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terça-feira, 1 de maio de 2018

An Elephant Sitting Still, por Carlos Antunes



Título original: Da xiang xi di er zuo
Realização: Hu Bo
Argumento: -
Elenco: Yu ZhangYuchang PengUvin Wang


Quatro horas é duração de épico (e é já a segunda vez que as obras que chegam ao IndieLisboa da China me obrigam a começar um texto desta forma).
Épico é o que An Elephant Sitting Still é, mesmo avançando por uma intimidade permanente com os seus personagens.
Quatro personagens que vão percorrendo a espiral da vida de uma cidade no Norte da China num movimento que os encaminha para o confronto e que se prepara para os prender em conjunto.
A cidade, que se conhece espreitando por cima do ombro dos personagens, é um cenário industrial que perdeu a pouca atracção que alguma vez terá tido.
Não se trata de uma redoma, é uma ruína encerrando-se sobre si mesma, onde até o liceu está prestes a fechar.
Um cenário que se infiltra na imagem só o suficiente para conectar as histórias. Permanece um pouco fora de foco e com uma presença parcial que se cola aos personagens.
Percebemo-la árida e de uma pequenez aflitiva. O sentimento de desistência a passar-se, irremediável, aos personagens.
A cidade como retrato da China contemporânea a meio caminho entre o antigo e o novo modelo económico. Uma China a deixar muitos para trás.
Esse é um retrato complementar, importante no seu somatório para situar as particularidades da história, só que com a suficiente fragmentação visual para transmitir universalidade.
O tempo é para os personagens, quase sempre filmados em planos apertados e durante longos travellings.
Tempo que eles gastam em deambulação. Só parte dela é em jeito de fuga à violência que se vai acumulando ao longo daquele dia único que o filme está a acompanhar.
O restante da deambulação parece ser uma necessidade subconsciente de procurar um ponto aonde chegar mesmo que todos os personagens saibam bem que naquela cidade não há alternativa de acolhimento.
Daí que todos os personagens se comecem a render a uma história que eles vão empolando até à mitificação, único abrigo que têm.
Mesmo esse mito para o qual correm é um caso do fantástico criado pelo abatimento. Um elefante que no Jardim Zoológico se limita a permanecer sentado.
Recusando reconhecer a presença dos que o visitam e deixando a vida deslizar para o desaparecimento.
Os personagens talvez procurem na natureza dos outros animais uma confirmação de que as suas existências não são absurdas.
Afinal eles são todos pessoas desencantadas, cumprindo - em total relutância - com um conjunto de obrigações. Sociais apenas no sentido em que são devidas a outros.
Defesas de honra alheia que descambam em violência. Vinganças mortais a pedido da família. Relações amorosas para provocação da raiva maternal.
Os personagens auxiliam a cidade na condenação à clausura da desolação emocional. Daí o seu escape em direcção a um lugar que, quando o filme termina, parece ser impossível de alcançar.
Nenhum deles pode escapar à percepção de que o mundo é todo ele como a cidade de onde partiram. Ou à rota de colisão em que as escolhas de cada um os colocou.
Resta encontrar um local e tirar proveito da mais simples e inútil das tarefas. Um pequeno jogo que permita afastar a consciência de que a vida é desgraça em permanência.
O filme não é um caso de extensão do abatimento. O tempo que é dado passar com os personagens permite conhecê-los de forma a ganhar-lhes ternura.
A construção da intimidade entre personagens e público traz a capacidade para compreender e, até, a permissão para julgar os seus passos.
O tempo que lhes é oferecido pelo filme torna-os reais, não materializações de ideias ou tracejados de uma narrativa a encaminhar-se para o desenlace.
Há investimento neles, um compromisso, que permite a estranheza de algumas emoções fora de tom perante a fuga que é desistência que é tristeza acumulada.
Só se hesita perante An Elephant Sitting Still nalguns momentos em que a montagem parece repetir-se, não economizando os pontos de vista de uma mesma situação como faz a maior parte do empo.
São momentos em que há um jogo de antecipação do inevitável destino, em que Hu Bo parece ter desafiado as suas regras de percursos delineados com precisão.
Não macula o filme, um trabalho de construção meticulosa e ponderada da primeira imagem até ao último som.
Num épico é possível encontrar uma pequena hesitação na estrutura grandiosa. Uma imperfeição para sublinhar a grandeza do que se viu.
Ou algo em que ficar a pensar em vez de tentar perceber como esta obra única de Hu Bo reflectiama sua própria visão do mundo.




quinta-feira, 29 de junho de 2017

Review: Rupaul's Drag Race - Temporada 9

Por Joaquim Silva.

"When Love Takes Over, You Know You Can't Deny"

Neste momento, já todos devem estar familiarizados com o fenómeno da cultura LGBT internacional RuPaul's Drag Race - um reality show em que um grupo de concorrentes, drag queens, atua numa série de desafios pelo direito ao título de America's Next Drag Superstar (relativamente aproximado do ainda mais popular America's Next Top Model).

Tipicamente, não me debruço sobre programas televisivos não roteirizados. Tecnicamente, RuPaul's Drag Race é um reality show, de natureza muito pouco scriptada (suspendamos a descrença, por uns momentos, e acreditemos). Assim, importa ressalvar: RuPaul's Drag Race é um fenómeno de popularidade, e isso sim justifica uma crónica de opinião.

Desde a sua estreia, em 2007, transmitida pela LogoTV (canal exclusivo dos EUA) que RuPaul's Drag Race apelou a um segmento específico de público. No entanto, a sua nona temporada foi transmitida pelo canal VH1, contou com o episódio mais visto de sempre (Oh My Gaga - episódio 1) e mais uma vez sofreu uma metamorfose artística e de storytelling. Os seus episódios consistiam numa fórmula mais ou menos constante: mini-challenge, main challenge, runway, lipsync for your life. Alguns desafios, como o Snatch Game, ou o Reading is Fundamental, são recorrentes em todas as temporadas e esperados ansiosamente pelos fãs do formato.

Mais do que um showcase de Drag Queens, o programa dá uma plataforma para a discussão de assuntos de interesse da comunidade LGBT, com uma leveza séria que só pessoas do meio artístico com maior expressão no mundo homossexual conseguem imprimir. Desde as pageant queens, às shady queens, às comic queens, até àquelas que ainda estão a descobrir a sua identidade (looking at you, Aja), o programa conta com um elemento chave que une todas estas personagens: a luta. Pela identidade, seja de género, de expressão, artística ou simplesmente o direito à existência.

Contudo, o que de mais impressionante existiu na temporada 9 foram as concorrentes: Charlie Hides, a mais velha participante de sempre, com 52 anos; Trinity Taylor, a maior surpresa da herstory; Shea Coulée, dançarina exímia e sempre preparada; Aja e Valentina, duas front-runners simultaneamente amadas e odiadas pelo público, que protagonizaram os dois momentos mais memoráveis dos episódios regulares ("You're perfect, you're beautiful" | Untucked ep 2) e o momento mais tenso de sempre no lipsync for your life ("maskgate" | Episódio 7).

O episódio final, com a coroação, criou a sua própria controvérsia: através de um modelo de morte súbita por lipsync, RuPaul criou intriga, expectativa, interesse e surpresa. Sasha Velour, uma das concorrentes com o histórico mais consistente, acabaria por gravar para sempre o seu nome nas páginas da história com as suas performances impressionantes de duas músicas do ícone Whitney Houston.

Assim, concorde-se ou não, Sasha Velour mereceu indubitavelmente a vitória na corrida, e torna-se legitimamente America's Next Drag Superstar. Com uma fórmula renovada, com algumas falhas mas acima de tudo com passagens inesquecíveis, RuPaul's Drag Race é uma aposta ganha, tanto do criador, RuPaul Charles, como da VH1, como de todos que um dia duvidaram que a cultura LGBT pudesse ter tanta expressão, importância e relevância na sociedade como hoje a vemos.



VH1

Temporada 9

domingo, 22 de janeiro de 2017

Manchester by the Sea, por Tiago Ramos


Título original: Manchester by the Sea (2016)
Realização: Kenneth Lonergan

A lente de Kenneth Lonergan movimenta-se em redor da personagem de Lee como se obedecesse a um princípio geométrico da dor. São padrões, rotinas, deambulações e sobretudo expressões de apatia, que movimentam a personagem em redor de um fosso muito seu, que embora ainda não conheçamos, já conseguimos antever. Lee está morto por dentro. Enquanto deita móveis velhos de outros ao lixo, desentope sanitas e conserta canalização, os outros falam. Falam e muito, sobre a sua vida, a dos outros, as suas expectativas, Lee é um faz-tudo, mas podia ser também um psicólogo, não fosse ele estar tão absorto na sua própria dor, que em seu redor tudo lhe é aparentemente alheio.

Casey Affleck faz uma construção poderosa e até desconcertante da personagem de Lee. Sufocante e até deprimente, mas chega a ser, por vezes, de tão marginal aos princípios da sociedade que se tornou, difícil ao espectador não esboçar um sorriso. Um sorriso ou até um riso nervoso, do desconcertante que é observar a figura deste homem simples, consumido por uma dor avassaladora, que é ao mesmo tempo a sua razão de viver. O espectador ri porque se sente constrangido, porque aquelas reacções extremas, são simultaneamente tão distantes quanto próximas.

Também porque dentro de todo aquele cinzentismo, há lugar para o coração. Mas é também aí nesses pequenos ensaios de redenção, que a narrativa tende a cair num excesso de melodrama. Dentro do Inverno profundo de Manchester, há também aquela ideia poética de afirmar que mesmo no cenário mais negrume há tempo para uma segunda oportunidade. E por mais que nos possamos identificar com isso, é aí que o filme perde, a espaços, por se refugiar em subterfúgios do drama que não necessitava.

Ainda assim, entre tantos ensaios de redenção, Manchester by the Sea nunca chega a ser um filme sobre tal. É sim, uma história crua e dura (aqueles minutos de confronto entre Lee  e Randi são extraordinários) sobre o cinzentismo da vida e sobre como, apesar de tudo, há dores na vida que são inultrapassáveis. Nem sempre há finais felizes.


Classificação:

sábado, 7 de maio de 2016

Jia, por Carlos Antunes



Título original: Jia
Realização: Liu Shumin
Argumento: Liu Shumin
Elenco: Shoufang Deng, Lijie Liu, Xiaomin Liu


Cinco horas é duração de um épico. Pese embora a ausência de uma aventura de grande escala, Jia é esse épico.
Há uma viagem, uma singela visita de um velho casal aos seus filhos, os dois que já se casaram e fazem as suas vidas em grandes cidades.
Há uma missão, o casal pretende pedir auxílio financeiro para a sua outra filha, que precisa de remodelar uma casa para deixar (de novo) de morar com eles.
O que ocupa tantos minutos é a preparação desse desenlace, o reestabelecer da relação entre duas ou até três gerações de uma mesma família para que a pergunta possa ser feita.
Não é um confronto mas é certamente um jogo de paciência entre os personagens que, com as suas tão diferentes características, estão também a expor um retrato abrangente da China que tende a estar menos retratada nos filmes que vemos por cá.
Uma China na vertigem da ascensão social e da afirmação económica e não o país da população esquecida (vale a pena recordar Três Irmãs).
Nesta obra a actualidade chegou em força e pela presença de Deng e Liu descobre-se que o novo-riquismo de Fucheu ou a enormidade de Xangai representam uma forma de egoísmo nascido da mudança de cultura.
A necessidade de dar nas vistas da primeira filha, que prefere oferecer prendas caras aos pais a emprestar o dinheiro à irmã, sinaliza a conclusão que se tira quando a visita chega a Xangai e ao filho que se afirma por viver na cosmópole (logo, na aparência do cosmopolismo).
Num apartamento mais exíguo do que o da vila dos seus pais, ele rejeita a ideia de continuar a família, e a realidade é agora idêntica à da cultura ocidental.
A casa tornou-se uma agregação de casulos isolacionistas: cada um fechado no próprio quarto a ver televisão.
Para o filho, aquele é um espaço para estar, com o mínimo de funcionalidade e conforto. Terá de ser o pai a intervir para lhe simplificar a vida e ganhar espaço na cozinha - ainda e sempre o centro de qualquer casa, em qualquer parte do mundo.
A progressão de um lar até uma casa marca a própria cadência das relações entre gerações cujo fosso etário é cada vez maior.
Nisso se vê que a influência de Ozu não está apenas na dinâmica com que Liu Shumin motiva o reencontro de gerações. Está na forma como o realizador entende o espaço da casa.
Um espaço - quando existe! - onde há um eixo que liga as divisões em contínuo porque a casa é o espaço que une as vidas familiares.
A família não cabe toda numa mesma divisão e, por isso, existe em conectada através das portas deixadas abertas e do posicionamento das estruturas essenciais.
Dentro de casa passam-se as cenas mais fascinantes do filme. De tal forma envolvido, o público deixa de dar conta que está perante eventos numa tela.
Diante dos olhos está a realidade, particular àquela família, mas universal pela partilha de atitudes e formas de estar que se reconhecem da vida comum.
Essa sensação nasce dos dois actores centrais, cujas interpretações se tornam comportamentos instintivos de cuja honestidade não temos como duvidar.
Liu Shumin torna ainda mais intenso o conforto deixando correr o tempo dos planos para captar a naturalidade de Deng e Liu.
Os cortes e a montagem viriam dissipar a hipnose de olhas aquelas vidas. Dentro de casa não há ficção.
Tal sensação é importante pelo contraste que cria com os momentos que ocorrem na rua. Nada de peripécias, um deles até de união familiar em torno de um jogo de cartas.
Nas cenas de exteriores a família pode estar, de facto, junta, todos num mesmo enquadramento e não no posicionamento que o realizador, apesar de tal ser quase invisível, tem de preparar para as cenas de interiores.
Por mais belos que sejam alguns destes enquadramentos na rua, são momentos que não devíamos presenciar.
Voyeurismo social, filmado por entre ramos de árvore ou à distância, porque culturalmente não é na rua que aquelas interacções acontecem.
Dentro de casa o espectador pode estar muito mais confortável. Lá é o espaço natural das relações familiares.
O embaraço que se pressente quando a família está na rua faz com que se chegue perto do intransmissível pudor emocional  da cultura asiática.
O que vem tornar mais importante o que se vê dentro de casa, onde afinal a tradição resiste por entre a afirmação da classe média.
A ideia de núcleo familiar é trazida à evidência pelo casal que crê e insiste de forma genuína na preservação do respeito pelos anciãos e pela lealdade fraterna.
Fá-lo de forma simples, intervindo sem ser solicitado, mostrando-se útil em vez de ser colocado à margem.
São os tais gestos naturais - e universais - que neste caso até são mais significativos em Deng, por ser a matriarca. O chegar e colocar o avental para preparar o pequeno-almoço ao genro ou ensinar a nora a cozinhar.
Liu e Deng pela sua viagem unem as restantes vidas no mesmo fio. Essa é a obrigação - e a vontade, por certo - dos pais, pois os filhos devem procurar a sua independência.
O que eles tentam é transmitir uma última réstea de funcionamento comunitário que permita que cada nova família exista, com alguma aproximação, como as que a antecederam.
O filme indicia essa impossibilidade da família resistir como se idealiza, de resistir como é da tradição chinesa.
Culpa do desequilíbrio da chegada da riqueza generalizada para uma parte da população ou pela abertura a um ideário ocidental.
Um desequilíbrio que já está no interior da família de Liu e Deng, eles próprios incapazes de abdicar de alguma dose de ostentação na construção da casa da filha mais velha, mesmo se têm de pedir dinheiro aos restantes filhos.
O final do filme olha para o desequilíbrio mais vasto, fazendo colidir a família que acompanhámos com outra vertente da China.
A de uma classe social que ainda vive receosa e incapaz de lidar com qualquer desvio à normalidade (restritiva) do quotidiano.
O final fala-nos ainda da família, já com a crueldade da dúvida.
Um outro núcleo familiar, bem mais frágil, não mereceu a nossa atenção e acaba por ter de persistir, para lá do âmbito do olhar, com um peso bem maior que só desejamos que não a afligir o elemento mais desprotegido dessa outra família.
Um núcleo familiar que, esse sim, faz recordar os papéis tradicionais, em que uma mulher (fala-se do género, não da maturidade) cozinha e um homem se isola ao fim do dia de traalho.
Uma outra família à beira da tragédia, tão intensamente olhada e esquecida naqueles poucos minutos finais de filme que afecta de forma profunda e quase faz a tragédia que se abateu sobre Liu ou a maravilha de acompanhar a viagem dele e Deng.





segunda-feira, 15 de junho de 2015

É Difícil Ser Um Deus, por Carlos Antunes



Título original: Trudno byt bogom
Realização: 
Argumento: Aleksey GermanSvetlana Karmalita
Elenco: 


Há uma enorme dificuldade em desviar o olhar de É Difícil Ser Um Deus, mesmo quando o filme exige já a resistência do espectador.
Apesar das imagens à nossa frente serem daquilo que se pode considerar o limite do nojo num mundo novo que facilmente confundimos com o nosso próprio passado.
Um mundo assente em lama onde o comportamento dos seus habitantes faz da merda uma matéria quotidiana, enquanto o desejo do sangue se torna impossível de travar.
A Idade Média recriada em exaustivo detalhe e nós lançados sobre ela brusca e inapelavelmente.
A rejeição que o nosso instinto faz de tal mundo é superada pelo seu fascínio decalcado num preto e branco que dá dignidade - e até um certo brilho - às matérias menos nobres.
Dentro deste mundo somos levados por uma espécie de guia, Rumata, que deveria ser um mero observador mas agora batalha por poder depois de ter sido confundido com um deus.
Mais do que por um percurso, somos levados pelos seus instintos e vontades. Pelas decisões que toma a partir da sua posição e que terminam muitas vezes numa violência opressiva e injustificada cujo prémio parece não ser mais do que o deleite na porcaria que fica agarrada a uma bota que pontapeia um traseiro nú.
Os seus movimentos por este mundo que sobrecarrega o ecrã parecem os de uma criatura abrindo uma fístula entre imagem e público.
Ora o olhamos de longe, nós próprios observadores tentando ser objectivos e conter a nossa repulsa, ora estamos tão perto dele que o seu corpo nos ocupa (e disforma) a visão, tentando perceber se é obsessão ou claustrofobia o que então sentimos.
O trabalho de câmara executado por Aleksey German é imersivo, não sendo tal conclusão um imediato elogio.
Na verdade, parecemos estar a seguir um ponto de vista subjectivo de alguém que persegue a aura de Rumata mas é incapaz de a aceitar em pleno.
Apêndice ao pseudo-deus, muitas vezes obrigado a olhá-lo de baixo senão mesmo de um ponto onde se esconde da sua raiva que não poupa sequer um servo que nunca o questiona.
A história que German nos quer contar é relativamente simples, a sua essência retirada dos livros de História onde se repetiu ao longo de séculos.
Afinal o filme era para ser uma metáfora a propósito de Estaline e quanto finalmente foi concluído mais parece um retrato de quem tem agora as rédeas do poder na Rússia.
Só que o realizador não aceita entregá-la de forma fácil, sem nos obrigar primeiro a uma dose de confusão que nos ponha a jeito para a rendição na batalha pelos nossos sentidos que ele travará.
Este filme serve esse propósito de dar a sentir, em meras três horas, as emoções conflituosas que outros vivem décadas a fio.
Com o trabalho sonoro meticuloso e inclemente que, com a câmara manejada sempre fora de qualquer suporte, nos puxa para o meio do mundo onde somos obrigados, em constância, a olhar para algo mais num campo de visão que nunca tem espaços desimpedidos ou, pelo menos, aprumados.
Só mesmo a própria presença de Rumata - servida por um marcante Leonid Yarmolnik - luta pelo nosso olhar com o mundo levado ao ponto de ter verdadeira vida.
Meia dança com a realidade, meia batalha com a consciência, toda ela é o desvario de quem pôde tudo e teve de permitir que a Razão (até dele próprio) fosse destruída pela natural violência do mundo ao seu redor.
Pela sua essência repartida entre a Ficção Científica e a História este é um aviso do Futuro e um retrato do Passado (ou, quem sabe, o seu preciso oposto). Levados ao extremo!
Extremo que torna o filme um desafio tão grande quanto a recompensa que tem para entregar ao público que resistir e persistir.





quinta-feira, 14 de maio de 2015

Mad Max: Estrada da Fúria, por Carlos Antunes



Título original: Mad Max: Fury Road
Realização: George Miller
Argumento: George MillerBrendan McCarthy, Nick Lathouris
Elenco: Tom Hardy, Charlize Theron, Nicholas Hoult


Este é o espectáculo operático de cor, som e, como o título vinca, fúria. O espectáculo operático de cor, som e fúria que esperávamos desde que Stanley Kubrick os criara em A Clockwork Orange.
Vale a pena lembrar que George Miller assumiu que a representação da violência nesse filme de 1971 era uma das fontes de inpiração para Mad Max.
Neste Mad Max: Fury Road há uma suplantação do que Kubrick alcançou outrora, porque passadas todas estas décadas há mais que pode ser alcançado.
Possa George Miller perder em muitos domínios para Kubrick, não será no talento para a composição de cenas de acção.
A forma como estabelece essas cenas tornando-as num movimento em favor mútuo para com a câmara permite-lhe alcançar uma representação que tem tanto de bailado coreografado como de desporto sangrento.
Envolvência e agressão num movimento contínuo de corpos vivos, sejam eles humanos ou mecânicos, pois não há "ser" no filme que não ruja, não lute e não sangre à sua própria maneira.
Cada um deles apreciado pela câmara antes de ser exibido para os olhos do público, cada um deles dignificado pelos efeitos especiais que os servem, numa lógica que contraria a modernidade do aparato fílmico em que todas as peças - até os actores - estão ao serviço da exibição técnica.
E os feitos técnicos do filme são extraordinários, sobretudo atendendo que são na sua maioria alcançados fisicamente e não por uma invenção digital.
Não apenas convincentes, porque incorporados com o restante que foi filmado, parte integrante de uma relação sensorial com o público.
São eles que reforçam a intensidade verídica das cores que explodem no ecrã e que procuram suplantar as restrições do Cinema em relação à Pintura.
George Miller transformou o ecrã numa tela, exaltando as cores calorosas em nome de um apreço civilizacional que se é essencial para quem hoje vê o filme, mais o será para uma civilização que viu ser destruído tudo o resto que era belo. E assim valorizamos esta ideia inversa de como a cor mais viva pode ser a realidade de um mundo pós-apocalíptico, quase sempre reduzido ao cinzento.
Se a acção serve de pinceladas à cor, está também em combate com o som e a música do filme. A edição de som e o conjunto de sonoridades - envolventes composições originais de Junkie XL - batem-se com as imagens para que, no final, estejam ambos elevados a um patamar mais intenso, o da imensidão que esbate as fronteira do espaço à nossa volta.
Até aqui não se tinha visto um filme que merecesse para lá de qualquer dúvida a estafa de enfrentar uma tela IMAX em 3D.
O filme procura ser uma obra de Arte para lá do que já reconhecemos que o Cinema pode ser, no fundo uma síntese de expressões artísticas.
O filme alcança uma saturação dos sentidos que é anunciada pelo rugido dos motores quando o ecrã está a negro mas que só se compreende quando o genérico termina e somos libertados daquele mundo inexorável.
Só que trata-se de uma saturação satisfatória a que nos rendemos sem réstea de pensamento a interromper o fluxo de cor e som; sem que isso signifique que está para lá de um apreço com o cérebro "ligado".
Trata-se de um épico de perseguição automóvel em busca de uma expressão revolucionária para o cinema de grande público que, ao mesmo tempo, proporciona todos os elementos que cumprem com as expectativas do blockbuster. Apenas - e que importante é esta palavra - fazendo-o de forma inteligente.
Há cenas excitantes e momentos de transformação romântica, há invenção visual e uma prevalência da acção sobre a construção dramática.
Isto se olharmos o filme superficialmente, como um bloco mais para integrar o modelo do que tem sido servido.
O filme não necessita de se explicar em demasia, sabendo ser simples na definição do seu universo, auto-explicativo à medida que se desenrola.
Começando com a acção em andamento, esta nunca pára para que os personagens se dêem a explicar.
A dimensão humana - também de espectáculo/luta - coexiste com a da grandeza mecânica, numa variação de escala temporizada que vai também definindo o carácter do que George Miller vislumbra para o futuro da Humanidade.
A descrição de cada personagem está à beira do estereótipo funcional mas com as nuances sábias que lhes dão dimensão e integram os seus papéis de forma credível.
Basta atentar no caso de Nux, um War Boy que muda do lado do tiranismo para o do heroísmo, conduzido por uma aproximação ao amor, sem que tal se deva à beleza superlativa das jovens mulheres que tenta salvar mas à necessidade de uma réstea de esperança que poderá vir do carinho. A fragilidade do servilismo e da juventude num mundo sem perspectivas individuais de futuro.
Caso interessante mas, com todo o apreço pelo personagem de Ncholas Hoult, nunca passará de um apoio a Furiosa e Max, focais numa expressão da visão de George Miller que impacte o público.
Furiosa introduz uma crescente (e surpreendente) dimensão emocional a quem se parece guiar pela determinação cega da violência. A procura de um apoio e de uma identifição sentimental nasce do peso da tarefa hercúlea a que se propôs e que iniciou a solo. Ela carrega a ilusão mantendo-a tão calada quanto um mundo de homens violentos exige e recupera a sua feminilidade por intermédio de outras.
Max, calado e explosivo como os melhores heróis de acção, foi outrora definido na composição original de Mel Gibson mas veio-se transformando neste vagabundo niilista em sintonia com um planeta transformado em restos. Útil ao grupo apesar de guiado sempre por um egoísmo lógico (pelo qual passa a sua incrível capacidade de sobrevivência), ele vai-se integrando com os outros - e começando a torcer por eles, até! - de forma discreta mas quase absoluta.
Contrariando os nomes que lhes são atribuídos, Furiosa pode muito bem ser a única pessoa deste mundo que nos comove apesar de programada para o combate, enquanto (Mad) Max não parece senão o bastião do comportamento são mesmo quando o seu diálogo parece limitado ao seu próprio interior.
As interpretações de Charlize Theron e Tom Hardy são absorventes, capazes de fazer do mínimo de cenas de caracterização matéria muito expressiva. Merecem louvores por fazerem valer o seu trabalho no seio de um filme que poderia deixar apenas memórias sensoriais.
Em conjunto são mais do que uma dupla de protagonistas que valorizam ambos os géneros num mundo violento enquanto se relacionam sem renderem as suas identidades impositivas.
São uma dupla que fala da abrangência e transformação (aparentemente contraditória) da personalidade humana ao longo de um período de dificuldades 
Irreconciliáveis na aparência, são metades de uma existência única que expressa a nossa própria complexidade.
Com eles mantemos uma ligação ao trabalho expressivo de George Miller que impede que Mad Max: Fury Road se transforme num esforço intelectual admirável mas inexpressivo.
Como tal, do que veremos numa sala de cinema, este é e vai permanecer como o espectáculo do ano. Entreguemo-nos a ele - por mais do que uma vez!




quarta-feira, 7 de maio de 2014

Debaixo da Pele, por Tiago Ramos


Título original: Under the Skin (2013)
Realização: Jonathan Glazer

Que dança intoxicante, inebriante e sensual é esta? Que sons extrassensoriais são estes que enervam a mente e contaminam as imagens hipnotizantes que se apresentam diante de nós? Jonathan Glazer trouxe à obra homónima de Michel Faber uma imagem conceptual tão abstraída da ideia original, quanto oblíqua, mas não por isso menos fascinante. Debaixo da Pele abstrai-se das noções convencionais do cinema, para trazer um dos objectos mais interessantes dos últimos tempos. Assente no poder da repetição e dos sons 'altamente sonoros' (perdoem-nos o pleonasmo), o filme faz do rosto e do corpo da sua protagonista (uma Scarlett Johansson estonteante) o centro de um eminente terror, de um maneirismo singular e estranho, de uma ideia conceptual da natureza humana. Aquilo que é experienciado aqui é dificilmente colocado em palavras, porque é de facto um festim visual e sonoro.

Jonathan Glazer, que já tinha trazido até nós duas obras distintas e de certo modo bastante subvalorizadas (nem que seja pelas suas maravilhosas noções de cinema e de estranheza), faz de Debaixo da Pele um verdadeiro extraterrestre. Com uma estética a fazer lembrar a ficção-científica dos anos 70 e 80 - em muito perpetuada pela estrondosa e estridente banda sonora de Mica Levi - o filme ecoa por aqui e ali alguns momentos a fazerem lembrar o cinema de David Lynch ou de Stanley Kubrick. As imagens, essas desafiam a (des)orientação e paciência do espectador, com sequências cadenciadas, repetitivas, como numa dança bizarra e intrusiva que o espectador é levado a observar e participar. Uma dança letal, adversa, dissonante e hostil. Um filme áspero, enigmático e simultaneamente cativante. Uma narrativa que dialoga com muito daquilo que o espectador quiser apreender: a natureza humana, a feminilidade na sociedade contemporânea, as noções do desejo e morte. Uma noção que actua precisamente debaixo da pele, das personagens e do espectador, num movimento incessante, aparentemente aleatório, um sentido de violência estética e sonora, um estranho e esmagador fascínio, uma hipnótica abstracção. Debaixo da Pele permanecerá no cinema como um clássico da ficção-científica contemporânea. Na nossa mente permanecerá como o mais pontiagudo e ressonante objecto dos últimos anos.


Classificação:

sexta-feira, 7 de março de 2014

Semana em Crítica - 27 de Fevereiro

Nebraska (2013), de Alexander Payne


Alexander Payne conseguiu, de forma discreta, surpreender o espectador com um filme que, além de um dos melhores da sua carreira, é também aquele que reúne grande parte dos elementos que o caracterizaram ao longo da sua filmografia. Está lá tudo, o desconforto dramático-cómico, a América rural, a comicidade inadvertida e o sentimentalismo melodramático, com uma narrativa que recorda em muitos aspectos, About Schmidt (2002). E esta aparente ligeireza no seu cinema - que transmite na verdade um poderoso e desconcertante sentimento melancólico - é possível muito graças à fotografia a preto e branco, que integra o filme, não como um artifício decorativo, mas sim como um propósito narrativo, mas também à estrondosa colaboração do seu elenco. E não vale a pena falarmos neste poderoso regresso de Bruce Dern num perfeito encaixe entre personagem e actor envelhecido, neste Will Forte dramático como nunca o tínhamos visto ou até nesta improvável e tão deliciosa personagem de June Squibb. Não vale a pena, porque o seu talento é inegável. Mas também porque este retrato de uma América adormecida, de um homem iludido, num misto entre resiliência e coragem, está também estampada nos rostos da grande maioria dos não-actores que pela tela se dão a conhecer. Aqueles rostos, aquelas opiniões, aquelas atitudes, são reais. Daí que Nebraska não seja uma criação narrativa. É um espelho sentido e trágico-comovente de uma realidade. Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela½ Tiago Ramos

Alexander Payne tem mantido um capital de apreço dentro da indústria do cinema e em boa parte do mundo cinéfilo que os seus filmes depois de Election não têm merecido. Os Oscares que ganhou chegaram-lhe no momento em que os seus filmes se mostravam cada vez mais desinteressantes - e, curiosamente, menos bem escritos. Com Nebraska, também por ter servido para o realizador se opôr à indústria, temos finalmente um filme de Payne a confirmar o potencial de há quinze anos atrás. Estamos perante o filme que Payne quis fazer com About Schmidt e conseguiu apenas até certo ponto, um tratado da velhice num meio que costuma escondê-la desde logo deixando de oferecer trabalho aos actores que ultrapassam uma certa barreira etária. Uma velhice que encontra triste sintonia com o desoladmaneto do espaço (e espaço social) em redor, num filme escrito com tanta consciência quanto sensibilidade. Ainda assim, o filme continua a ter uma certa dose de humor menos apropriado ao ambiente do filme, algo que em 1999 era fonte de irreverência e agora é consequência de alguma imaturidade. Nada que deixe marcas significativas numa história tratada com a fotografia irrepreensível de Phedon Papamichael e a realização sentida e controlada de Alexander Payne. Logo este filme é que não levou nenhum Oscar "para casa", talvez porque não dá às pessoas "reais" uma dose de glamour do " cinema alternativo". Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela Carlos Antunes



Ciclo Interrompido (2012), de 


O trato sensível da câmara de Felix Van Groeningen para com os seus actores é um dos factores que chama a atenção para Ciclo Interrompido, a par da utilização do Bluegrass como tema de importância capital numa história de amor belga. A simpatia que essas duas características merecem não compensa o número de falhas que o filme vai revelando desde cedo. A montagem que descontrói a noção de linha narrativa leva a que a história não consiga estabelecer um momento de ruptura entre construção e destruição da história do casal e que vá, pelo contrário, partindo em demasia a ligação desses momentos à história do terceiro elemento do filme: a filha do casal que sofre de cancro. Mas é a sofreguidão de querer integrar todas as ideias que ocorreram aos argumentistas, e que vai acrescentando elementos supérfulos (a questão religiosa) à essência do drama pessoal, que causa uma estranheza da qual o filme não recupera. Uma estrelaUma estrela Carlos Antunes

Nas nomeações ao Óscar 2014 de Melhor Filme Estrangeiro, o candidato belga acabou por ser ofuscado pela popularidade de La grande bellezza e The Hunt. Contudo, Ciclo Interrompido é uma daquelas discretas, mas valiosas, pérolas que chegam ao mercado de distribuição cinematográfico. Uma mistura entre melodrama, tragédia, romance e musical, o filme tem muito para se tornar um fenómeno de culto (aliás, já o é um pouco por todo o lado). Muito pelas interpretações da sua dupla protagonista, mas também pelo regresso corajoso ao melodrama e pelo recurso à música (interpretada pelos actores, como parte crucial de muitas das cenas) - esta última que se ouve tão bem dentro como fora do filme. Só se limita, por vezes, na narrativa fragmentada que manipula emocionalmente, mas o produto final é tão consistente e cativante que acaba por diminuir a importância dessa falha. Uma estrelaUma estrelaUma estrela½ Tiago Ramos



Um Quente Agosto (2013), de John Wells


Um filme repleto de "estrelas" é (quase) sempre problemático. Isto porque na maioria das vezes se ofuscam entre si ou o espectador passa demasiado tempo a reconhecer os actores por detrás das personagens, em vez de se deixar levar pela narrativa. O mesmo se passa com Um Quente Agosto, com muitos dos actores a terem um papel que ficava melhor entregue a um actor mais desconhecido ou menos reconhecível, não por uma questão de qualidade interpretativa, mas sim pela sua menor relevância e pela sua interferência com a interiorização da história. Ainda assim, há que reconhecer a força e extraordinários desempenhos de Meryl Streep e Julia Roberts, assim como as secundárias Margo Martindale e Julianne Nicholson. O pior é mesmo a realização de John Wells que não soube trazer à história a força visual que ela necessitava (e que só não cai em grande, por força do seu elenco que carrega o filme). Ainda assim, há que notar o tom trágico-cómico, repleto de humor negro, mas também de um melodrama frequentemente inteligente - se bem que talvez seja mais pela força da sua versão teatral, do que por mérito próprio da versão longa-metragem. Uma estrelaUma estrelaUma estrela Tiago Ramos

Um núcleo forte em torno de duas personagens em confronto - e em descoberta de indesejada aproximação - que é, também, o de mentalidades geracionais perante o próprio território americano profundo. As duas actrizes que sustentam esse núcleo merecem destaque e as respectivas nomeações aos Óscares, mas o restante (excelente) elenco parece ter sido escolhido com demasiada ambição para aquilo que o argumento lhes pode proporcionar. À volta de Meryl Streep e Julia Roberts, as personagens tornam-se simplistas e o dramatismo das suas histórias é inculcado à força pelos arquétipos melodramáticos - adultério, pedofilia, incesto - para uma caracterização súbita que John Wells e, sobretudo, Tracy Letts não souberam demonstrar de forma mais progressiva ou subtil. Uma estrelaUma estrelaUma estrela Carlos Antunes



Pompeia (2013), de Paul W.S. Anderson


Quando esta história surgia nos pepla sabíamos com o que contar, a aventura era implausível naquela forma bigger than life que assegurava que o casal sobrevivia contra todas as probabilidades. Agora a história parece ter de submeter-se a um realismo que condena tudo à destruição logo à partida - e por tudo falo tanto dos cenários (que nem existem) como do próprio filme. Com a destruição total em fundo, o argumento gasta o tempo em inúteis investimento dramáticos com personagens pelas quais não nos vamos interessar. Com uma história (mal) decalcada de Gladiador - e evita-se falar no que esse filme já citava - temos de suportar que a narrativa leve o seu tempo a resolver conflitos quando já há lava a tombar sobre as personagens. Essas cenas de destruição chegam tardiamente e intercalam o bom com o tosco. Tudo combinado, está-se demasiado perto do ridículo. E, para piorar, é em 3D. Uma estrela Carlos Antunes



O Filme Lego (2014), de Phil Lord e Christopher Miller


Há que assumir que o filme é bem melhor do que o material promocional deixava antever. Ainda assim e apesar do seu tom frequentemente divertido e até bastante inteligente, não deixa de ser, narrativamente falando, bastante linear e até algo básico - apesar dos pontuais momentos de humor adulto e de referências cinematográficas e literárias. Redime-se (e muito bem) pela inteligência como conduz a animação - um híbrido entre digital, stop-motion fotorreal - mas também pelo o último terço do filme que, apesar de soar muitas vezes a anúncio publicitário à empresa que dá nome ao filme, lhe dá um forte valor sentimental, emocional e adulto (como talvez já não se via desde Toy Story 3). Uma estrelaUma estrelaUma estrela½ Tiago Ramos

Já devia ser evidente para a maioria das distribuídoras que os filmes de animação (pelo menos os de algum pedigree) devem ser estreados em versão original e dobrada ao mesmo tempo para que satisfaçam os cinéfilos de todas as idades. Pode ser que este seja o filme a tornar isso evidente, pois está carregado de referências que escapam por completo aos mais novos. O argumento é bastante divertido para os adultos enquanto que os espectadores de palmo e meio estranham a narrativa saltitante que aproxima a história do que é a experiência de não ter regras ao "brincar bem" mas não é a mais fácil de seguir para eles. Naquilo em que todos podem concordar é que as soluções de stop-motion com as peças Lego dão origem a um dos visualmente mais distintos e criativos filmes de animação em bastante tempo. Uma estrelaUma estrelaUma estrela½ Carlos Antunes



Solteira e Fabulosa (2014)


Mais uma comédia, o género que tem constituído a maioria dos filmes que estreiam na Sala de Cinema Francês e cuja slecção parece advir de um acaso que de vez em quando lá no traz um bom filme. Desta vez não temos tal sorte, apenas uma comédia romântica previsível e, ao mesmo tempo, um pouco caótica. Uma ou outra ideia mais interessante não chegam para resgatar a sensação de estarmos a ver uma Bridget Jones que atravessou o Canal da Mancha. O problema é que Josephine ainda consegue ser uma personagem menos aprazível do que a sua contraparte britânica, sobretudo porque as personagens secundárias que deveriam complementar o quotidiano dela nunca têm espaço de manobra. E isto nem é uma referência aos excessivos implantes glúteos que Marilou Berry utiliza e que parece terem que ver com a banda desenhada de onde isto foi adaptado - e que nós não conhecemos por cá! Uma estrelaUma estrela Carlos Antunes