.
Tudo isto acontece à flor da câmara, tão próxima delas quanto é possível. Da favela quase só se vê tijolos. A parede nua como vai acontecendo à alma das mulheres - todas as mulheres do filme!
Nota-se que Leidiane - mais hesitante - e Andreia - capaz da conquista - vão caminhando do desconforto para a libertação à medida que as cenas progridem.
Percebe-se a intervenção da escrita - da ficcionalização, portanto, num filme que é híbrido sem querer que isso se torne mote de discussão - nos eventos que movem uma suficiência narrativa.
Como se percebe a espera até que essa escrita desemboque em naturalidade na voz daquelas duas mulheres, capazes de partilhar diálogos estarrecedores.
Como aquele que nasce do confronto com a desprotecção das crianças. A atitude das protagonistas e o cuidado que a realizadora lhes dedicou torna a confissão que se segue em algo transformador. Capaz de fazer do público solidário em vez de julgador.
Mais notável é a maneira como a realidade passa isto também à equipa que faz o filme. Um súbito tiroteio assusta a equipa de filmagem.
Esse processo intervém na feitura do filme e, por isso, permanece na montagem. Depois dele o filme só mostra a naturalidade sem voltar a recorrer à construção.
Um momento de comunhão do medo que fez algo mais pela forma como todas as mulheres intervenientes passaram a ver o destino do filme, mesmo se antes já existisse longo trabalho de partilha para que a realizadora tornasse aquelas mulheres nas suas actrizes.
O filme prepara o seu remate. Menos acontecimentos e apenas o decorrer da vida, sem estrutura nem tempo marcado.
Todo o filme evita correr para desenlaces mas após o tiroteio o sentido das cenas desabrocha à medida que estas acontecem.
O filme eleva-se à medida que fecha com Andreia a dar forma às paredes da sua nova casa. O trabalho de construção a acontecer exclusivamente pela mão dela.
Os tijolos erguidos pela metade no momento em que ela acende um cigarro e olha o horizonte. Um pouco de profundidade de campo pela primeira vez no filme.
Cá em baixo a resposta do olhar de Leidiane, subida a um telhado onde anseia pela companhia perdida e, quem sabe, por igualar o destino da amiga.
As imagens finais são os símbolos de como as mulheres construíram os seus desígnios de actrizes e realizadora a pulso e contra muitos obstáculos, num percurso que não podem dar como concluído.
Por mais que haja ficção a mostrar-se, é inevitável que o filme continue a ser um documentário quando a sua forma final expressa tanto da sua feitura.




sábado, 17 de fevereiro de 2018

Pantera Negra, por Eduardo Antunes


Título original: Black Panther (2018)
Realização: Ryan Coogler
Argumento: Ryan Coogler, Joe Robert Cole

Não sendo exactamente pioneiro na representação de certas minorias no grande ecrã neste tipo de entretenimento, apenas por já terem existido outros exemplos anteriormente, é certamente um marco na maneira aprofundada como o faz, e por revitalizar uma dúvida de sucesso que, posta, não tinha qualquer sentido. Resta entender a fundo o que torna este filme tão altamente validado e, mais, demonstrar como, em diante, podemos abrir os horizontes em termos das estórias contadas em filme.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Baby Driver - Alta Velocidade, por Eduardo Antunes

https://splitscreen-blog.blogspot.com/2017/08/baby-driver-alta-velocidade-por-eduardo.html

Título original: Baby Driver (2017)
RealizaçãoEdgar Wright
Argumento: Edgar Wright

Se existe uma palavra que descreva o realizador de filmes tão distintos quanto Shaun of the Dead, Hot Fuzz e Scott Pilgrim vs. the World é a paixão com que se entrega à exploração do tema em que a cada filme se propõe explorar, com uma imaginação e dedicação tamanhas como se vê em tão poucos cineastas hoje em dia, qualidades as quais Edgar Wright volta a demonstrar com Baby Driver.

sábado, 8 de julho de 2017

Planeta dos Macacos: A Guerra, por Eduardo Antunes

http://splitscreen-blog.blogspot.pt/2017/07/planeta-dos-macacos-guerra-por-eduardo.html

Título originalWar for the Planet of the Apes (2017)
Realização: Matt Reeves
ArgumentoMark Bomback, Matt Reeves

Devo confessar que não fiquei imediatamente convencido com o primeiro filme desta agora trilogia na sua possível qualidade enquanto um remake distante da série original de filmes. Mas com a primeira tentativa com Matt Reeves ao leme, serei sempre o primeiro a tentar convencer qualquer pessoa a investir o seu tempo num intenso drama com símios em vez de humanos como personagens centrais. E ainda que este "último" filme não atinja o patamar do filme que o precede, é uma conclusão tematicamente bem conseguida no seguimento daquilo que fez esta nova série de filmes destacar-se logo à partida.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Mulher Maravilha, por Eduardo Antunes

http://splitscreen-blog.blogspot.com/2017/05/mulher-maravilha-por-eduardo-antunes.html

Título original: Wonder Woman (2017)
Realização: Patty Jenkins

Com a reputação medíocre que as adaptações cinematográficas de histórias baseadas nas personagens das bandas desenhadas da DC Comics têm tido desde 2013, e face à pressão que os estúdios da Warner Bros. têm claramente sentido relativamente às adaptações por parte dos Estúdios Marvel, poderá finalmente a Mulher Maravilha ser a esperança por detrás da Warner Bros. em finalmente conseguir chegar a críticos e fãs da mesma maneira?

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Ratchet & Clank, por Telmo Couto


Título original: Ratchet & Clank (2016)
Realização: Kevin Munroe, Jericca Cleland
Argumento: T.J. Fixman, Kevin Munroe, Gerry Swallow
Género: Animação

Depois do jogo, o filme. Na realidade foram planeados e realizados em conjunto e contam a mesma história de diferentes perspetivas, ao contrário do que acontece em muitas adaptações de videojogos para filmes ou vice-versa. Ratchet & Clank não é uma adaptação, mas parte de um projeto transmedia que inclui jogo e filme como parte do reboot de um grande clássico da PlayStation 2 aos tempos modernos.

Ratchet & Clank é a história de um lombax especializado em mecânica, que se cruza com um robô "defeituoso" escapado de uma fábrica onde o vilão está a criar um exército destruidor. Ratchet ambiciona ser um herói, mas para isso terá primeiro de ser aceite na equipa de rangers intergaláticos, liderada pelo Capitão Quark cujo ego é superior ao tamanho dos músculos. É uma história simples e divertida, que falha apenas por ser demasiado apressada na primeira metade, sem dar tempo aos personagens para evoluir naturalmente. Há aqui um problema de ritmo, como se a necessidade de ter sempre alguma coisa a acontecer impedisse o filme de respirar e fluir melhor.

Visualmente, o filme está entre o melhor que se faz atualmente a nível de animação, com personagens muito detalhados e expressivos. Há ainda um conjunto de referências visuais que os fãs do videojogo irão apanhar, embora não seja necessário qualquer conhecimento para desfrutar do filme. A versão dobrada em Português sofre ainda com o mau tratamento de algumas piadas, que saem completamente ao lado, pelo que se recomenda a versão original caso o espectador não esteja a acompanhar crianças pequenas.

Embora esta animação proporcione uma boa experiência, não é tão gratificante para o espectador como é o jogo para o jogador, onde a história é melhor desenvolvida e os personagens têm mais profundidade. Vale principalmente pelo espetáculo visual e pelos sorrisos que vai provocando a toda a família.
Em colaboração com Meus Jogos

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

The Hunger Games: A Revolta - Parte 2, por Tiago Ramos


Título original: The Hunger Games: Mockingjay - Part 2 (2015)
Realização: Francis Lawrence

Não é difícil dizer que Katniss Everdeen tornou-se uma das melhores e mais influentes heroínas da ficção moderna desta última década. Não só pela interpretação da actriz, mas sobretudo pelo que a personagem simboliza, não só para a Mulher no particular, mas também para a Humanidade no geral. A figura heróica que vem do povo, que evolui na adversidade extrema e que apesar de todos os seus defeitos e impulsividade, consegue ser líder de uma revolução que acaba por desconstruir a sociedade de Panem como a fomos conhecendo. Isso é permitido também por toda a simbologia e mitologia que os romances de Suzanne Collins trouxeram. Vejamos toda a mitologia: um voyeurismo institucional, no formato de uma ditadura autoritária e totalitária, onde apenas uma elite beneficia do esforço e sacrifício físico, mental e emocional de uma larga população. Um colapso total das instituições e valores morais, um jogo sádico e brutal exibido a toda a sociedade e a opressão física e moral do povo. Uma metáfora perfeita e actual ao sistema político facilmente identificável pela audiência que, juntamente com a protagonista, vai evoluindo com a narrativa que aponta para várias referências, desde a reality TV, às guerras, passando pelos gladiadores da Antiga Roma, até aos mitos de Teseu e o Minotauro.  Ora ao longo da saga, que chega agora ao fim, o espectador vai crescendo com Katniss. Desde o momento que era uma pobre e impetuosa adolescente que prefere sacrificar a sua vida em favor da irmã e que, inadvertidamente, e devido aos seus dotes (sobretudo morais), torna-se o símbolo e o rastilho para uma revolução anunciada. O povo precisa de um símbolo. E apesar da figura inconstante que é, Katniss tem uma energia e um rasgo, que acabou por evoluir de algo impensado para uma consciência e determinação política e que foge às habituais dicotomias entre o feminino e o masculino.

Depois dos primeiros filmes terem mostrado o sadismo dos Jogos da Fome e a inesperada ascensão de uma heroína, a primeira parte da conclusão da saga revela um olhar maduro e consciente para a problemática inicial. Se a grande arma de uma sociedade totalitária é a propaganda, não será errado também dizer que a revolução também vive do mesmo. A sociedade exige-o. A notoriedade de uma campanha política planeada ao mínimo detalhe, assim como a construção de uma narrativa, é o leitmotiv dos dois lados de uma guerra. Essa opção que a história introduz permite denunciar a ambiguidade moral entre o Poder instaurado e a Revolução que se planeia insurgir. Isto porque se os meios não são assim tão distintos, é verdade que as intenções também poderão não o ser. E se era no poder da propaganda política que A Revolta - Parte 1 se inspirava, a Parte 2 acaba por explorar o perigo da confiança cega quando um Messias se prontifica a salvar um povo da escravidão.

The Hunger Games: A Revolta - Parte 2 beneficia do facto de ser o culminar de uma saga e de uma história tão poderosa como esta. É o clímax de todo um crescendo e uma antecipação que se criou desde o primeiro filme, e daí notar-se o evoluir das sequências de acção (note-se a cena na praça com uma das armadilhas do Capitólio ou uma especial cena quase final aos portões do palácio) como conclusão da epopeia. Katniss assume um protagonismo notável: representa uma sociedade de espectáculo, filmando também vídeos de propaganda e tentando forçar a rendição do Capitólio e Snow. É um jogo cínico e político, que ganha tempo para respirar, mas que também se assume redundante, especialmente se considerarmos a divisão do último romance em dois filmes, com um mero motivo capitalista. Até porque Francis Lawrence, não desfazendo o que conseguiu fazer com os três últimos filmes da saga (em grande parte, devido à força do material e dos actores), nunca conseguiu imprimir o seu cunho pessoal, como Gary Ross conseguiu no primeiro capítulo. Percebe-se a sua competência, mas sente-se a sua posição de tarefeiro sob o domínio de um grande estúdio que tenta não polarizar a audiência, com uma cinematografia arrojada ou com uma posição mais, ou menos, divergente.

O filme versa sobre o poder da união, o sistema político e a sociedade contemporânea criada à base de propaganda (reality television, redes sociais), mas também imprime um cunho agridoce sobre a ilusão da salvação ou da insistência do ser humano em persistir nos mesmos actos, apesar das lições, supostamente, previamente aprendidas. É ainda assim um grito de revolta e liberação, uma representação de uma sociedade, a nossa talvez, que parece também ela condenada e que carece de um símbolo de força e luta.


sábado, 21 de novembro de 2015

Review: Grace and Frankie - Temporada 1

Por Joaquim da Silva.

«Tears Dry on Their Own»

São muitos anos. É crescer e aprender. Mais vale tarde do que nunca. Quando crianças, todos queremos ser adolescentes. E depois temos pressa de ser adultos. E depois, temos saudades de ser adolescentes outra vez. Mas ninguém anseia ser velho. Idoso. Reformado. Há muito mais quem procure a juventude eterna do que a tranquilidade da velhice. Desde sempre se procura incessantemente a imortalidade. A persistência da luta contra o tempo, da falta de tempo, da resistência à passagem dos dias, dos meses, dos anos, o desespero do reflexo enrugado, da erosão da beleza jovial. Ninguém é velho - velhos são os trapos, a idade é um estado de espírito - ser velho é algo semi-repugnante, rejeitado por todos (inclusive os velhos). Pois cabe-me dizer: Caríssimos, todos envelhecemos. Todos os que tiverem a sorte de viver mais que o seu igual serão inevitavelmente velhos. E como tudo o que é inevitável, eis que vem o habituar. Habituemo-nos à ideia, conforme é esperado. E quando não mais se pode esperar?

Grace and Frankie parte da premissa simples de que em 2015 é relativamente bem aceite e bem mais fácil sair do armário. Ser-se quem se é, é uma condição bem mais alcançável hoje do que há alguns - nem assim tantos - anos. Pois então Robert (Martin Sheen) e Sol (Sam Waterston), cônjuges das respectivas personagens titulares, também o sabem. E decidem que é hora de dizer a verdade, romper com os seus casamentos heterossexuais e assumir a paixão que os leva a manter uma relação secreta. Pedem o divórcio e decidem juntar-se. Ora, todos os dias isto deve acontecer em qualquer lado, até que é mais comum haver divórcios do que casamentos. Detalhe: todos eles enquadram-se na faixa etária 65+. Essa idade em que tudo está já designado, a vida é feita de conformes e de hábitos, de um desenrolar de rotinas na lenta espera pela morte.

Na mais requintada ironia, Grace (Jane Fonda) e Frankie (Lily Tomlin) são duas personalidades opostas: uma conservadora, que segue altos padrões de moral, ética e etiqueta, frequentadora dos melhores e mais altos níveis sociais, filantrópica e empreendedora. A outra, liberal, libertina, professora de arte de ex-reclusos, que nega algumas das convenções sociais mais antigas, progressista à frente do seu tempo. Veja-se, Frankie é mãe adoptiva de dois homens de raças diferentes, tendo-o feito numa presumível época em que a raça negra ainda era fortemente discriminada nos Estados Unidos. Como se o destruir das suas vidas matrimoniais não fosse um evento suficientemente traumático, ambas se refugiam na partilhada casa de praia dos casais (Robert e Sol são sócios de trabalho, pelo que existe uma relação anterior ao início da série entre Grace e Frankie). E é aqui que se inicia o processo de superação de duas mulheres, que nada mais têm que a si mesmas, uma à outra, e aos filhos, para viver algo que se vive aos 30 ou 40 anos de idade. Grace and Frankie lida com os problemas dos "jovens" da perspectiva dos "séniores": orientação sexual, aceitação social, reconstrução da vida amorosa, luto pela relação falhada, (re)inserção no mercado laboral.


Grace and Frankie é uma comédia de relações, amores e desamores, absolutamente igual a tantas outras. Só que em vez de falar de jovens, ou de jovens adultos, fala de seres humanos. Porque os velhos são seres humanos também, e o amor não escolhe idades. Morrer é parar, seja isso em que idade for.

P.S.: Brianna (June Diane Raphael), hilariante em todas as linhas de diálogo que tem. Mais foco e desenvolvimento desta personagem precisa-se, aligeira os momentos dramáticos mas não desvia a atenção do espectador do foco da trama. Robert, pelo contrário, é desinteressante e acessório, não faz diferença quase nenhuma, só serve para que as personagens principais iniciem a sua jornada em igualdade de circunstâncias. 

Netflix

Temporada 1

sábado, 9 de maio de 2015

Capitão Falcão, por Carlos Antunes




Título original: Capitão Falcão
Realização: 
Argumento: 
Elenco: 


Há uma evidência há qual este filme não pode escapar. De que a série que pretendia ser é melhor do que o filme que se tornou.
Não se trata de mais do que compreender que, do estilo ao ritmo, era para uma dimensão ao mesmo tempo mais breve (um episódio) e mais longa (uma temporada) que Capitão Falcão tinha sido imaginado.
Dessa divergência entre destino e resultado resultam os problemas do filme que são, sobretudo, narrativos. Vêm tanto da fuga para diante que representam aquelas (inspiradas) transições de cena ao jeito da série Batman dos anos 1960 como da montagem que ao procurar soluções de ligação causa inversão da ordem mais lógica de algumas cenas.
A história parece recomeçar por várias vezes, dando ao filme uma cadência aos solavanco, para que inclua o máximo das ideias da equipa. Ideias que deveriam servir à feitura de diversos episódios e que assim, pelo menos, não ficam perdidas na promessa de sequelas que podem nunca chegar.
Se o filme não se torna totalmente desligado é pela força dessas ideias de humor satírico.
Uma reinvenção pulp (que não destoaria na antologia outrora editada pela Saída de Emergência) que se não fosse assumidamente irónica poderia fazer uma aproximação à especulação histórica.
Para suportar um humor que vai aos limites do desconforto e da ironia politicamente incorrecta para se tornar desconcertante com as mais memoráveis - e reproduzidas, aposto desde já - tiradas de tempos recentes.
Carregado pela representação em delírio cabotino de Gonçalo Waddington e uma celebração do kitsch mesmo quando a produção está próxima da verosimilhança, o filme compensa os seus defeitos televisivos, sobretudo se visto numa sala repleta de pessoas dispostas a celebrarem a ideia de uns Capitães de Abril ao estilo dos Power Rangers.
O público, mais ou menos afecto ao filme, não deixará de reconhecer a qualidade técnica com que a equipa disfarçou a escassez de meios que lhes proporcionaram.
A escassez é assumida como e com piada em diversos momento, e para lá desses o que se vê é um esforço que torna tudo melhor do que seria de esperar.
Com um investimento nascido do carinho pelo material que se nota na equipa há lutas bem coreografadas, há uma banda sonora de grande calibre e há um charme que não permite a quem o veja senão render-se um pouco a um conceito que por cá não terá paralelo.
Querendo ver para além disso a coragem de criar uma crítica que se situou no período do Estado Novo mas fala do permanente estado político do país e tem até umas referências subtis mas mordaz ao actuais governantes.
Passível de ser visto por quem procure uma "palermice" e ainda mais por quem entenda e admire as múltiplas referências, Capitão Falcão acaba por proporcionar humor para todos, não sendo desajustada a junção do mais óbvio e do mais "meta" por conta desses factores que não são demais reforçar.
O entrosamento dos actores vem de fora da cena e faz sobressair ainda mais o talento natural com que sabem fazer valer a lógica do material.
A crença da equipa que transmite a sua dedicação ao público e faz crer num trabalho que se em momentos fica aquém do que se pode exigir, crescerá como objecto de culto.




sábado, 7 de março de 2015

Escravo de Deus, por Carlos Antunes



Título original: Esclavo de Dios
Realização: Joel Novoa
Argumento: Fernando Butazzoni
Elenco: Mohammed Alkhaldi, Vando Villamil, Daniela Alvarado


Apesar do seu título de referência indivual, Escravo de Deus é um título que se aplica a ambos os homens envolvidos nesta perseguição.
Admed é o infiltrado na sociedade argentina, terrorista em dormência à espera de ser chamado. David é o agente da Mossad que não sabe estar em mais parte alguma.
Ambos são escravos de uma luta de religiões que os traz em suspenso em relação à possibilidade de uma vida normal.
Além dos extremos de "matar" e "morrer" a que estão dispostos, estes homens partilham o sacrifício das suas famílias.
Admed porque mente à mulher e ao filho desde o início quando os usou para criar uma fachada. David porque negligencia mulher e filho em troca da memória nítida daqueles que pretende apanhar e que o assombram da parede do seu gabinete.
Sendo mais semelhantes do que imaginam, estes homens são igualmente representativos da distância a que se colocam os peões do extremismo islâmico e judaico.
Persuadido a sacrificar-se em nome de Alá na sua juventude, quando ainda era incapaz de uma leitura correcta dos acontecimentos, Admed mostra o quão perigoso é a falta de interrogação de uma mente facilmente manipulável. Através dele a limitação das origens do terrorismo torna-se mais evidente na sua dependência de mentes imberbes.
David, pelo contrário, mostra a impossibilidade da mente judaica em seguir adiante, em superar a obsessão com a sua própria defesa. Tal como mostra que essa determinação ficou apenas para aqueles que guardam a memória da sucessão de inimigos para o povo de Israel sendo colocada de parte pelos que herdaram a memória - do Shoah, do massacre de Munique - que definiu uma identidade.
O contraste é usado em favor da discussão da essência do confronto que nasce de diferenças muito vincadas entre quem combate um preconceito injustificado que - na sua versão mais recente - dura há mais de um século e quem combate um inimigo recente que errou para com os povos árabes mas que também tem sido um inimigo de ocasião e de utilidade política.
Todo este confronto entre duas posições tão belígeras é importante para o próprio filme, pois ajuda a adensar a caracterização dos dois personagens que têm de ser, como se percebe, funcionais e representativos de identidades abrangentes.
Personagens entregues a dois actores que captam o olhar com grande intensidade.
Vando Villamil mostra que merecia há muito estar na memória cinéfila para lá dos territórios da América do Sul com uma conquista calma do espaço e do tempo de cena mesmo quando a sua personagem se envolve em momentos que se chamaria de acção.
A réplica de Mohammed Alkhaldi é extraordinária, por completo afastada da hipótese de revelar que se trata da sua primeira experiência de interpretação. O actor confronta e seduz a câmara e, com isso, o público.
Ao trabalho deles acresce o mérito do realizador Joel Novoa que lhes dedica cuidados de composição abdicando do espalhafato - da afirmação de poder que antecede os próprios atentados, por exemplo.
Ele trabalha as cenas de tiroteio com uma noção de eficácia que vem da experiência e que revela tanto sabedoria quanto desalento com a repetição daquele caos injustificado.
Apesar da sua juventude, Novoa tem a inteligência de trabalhar ambos os personagens em cenas que os desviam do caminho recto do julgamento de Correcto e Errado para fazer dos desvios morais que os afectarão algo natural.
A alegria do convívio entre Admed e os restantes membros sugere um gosto pela vida que a existência da sua família apenas reforçará. A indiferença com que David tira a vida de um informador mostra o quanto ele se move por objectivos muito mais egoístas do que profissionais.
Ambos os escravos de Deus acabam por se confrontar com as opções humanas que os comandam e que, no final, determinam as vidas humanas que destroem.
Embora a dúvida interna - sobretudo de Admed - pudesse ter sido explorada de forma mais vincada, no âmbito de um thriller as reflexões sobre os piores dos limites das convicções religiosas e políticas têm mais poder do que a violência representada e isso faz de Escravo de Deus uma convincente obra.




quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Sniper Americano, por Tiago Ramos


Título original: American Sniper (2014)
Realização: Clint Eastwood

Em Inglourious Basterds (2009), de Quentin Tarantino, a dada altura e durante um momento de propaganda nazi com o próprio Hitler a assistir na plateia, mostra-se a antestreia de Stolz der Nation (filme dentro do filme, realizado por Eli Roth), que conta a história de um herói nazi, um sniper alemão a matar soldados dos Aliados de uma torre de um relógio. Uma paródia aos filmes propaganda nazi de Leni Riefenstahl e que nos choca precisamente pela intenção e pela forma cobarde com que o protagonista elimina os seus inimigos, sem uma posição de igual para igual. Esta associação entre Stolz der Nation e American Sniper, por mais injusta que seja, é facilmente compreensível e deixa-nos perante uma delicada posição na apreciação do filme de Clint Eastwood. É por exemplo a mesma posição em relação a The Birth of a Nation (1915), de D.W. Griffith, um filme altamente controverso e racista, mas que só não ganhou o estatuto de obra-prima precisamente por isso.

Sniper Americano coloca-nos perante a mesma dificuldade em saber manter a distância objectiva entre a as intenções de uma personagem e a intenções do filme, entre saber diferenciar a estrutura fílmica, do argumento e do seu respectivo simbolismo. É verdade que o filme peca precisamente pela forma unidimensional com que aborda o tema da guerra no Iraque, chegando até ao ponto de generalizar o povo iraquiano (há vários momentos em que as personagens os identificam como «selvagens»). Uma visão por vezes até ideologicamente perigosa: veja-se o seu início quando se passa imediatamente dos atentados de 11 de Setembro de 2001 para a guerra no Iraque, estabelecendo uma relação causal imediata e errónea, que permite vislumbrar uma agenda política por trás, não fosse o espectador não conhecer as ideologias políticas de Eastwood. Mas ainda assim há que compreender - e correndo o risco de estimular a controvérsia - que por mais reprovável que seja o ponto de vista e apesar da necessidade (?) moral  e social de ser inclusivo, o filme estabelece precisamente isso: um ponto de vista. Um ponto de vista do seu protagonista e que aqui podemos tentar distinguir do trabalho artístico do cineasta.

Isto porque facilmente se reconhece que este será o melhor trabalho de Clint Eastwood desde Gran Torino (2008) e que também não esconde algum humanismo das personagens, incluindo uma consciência pesada e até uma mensagem, em determinadas alturas, anti-guerra. Além do absoluto controlo da câmara, o cineasta consegue criar ritmo numa história que, de tão auto-centrada que é, poderia tornar-se aborrecida. Bradley Cooper faz um trabalho espantoso a vários níveis, com uma desconstrução física e psicológica do actor que o eleva para um novo patamar depois do reconhecimento mediático que tem tido nos últimos anos. Mas também há que reconhecer a belíssima e delicada composição de Sienna Miller, que serve muitas vezes de contraponto humano, à aparente mensagem racista e excessivamente patriótica que o filme carrega. Não esquecer ainda o fabuloso trabalho técnico, desde a montagem às técnicas de captação e mistura sonora.

Ainda que várias vezes reprovável e tendencioso, assim como detentor de uma grande falta de tacto, Sniper Americano não deixa contudo ignorar o talentoso trabalho do seu realizador e da sua equipa. Todos sabem o que fazem: criam tensão quando é precisa, mas também mantêm o interesse do público, tanto o que acredita na mensagem por ele divulgada, como o que não. Ainda assim, reconhece a violência - há cenas extremamente gráficas - e deixa alguma margem para o reconhecimento de um tema delicado e nem sempre assim tão unilateral - veja-se a cena em que Chris Kyle espera um desenvolvimento na acção que o iniba de cumprir a sua função de puxar o gatilho ou as cenas em que não consegue voltar à rotina quotidiana com a sua família, nos Estados Unidos. Ainda que míope, o filme não é certamente cego.


quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Cornos, por Carlos Antunes



Título original: Horns
Realização: 
Argumento: 
Elenco: 


Alexandre Aja continua a ser referenciado pelo seu segundo filme, Haute tension, um exercício vazio que praticamente demarca o final do New French Extremity - uma classificação demasiado lata mas que continua a ser negativa, não importa o culto que um filme como esse tenha merecido.
Tem algo de injustiça poética que assim seja, já que Aja se tem esforçado por demonstrar as suas capacidades como realizador trazendo um digno savoir faire a remakes de filmes de terror do final dos anos 1970 e a um projecto próprio como Mirrors.
Não creio que a situação se altere com a sua primeira obra capaz de apelar a uma audiência mais abrangente, embora ele faça por o merecer.
Sem se desligar do elemento de terror Aja assinou o seu melhor filme. Causa maior para tal a responsabilidade de construir uma personagem.
Ao invés de depender dos efeitos - visuais ou de estilo - para justificar mais um filme Aja teve de se dedicar a Ig, personagem que proporciona um nervo emocional sobre o qual o realizador trabalhar que nunca antes teve a seu cargo.
A fidelidade com que o fez, mostrando uma crença na personagem que Daniel Radcliffe tudo fez (bem) para justificar, é o que mantém a coesão do filme que se mostra mais do que a soma das suas partes.
Movimentando-se entre vários géneros - história de amor, sátira contemporânea, horror simbolista, investigação policial e filme de vingança - a história consegue combiná-los tantas vezes quanto se deixa conduzir por apenas um deles.
Ig mantem-se uma personagem consistente agregando estes segmentos em torno da sua própria evolução e fazendo o filme resultar sem que se notem as suas duas horas de duração.
Narrativamente nenhum dos géneros se torna mais marcante do que os restantes - embora a sátira arranque risos com a sua eficácia - mas imageticamente acontece o oposto.
Alexandre Aja deixa a sua marca com os flashbacks que constroem a história de amor feliz trabalhando o excesso de luz como oposição à do tempo presente mas conseguindo manter um perfil incomum na recriação dos clichés do género.
Alexandre Aja só volta a ser o realizador que já conhecíamos no final quando o desenlace do filme exige que o terror mais evidente apague os traços dos restantes géneros em jogo.
Menos subtil mas mesmo assim eficaz, o realizador tem de fazer uso do que até aí era apenas a apropriação da imagética religiosa com um forte sentido de ironia dramática no percurso de Ig .
O mesmo momento em que Ig deixa de ser um personagem para ser a corporificação da ameaça demoníaca que o filme passa o tempo a anunciar.
O resto do tempo há que louvar a entrega de Daniel Radcliffe que já pela segunda vez este ano mostra que além de ter o perfil para ser protagonista - de outros filmes que não os da saga do feiticeiro - tem ainda o talento necessário.
Em dimensões diametralmente opostos, Horns e What If fazem do actor um dos mais interessantes nomes dos últimos meses em que acertou finalmente com papéis que são diferentes do esperado para ele mas que estão adaptados a ele (ao contrário de um The Woman in Black).
A única acusação - ou interrogação - que se possa fazer ao actor é a de estar a dar demasiado em papéis que ainda não têm a qualidade que se espera que ele atinja. Os próximos papéis responderão a tal dúvida.
Uma revelação dos talentos adicionais do seu protagonista e do seu realizador, o filme é um entretenimento com várias tonalidades.




terça-feira, 12 de agosto de 2014

Os Guardiões da Galáxia, por Carlos Antunes



Título original: Guardians of the Galaxy
Realização: 
Argumento: Nicole Perlman


Foi em 2008 que a Marvel descobriu que o modelo mais humorado do filme de acção - Iron Man - parecia produzir melhores resultados do que uma versão mais intensa mas sisuda - The Incredible Hulk.
(Reduzo o modelo a uma das suas características mais óbvias sem querer minimizar outros aspectos que têm introduzido nuances importantes.)
No entanto desde então que a Marvel tem vindo a aplicar este modelo a todos os seus personagens numa padronização que tem dado bons resultados de bilheteira mas também vários resultados cinematográficos insatisfatórios.
Os melhores de entre eles têm-se visto fora do universo dos personagens que formam os The Avengers - e, por isso, também fora do âmbito da produção exclusiva dos estúdios Marvel -, em particular ambos os The Amazing Spider-Man.
Muito embora os filmes mais recentes de Thor e Captain American tenham mostrado sempre melhorias significativas, o modelo de criação dos filmes continuava a não ser adaptável por completo às suas personagens.
Guardians of the Galaxy é o momento em que o estilo Marvel encontrar quem melhor o serve: um conjunto de personagens ineptas capazes de grandes momentos de heroísmo mas também das maiores tolices, quando umas e outras não são as mesmas.
Mais ainda do que isso, são personagens que (para já) não estão condicionadas a serem trabalhadas em função de filmes alheios ou de grupo que estão para vir, pelo que estão encapsuladas no seu próprio universo.
Um universo de space opera que vai rareando no cinema e onde se aposta na inconvencionalidade do humor criado pelas personagens nas situações específicas em que se inserem.
Boa parte do prazer do filme vem dessa admiração confessa por Lucas - e também Spielberg - sendo que poderá ser o único blockbuster capaz de fazer reviver a aventura espacial tal como a admirávemos há três décadas atrás.
O restante vem da sua capacidade para não se levar a sério, como a própria escolha da banda sonora - cheia de hits pop dançáveis (literalmente) - consegue dar a perceber com prazeirosa eficácia.
Muito dessa capacidade existe graças ao realizador, novamente uma escolha inesperada da parte dos produtores, mas desta vez certeira - algo que tem sido mais raro.
O realizador não pode chegar ao ponto radical com que tratou o conceito de super-herói em Super, mas tem à sua disposição personagens longe de serem imaculadas que lhe permitem explorar nuances de comportamento que outros filmes Marvel apenas afloraram.
Ainda para mais é um realizador capaz de lidar brilhantemente com as relações entre personagens - ou entre este tipo de personagens - e que tem ao seu serviço uma óptima escolha de actores com verdadeira química gerada entre eles.
Um grupo onde ao talento comprovado se junta uma boa dose de surpresa, algo que está resumido em Chris Pratt: reconhecido apenas pelos atentos a Parks and Recreation dá um protagonista de enorme carisma e notável adaptação ao papel.
(O mesmo se poderia dizer de Lee Pace, que faz um excelente vilão mas que recebe menos tempo de ecrã do que poderia e deveria.)
Com tudo isto, é garantido que este poderá ser o filme de "super-heróis" capaz de atrair também o público que tende a rejeitar esse género.
A única dúvida que o filme levanta é se o estúdio irá manter a independência deste grupo quando o sucesso for evidente, já que isso poderá colocar em causa o distintivo estilo de aventura de ficção científica aqui recuperado à memória cinematográfica.




domingo, 1 de junho de 2014

O Chef, por Carlos Antunes


Título original: Chef
Realização: 
Argumento: 

Jon Favreau era, até Chef, tudo menos um realizador interessante. A sua queda era notória desde o mediano Elf.
Enquanto argumentista e actor o caso era ainda mais gravoso, criando ou protagonizando uma quantidade de filmes irrelevantes que ameaçavam esgotar o crédito de simpatia que obtivera com Swingers.
Com este filme Favreau mostra que há uma única regra para contraria tal estado de coisasas: fazer um filme onde se tenha um interesse pessoal.
Longe de ser um grande filme, Chef consegue que o empenho que Favreau tem no filme instile no público uma sensação de sucesso e viço que parecem cada vez mais raros.
Rejeito reduzir o filme a um género, Favreau ganha a liberdade para ir criando um rumo ao longo dos temas que chama ao atrgumento e mantendo-o consistente pelo foco na sua personagem de homem que falhou - entre culpa própria e pressão alheia - e que tem de tombar para se reerguer.
Uma história de conquista pessoal e descoberta de novos padrões para a felicidade, mas adicionado de algo distinto a cada momento.
Aquilo que começa como um filme de cozinha - e a comida será, obviamente, o elemento mais constante até ao final - vai-se transformando num road movie ao serviço da história de um pai e de um filho que se redescobrem.
Cada momento do filme existe com lógica e consistência, não negligenciando nem o efeito imediato - dar a ver Nova Orleães, por exemplo - nem o resultado final - a possibilidade de alcançar o sucesso. A América e o seu sonho mais uma vez mostradas aos seus habitantes numa mensagem cada vez universal (de tão transmitida).
Desde a recriação realista e intensa do universo da Haute Cuisine à capacidade de escapar ao efeito bilhete-postal da América por onde passa, Favreau mostra que o prazer faz prevalecer o talento. Um prazer que é seu e que transmite ao público que logo se compromete com o que vê.
O comprometimento com a comida que faz e filma, a banda sonora latina inesperada ou um uso interessante da tecnologia em favor das conexões do filme (destaca-se a montagem da memória das viagens, habitual nestes filmes, que ganha realismo pelo uso de Apps de vídeo) reforçam a experiência de boa disposição proporcionada pelo filme.
Experiência não comprometida pelo erro de casting de Sofia Vergara - interpretação de uma nota só, num género de personagem cada vez mais agarrada à actriz - ou pela contraparte pior da tecnologia no cinema - mensagens de texto no ecrã, por vezes de forma redundante, bem como o humor feito com a generalização das fotos por via do telemóvel - ou mesmo por uma certa conveniência para fazer avançar o filme - o final feliz do filme precisava de mais trabalho de escrita e a cena de Robert Downey Jr. era escusada.
Admitindo sem problemas que a opinião sobre o filme poderá estar um pouco inflacionada pelo prazer gastronómico e que um visionamento mais distanciado poderá alterar a visão sobre Chef, a verdade é que o feel good resulta quase em pleno e isso permite a Favreau voltar a ser relevante.
Esperemos que não se perca de novo entre os projectos de blockbusters que já tem em agenda.


segunda-feira, 31 de março de 2014

Semana em Crítica - 6 de Março

Lições de Harmonia (2013), de 


História de desadequação de um rapaz à sua escola, da perseguição de que é alvo e da resposta violenta que lhe dá. Retrato de um Cazaquistão dividido em duas realidades que ali se tocam. A escola é a fronteira onde alunos vindos da vida dura das quintas se juntam aos que já sonham com a vida burguesa da cidade. Tal como é a fronteira entre as partidas infantis e a violência adulta de uma máfia organizada. Um inevitável ponto de eclosão de acções e consequências, todas gravosas e todas colocando em causa a estratificação mais óbvia - a inteligência como resultado dos meios de origem - daqueles jovens personagens. O último terço do filme, por isolar o protagonista num mundo exclusivamente adulto, não mantém a força do que foi o filme até aí, acabando por recorrer a alegorias para uma afirmação final que não lhe parece pertencer. Mas o resultado deste primeiro filme de Emir Baigazin merece ser visto. Uma estrelaUma estrelaUma estrela½ Carlos Antunes



Primária (2013), de Hugo Pedro


Uma observação dos últimos momentos de descontração e dos primeiros vislumbres de adversidade na vida de crianças portuguesas que se preparam para os exames da quarta classe. O filme é feito de um acompanhamento silencioso, uma presença que não afecta o jorrar de emoções. A capacidade de escolha dos "protagonistas" mais emotivos e de presença impositiva é o trunfo de Hugo Pedro para resgatar a curta à sua falta de noção de como intervir - sobre o material e não no contexto filmado - para além de esperar que a turma filmada faça acontecer algo relevante e, logo, cinematográfico. A curta tem um contraponto interessante para a feroz transição para a idade adulta de Lições de Harmonia, acabando por funcionar melhor assim apresentada do que aconteceria a solo. Uma estrelaUma estrelaUma estrela½ Carlos Antunes



Fim-de-semana em Paris (2013), de 


A ideia de comédia romântica com um casal rabugento vem do trailer e não prepara o público para a mudança de tom com que o filme aborda o drama da transformação do casamento numa formça de ressentimento não silenciado. A profundidade não filtrada do olhar sobre a vida tardia deste casal mostra uma seriedade no tratamento de um tema que costuma estar afastado do ecrã e que neste caso particular se encontra pequenos laivos de esperança na memória do próprio cinema: Paris como o palco de correrias e danças pertencentes a uma outra geração e uma outra mentalidade com que sonharam mas nunca alcançaram, as de Bande à part. Só a necessidade de tornar evidente a citação, passando o filme de Godard num televisor de hotel, esmorece de forma ligeira o entusiamo com que se vê esta complexa forma de elementos ganhar vida através das magníficas interpretações de Jim Broadbent e Lindsay Duncan. Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela Carlos Antunes



Um Novo Fôlego (2013), de 


A adolescente que entra na vida estável de uma família dos subúrbios para a perturbar é uma história vista e revista que exige alguma novidade para que a estreia de mais uma versão. O mais perto que o filme chega de tal novidade é a utilização da música como substituto de um trabalho mais profundo de escrita sobre os personagens e as ramificações das suas acções. Mas sem a coragem de levar a música a ser o corpo central das relações e de como estas se expressam, parece apenas que ela está lá a encher os muitos tempos vazios. Ficam apenas notas positivas para Guy Pearce e Amy Ryan, que dão uma interpretação respeitosa apesar dos defeitos do filme, bem como para uma Felicity Jones que parece ser capaz de dar muito mais quando lhe derem um papel devidamente exigente. Uma estrelaUma estrela Carlos Antunes



300: O Início de um Império (2014), de 


A apreciação de 300: Rise of an Empire depende em grande parte da satisfação com o original pois principais elementos visuais são os mesmos nesta história que se passa em paralelo com a dos 300 Espartanos. Não havendo o carisma que Gerard Butler impôs há as cenas entre Sullivan Stapleton e Eva Green que são o melhor deste filme (e de ambos). Não havendo as lutas corpo a corpo há os variados confrontos tácticos. Se este fica a perder para o outro é por ter uma história menos focada (Frank Miller ainda não concluiu a BD dedicada a Xerxes...) e alguns efeitos especiais - as cenas de barcos - de qualidade menor. Material para satisfazer que já estava convencido com 300Uma estrelaUma estrela Carlos Antunes



O Céu Sobre os Ombros (2011), de Sérgio Borges


O acompanhamento da câmara a pessoas com vidas bipolarizadas - uma prostituta transexual e ensaísta académica, um membro do Hare Krishna que também é membro de uma claque de futebol e um artista suicida que quer dar um futuro ao seu filho deficiente - acabará sempre por encontrar momentos de uma pungente intimidade. Sobretudo se esses momentos forem orientados por uma intrusão de ficção no documentário. Sem saber onde está a fronteira entre documentário e ficção, todo o filme acaba por se parecer com uma farsa da qual porque essa intimidade não se sabe se é real ou projectada, acabando-se por rejeitá-la. Sobretudo porque o acompanhamento da câmara aos personagens não corre qualquer risco e o filme não consegue demonstrar que a mescla de documentário e ficção possa alcançar um todo representativo de algo mais do que o próprio grupo de pessoas a braços com problemas "existenciais". Uma estrelaUma estrela Carlos Antunes