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terça-feira, 12 de abril de 2016

"Lo Chiamavano Jeeg Robot" vence a 9.ª edição da 8 ½ Festa do Cinema Italiano



O filme Lo Chiamavano Jeeg Robot foi o grande vencedor da nona edição da 8 ½ Festa do Cinema Italiano. Com realização de Gabriele Mainetti, o filme recebeu o Prémio do Júri e o Prémio do Público Canais TVCine & Séries. A história segue um homem que ganha superpoderes e os usa na sua vida marginal, mas tudo muda quando conhece uma fã de banda desenhada japonesa que o compara ao herói Jeeg Robot.

Entretanto o festival continuará em outras localidades, como Cascais (15 a 17 de Abril), Coimbra (18 a 20 de Abril), Porto (21 a 24 de Abril), Elvas (29 e 30 de Abril), Loulé (12 a 14 de Maio), Caldas da Rainha (13 a 15 de Maio), Évora (17 a 19 de Maio), Guimarães (17 a 22 de Maio), Aveiro (8 a 10 de Maio), Maputo (16 a 20 de Junho), Setúbal (11 a 13 de Agosto), Almada (25 e 26 de Setembro, 2 e 16 de Outubro), Beja, Funchal, e mais.

Passatempo 8 ½

sexta-feira, 3 de abril de 2015

"Anime nere" vence oitava edição do 8 ½ Festa do Cinema Italiano


Anime nere (em Portugal, Almas Negras) foi o grande vencedor da oitava edição do 8 ½ Festa do Cinema Italiano. Filme sobre a máfia italiana, desenvolvido entre Milão e uma aldeia montanhosa da Calábria, Africo, um dos lugares onde a ‘ndrangheta, uma das organizações mafiosas mais poderosas do mundo, está mais presente.

O júri do festival atribuiu também uma menção especial ao documentário Le cose belle, que recebeu ainda o Prémio do Público Canais TVCine & Séries.

A oitava edição do festival foi ainda recordista de espectadores e receitas: ultrapassou os dez mil espectadores, o que representa um aumento de 35% em relação à última edição do festival. Até 24 de Abril, o festival continua uma retrospectiva de Sergio Leone, na Cinemateca Portuguesa. De 9 a 12 de Abril, o festival desloca-se até ao Porto; em Évora decorre de 15 a 18 de Abril; nas Caldas da Rainha, de 25 a 27 de Abril, em Loulé, de 1 a 3 de Maio e em Coimbra de 5 a 7 do mesmo mês. Em Junho, a Festa do Cinema Italiano segue para Angola e Moçambique.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

"La mafia uccide solo d'estate" e "The Special Need" vencem a 8 ½ Festa do Cinema Italiano 2014


Pela primeira vez na história da 8 ½ Festa do Cinema Italiano, foram dois os vencedores do certame. La mafia uccide solo d'estate e The Special Need dividiram o prémio porque o júri reconheceu que «apesar de tratarem temáticas e linguagens muito diferentes, são contributos importantes no que diz respeito a questões muito relevantes no contexto social actual».

La mafia uccide solo d'estate segue as tentativas de Arturo para conquistar o coração da sua amada, desenvolvendo-se num contexto histórico muito complexo nas últimas décadas em Itália. Já The Special Need é um documentário que segue a história de um autista que nunca teve relações sexuais e segue em viagem com dois amigos para tentar satisfazer esse desejo.

O Prémio Canais TVCine, votado pelo público, foi atribuído a Zoran, il mio Nipote Scemo. O festival encontra-se agora por Coimbra (21 a 23 de Abril), seguindo para o Porto (de 24 a 27 de Abril), Funchal (8 a 11 de Maio) e Loulé (16 a 18 de Maio).

segunda-feira, 24 de março de 2014

Sétima edição de 8 ½ Festa do Cinema Italiano foca-se na família italiana dos anos 50


A sétima edição do 8 ½ Festa do Cinema Italiano regressa à cidade de Lisboa em Abril deste ano, centrando o seu programa no cinema São Jorge e na Cinemateca Portuguesa, espalhando-se posteriormente pelo país, desde Coimbra e Porto, passando pelo Funchal até ao Loulé. A edição deste ano tenciona expandir-se ainda para outros países lusófonos.

A imagem gráfica desta edição remete para a família italiana, da década de 50, sendo precisamente esse o tema do festival: Família Italiana - La Famiglia. Viva La Libertà será o filme de abertura, com uma paródia sobre o mundo da política italiana, protagonizada pelo actor Toni Servillo. Já a sessão de encerramento será ocupada pela exibição de Il Capitale Umano, de Paolo Virzì, um filme que conecta os destinos de duas famílias, após um trágico acidente na véspera de Natal.

Na programação deste ano destacam-se ainda filmes como Salvo, vencedor do Grande Prémio da Semana da Crítica em Cannes 2013; Zoran, il mio Nipote Scemo, multipremiado no Festival de Veneza 2013, incluindo o prémio da Crítica Internacional; ou The Special Need, um documentário sobre um jovem autista em busca da sua primeira relação sexual.

O festival exibirá ainda Too Much Johnson, célebre filme perdido de Orson Welles, realizado em 1938 e que estreia em parceria com Le Giornate del Cinema Muto e a Cinemateca Portuguesa. Enquanto isso a secção Amarcord fará uma homenagem a Mario Bava, contando com a presença do seu filho Lamberto Bava, assim como com o realizador Daniele Gaglianone, o músico Vinicio Capossela, o produtor e cineasta Gianluca Arcopinto e o vice-director da Cineteca del Friuli di Gemona, Lorenzo Codelli.

Em Lisboa,  8 ½ Festa do Cinema Italiano decorre de 10 a 18 de Abril; passando depois por Coimbra (21 a 23 de Abril), Porto (de 24 a 27 de Abril), Funchal (8 a 11 de Maio) e Loulé (16 a 18 de Maio). A programação oficial e completa pode ser consultada no sítio oficial.

sexta-feira, 29 de março de 2013

"Io Sono Li" vence Festa do Cinema Italiano 2013


Vencedor do prémio LUX 2012, o filme Io Sono Li foi o vencedor da competição de 8 ½ Festa do Cinema Italiano 2013. O filme de Andrea Segre recebeu o Prémio Oficial Rottapharm Madaus, mas também o Prémio do Público. A história segue a amizade entre uma mulher chinesa e um pescador que veio da Jugoslávia para Itália há muitos anos atrás. A associação Il Sorpasso irá distribuir o filme nas salas portuguesas, em data a designar.

Já o actor Valerio Mastandrea recebeu uma Menção Honrosa do Júri pela sua interpretação no filme Gli Equilibristi, de Ivano Matteo.

Agora o festival terá diversas extensões nacionais: em Coimbra (de 2 a 5 de Abril), no Porto (de 4 a 7 de Abril), no Funchal (de 11 a 14 de Abril) e em Loulé (de 19 a 21 de Abril). De 6 a 9 de Junho, existirá ainda uma extensão na cidade de Luanda.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Corpo Celeste, por Tiago Ramos



Título original: Corpo Celeste (2011)
Realização: Alice Rohrwacher
Argumento: Alice Rohrwacher
Elenco: Salvatore Cantalupo, Anita Caprioli, Renato Carpentieri e Yle Vianello

Do ponto de vista do espectador português há uma interessante visão em Corpo Celeste que é a da fácil identificação com a história. Principalmente porque o interior rural de Itália não é assim tão diferente do interior rural em Portugal, também ele muitas vezes religioso, com fortes ideias pré-concebidas e estereótipos e com uma maior intrusão dos habitantes das aldeias na vida dos moradores. Não que esse seja o destaque do filme, mas a sua contextualização em termos de ambiente é de facto importante para o desenrolar dos acontecimentos e beneficiam em muito a sua visualização. Porém aquilo que poderia ter sido apenas um retrato crítico de uma sociedade religiosa, tornou-se às mãos da estreante Alice Rohrwacher muito mais que isso: o retrato do crescimento e auto-descoberta de uma jovem protagonista de apenas treze anos. O corpo de Cristo que aquela Igreja quer orgulhosa e ostensivamente mostrar e que tanto a protagonista teima em perceber o seu significado, é também ele o corpo em mudança de uma jovem, presa a um corpo que não conhece, presa a um olhar alheio e rígido que não compreende. Uma jovem que não compreende o que está a sentir e que inicia a sua própria via sacra em plena auto-estrada, uma viagem de auto-descoberta que é também ela a revelação da hipocrisia social da comunidade em que vive.

O olhar de Alice Rohrwacher faz recordar o cinema de Lucrecia Martel na sua composição social, desconfortável e subtil. Assumindo um tom que inicialmente adquire uns ecos de comicidade não-propositada que vai subindo gradualmente num clima altamente tenso, perpetuado pelo olhar da jovem Yle Vianello, que mesmo sem grandes diálogos, carrega em si e num olhar quase opaco, toda a confusão do início da adolescência. À sua volta, o que facilmente para uns poderá parecer um ataque à religião católica, é menos isso que o questionamento de uma jovem perante aquilo que lhe é apresentado como dogma. Tanto no sentido religioso como no sentido físico. E aquela cerimónia de comunhão que lhe é imposta ocorre na realidade antes de acontecer no sentido literal: ocorre quando simbolicamente sente a libertação do seu corpo de menina, ocorre quando percebe que até Jesus era chamado de louco.

Corpo Celeste é um filme menos literal e mais simbólico do que aparenta. É na realidade um conto sobre a adolescência e o crescimento, visto pelo olhar de quem o sente e de quem o passa. É também o suficiente para ficarmos com uma jovem realizadora debaixo de olho.


Classificação:

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Este é o Meu Lugar, por Tiago Ramos



Título original: This Must Be the Place (2011)
Realização: Paolo Sorrentino

O que mais me deixa curioso neste novo trabalho do realizador italiano Paolo Sorrentino é a forma como demonstra ser tão polarizador de opiniões, tal como foi evidenciado por exemplo nas exibições nacionais em festivais (Fantasporto e 8 ½  Festa do Cinema Italiano) com um burburinho no final da sessão entre divisões sobre quem não gostou absolutamente nada do filme e tantas outras a transmitirem o seu entusiasmo pelo filme. Não que não seja algo habitual no cinema, a diversidade de opiniões, mas neste Este é o Meu Lugar pareceu-me deveras mais evidente, sem perceber ao certo o motivo.

Reacções à parte, Este é o Meu Lugar é uma drama existencial com toques de uma inusitada e bizarra comédia assente especialmente no seu protagonista: uma estrela de rock caída no esquecimento, visualmente inspirada em Robert Smith, dos The Cure. Uma composição de Sean Penn que, longe de ser o seu melhor trabalho, é com certeza um dos mais estranhos e interessantes que teremos oportunidade de ver este ano. Um desempenho que se inicia de uma forma confrangedora, mas que rapidamente ganha coração e consistência, no papel de um homem que busca a sua própria identidade enquanto parte em busca da memória do seu pai. É esse o mote para o filme que acaba por subtilmente se desenvolver num road movie que culmina numa previsível viagem pessoal de crescimento do protagonista. Um road movie que serve também de justificação para uma primeira incursão do realizador italiano no mercado norte-americano e que permite também evidenciar a sua belíssima mise-en-scène bem como a fotografia de Luca Bigazzi. Uma jornada feita ao som da banda sonora de David Byrne - que também surge no filme em nome próprio - e Will Oldham.

Curiosamente é também quando essa viagem começa que o filme ganha forma de um nostálgico marasmo que ameaçava abater-se de início e que só parecia salvar-se graças ao desempenho de Frances McDormand. É aí que o argumento ganha contornos deliciosos numa história que mesmo bizarra e por vezes demasiado rebuscada contraria-se com referências culturais e subtis, num tom delicado e emotivo. E embora o seu final caia em grande previsibilidade, Este é o Meu Lugar deixará um sorriso nos lábios de tão evidente, mas afinal eficaz fórmula, de redenção e busca pessoal.


Classificação:

terça-feira, 24 de abril de 2012

"Là-Bas" vence quinta edição de 8½ Festa do Cinema Italiano


O filme Là-Bas foi o vencedor da secção competitiva da quinta edição de 8 ½ Festa do Cinema Italiano que terminou na passada quinta-feira em Lisboa. Realizado por Guido Lombardi, recupera a história verídica do massacre de Castel Volturno ambientada à chegada de imigrantes africanos a Itália.

Já o Prémio do Público foi atribuído ao filme Scialla!, de Francesco Bruni, uma comédia centrada na relação forçada entre um professor melancólico e um adolescente rebelde, após descobrir que este é seu filho.

Entretanto o festival terá extensões no Funchal (26 a 29 de Abril), Coimbra (1 a 3 de Maio), Guimarães (4 a 6 de Maio) e Porto (10 a 13 de Maio).

domingo, 15 de abril de 2012

Scialla!, por Carlos Antunes


Título original: Scialla!
Realização: Francesco Bruni
Argumento: Francesco Bruni
Elenco: Fabrizio Bentivoglio, Filippo ScicchitanoBarbora Bobulova e Vinicio Marchioni

Há uma cena durante os créditos finais que é a síntese das razões pelas quais este filme existe. Nela, um criminoso cujo gosto pelas Artes lhe vale o cognome d' "O Poeta", tenta convencer o seu biógrafo a reescrever a história da sua detenção com uma perseguição e muitos tiros pois isso fará com que o filme - para o qual ele já vendeu os direitos do livro - venda mais bilhetes entre os jovens que adoram sonhar com o glamour de uma vida de crime.
O biógrafo, antigo professor do preso e a sua maior influência no gosto por François Truffaut ou Pier Paolo Pasolini, levanta-se e sai dizendo "Não, não, não!".
Afinal de contas este é o mesmo homem que ao longo do filme vimos reerguer-se como ser humano em boa parte devido à descoberta de ser o pai de um adolescente cujo maior sonho é ser revendedor de droga - e de vir a emendar a vida deste.
Assim nos diz o filme que o seu propósito não é dar a quem constitui a maioria do público pagante aquilo que se julga que este quer, mas antes promover alguns valores sociais e culturais que valiam no passado e que devem continuar a valer.
A história é suficientemente simples para se perceber de início que entre o confiante mas desinteressado rapaz de 15 anos e o velho escritor desanimado que descobre que é seu pai acabará por ser formar uma relação mais forte do que aquela que muitos pais e filhos conseguem criar vivendo juntos desde o nascimento destes últimos.
E, pelo caminho, conseguirão renascer como indivíduos nos aspectos do que pareciam já ter rejeitado em definitivo: afecto(s) para o pai e conhecimento para o filho.
O filme faz-se de comédia muito bem escrita, valorizada pela forma como consegue fazê-la a partir de temas que pareceriam impossíveis de juntar.
As melhores relações são também as que proporcionam os melhores momentos dessa comédia e fazem-se com temas que não poderiam estar mais distantes um do outro. Por um lado Bruno tem de ensinar a Luca os extraordinários valores de que fala a Ilíada, por outro tem de escrever a biografia de uma antiga estrela pornográfica sem sequer entender nada do vocabulário associado ao género.
Também não será por acaso que com o primeiro desses textos ele não consegue mais do que levar o jovem a usar comparações futebolísticas e a rir-se da homossexualidade que imperava na Grécia Antiga, enquanto que à medida que escreve o segundo texto não só consegue ser psicanalisado pela sua interlocutora como ainda descobre que há muito a admirar por detrás de uma escolha de vida como a que tem de descrever.
A escrita é boa, mas resulta melhor entregue a este trio de actores em particular onde há que destacar o estreante Filippo Scicchitano.
Ele consegue incorporar realisticamente o seu amadurecimento ao longo do filme enquanto, ao mesmo tempo, revela a dependência que tem da mãe apesar de se mostrar um independente e arrogante como todos os adolescentes.
A seu lado, o confiante trabalho de Barbora Bobulova é mais discreto mas igualmente agradável, não tornando ridículo nem implausível o seu papel de mãe que fez o que era necessário para criar o filho.
Mas julgo que será impossível não reconhecer que se sai da sala encantado com o estilo que Fabrizio Bentivoglio aplica e em que tenta prevalecer o lado calmo e inspirador da sua personagem numa situação em que está completamente atrapalhado (como parecia já estar para a vida antes de Luca lhe aparecer em casa).
Por isso, a estreia de Francesco Bruni na realização, depois de o ano passado o festival já nos ter mostrado o seu talento como argumentista em La Prima Cosa Bella, deveria ter direito a uma estreia nacional alargada, tão capaz que foi de deixar o público animado.
Até porque a passagem para a cadeira de realizador parece ter sido fácil e deixou a agradável noção de que ele escreveu para si mesmo uma história que lhe toca tal como ele sabe que tocará a todo o público que se não é pai, foi inevitavelmente filho.



Ruggine, por Carlos Antunes


Título original: Ruggine
Realização: Daniele Gaglianone
Argumento: Daniele Gaglianone, Giaime Alonge e Alessandro Scippa
Elenco: Filippo Timi, Stefano Accorsi, Valerio Mastandrea e Valeria Solarino

Os que se preparem para ver este filme, na sua maioria, já terão lido a sinopse que o site do festival disponibiliza.
Não era o meu caso que segui para a sessão atraído por uma única e fortíssima razão, o reencontro com Filippo Timi, fabuloso actor de um fabuloso filme chamado Vincere.
Aliás, acredito cada vez mais em entrar na sala de cinema num estado o mais perto da inocência possível para melhor me relacionar com o filme, deixando-me mover por razões insondáveis e um amor ao cinema que nem delas precisa.
Por isso, no momento em que a direcção do Festival fez a apresentação do filme ressenti-me que tivessem tanta determinação em convencer o público que enchia o Nimas da qualidade da interpretação do actor que aqui fazia mais um vilão e da visão com que o realizador combinava a fábula ao tratamento de um tema tão dolorosamente realista como é a pedofilia.
Esses são os aspectos que cada um está ali para descobrir por si próprio, esse deve ser o direito que o público tem de julgar a moralidade de uma personagem ou entender um filme de acordo com intenções melhor ou pior concretizadas.
No meu caso a revelação da temática  custou-me que, durante o filme, tivesse de apreciar à distância da revisão intelectual um efeito sublime que o filme deveria alcançar a um nível emocional.
O filme atira-se ao espectador com a assombração ambiente que se espera de um filme de terror. O primeiro acto que vemos, que faz temer o que está a chegar ao seio daquele mundo da infância alegre entre as dificuldades, é um acto de bondade. A assistência a uma bicicleta estragada e uma boleia até casa.
Está tudo no som, mas também na maneira como a figura adulta se move com extremo cuidado como se a sua presença se fosse dissipando contra o cenário. Não lhe vemos logo a cara, por isso, filmado que é à altura dos olhos de uma criança - e logo a sua mão parece monstruosa - ou desfocado contra uma luz inclemente, até que descobrimos que ele é o médico e aí deveríamos sentir-nos na dúvida sobre se afinal poderíamos confiar neste homem (uma razão mais para que não nos tivessem dito que o actor fazia de vilão...).
Timi não interpreta um vilão, exagera a sua figura até ser um verdadeiro monstro - no final do filme vemo-lo bufar - e é pela visão do seu desvairio ainda agarrado à realidade do seu papel naquela comunidade que acreditamos no tom do filme, o de mito a servir de aviso que o aproxima do intuito original dos contos que os irmãos Grimm recolhiam.
Essa interpretação conta mais do que a metáfora (se assim se pode chamar visto que não prima pela subtileza) do dragão negro da história que uma das crianças conta, em adulto, ao seu filho ou do nome de "castelo" que recebe aquela estrutura de sucata onde os miúdos brincam.
A interpretação mantém a ligação interna da realização ambivalente que mostra traços do Neorrealismo tal como acabaria por chegar às mãos de Ettore Scola e de uma exploração visual "artística" que sugere uma ambiência mágica. A combinação é mais eficaz logo ao início numa cena em que o pó dos escombros atravessa um raio de luz e se assemelha ao que uma criança julgaria ser um pó feeérico.
A realização chega a ser extraordinária em ambos os aspectos, sem que isso evite a impossibilidade de unir todos os fios narrativos.Dividido entre os anos 1970 e o presente daquelas crianças, a história não tem precisão no que quer dizer sobre o resultado do encontro com o "Monstro" para as pessoas que têm de continuar a habitar um mundo que se tornou todo ele num perigoso castelo.
As cenas passadas no presente, embora adivinhemos naturalmente que se referem aos três jovens protagonistas da história, parecem ser parte de outro filme que não este e que só no final se tornam eloquentes sobre a solidão desamparada daqueles que perderam a inocência demasiado cedo mas também - ou sobretudo - o pequeno medo com que a maioria sobrevive dia a dia.
Nessa altura aqueles adultos revelam o que, na verdade, descobriram enquanto crianças: que serão poucos os dispostos a aceitar aquilo que eles descobrem.
Afinal à medida que, como crianças, viam o comportamento absurdo e desviante do médico, os adultos reverenciavam-no mesmo contra todas as evidências de que ele não merecia tal benefício.
Daniele Gaglianone ainda demonstra esse fechar de olhos para a realidade mais nociva pontuando o filme com brevíssimos interlúdios a negro onde só o som subsiste. São, a par da repetição de cenas de pontos de vista diferentes, um dos sinais de talento e de vontade para a experimentação do realizador que beneficiaria de ter uma visão mais bem talhada para definir o seu trabalho neste filme.
A sensação com que se fica é a de que essa visão foi prejudicada por uma passagem de livro a filme que não soube abandonar parte do que será muito material original.


domingo, 1 de abril de 2012

8 ½ Festa do Cinema Italiano 2012: Os destaques



8 ½ - Festa do Cinema Italiano regressa este ano para a sua quinta edição a decorrer em Lisboa de 12 a 19 de Abril. O certame terá novamente extensões por todo o país: Funchal (26 a 29 de Abril), Coimbra (1 a 3 de Maio), Guimarães (4 a 6 de Maio) e Porto (10 a 13 de Maio). O Split Screen apresenta de seguida os destaques da programação desta edição do festival:

Estreado no Festival de Cannes 2011 e vencedor do prémio de Melhor Estreia no Festival de Gotemburgo 2012, Corpo Celeste centra-se numa jovem de treze anos após dez anos na Suíça regressa ao sul da Itália com a sua mãe e irmã mais velha, enquanto luta por encontrar o seu lugar numa cidade estranha e entre o catecismo da Igreja Católica.

Là-bas (2011), de Guido Lombardi
Vencedor do prémio Luigi De Laurentiis no Festival de Veneza 2011, recupera a história verídica do massacre de Castel Volturno, ambientada à chegada de imigrantes africanos a Itália (que tem regras muito rígidas em relação à imigração). Essencialmente com recurso a não-actores, o filme é um drama sólido e cru que funde ficção e realidade.

Selecção oficial do Festival de Roma 2011, segue a história de uma mulher dedicada a encontrar novas estratégias para a gestão de recursos humanos numa empresa onde mantém uma relação cada vez mais decadente com o presidente. Com uma relação conflituosa com a família, tem dificuldades em tomar as rédeas da sua vida.
Adaptado do romance homónimo de Stefano Massaron, Ruggine alterna entre a infância e o presente de três pessoas com graves feridas psicológicas derivadas de um horrendo evento comum ainda em crianças. O filme é protagonizado por Filippo Timi (Vincere), Stefano Accorsi (The Last Kiss) e Valerio Mastandrea (The First Beautiful Thing).

Scialla! (2011), de Francesco Bruni
Comédia centrada na relação forçada entre um professor melancólico e um adolescente rebelde, após descobrir que este é seu filho. Protagonizado por Fabrizio Bentivoglio e Filippo Scicchitano, o filme venceu o prémio Controcampo no Festival de Veneza 2011.

Os gémeos De Serio apresentam um interessante drama da imigração interna em Itália nos anos 50 e o contraste com o país contemporâneo que assistiu à ascensão de uma nova escravidão e novos pobres. Na história seguimos uma jovem clandestina que vive nas imediações de um bairro de lata e que ao tentar fugir da sua situação encontra um velho doente e misterioso. Vencedor do prémio de Melhor Realizador no Festival de Marraquexe 2011.

This Must Be the Place (2011), de Paolo Sorrentino

Depois de Il Divo (2008), o napolitano Paolo Sorrentino traz uma comédia dramática que segue uma antiga estrela de rock (inspirada em Robert Smith dos The Cure) que tenta se reconciliar com o progenitor, horas antes da sua morte. Protagonizado por Sean Penn (Milk), o filme conta ainda com Frances McDormand (Burn After Reading) e Judd Hirsch (Ordinary People). This Must Be The Place venceu o prémio do Júri Ecuménico no Festival de Cannes 2011 e foi o filme de encerramento do Fantasporto 2012.

Terraferma (2011), de Emmanuele Crialese
Filme de encerramento do certame, Terraferma segue uma família siciliana e a forma como lida com a chegada de um grupo de imigrantes à ilha. Candidato italiano aos Óscares 2012, venceu três galardões no Festival de Veneza 2011, entre os quais uma Menção Especial do Júri.

Il Primo Uomo (2011), de Gianni Amelio
O filme retrata o regresso do protagonista à Argélia no desejo de reencontrar a memória do seu pai morto na Primeira Guerra Mundial. Uma tocante adaptação de O Primeiro Homem, de Albert Camus cujo manuscrito original e incompleto foi reconstruído pela sua filha em 1994. Vencedor do prémio FIPRESCI no Festival de Toronto 2011.

Il Villagio di Cartone (2011), de Ermanno Olmi
Na história, seguimos um padre impotente à sua paróquia, que está sempre fechada ao público. Quando um grupo de imigrantes ilegais se refugiam ali, o padre decide conceder-lhes asilo e protegê-los da melhor maneira possível. O filme conta com Michael Lonsdale (Des hommes et des dieux) como protagonista.

Vallanzasca - Gli angeli del male (2011), de Michele Placido
Biopic sobre o ladrão de bancos milanês Renato Vallanzasca, poderosa figura da máfia milanesa durante os anos 70, visto como uma celebridade local. Este é interpretado por Kim Rossi Stuart (Romanzo criminale). O filme foi nomeado para oito prémios David di Donatello e venceu três prémios do sindicato de jornalistas de cinema italianos (Melhor Actor, Melhor Montagem e Melhor Banda Sonora).


Mais informações sobre o programa completo podem ser consultadas no sítio oficial.

quarta-feira, 14 de março de 2012

"Terraferma" e "Corpo Celeste" na quinta edição de 8 ½ Festa do Cinema Italiano


8 ½ - Festa do Cinema Italiano regressa este ano para a sua quinta edição a decorrer em Lisboa de 12 a 19 de Abril. O certame terá novamente extensões por todo o país: Funchal (26 a 29 de Abril), Coimbra (1 a 3 de Maio), Guimarães (4 a 6 de Maio) e Porto (10 a 13 de Maio).

Ainda não foram reveladas muitas informações, mas já se sabe que o realizador italiano Paolo Sorrentino estará presente em Lisboa para apresentar This Must Be The Place, vencedor do Prémio do Júri Ecuménico no Festival de Cannes 2011 e que foi exibido na sessão de encerramento do Fantasporto 2012.


Esta edição exibirá ainda Terraferma, de Emanuele Crialese, vencedor do Prémio Especial do Júri, Prémio UNICEF e Prémio Pasinetti no Festival de Veneza 2011 e candidato italiano aos Óscares de Melhor Filme Estrangeiro 2012; Corpo Celeste, de Alice Rohrwacher, vencedor do prémio de Melhor Novo Realizador 2011 entregue pelo Sindicato de Jornalistas Italianos de Cinema e Il Villaggio di Cartone, de Emanno Olmi, que fez parte da selecção oficial do Festival de Veneza 2011.

A quinta edição aproveitará ainda para homenagear Emanno Olmi na sua secção Amarcord, em parceria com Guimarães 2012 Capital Europeia da Cultura e a Cinemateca Portuguesa. A associação Il Sorpasso irá lançar uma publicação sobre o cineasta bem como a sua filmografia, para adquirir durante o festival.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

A Solidão dos Números Primos, por Carlos Antunes


Título original: La solitudine dei numeri primi
Realização: Saverio Costanzo
Argumento: Paolo Giordano e Saverio Costanzo
Elenco: Alba Rohrwacher, Luca Marinelli e Isabella Rossellini

Soube desta adaptação em Outubro passado, ao passar por Veneza. Um poster com o título e um fundo a preto onde se viam alguma folhas fora o suficiente para me intrigar.
Mas também para me confundir, pois este não é um material evidente para ser adaptado ao cinema.


O livro lido já há algum tempo ficou comigo pelos silêncios, pelas ausências que diziam tanto sem nomear nada.
De facto é da solidão e dos desencontros que o livro fala. De um vazio ocasional irreparável senão pela beleza de si próprio.
O filme vagueia entre esses momentos delicados e uma opressão sonora, um trabalho exagerado de manipulação emocional que não se ajusta.


Há algumas belas imagens, compostas com grande cuidado, mas são visões de um cinema à procura de afirmação, de identidade e, sobretudo, de maturidade.
Um cinema que não precisasse de abusar de tecnicismos e pudesse, por ser confiante em si mesmo, dar-se ao luxo de olhar o vazio e extrair dele uma visão.
Tal só é feito já mesmo no final, numa ousadia que não o chega a ser, porque já só vem dar uma nota de belo decaimento à história que termina.


A compensação disto está em Alba Rohrwacher, uma cara (primeiro) e uma presença (depois) cada vez mais essencial entre o cinema italiano que surge entre nós. O seu esforço é preciso e nada aparente. O peso que perdeu para o papel não diminui por um segundo a sua presença.
Já Luca Marinelli está lá como se não estivesse. O seu papel é, em parte, isso mesmo. Mas o actor estreante não tem com que preencher a sua ausência. A escolha foi desacertada para contraponto de Alba Rohrwacher.


Já as suas versões jovens primam pelo inverso. Vittorio Lomartire é um Mattia intenso de olhar e alma ausente enquanto Arianna Nastro é apenas um corpo abandonado.
O filme esvazia-se onde não deve e não preenche os espaços correctos. E, ainda assim, tem os seus méritos e é muitas vezes mais do que agradável de seguir.



La Prima Cosa Bella, por Carlos Antunes


Título original: La prima cosa bella
Realização: Paolo Virzì
Argumento: Paolo Virzì , Francesco Bruni e Francesco Piccolo
Elenco:
Valerio Mastandrea, Micaela Ramazzotti e Stefania Sandrelli

Eis um filme de memórias, um filme que se lembra e que nos lembra de outra década e de outro cinema.
Memórias de uma Itália que já sabíamos ser cinematográfica e de um cinema que já não sabíamos se ainda se fazia (por lá).
Uma Itália de 1970 de mulheres que foram mães mas continuam a encher de beleza a sua terreola e que preenchem o cinema de Dino Risi.


Nessa década, vista de permeio com o tempo presente, há uma Micaela Ramazzotti que é melodramática por si só, dividida entre os filhos e uma paixão - ora por um homem, ora pelo cinema, ora pela própria vida.
Exuberante como bela Mãe Italiana, que no cinema foi sempre extraordinária, e que por isso acreditamos que deve ser modelada por uma imensa quantidade delas que existem na vida real e que, mais cedo ou mais tarde, acabam por ver os seus filhos usar o cinema como sessões de psicanálise para a sua infância.


Mas um cinema de memórias sofre um esgotamento, de vermos o que já sabíamos antes.
O filme ousa quando passa por 2010, quando se foca nos filhos dessa mulher tão falhada quanto era bela.
As suas conquistas, concretizadas ou platónicas, só têm comparação nos problemas que legou ao seu filho.
Ele, sociopata e misantropo, um neurótico sentimental apesar de tudo. Queria ter sido o homem da casa mas só recupera a mãe no fim da vida dela.
Porque a infância só é feliz a posteriori, quando já é memória como a própria fotografia do filme é bela quando retrocede.


Entre o passdo e o presente, o esquema do filme é bem doseado e resulta.
Mas do presente vem o calmo jogo dialogante, muito inspirado, entre Valerio Mastandrea e Claudia Pandolfi, os actores que representam os filhos já adultos da mulher que outrora conquistou o olhar de todos.
A memória só chega até um certo ponto, depois é uma realidade a acontecer em frente aos nossos olhos que nos conquista.
Por aí, por nos puxar ao passado da nossa relação com o cinema italiano e lançar-nos depois em frente é que La Prima Cosa Bella resulta tão bem.



segunda-feira, 25 de abril de 2011

"La pecora nera" vence 4.ª edição de 8 ½ Festa do Cinema Italiano



O filme La pecora nera, de Ascanio Celestini, foi o vencedor da secção competitiva do festival 8 ½ Festa do Cinema Italiano, que terminou na passada quinta-feira em Lisboa. No filme segue-se a história de Nicola e os seus trinta e cinco anos de manicómio, num trabalho gerado por três anos de pesquisa de Ascanio Celestini que produz, escreve, realiza e protagoniza o filme.

O festival atribuiu ainda uma menção honrosa ao filme Notizie degli scavi, de Emidio Greco.

Esta é a segunda vez que o festival atribui distinções aos filmes exibidos, visto que nas duas primeiras edições funcionava apenas como uma mostra de cinema italiano. A quarta edição de 8 ½ Festa do Cinema Italiano continuará agora em Coimbra (de 27 a 29 de Abril), no Porto (de 29 de Abril a 01 de Maio) e no Funchal (de 5 a 8 de Maio). A programação das extensões do festival pode ser consultada no sítio oficial.