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quarta-feira, 3 de julho de 2013

Semana em Crítica - 27 de Junho

Homem de Aço (2013), de Zack Snyder


Na tentativa de criar mais um filme de super-heróis, com uma entoação humana, profunda e de certo modo, mais realista, Zack Snyder (sob o mentor Christopher Nolan) acaba por descaracterizar a figura do Super-Homem. Homem de Aço é um produto genérico, blockbuster assumido, sem qualquer personalidade própria e exageradamente repleto de uma acção ininterrupta com câmara ao ombro e um argumento incrivelmente raso. Ao abdicar da narrativa linear, desenvolve um produto pouco coeso e frequentemente desinteressante, que nem o talentoso elenco consegue safar. Uma estrelaUma estrela½ Tiago Ramos

Feito por quem não compreende o mito do Super-Homem mas que crê conseguir transformar qualquer "produto" em sucesso - por estar enfeitiçado com os epítetos ("visionário", sobretudo, que dá para todos) que lhes colocam - eis mais um blockbuster onde a opressão sensorial se substitui ao resto de forma a que o público não dê por desperdiçado o preço do bilhete. Um filme sem um pingo de originalidade, sem um traço de coerência e sem uma noção do ridículo a que se expõe sempre que tenta uma seriedade - que não realismo - pesada e mal explorada. Enquanto for este o resultado que passa por inteligência no seio da indústria estamos condenados a aborrecer-nos na sala de cinema durante (injustificadas) duas horas e meia. Uma estrela Carlos Antunes



A Datilógrafa (2012), de Régis Roinsard


Descomplexadamente assumido como um produto inofensivo, A Datilógrafa desenvolve-se através de uma história terrivelmente previsível e com um objectivo de curto alcance. Beneficia muito, porém, do seu visual esteticamente delicado e estilizado, num sub-género a que o cinema francês frequentemente obedece. É pitoresco e estereotipado, mas tem um charme quase irresistível, bem perpetuado pelo excelente elenco, encabeçado por Romain Duris, Bérénice Bejo e Deborah FrançoisUma estrelaUma estrela½ Tiago Ramos

Merece reconhecimento a qualidade com que A Datilógrafa reproduz a estética do final dos anos 1950, mesmo se parte dessa estética é sempre uma reinvenção mitificada da realidade de então. Pena que o filme obedeça ao maniqueísmo das modernas comédias românticas - e americanizadas - em vez de procurar acrescentar-lhe noções críticas do papel feminino do tempo retratado, ao contrário de um exemplo recente como Potiche (e isto sem entrar em comparações de inventividade com François Ozon, que seriam ainda mais debilitantes). Admitindo que o argumento busca uma perseguição da inocência simples daquele tempo para melhor acompanhar as imagens de um colorido feminino, há apesar de tudo que afirmar que tal inocência, mesmo a ter existido naquele tempo, não merece benevolência hoje em dia apenas por isso. A escalas diferentes, era também este o mal que afectava The ArtistUma estrelaUma estrela½ Carlos Antunes



Operação Gerónimo: A Caça a Bin Laden (2012), de John Stockwell


Estreia em cinema, mas foi finalizado como produto televisivo, algo visivelmente notório na forma como conduz e apresenta a narrativa. Filmado num tom quase documental, raramente descura o foco no evento principal (a busca por Osama Bin Laden e o raid à casa onde se escondia), evitando focar-se demasiado tempo em tramas secundárias. É bastante competente e apresenta um trabalho sonoro notável, mas é difícil prestar-lhe atenção depois de termos visto um filme tão carismático quanto Zero Dark ThirtyUma estrelaUma estrela½ Tiago Ramos

Não se compreende o que faz um telefilme nas nossas salas de cinema, mesmo se os calendários têm vários outros exemplos do absurdo que rege a programação das mesmas. Telefilme até na produção, com uma exploração bruta do dramatismo com intenção de aplaudir as famílias que cederam os seus filhos/maridos/pais à Guerra contra o Terror; com uma visão das cenas de acção ao pior estilo de jogos de vídeo; com uma realização a tentar sempre acrescentar algo que disfarce a sua funcionalidade a roçar o insuficiente. Para o público americano pode ter feito sentido este elogio das suas forças armadas e da actuação dos seus dirigentes políticos, mas deste lado do Atlântico, julgar que o filme chamará público apenas porque partilha com Zero Dark Thirty a temática é, no mínimo, caricato. Uma estrela½ Carlos Antunes



Bairro (2013), de Jorge CardosoLourenço MelloJosé Manuel Fernandes e Ricardo Inácio


Movimentos de câmara sem serventia, planos criminosos obtusos e incredíveis, cenas de sexo gratuitas, alívios cómicos fora de tempo. Isto é apenas uma breve enumeração das características de um filme que não consegue sustentar-se como um produto independente. Até porque à medida que o filme avança e na necessidade de o fazer caber no formato temporal do cinema, a coisa só piora com a montagem a sacrificar a lógica para fazer caber todos os elementos (que poucas vezes se mostram coesos) do trabalho de Francisco Moita Flores. Esta amostra promete um resultado televisivo enfermo das piores características das novelas a que a TVI insiste em apelidar de "Ficção" e sem nenhuma qualidade redentora aparente. Uma estrela Carlos Antunes

terça-feira, 25 de junho de 2013

Semana em Crítica - 20 de Junho

Monstros: A Universidade (2013), de 


Apesar de não ser um filme original, Monstros: A Universidade recupera alguma da energia que se julgava perdida desde as duas últimas produções da Pixar (Cars 2 e Brave). Especialmente porque proporciona-nos um reencontro com as personagens de Monsters, Inc (2001), em formato prequela. Mesmo não sendo um dos melhores filmes da companhia de animação, é um produto bastante sólido, coerente e divertido, que proporciona, especialmente no seu final, alguma surpresa. Isto porque não segue o caminho mais fácil, oferecendo uma espécie de "moral de história" mais realista que o esperado. Até lá ainda oferece alguma nostalgia em relação ao filme original, explicando a origem de certas personagens - mesmo que discretamente. Pena que lhe falte uma personagem como Boo, que garantia uma ternura em Monsters, Inc que aqui não existe. Mas se há algo a destacar será sobretudo a curta-metragem que antecede o filme: Blue Umbrella é um daqueles filmes doces e amorosos como poucos sabem fazer. Surpreende pela qualidade técnica (a técnica de animação foto-realista é magnífica), mas a história simples e bela é suficiente por si só. Uma estrelaUma estrelaUma estrela½ Tiago Ramos


WWZ: Guerra Mundial (2013), de 


Os zombies são uma causa tão boa como qualquer outra para colocar os seres humanos face a face com a sua própria destruição. Quer na escala de massas quer na escala individual, o melhor do filme é essa análise aos comportamentos de sobrevivência. Nos momentos de intimidade heróica - a tensão aplicada nas cenas dentro do complexo de vacinação - o filme rivaliza com o melhor que os filmes do género têm gerado em anos recentes mas é a ressonância de questões políticas actuais num futuro apocalíptico que deixam o público a pedir mais de tais ideias no lugar das cenas de acção - que além de esterilizadas (até no sangue) são visualmente incompreensíveis. A formatação dos eventos mundiais a uma estrutura narrativa conduzida mais linearmente deixa-nos a braços com um herói de acção saído da pré-reforma (auto-imposta) que é apenas semi-credível no meio do que se passa.
Nota final para o 3D, verdadeira armadilha financeira, pois em conteúdo "artístico" apenas vem adicionar outra causa à impossibilidade de focar qualquer momento da cenas de (agit)acção.  Uma estrelaUma estrelaUma estrela Carlos Antunes


Lore (2012), de Cate Shortland


Seguramente um dos melhores filmes que estrearam (estrearão) nas salas nacionais este ano, Lore surpreende pela forma cativante com que aborda o tema da Segunda Guerra Mundial, como julgávamos já não ser possível. Sempre com um olhar próximo das suas personagens, com um cuidado e sensibilidade únicas na direcção de fotografia, a câmara segue uma jovem adolescente e o seu processo abrupto de crescimento. Mas mais que um filme sobre o coming of age, é um olhar (mesmo que propositadamente distorcido) de uma jovem sobre a Alemanha Nazi, logo após o suicídio de Hitler. É um olhar de uma beleza severa, íntimo, numa espécie de fábula tragicamente séria, encabeçada pela magnífica descoberta de uma actriz como Saskia RosendahlUma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela Tiago Ramos


Um Toque de Fé (2010), de Mark Ruffalo


Como primeiro trabalho de realização do actor Mark Ruffalo, Um Toque de Fé chega a ser um esforço admirável, especialmente pela ambição como conduz a narrativa. Especialmente porque apresenta um tema complexo, que entra no terreno da alegoria e sátira, de um modo corajoso, com um toque surrealista. Contudo, nem sempre desenvolve as personagens de um modo competente e dentro do seu tema da fé e cura, acaba por proporcionar alguns momentos bizarros. Especialmente porque raras vezes questiona a credibilidade do que apresenta de forma tão destemida. Uma estrelaUma estrela½ Tiago Ramos


Destino: Xangai (2012), de Daniel Hsia


Produção chinesa e americana, especialmente concebida para funcionar como uma espécie de postal turístico de Xangai para os americanos, apresentando-nos a cidade de um ponto de vista cosmopolita e desenvolvido. Apesar da sua previsibilidade dentro do género das comédias românticas - a génese da história desenvolve-se a partir do típico conflito de culturas e a comédia situacional que proporciona - tenta subverter os estereótipos entre chineses e norte-americanos, mesmo que nem sempre o faça de modo consistente. Tem contudo a sua energia e carisma, especialmente proporcionado pela prestação competente de uma actriz dedicada à comédia, como Eliza CoupeUma estrelaUma estrela Tiago Ramos

sábado, 15 de junho de 2013

Semana em Crítica - 13 de Junho

Até à Eternidade (1953), de 


Em cópia de qualidade irrepreensível, uma aclamada visão crítica da América feita dentro do seu sistema de estúdios. O Exército, uma instituição representativa da própria nação dentro (e à volta) do qual a procura por uma identidade - entre as muitas lá assumidas ou fingidas - percorre caminhos de orgulho e honra, violência e afecto. Uma deriva contra os inimigos internos das personagens e da nação que se ameaça resolver, mas também recomeçar, quando um inimigo externo surge. A guerra - aquela e as próximas - surge como salvação, explicando muito do porquê de se ver os EUA sempre em conflito. Uma magnífica recuperação pela sua actualidade renovada que mostrará que há mais neste filme do que a sua tão mítica cena de praia, mas sobretudo pelo notável leque de estrelas a darem interpretações acima de qualquer reparo. Um luxo a ver em sala. Uma estrelaUma estrelaUma estrelaUma estrela Carlos Antunes



Os Estagiários (2013), de Shawn Levy


É difícil perceber se a análise (?) a fazer perante este filme, envolve explicar os níveis a que chegou o product placement no cinema contemporâneo ou como uma empresa como a Google se tornou tão intrínseca nas nossas vidas. Mas adiante, já que honestamente soarão forçadas as ilações a retirar daqui. Na verdade, este Os Estagiários é precisamente aquilo que aparenta: entretenimento inofensivo, sem nada demais a acrescentar. Da narrativa formulaica, retiram-se meia dúzia de gags bem sucedidos e uma moral de superação e união, já milhares de vezes vista. Owen Wilson e Vince Vaughn entregam-se aos seus papéis e nem sempre lhes corre bem (há uma dose de piadas forçadas às quais nem a química dos actores lhes vale), mas quando resulta, resulta a sério. Lá para o final e com a (interessante) dinâmica com as restantes personagens secundárias começamos a acomodar-nos à história e a esboçar alguns sorrisos sinceros, mas não é suficiente para salvar o filme como um todo. Uma estrelaUma estrela Tiago Ramos



Headhunters - Caçadores de Cabeças (2011), de  


Montado o cenário para um filme sobre um yuppie de sucesso que sustenta uma vida acima das suas possibilidades, o filme depois leva-nos para uma perseguição de motivos incertos que, quando explica, se torna mais absurda do que antes. Isto dá um thriller com alguma emoção mas que não merece ser recordado depois de se sair da sala de cinema. Fica mais uma prova de que entre os países nórdicos há um investimento sólido nos valores de produção que permitem comparar os filmes que de lá nos chegam, de forma positiva, às produções que nos chegam do outro lado do Atlântico. A triste surpresa da má história torna-se ainda maior quando a qualidade técnica estava a cargo de um livro de Jo Nesbø. O autor deveria ter tido o sucesso que tombou para o lado de Stieg Larsson graças à sua série de livros de Harry Hole (traduzida há muito por cá), mas neste thriller nos tempos actuais mostrou que não sabe como falar das realidades nórdicas sem copiar o pior dos modelos cinematográficos. Um paradoxo, portanto. Uma estrelaUma estrela Carlos Antunes



Grandes e Lindas (2012), de Charlotte de Turckheim



Se há pontos a dar a Grandes e Lindas será certamente o carisma e honestidade com que entrega a narrativa, algo muito típico neste género de comédias francesas. A história não adianta muito mais que a sinopse, mas o à-vontade em falar do excesso de peso e dos "gordos" em jeito de piada, mas com moral incluído, é francamente simpático. Tão simpático como o elenco reunido, não dando especialmente para desconsiderar, a revelação que é a actriz Lola Dewaere (recebeu até uma nomeação aos prémios César 2013). Pena que o papel não lhe dê mais que isto. Uma estrelaUma estrela½ Tiago Ramos



Mestres da Ilusão (2013), de 


Um argumento esforçado a partir de uma boa premissa consegue domar até a alarvidade com que Leterrier se costuma lançar à realização dos seus filmes. Só depois de dois actos já concluídos é que descobrimos porque é este o realizador encarregado de um filme que promete usar a demistificação da magia a favor de um filme de assalto (com alguma consciência social) para acabar a tentar iludir os espectadores com um thriller no caminho habitual: um final banal servido com exagero visual para desviar a atenção. O problema é que não há nenhum verdadeiro truque de magia para redimir o desperdício de vários bons actores. Uma estrelaUma estrela Carlos Antunes




Confessemos que este é daqueles casos em que queríamos ter gostado mais do filme. Isto porque é impossível ignorar o carisma e talento dos actores envolvidos, mas a dada altura não vai além do mero aspecto bonitinho (tecnicamente está lá toda a atenção aos detalhes, direcção artística, guarda-roupa, fotografia e maquilhagem), assumindo um tom de quase telefilme e sem grandes ambições. O retrato de uma época e da vivência entre britânicos e norte-americanos é curioso, mas nem Bill Murray - com o seu talento - foge ao estereótipo da representação de uma figura como o Presidente Roosevelt, nem Laura Linney consegue salvar a honra, dada a pouca espessura da sua personagem. Vale-lhe alguns momentos e uma interpretação de Bertie (o Rei George VI) e Elizabeth, por Samuel West e Olivia Colman, bem mais interessantes que os de The King's SpeechUma estrelaUma estrelaUma estrela Tiago Ramos

Bill Murray faz um Roosevelt muito convincente numa interpretação que se acarinha pela falta de esforço demonstra (contra um Lincoln de Daniel Day-Lewis em que o esforço está carregado no ecrã). Como se entrasse na personagem apenas quando lhe é dito "acção" e logo acertasse o tom. Pena que não lha digam vezes suficientes, tendo de partilhar o ecrã com as muitas intrigas de quartos de dormir: ousadas quando focam a realeza e a angústia simultaneamente pessoal e política a cargo de Samuel West e Olivia Colman; falhadas quando têm de seguir a patética rapariguinha apaixonada pelo presidente. Dos diários dessa miúda tola só deveriam ter passado a filme aqueles detalhes sobre os quais os historiadores apenas podem conjecturar. Ela devia ter ficado esquecida como a personagem sem graça que aqui mostraram que foi. Uma estrelaUma estrela Carlos Antunes



Vida Selvagem - O Filme (2011), de  e 


Vistas num ecrã de dignas proporções, as magníficas imagens (ou não fossem de David Attenborough) chegam mesmo a merecer o epíteto de "de cortar a respiração". Já a fragmentada narrativa humanizante - paternidade, independência e amor - tem uma abordagem infatilizante que só os momentos sobre o engenho animal para a caça conseguem contrariar. Despojado do didactismo científico de Attenborough, o texto limita-se a ser uma monótona tentativa de prosa edificante lida por Daniel Craig, que pode ser um excelente nome para colocar no cartaz do filme, mas cuja voz não tem personalidade para a tarefa. Uma estrelaUma estrela Carlos Antunes




Bem sabemos que a intenção de A Casa de Mi Padre está em parodiar o típico exagero do cinema sul-americano, talvez mais o mexicano. Mas o problema e o que torna este filme tão cansativo como tão pouco engraçado é que em vez de tentar efectivamente brincar (como fazia Machete, por exemplo), limita-se apenas a reunir os peculiares elementos desse cinema (as falhas de raccord, os cenários de estúdio e lá está, os excessos), como se por si só valessem a piada por cerca de uma hora e meia. Will Ferrell tem o seu boneco, sem graça na maioria das vezes, porque limita-se a ser um veículo dessas formas, nem sempre escondendo o retrato misógino e racista através do comentário satírico. Uma estrela Tiago Ramos