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quinta-feira, 21 de junho de 2018

Entrevista com Donal Foreman, realizador de "The Image You Missed"

Donal Foreman passou por Portugal para a dupla projecção no IndieLisboa do seu filme The Image You Missed.

Um filme que, apesar da sua classificação de três estrelas, ficou como um dos filmes do festival que por mais tempo se inscreve na memória e que mais questões levanta acerca do próprio acto de filmar.

Aceitou sentar-se para uma entrevista durante a qual mostrou sempre disponibilidade para responder a perguntas que, como o seu filme, atravessavam a fronteira entre o realizador e o homem.

Perguntas pessoais que, em alguns momentos, obrigaram-no a ele próprio a levar a reflexão sobre os temas que nos expôr um pouco mais longe do que tinha feito até aí.

Para aqueles que tiveram a oportunidade de ver o filme, esta será por certo uma entrevista que aprofundará os temas do filmes e as motivações do realizador.

Esta entrevista teria, idealmente, sido publicada mais perto do festival. Por motivos pessoais tal não foi possível, mas a relevância da entrevista não se perdeu.



Photo by Conor Horgan



quarta-feira, 18 de abril de 2018

Entrevista com Fernando Vendrell, realizador de "Aparição"

Na semana em que o filme Aparição se prepara para sair de sala e em que alcançou os 3500 espectadores, falámos brevemente com Fernando Vendrell.

Procurámos saber um pouco sobre a produção do filme e a medida do seu sucesso face às expectativas.

Falámos do que, de parte a parte, vimos como as forças e as fraquezas do filme e como estas têm sido tidas em conta pelo meio cinematográfico nacional.

Uma entrevista que fica como gancho apontado àqueles que cheguem a esta adaptação quando chegar a segunda vida que o filme terá para lá do grande ecrã.





Aparição é um livro com que quase todos os portugueses têm uma relação, nem que seja por obrigação. Disse que teve de voltar ao livro antes do seu filme. Como vê agora a relação que o país precisa de ter com a obra?

Aparição faz parte do “inconsciente coletivo” da cidade de Évora, existe até uma relação complexa de aceitação e rejeição desta obra. A perspetiva que quase todas as pessoas que contactávamos durante a produção tinham uma visão própria do romance tornou-se uma das “complexidades” suplementares à sua adaptação. Trata-se de uma das obras mais conhecidas de Vergílio Ferreira, como realizador do filme tenho consciência que este não poderá nunca superar a imagem emocional que os leitores têm desta obra, mas pode relembrar o momento ou efeito da leitura do livro, trazer novas inquietações e até outras perspetivas sobre Aparição. Num mundo dominado pela superficialidade e pela exposição contínua da aparência é pertinente questionarmos o que somos e o que significa a nossa vida.


sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Entrevista com Corinna Lawrenz, Programadora da KINO 2016


Corinna Lawrenz assume pela primeira vez as rédeas da KINO, a Mostra de Cinema Alemão que passará mais uma vez por Lisboa, Porto e Coimbra.

O Split Screen aproveitou para trocarl algumas impressões com a programadora da KINO 2016 acerca desta edição mas, igualmente, daquilo que poderá ser o futuro da KINO com ela ao leme.



Sendo esta a sua primeira KINO enquanto programadora, a primeira pergunta tem de ser como vê o festival que recebeu e o que mudou para esta edição?

A KINO é um festival que cresceu de uma forma extraordinária durante os últimos anos. É um dos festivais mais antigos de Lisboa, começou como uma Mostra pequena no próprio Goethe-Institut e é hoje um evento de oito dias, várias secções, retrospectiva e convidados. É, por isso, tanto uma honra como um grande desafio ser programadora deste festival. 
Neste sentido, as mudanças nesta edição são também em primeiro lugar alterações pequenas em alguns pontos da programação. Introduzimos a linha programática “Novas Perspectivas” que, em todas as secções do festival, dá a conhecer primeiras obras de jovens realizadores. Voltamos a ter sessões dedicadas exclusivamente à arte da curta-metragem e queremos reforçar esta parte do festival nos próximos anos. Alargámos o leque de convidados (teremos este ano o Ulrich Peltzer, co-autor do filme de abertura, Rosa von Praunheim, Elfi Mikesch, Oliver Sechting e Karl Markovics) e apresentamos uma retrospectiva em colaboração com a Cinemateca e Augusto M. Seabra.



O que espera que a sua selecção mostre aos portugueses, não só acerca do cinema, mas acerca da actual cultura Alemã?

Acho que é uma pergunta complicada, até porque não é o meu objetivo principal “mostrar” alguma coisa de uma forma muito explícita. Se as pessoas saírem das nossas sessões a dizer que acabaram de ver bom cinema, estou contente. Se, para além disso, acham que chegaram a saber algo de novo sobre os países de língua alemã (não estamos a falar só da Alemanha) ou as suas culturas, muito bem. Mas acho que os dois aspectos têm de andar de mãos dadas. O documentário “Freiräume” por exemplo, levanta uma questão muito básica (a de como lidamos com mudanças drásticas nas nossas vidas) e conta quatro histórias individuais, trabalhando com a ausência visual e à presença da voz de cada uma das entrevistadas. Os espaços que mostra são espaços muito específicos de uma zona específica da Alemanha, mas a questão que está no fundo é muito mais abrangente.



No seu gosto pessoal, quais são as sessões que sente que o público não deve perder?

As sessões de abertura e encerramento, obviamente. Para além disso, gostava de dar um destaque especial às Novas Perspectivas que são uma oportunidade de ver obras de jovens realizadores, em parte provenientes da Berlinale do ano passado. Finalmente, acho que as sessões de curtas-metragens valem muito a pena porque dão a conhecer abordagens cinematográficas diferentes.



O que afirmará a retrospectiva da obra de Rosa von Praunheim em pleno 2016?

Se olharmos para Novembro de 2015 em Portugal e para a aprovação da lei de adopção de crianças por casais gay, penso que esta retrospectiva (e talvez o termo ciclo seja, por isso, mais adequado) é uma das mais atuais que podíamos fazer este ano – tanto neste sentido como olhando para a Berlinale do ano passado onde o Rosa apresentou o mais recente filme dele. Ademais, para além de o cinema dele ter tido uma importância social e cultural muito elevada – e não só na Alemanha – , um documentário tão pessoal como “Meine Mütter” também nos conta a história de uma vida cunhada pela história alemã do século passado.



O que teve de ficar de fora da selecção deste ano mas sente que o público precisava ainda de ver?

Sobretudo, podíamos ainda ter alargada a selecção de filmes inseridos nas Novas Perspectivas. Tivemos, de facto, uma selecção fantástica neste ponto. Para além disso, na secção KINOdoc (e também, mas de uma forma menos drástica, na Mostra Principal) houve algumas temáticas que achei igualmente importante mas que ficaram de fora desta vez por termos dado o foco na questão dos refugiados que nos pareceu muito importante este ano. Há um grande potencial para as próximas edições e é, por isso, algo que me deixa ficar muito contente.



Em que medida se têm equilibrado a descoberta do mais recente cinema Alemão pelo público português e o chamamento aos alemães residentes em Lisboa?

Não gosto de pensar isto como dois públicos separados. Acho que dá a conhecer o mais recente cinema de expressão alemã, e dar a conhecer tanto as obras dos grandes nomes do cinema alemão como filmes que não entram necessariamente nos circuitos comerciais cá em Portugal, é a intenção em relação a todo o tipo de público. É óbvio que depois há olhares diferentes sobre os filmes. Pensando, por exemplo, na sessão dupla de “Ein idealer Ort” e “Bube Stur”: são filmes que em primeiro lugar contam histórias particulares, mas também permitem um olhar sobre realidades sociais e políticas da vida nas zonas rurais da Alemanha, e finalmente também são filmes esteticamente muito interessantes. Dependendo do ponto de vista de cada um, podem ser interessantes por um ou mais desses aspectos. É isso que me interessa – exibir filmes que podemos abordar e achar importantes por várias razões.   
O que acho importante é encontrar pontos de convergência. O público alemão que temos é tudo menos homogéneo, alguns com um interesse especial pelo cinema alemão, outros com um interesse forte no cinema em geral. Por isso, a nossa programação não é pensado para dois públicos separados, mas sim para um público que gosta de ver cinema.



Fatih Akin e Karl Markovics (sobretudo como actor) são o mais próximo que estamos de ter autores reconhecidos por um público mais alargado. E a submissão deste ano da Alemanha ao Oscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira, Labirinto de Mentiras, passou por cá tanto em festival (Judaica) como em sala passando despercebido de uma forma geral. Como vê que se pudesse dar o salto da mostra para uma maior entrada do cinema alemão no mercado português?

É uma questão que obviamente não diz respeito só ao cinema alemão, mas a grande parte do cinema europeu. Mesmo assim, penso que o cinema alemão até teve uma presença relativamente boa nas salas portuguesas no ano passado (se pensamos em “Phoenix”, por exemplo). Sempre que houver esta hipótese, gostamos de fazer ante-estreias durante a KINO com o objectivo de chamar atenção para filmes que passam pelas salas portuguesas e esperamos reforçar este tipo de colaborações nos próximos anos.



Pensando a médio prazo, se é que tal é possível, o que gostaria que o KINO fosse daqui por cinco anos?

Em primeiro lugar, gostava de continuar o trabalho das últimas 12 edições da KINO e contribuir para que o festival possa crescer – não tanto em termos de quantidade de exibições, mas antes em aspectos de programação tanto no que diz respeito às principais secções como à Mostra para Escolas. Para além disso, gostava que a KINO se tornasse mais num ponto de encontro entre o público português e realizadores, conhecidos ou jovens, da Alemanha. E também entre jovens realizadores portugueses e alemães.



Se não tivesse limitações de qualquer tipo, qual seria a sua concepção para um KINO ideal?

Acho que a minha resposta a esta pergunta é basicamente a mesma que a anterior. Gosto de pensar em pequenos passos para conseguir estes objectivos e num desenvolvimento gradual dos próprios objectivos.



quinta-feira, 8 de maio de 2014

Entrevista com Rebecca Zlotowski, realizadora de "Grand Central"

A presença de Rebecca Zlotowski em Lisboa a propósito da projecção do seu filme Grand Central na 14ª Festa do Cinema Francês permitiu-me estar à conversa com ela a propósito tanto desse filme como do seu primeiro filme, Belle Épine, que tinha a sorte de poder ver em DVD há alguns anos atrás.

No entanto, e apesar de uma hora de conversa, a entrevista ficou em suspenso com algumas perguntas adiadas para uma resposta escrita via email.
Respostas essas que demoraram a chegar pois ao regressar a Paris a sua agenda estava sobrecarregada.

Com esse natural atraso, decidiu-se recuperar a entrevista aquando do lançamento em DVD do filme que foi, na minha opinião, um dos melhores a estrear em Portugal em 2013.

Para grande orgulho de quem, nesta ocasião, vestiu a pele de entrevistador, a realizadora deixou elogios muito sinceros acerca da entrevista que classificou como uma excelente e desafiante conversa a propósito da sua obra.

Com isso em mente espero que, apesar da extensão do texto que se segue, possam tirar o tempo para ler uma excelente conversa onde Rebecca Zlotowski revelou enorme disponibilidade, ao ponto de chegar a fazer algumas confissões pessoais acerca do que passa de si para os seus filmes.

Carlos Antunes






A central nuclear e a família de trabalhadores são personagens equiparadas aos dois amantes. Só conseguiu chegar a esse patamar com toda a pesquisa que fez para o filme?

Tens razão, é um diálogo constante – uma analogia – entre o sentimento amoroso e a central nuclear e o seu mundo do trabalho.
E foi necessário documentar-me muito, muito, muito, porque não conhecia nada do mundo deste tipo de trabalho.
Imaginava que poderiam morrer, tudo começou com essa intuição, mas uma intuição podes tê-la sem conheceres nada.
Para ser sincera, existe uma ligação muito forte entre a ameaça invisível no interior de uma instalação nuclear ou com a proximidade à radioactividade e o cair de amores por alguém, que é igualmente uma ameaça invisível.

Clicar aqui para ler a restante entrevista.


domingo, 27 de abril de 2014

Entrevista com Ziad Doueiri, realizador de "O Atentado"



O realizador Ziad Doueiri esteve em Lisboa a propósito da projecção do seu filme O Atentado na Judaica - Mostra de Cinema e Cultura que seria, igualmente, alguns dias depois estreado em sala pela ZON Audiovisuais.
A convite de ambas as entidades, o Split Screen teve a oportunidade de estar à conversa com o realizador no International Design Hotel.


Apesar de ser a última entrevista - de uma longa série delas - que teria antes de um período de pausa, o realizador mostrou toda a disponibilidade para as muitas perguntas que levámos.
E mesmo tendo de enfrentar os imprevistos de uma constipação, de uma sirene que colocou em evidência a falta de isolamento sonoro do local e até de uma câmara que teimava em parar de funcionar nos momentos mais significativos, o realizador foi colaborando nos vários "takes" de que precisaram algumas das perguntas.


Mesmo assim o resultado foi altamente satisfatório para ambas as partes, com o realizador a mostrar um gosto crescente pela entrevista, sobretudo à medida que esta evoluía para temas diferentes dos que tinham constituído a maioria das outras entrevistas desse dia.
Além d'O Atentado falámos ainda das dificuldades de concretizar qualquer projecto na indústria cinematográfica e das memórias do tempo que o realizador guarda do tempo em que era um "faz tudo" em filmes no extremo oposto daquele que pode agora mostrar ao público português.


O resultado é uma entrevista que se fica pelos trinta minutos - depois de terem sido editadas algumas partes que já caíam no domínio da troca de ideias pessoais entre entrevistador e entrevistado - que temos o orgulho de apresentar de seguida.


sábado, 25 de janeiro de 2014

Entrevista a Filipe Coutinho - «Temos de conhecer muito bem o mundo em que as nossas personagens vivem»


Inicialmente conhecido na comunidade como um cinéfilo e blogger de cinema em Portugal, Filipe Coutinho estendeu a sua formação académica (em Gestão de Empresas) para um Mestrado em Cinema na New York Film Academy. Um passo natural para quem lhe conhecia a sua paixão por Cinema e que começa a dar frutos. Depois de uma primeira experiência no registo noir com a curta-metragem Black Mask, «escrito e realizado como se de uma película dos anos 40 se tratasse», o agora realizador e argumentista partiu para um novo trabalho, bem diferente deste seu primeiro registo. «Inicialmente apelidada de Autumn Leaves, esta história começou a ser concebida um ano antes da sua rodagem e era o meu objectivo filmar a curta em Nova Iorque num outro tipo de milieu. Quando me mudei para a Costa Oeste ainda procurei manter a base e o feeling que potenciaram a obra mas o tempo, esse agente de mudança, transfigurou organicamente o sentimento que inconscientemente me levava a explorar um tema pelo qual já não tinha o mesmo fascínio. E de repente, o que um dia ganhou força como Autumn Leaves deixou de fazer sentido. Era tempo de repensar a minha história e estabelecer alicerces mas viria a ser o tempo – novamente – a determinar o meu rumo.» Autum Leaves passou então a Homecoming, um filme que explora as reacções familiares face uma eminente tragédia. Coutinho justifica a sua intenção: «Tudo começa e acaba numa noção de família. É esse o nosso alfa e o nosso omega. Quis explorar essa elipse, o fim que dá origem a um novo começo, o ouroboros que nos leva a dar importância a eventos marcantes mas inevitavelmente inconsequentes. Além disso, constituiu um novo desafio para mim, uma dinâmica que ainda não havia explorado e que me permitia trabalhar de forma mais extensa com os atores de modo a que esta família o fosse também no ecrã.»

Em Homecoming sentimos a eminência da morte. O regresso a casa do pai e marido Peter Sanders não é o alívio que se esperaria de quem abandona o hospital para se juntar ao conforto da família. À medida que a sua esposa adúltera tenta conectar-se a ele, vemos o lado mais doce da história, com a filha de seis anos de idade a tentar curá-lo com amor e canções de Bob Dylan. Porquê este e não outros? «Existe uma construção rítmica nas letras de Bob Dylan que lhe permitem seguir uma carreira nesse tipo de indústria, mas a escrita é de poeta e é desse modo que as suas canções e, em particular, a You’re gonna make me lonesome when you go, são tratados. Escolhi Bob Dylan acima de outros liricistas pela complexidade da sua escrita que é, não raras vezes, ofuscada pela dinâmica da sua musicalidade. E isso somos nós, não? Damos uma cara, vivemos de uma certa forma e o mundo à nossa volta não olha uma segunda vez, não tenta descobrir a nossa musicalidade, a nossa a nossa vasta e maravilhosa profundidade. Quando estava a explorar a relação entre o Peter e a Lindsay, o uso da sua poesia tornou-se rapidamente uma realidade inabalável.» Mas apesar do resultado final aparentar o oposto, o processo criativo em redor deste argumento nem sempre foi o mais pacífico, a coincidir com um momento de «mais introspecção e menos produtividade, fazendo com que a escrita se tenha revelado morosa». Como chegou a inspiração? «Surgiu de forma catártica através de um poema do Walt Whitman, um belíssimo texto que me fez perceber a dimensão e a profundidade que viria a definir a importância que dou a personagens como seres humanos (e toda a complexidade que os caracteriza), definindo, deste modo, o macguffin que até aí havia procurado em vão. Embora parte da fita seja inspirada em acontecimentos (infelizmente) verídicos, foi o dilema moral que estas personagens enfrentem a força motriz para a sua concretização».



Filipe Coutinho explicou-nos ainda como foi dar vida ao argumento que escreveu. «A velha máxima “somos tão bons quanto a equipa que escolhemos” é talvez a única verdade no cinema. Tive a sorte de reunir profissionais fantásticos que me ajudaram a construir e a moldar a visão que existia apenas na minha cabeça, um conjunto de artistas que percebeu o que idealizava e que me incentivou a correr riscos, que me desafiou a sair da zona de conforto em prol de um objectivo comum. E devo dizer que é verdadeiramente recompensador dar vida a uma ideia, vê-la amadurecer e transformar-se,  magicamente diria, num veículo de ideias, de criatividade e de emoções. Foi um trabalho árduo e devo muito ao meu Diretor de Fotografia e à minha Production Designer que durante meses pacientemente ouviram as minhas divagações e me puxaram sempre para a realidade que por vezes me escapava. Dito isto, acho que estes (a par do Produtor) são os braços direito de um realizador e sem uma comunicação quase telepática um filme não pode subsistir.» Fazemos notar que nesta sua mais recente curta-metragem se nota o extremo cuidado dado ao design de produção e à direcção de fotografia que, em muito, complementam a narrativa. Concorda: «Foi dada, desde o começo da pré-produção, grande ênfase ao esquema cromático, visual e sonoro que queria transmitir e que se enquadrava no tipo de história que queria contar. Acredito que temos que conhecer muito bem o mundo em que as nossas personagens vivem, saber interpretar os sons que o constituem, as cores que pintam a sua existência e o tipo de planos que o definem. Sem isso, estamos a negligenciar o que na nossa cabeça nos é tão próximo. Sem isso, estamos a impedir que outros entrem num mundo que, a certa altura, é só nosso. Nesse sentido, acredito que todos os elementos que constituem um filme, independentemente da sua duração, devem ser cuidados e devemos à nossa equipa um eterno obrigado pela sua influência no produto final».

A partir daqui, Filipe Coutinho reconhece este trabalho como uma mudança na definição do tipo de cinema que quer fazer de futuro. Assumidamente orgulhoso diz que Homecoming «será, provavelmente, o filme mais importante da minha carreira. Não será, espero, o melhor, mas foi aquele que me ajudou a definir a visão que me pertence e que pretendo explorar. Hoje, essa visão é moldada todos os dias naquele que é um processo de evolução infinito, mas o seu contínuo crescimento nunca seria possível sem as bases estabelecidas durante os meses que passei a racionalizar o Homecoming. O que se seguiu foi um processo de aprendizagem inestimável, sofrível e recompensador na mesma medida, pensado e desenvolvido com extrema dedicação e no prazer da companhia de colaboradores e artistas sem os quais o filme nunca existiria». Reconhece o cinema como prazer, também pela possibilidade de trazer ao cinema personagens com histórias reais, intensas e honestas. «A percepção sobre os mundos que quero explorar altera-se uma e outra vez mas as crenças sobre história, sobre personagens, essas mantêm-se inabalavelmente sólidas. Fascina-me a nossa tridimensionalidade, a capacidade de sermos deliciosamente inconsistentes, controversos e infinitamente vastos. Mais do que explorar uma história fascina-me explorar o homem que a define. As minhas narrativas começam sempre com um traço de personalidade, uma característica que torna uma personagem única, algo que me faz querer dissecá-la. A história surge depois. Afinal, somos nós, a viver e a conviver, que damos origem a ‘histórias’ e vejo algo de maravilhosamente orgânico na criação de uma narrativa a partir desse conceito.»


segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Entrevista a João Miller Guerra - «O cinema português tem de estar nas salas e as pessoas têm de se habituar a vê-lo»


Acabei de assistir a Cama de Gato e fiquei emocionado. Achei que apesar da sua curta duração, este poderia ser muito bem um dos mais interessantes filmes portugueses dos últimos anos. Dei por mim a rever o trabalho dos últimos anos da dupla João Miller Guerra e Filipa Reis, especialmente desde Li ké terra, premiado no Doclisboa 2010. Depois veio Orquestra Geração, a competir inclusive no Cinèma du Réel 2012, assim como Nada Fazi que venceu o prémio de Melhor Filme Português no Fantasporto 2012. Mais recentemente Fragmentos de uma Observação Participativa, a merecer estreia comercial e agora esta também dupla Bela Vista e Cama de Gato. Os prémios valem o que valem, mas o mérito fica. Estaremos talvez entre dois dos mais importantes jovens documentaristas portugueses da actualidade. Exagero? Talvez, mas também vale o que vale.

Marquei uma entrevista telefónica com o João Miller Guerra, estava entusiasmado. Cinco minutos depois da hora combinada, ligo. Manias. Atende-me uma voz simpática que me diz «Estava à espera que me ligasses» e eu parto para os elogios habituais, mas aqui mais sentidos. Responde-me com simpatia, humildade e até algum pudor. Parto logo para lhe perguntar o porquê de uma parceria tão evidente com a Filipa Reis, como e onde começou. Explica-me: «Nós começámos a trabalhar juntos em fins de 1999, inícios de 2000 para um programa na RTP2, chamado Triunfo dos Porcos. Era uma coisa que chamávamos a brincar, uma expressão de uma outra pessoa que trabalha connosco, de “bricolage televisiva”. Ou seja: uma construção feita por pessoas que não faziam a mínima ideia o que era trabalhar na televisão, de produções ou realização. Que tinham todas elas acabado de terminar os estudos, agora com um magazine de actualidades para fazer. Cada um trabalhava na sua área: a Filipa trabalhava na área de Economia, porque tirou Gestão. E eu fazia umas peças de dois minutos sobre objectos de design que tinham relevância na História, porque sou formado em Design de Equipamentos, Foi aí que conheci a Filipa e que começámos a trabalhar juntos. Depois seguimos para umas médias-metragens feitas na RTP e ficámos sempre amigos desde aí. Aliás, até vínhamos do mesmo colégio quando éramos mais novos, tínhamos alguns amigos em comum... Depois, em 2005 formamos uma produtora e em 2008 abrimos a Vende-se Filmes.»

Pergunto-lhe se planeia, num futuro próximo, um trabalho a título individual. «Nunca se sabe o dia de amanhã, mas nós para além do resto, também dividimos a própria vida, portanto para já não tenho nada planeado. Neste momento, temos reunido esforços e feito as coisas as dois, tendo corrido sempre bem e estamos contentes com este método».

Dia 7 de Novembro estreiam em sala, dois dos seus mais recentes projectos: Cama de Gato e Bela Vista. Ambos serão exibidos acompanhados de Um Fim do Mundo, de Pedro Pinho. Fazendo a retrospectiva do trabalho da dupla nota-se uma tema transversal à sua filmografia, algo com um cariz social muito forte. É algo que ambos procuram? «Eu acho que é uma coincidência. Não é uma questão que nos seja distante, mas de facto não tem sido um requerimento. As coisas acontecem um bocadinho, não vamos propriamente para os sítios à procura de assunto, mas o contrário. Acontece sermos chamados para determinado contexto e então aí ser preciso arranjar um assunto ou responder a um desejo de fazer um trabalho sobre esse tema.» Mas mesmo dentro dessa observação social, há também nos seus trabalhos uma forte tendência de fugir à regra. Por exemplo, em Bela Vista, o seu protagonista é o espaço e não as pessoas. «Lembrámo-nos de fazer o filme mais sobre a arquitectura, já que o projecto do Carlos Monteiro é bastante imponente e até um bocadinho utópico nesta coisa de pôr as varandas do lado de fora, para que elas próprias sejam os corredores de acesso entre as casas. Depois o que é que tinha acontecido ao fim de trinta anos? Efectivamente as pessoas tinham estado mais preocupadas em proteger-se e em ocupar aquele espaço, guardar a bicicleta, pôr o cão... e isso pareceu-nos uma óptima maneira de começarmos a entrar no bairro e para as pessoas começarem a habituar-se à presença da câmara. Muitas vezes usámos uma estratégia de filmar antes e depois explicarmos porque tínhamos filmado e pedir autorização para poder usar aquelas imagens. E aconteceu de tudo, coisas completamente inesperadas, outras combinadas previamente com as pessoas, para elas fazerem determinada acção que já tinha sido vista e portanto o filme acabou por ser mais sobre essa comunicação para o exterior e essa ocupação por parte dos habitantes dessas varandas e desses corredores de acesso».


O Bela Vista nasceu ainda de uma encomenda da Câmara Municipal de Setúbal, de onde faziam parte duas curtas-metragens de João Miller Guerra e Filipa Reis, assim como uma curta-metragem de Pedro Pinho. A ideia seria trabalhar os três projectos em conjunto, continuar a desenvolvê-los, com a participação das pessoas no bairro da Bela Vista. «A nossa estava pensada como uma ideia muito genérica de querer trabalhar com uma mãe adolescente, uma vez que a Filipa, ela própria também tinha sido mãe bastante nova, ainda na faculdade. E depois tínhamos esta estratégia montada, que nos parecia necessária para servir de projecto de aproximação ao bairro. O bairro da Bela Vista não é propriamente o local mais seguro da Europa, também não é de todo o mais perigoso, é bastante estigmatizado e um dos objectivos era trabalhar com a população e alterar a percepção exterior das pessoas de que o bairro é mau e perigoso. E usámos esse documentário como estratégia de aproximação, foi das primeiras vezes que começámos a passear-nos pelo bairro, não só para conhecer as pessoas e fazer um casting para conhecer pessoas e histórias para poder construir os filmes, como também começar a ter a câmara fora do saco e de poder começar a apontar para alguns locais potencialmente interessantes. E paralelamente a isso fomos conhecendo as nossas personagens e desenvolvendo o Um Fim do Mundo e o Cama de Gato.»

Faço nota do que já tinha comentado quando entrevistei o Pedro Pinho: os três filmes são um processo colectivo, com cenas que se repetem de filme para filme, mas de uma perspectiva diferente. «Num filme seguimos uma personagem, no outro seguimos a outra, mas a cena é coincidente. Isso foi pensado e escrito connosco e pelo Pedro, que escreveu os dois projectos e acho que foi um trabalho conjunto e no nosso entender, com tudo o que isso tem mais forte». Em todos eles, os realizadores trabalharam com as pessoas do bairro durante três meses. «Fizemos a coisa de forma intensa, alugámos uma antiga pensão desactivada e mudámos para lá a equipa. Vivemos muito com eles, vivemos muito no bairro, nas ruas, nos cafés e naquela realidade, para conseguir trocar uma maior riqueza de vivência com eles e eles connosco. Foi um processo de partilha incrível».

Questiono-me como é trabalhar com não-actores. Apesar do carácter quase documental que se evidencia aqui, o seu trabalho é tão natural, que parecem profissionais. Como é dirigir essas pessoas? «Elas não são dirigidas. São pura e simplesmente elas próprias, são super surpreendentes em muitas situações e dão muito mais do que aquilo que é pedido ou sugerido. Nós trabalhamos muito no método das coisas poderem ser ditas ou vividas, vamos supor, num café onde estamos a gravar, e depois isso é registado, vai para o guião e depois nessa altura é só voltar a esse tema. Claro que a cena não vai ficar igual ao que ficou na verdade, mas vai ficar parecida».


No caso de Cama de Gato, encontramos um filme protagonizado por uma jovem mãe adolescente de nome Joana. Não é uma personagem fictícia. Ela existe mesmo. Miller Guerra chama ao filme «uma ficção do real». Como a encontraram? «O processo de selecção foi bastante pacífico e possível através deste processo mágico que existe hoje em Portugal, até mais graças à televisão: escreves "casting" na parede e as pessoas fazem fila. No meio disso tudo apareceu sobretudo gente nova que se queria inscrever. Nós procurávamos pessoas para os filmes, pessoas para estar connosco durante o processo, mesmo que não fossem aparecer nos filmes como actores ou personagens. E foi uma coincidência incrível. Nós tínhamos esse ponto de partida de uma mãe adolescente, saberíamos que neste contexto seria fácil de aparecer e apareceu-nos a Joana, vestida com um lacinho tal como está no filme, com a sua malinha feita de coco. E apareceu-nos no casting convencida pelos seus pais, que achavam que ela, embora fosse mãe, tinha direito a experimentar fazer aquilo. Apareceu um bocadinho sem saber porque é que ali estava, mas conseguimos uma autêntica montanha-russa no depoimento da Joana. Pedimos para nos contar um bocadinho da sua história de vida e ela contou-nos, super-emocionada, basicamente aquilo que nós tentámos retratar na cena central do filme, em que ela conta a história do pai da filha e como tudo aquilo a afectou. Resumindo, aquilo que aconteceu foi que nós ficámos completamente apaixonados pela Joana. Acho que foi mútuo, ela ficou também muito curiosa connosco e portanto, daí partimos para a conhecer melhor, para construir o guião com a ajuda do Pedro». Recordo uma cena brilhante no final do filme, onde a personagem Joana quer sair à noite e deixar a sua filha, ainda bebé com a sua mãe. Esta nega-se a deixá-la sair, sem que esta antes fale com o pai. Há uma discussão, bem típica e bastante emocionante. Parece real. «Aquela é uma situação encenada, vivida ali no limite, que a mãe da Joana - que talvez seja dos três, a mais impulsiva - estava muito nervosa de fazer, mas tinha dito que sim, faria, porque gostava muito de nós. E a conversa começa com ela praticamente a perguntar "Já posso? Já posso? Já posso?" e o Vasco Viana ainda nem estava pronto e ela arrancou a cena. Foi ali um caos, mas depois correu bem. Aquilo que tínhamos pedido era para reencenarem uma típica discussão da Joana querer sair e eles não deixarem. Mas ganhou umas proporções tais que a Joana (como é seu costume também) emocionou-se, viveu aquilo como se fosse verdade e começa a soluçar, verdadeiramente nervosa, mesmo sabendo que não era real».

As estreias comerciais de cinema português não têm sido muitas nos últimos anos. Culpa de alguma redução na produção, mas também da dificuldade de estrear um filme nacional em sala. João Miller Guerra já conseguiu estrear recentemente outros dois filmes (Orquestra Geração e Fragmentos de uma Observação Participativa), mas diz-nos que foi «bastante suado, mesmo que no caso do Fragmentos de uma Observação Participativa tenha sido um convite que lhes foi feito para estrear a curta à frente de "Noutro País". Nos outros casos é um investimento completo nosso, com todo o investimento financeiro que isso acarreta, para depois ter muito poucos espectadores em sala, mas porque de facto acreditamos muito que tem que se dar tudo pelos filmes. Os filmes fazem-se não é para nós os consumirmos, é para as pessoas os verem. Estas personagens ou estas pessoas verdadeiras são absolutamente para serem partilhadas e são para que nós possamos aprender cada vez mais e desconstruir o outro, conseguindo quebrar  essas barreiras das diferenças. Ter o filme no cinema é para nós, sempre que possível e sempre que é possível fazer esse esforço financeiro, um ponto de honra. No caso do Bela Vista e Cama de Gato é a mesma coisa, mas com uma fantástica associação da Zero em Comportamento e da Projectos Paralelos, a correr maravilhosamente bem. No caso da Orquestra Geração foi uma grande loucura, mas com muita vontade de fazer isso».


Em relação ao actual estado do cinema português, nomeadamente à receptividade do público, diz-me que pressente uma mudança. «Posso ser eu que sou um optimista, mas o cinema português tem sido bastante falado e reconhecido internacionalmente. E acho que as pessoas que estão mais próximas sabem o estado em que o cinema português está. A cultura é aquilo que fica, não me parece que seja possível vivermos sem cultura. O cinema faz parte da cultura e não me parece que isso possa ser ignorado durante muito mais tempo. E depois também vai aparecendo tanto sangue novo, gente tão talentosa a fazer coisas e com cada vez menos dinheiro. O único risco que existe nesta nova geração é que quem está só a assistir, pode achar que o cinema se faz com pouco dinheiro. Faz-se um cinema com pouco dinheiro, far-se-á outro com muito dinheiro. E ambos são precisos. Portanto não se pode ganhar este discurso que não havendo, então se faz desta forma. Mas o mais importante de tudo, eu diria que é não deixar de fazer. Temos dado sinais de uma enorme vitalidade. As pessoas, sobretudo mais novas, começam a relacionar-se de outra forma com o cinema português e a experimentar ir ver outra vez cinema português. O cinema português tem de ir para as salas, as pessoas têm de se habituar a vê-lo e ele tem que estar disponível, não se pode deixar de fazer. Conseguiu-se fazer isso em relação à música portuguesa, que há uns anos também não se ouvia nas rádios e não tinha a indústria desenvolvida como tem... Se calhar é um exemplo parecido: o cinema também tem que conseguir vingar comercialmente».

Não resisto em perguntar-lhe, apesar de algum cliché na pergunta, se se encontra a planear novos projectos. Diz-me: «Temos um projecto para o ICA, se ainda houver... temos ainda duas obras de encomenda, uma fase de preparação e outra em fase de conclusão: um filme sobre os 40 anos da escola do Arco e outro comigo, com a Filipa e com o Tomás Baltazar. E estamos também a começar um filme para a Fundação Francisco Manuel dos Santos, que é sobre viver com o salário mínimo». Um tema social mais uma vez e digo-o. Ri-se: «Tentamos obviamente que seja também um filme de autor e não apenas a resposta a uma encomenda». Há portanto esperança ainda para o cinema português. Resta-nos aguardar.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Entrevista a Pedro Pinho, realizador de "Um Fim do Mundo" - «Não há trabalho para fazer chegar os filmes às pessoas»


Já tinha realizado duas curtas-metragens de ficção e uma longa-metragem documental, em co-realização, mas foi com Um Fim do Mundo que o lisboeta Pedro Pinho se deu a conhecer ao mundo. Quase literalmente, já que a sua antestreia mundial foi no Festival de Berlim 2013, numa sala com 1200 pessoas e onde, pela primeira vez, os actores viram o filme.

O fim do mundo a que o título do filme parece querer aludir não é, de todo, uma crítica social ou uma referência ao bairro da Bela Vista, em Setúbal, local onde se passa a narrativa. Conversámos por breves momentos com o realizador Pedro Pinho que assumiu que na escolha do título «queria que houve ali alguma ambiguidade e que as pessoas se perguntassem sobre o que é o fim do mundo. Houve inclusive, no final da montagem, várias pessoas que me disseram para mudar, porque parecia que eu estava a dizer que aquele bairro era o fim do mundo. Não era isso que eu queria dizer dizer, mas antes da rodagem, quando escrevi o argumento, existia uma cena onde a luz de todo o bairro vai abaixo. Uma cena que existe no filme, mas que por contingências da rodagem essa cena acabou por ser mais curta. Essa sensação de silêncio e escuridão favorecia melhor a explicação do título. O fim do mundo é também o final de um período, de uma idade, do fim da adolescência». Diz-nos ainda que em Portugal, por proximidade do tema e por conhecimento da problemática do mesmo bairro, é difícil discutir o essencial do filme, «cá em Portugal, é a primeira coisa que as pessoas vêem, aquele bairro e as suas características». Mas quando em Berlim «ver o filme com pessoas alheadas da realidade portuguesa, permitiu discutir mais o essencial do filme, o universo da adolescência. Lá, a Bela Vista é um qualquer bairro, junto à praia, em Portugal. Logo, as pessoas conectam-se mais».

Porquê então Setúbal e não uma qualquer outra cidade? «Tenho uma relação familiar e pessoal com a cidade. Quando imaginei o projecto, pensei-o em Setúbal, na altura em que estavam a construir vários empreendimentos turísticos em Tróia. Mas a Filipa Reis [realizadora de Cama de Gato e produtora de Um Fim do Mundo] foi convidada a concorrer a um concurso da Câmara de Municipal de Setúbal e como conhecia este projecto, convidou-me».


Para o filme, uma ficção assumida, escolheu não-actores. «É uma opção com a qual simpatizo. Neste caso, para evitar o excesso de postura e o excesso de trabalho a partir das personagens, uma série de maneiras de agir e encenar, muito próprias dos actores. As coisas eram muito construídas na relação, durante a rodagem. Os actores não tinham os dados todos do que ia acontecer. Ia dando informações, de maneira a que alguém pudesse dizer alguma coisa que eu pedisse, mas os outros não sabiam e teriam que reagir, como reagem naturalmente. Havia lugar para o improviso, para o imprevisto». Quase parece um documentário, estão estas pessoas reais a encenar-se a elas próprias? «São personagens ficcionais que incorporam factores e traços da vida real dos actores. Os actores não se conhecem nos mesmos moldes do filme, são personagens criadas, mas aproveitando algumas características próprias.»

Um Fim do Mundo é um filme colectivo, assinado por Pedro Pinho. «Um método de trabalho que partia de um esqueleto narrativo base e depois, em contacto com as pessoas do bairro, onde iríamos filmar, construirmos o resto da história. Isso aconteceu com o Fim do Mundo e Cama de Gato» [de Filipa Reis e João Miller Guerra] - dois filmes que contêm algumas cenas complementares entre si, das mesmas pessoas, das mesmas histórias, do mesmo local e que estrearão em sala em conjunto. «Ao mesmo tempo que estávamos a ensaiar com os não-actores e a escolher as pessoas que iriam trabalhar no filme, estávamos a construir a dramaturgia das personagens e a acabar o argumento do filme durante o processo».

«Eu tinha um guião escrito no início da rodagem, que foi cumprido», diz-nos Pinho. «Mas é um guião sem diálogos. Tem algumas frases, alguns pontos por onde os diálogos deviam passar, mas a personalidade não está lá. Os diálogos foram improvisados. Os actores eram obrigados a responder às solicitações que nós fazíamos e acabavam por improvisar a partir do que era pedido».

Porquê então o preto e branco? «Desde o início do projecto que quis logo que fosse a preto e branco. Porque o filme tinha que ver com uma intimidade e proximidade que o preto e branco melhor podia seguir, assumindo o registo minimalista da narrativa. Interessava-me aceder a esse lado mais íntimo e mínimo das relações, olhares, tensão e do ambiente, de sentir-se aquela sensação de suspensão temporal e eu achei que com o preto e branco se tinha mais facilmente acesso a isso: reduzia o ruído da cor. Com a cor, o espectador sente-se mais influenciado».


Um Fim do Mundo estreará em sala comercial em Portugal, a 7 de Novembro, em Lisboa no Cinema City Alvalade e em Setúbal, no Auditório Charlot. No Porto, haverá uma única sessão, em data a anunciar, no Passos Manuel. Em complemento estrearão as curtas-metragens de Filipa Reis e João Miller Guerra, Cama de Gato e Bela Vista. «Para mim é importantíssimo estrear em sala. Isto é um final lógico de um processo de trabalho. É pena que seja tão raro. Cada vez há menos salas, há cada vez menos circuitos de distribuição e os públicos também estão cada vez mais desligados por desconexão entre si. O meu outro filme passou em muitos sítios em Portugal, mas não estreou comercialmente em sala. Cada vez é mais difícil que isso aconteça e é extremamente frustrante: estás a trabalhar um ano ou o que for, mesmo que seja bem recebido, que vá a festivais e que receba prémios, depois não chega a estrear. Não há salas para receber esses filmes e não faz sentido. São investimentos demasiado grandes para que as pessoas não tenham acesso acesso a isso. Eu acho que há pessoas, não há é trabalho para fazer chegar esses filmes às pessoas».

Pedro Pinho assume ainda que «o problema maioritário é de articulação entre a produção e a distribuição. Enquanto houve produtores que tenham a cadeia de produção, exibição e distribuição, os filmes circulavam. Agora está tudo muito desarticulado, não há relação entre os produtores e os distribuidores, entre os distribuidores e os exibidores. Está tudo divorciado e a cadeia não funciona. A ZON Lusomundo nunca quer passar os filmes que fazemos. Estão uma semana e, se não fazem um número mínimo de espectadores, saem. Mesmo que na semana seguinte estreie lá um filme americano, que tenha ainda menos espectadores. Mas eles não querem saber disso. Compram tudo em pacote, é mais barato, têm contratos com distribuidores americanos onde têm que exibir aquilo, mesmo que não tenham espectadores. É um ciclo vicioso».

Até ao fim do ano, Pedro Pinho termina a montagem do seu próximo projecto. É um documentário, chamado As Cidades e as Trocas. Um filme «à volta dos fluxos económicos, provocados pelo desenvolvimento da indústria do turismo e todas as mudanças de paisagem - humana e física - que isso provoca». Até lá está agora ansioso pela estreia comercial de Um Fim do Mundo, mesmo que veja o futuro à sua volta, como nos disse, «um bocado sombrio».

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Entrevista a Júlio Alves, realizador de "A Casa" - «Tentei trazer a este filme um olhar diferente»

Este ano na competição nacional do IndieLisboa 2012 constavam três documentários num total de cinco obras a concurso. Um fenómeno nada incomum para o festival, já que em nove edições foram consagrados sete documentários com o prémio de Melhor Longa-Metragem Portuguesa. É um dado potencialmente curioso e que demonstra a boa forma que o cinema documental tem apresentado nos últimos anos. Mas o mais curioso é que uma dos mais interessantes obras a concurso deste ano, catalogada nessa categoria, é também uma desconstrução do género. Falamos de A Casa, primeira longa-metragem de Júlio Alves, exibido nas secções Competição Nacional e Cinema Emergente do festival.

Em conversa com o realizador percebemos que essa intenção foi propositada. «Eu não queria fazer um documentário típico. Quando ligas a câmara não sabes muito bem onde começa e acaba o documentário. Tem como base o documentário, mas não é necessariamente um, acho que é mais um objecto fílmico.» A câmara do realizador preocupa-se em filmar uma casa e os seus primeiros habitantes. «Os primeiros habitantes de uma casa são quem a constrói. O acto de construir é um acto de habitar, logo quem a constrói faz tudo o que uma pessoa normal faz dentro de uma casa terminada. Brincam, trabalha, conversam, têm momentos de lazer e descanso, comem e dormem. Queria trazer para dentro daquela casa, as pequenas histórias de família, tentei trazer pedaços das suas histórias, mas ligadas ao conceito da casa e do lugar». A curiosidade nesta intenção é que o cineasta traz este lado mais humano do ponto de vista dos trabalhadores emigrantes de uma casa, mas atribuindo-lhe maioritariamente uma visão poética e contemplativa do espaço. Negando toda e qualquer intenção social evidente. «Quem sou eu para dizer que estou a fazer uma crítica social? Não, estou é a observar um contexto social. Tento observar aquilo que me rodeia, nem tenho outra pretensão. Não faço filmes como uma espécie de diversão ou ocupação de tempos livres. Procuro é retratar as coisas sem criar um ponto de vista moralista».


Como fez isso? Filmando durante dois anos, cerca de 80 horas de material, numa casa em construção, onde obedecia a uma rotina constante de, no mínimo, quinzenalmente filmar e conviver com os trabalhadores da obra num dia inteiro de trabalho, das 8h às 17h. Quando questionado sobre o porquê da escolha daquelas personagens, maioritariamente de nacionalidade brasileira, Júlio Alves é categórico em afirmar: «eu não queria fazer mais um filme sobre emigrantes coitados, privilegiei com quem fui criando uma relação. Serem brasileiros teve que ver com o contexto actual. Se fosse uma obra há dez anos atrás poderiam ser ucranianos, ali eram brasileiros e agora muitos deles estão a regressar ao Brasil. E se calhar daqui a uns anos vais encontrar cabo-verdianos ou portugueses, mais do que imaginavas há cinco anos atrás. Não é uma opção minha, é mais uma característica. O que eu queria era que eles se habituassem a mim, eu a eles, eles à câmara e que eles pudessem interagir. Era necessário passar tempo». Passagem de tempo essa que sentimos pela própria transformação das personagens, há quem parta e regresse, há inclusive um guarda-vestidos constantemente a mudar de sítio, os trabalhadores a comerem sempre em sítios diferentes, «um microcosmos em constante transformação, uma reorganização constante, um lado mutante da casa». Sempre essa preocupação de manter a narrativa estruturada sobre a evolução da própria casa, com o tempo como uma presença constante captada através de noções como as nuvens e um constante jogo de luz e sombra. «São os elementos que a casa me dava». Porquê então um objecto fílmico tão formalmente arquitectado? «O Cinema e a Arquitectura são disciplinas muito parecidas na sua forma, o projecto e a metodologia são muito próximas. Um filme demora dois anos a fazer, a casa também. As personagens passeavam-se naquelas manchas de claro/escuro, vazio/cheio, actuavam e interagiam nesse espaço, havendo uma mise-en scéne também preocupada com essa questão da luz e sombra. No fundo, há uma sub-trama de ligação ao Cinema que me afasta do documentário convencional do ponto de vista formal»

Agora com a exibição no IndieLisboa, que já considera uma vitória, a estratégia passa pela intenção final de estreá-lo em sala de cinema. Mas é cauteloso: «só faz sentido pensar nisso com o resultado que o filme possa ter numa carreira de festivais». Enumeramos obras recentes como Lisboetas (2004), Ne Change Rien (2005), 48 (2010), José e Pilar (2010), É na Terra não é na Lua (2010) ou Linha Vermelha (2012), que Júlio Alves considera «filmes importantes e pertinentes. Filmes muito sólidos que revelam o olhar pertinente de um cineasta. Nenhum deles é moralista, é apenas um olhar sobre determinado assunto. Eu tentei trazer a este filme isso mesmo: um olhar».



A Casa é uma produção totalmente independente, sem qualquer apoio do ICA e financiada por si, através da Midnight Express e com o apoio da Ukbar Filmes. O realizador não deixa, pois, de manifestar a sua preocupação com o actual estado do financiamento do cinema português. «É terrível, é preocupante. O cinema é, até à data, a única actividade com um corte de 100%. E o seu financiamento não vem directamente do Orçamento de Estado, mas sim de uma taxa da publicidade paga na televisão. Esses cinco milhões de euros anuais permitem que um sector trabalhe e pague impostos, portanto o Estado recupera algum do investimento feito. Mais importante: há um património. É a identidade e a memória de um país que estão a ser apagadas. A proposta de Lei já saiu e já foi adiada duas vezes sem que haja um calendário ou respostas credíveis. Este espaço de tempo é terrível: há centenas de pessoas sem poderem trabalhar e não são só realizadores, um filme faz-se com várias pessoas. Socialmente pode ser algo terrível, mas o mais grave é que um país sem investimento na cultura não é um país civilizado».

Um futuro incerto, mas que não faz o jovem realizador baixar os braços. Enquanto espera que A Casa possa ganhar um lugar merecido no panorama do cinema nacional, esperançosamente levanta a questão «quem sabe se este filme não abra portas para novos projectos?». O cinema português ainda vive.


quarta-feira, 4 de abril de 2012

Entrevista a Sérgio Graciano - «Eu gosto de contar histórias para as pessoas verem»


Há dois anos atrás no recém inaugurado projecto Shortcutz Lisboa, Sérgio Graciano vencia a primeira edição deste concurso mensal de curtas-metragens no bar Bicaense, com Assim Assim. Uma curta-metragem sobre relações humanas através de dois diálogos na cidade de Lisboa. Cumplicidade e dúvidas entre personagens que ganhavam vida pelo corpo de Ivo Canelas, Albano Jerónimo, Joaquim Horta e Isabel Abreu. À falta de apoios nasceu a ideia de filmá-la no mesmo espaço. Uma esplanada como propiciadora de desabafos e conversas. Mas o largo sucesso que teve deu-lhe vontade de dar espaço a estas personagens. Falou com o argumentista Pedro Lopes, com quem já havia trabalhado algumas vezes: «a ideia era filmar da mesma forma, pequenas histórias rodadas num espaço, que nos mostrassem um pouco mais daquelas personagens e de outras que foram surgindo». Foi nascendo assim uma longa-metragem baseada na curta homónima, que era filmada à medida que surgia novo material. Tudo sem apoios. Do lote de estrelas que se juntaram a esta longa-metragem (Cleia Almeida, Nuno Lopes, Rita Blanco, Miguel Guilherme, Gonçalo Waddington, Joana Santos, Dinarte Branco, Margarida Carpinteiro) poder-se-ia esperar que o todo esse processo foi difícil. O realizador Sérgio Graciano contraria-nos: «por incrível que pareça não foi. Todos leram o guião e quiseram participar no projecto, são pessoas com quem já trabalhei bastante e são amigos». O que terá tocado assim estes actores e que poderá tocar também o espectador? «O filme tem muito a ver com os nossos tempos: o amor e algumas diferentes formas de amar, homofobia, racismo, traição. Os problemas da nossa geração».


Com um percurso extenso na televisão (assina trabalhos de realização em Liberdade 21, Conta-me como Foi, Maternidade, Laços de Sangue ou O Último a Sair) assume: «o cinema é o meu sonho». Contudo não deixa de ser crítico deste sistema de financiamento do Estado que «continua a favorecer os mesmos que estão acomodados e ao cinema individualista» e é peremptório em afirmar que o seu caminho passa por outro lado. «Sinto que estou muito apto a fazer cinema exactamente porque trabalho em televisão todos os dias» e cita o exemplo do mercado norte-americano onde as diferenças entre o mercado televisivo e cinematográfico começam a notar-se cada vez menos. «A distância entre o cinema e a televisão não é assim tão grande». E para Sérgio Graciano o cinema tem de ser feito também de aproximação ao público. Embora respeitando o trabalho alheio não esconde uma certa diferença de opiniões: «Nós fomos influenciados pelo cinema francês e a verdade é que ainda lá andamos enquanto os franceses já foram por uma estrada diferente». Para si o mais importante é «contar histórias para as pessoas verem. Interessa-me que seja visto e que as pessoas gostem» abrindo caminho para uma reconquista do público português. «Basta contar boas histórias, mas a verdade é que não há nada para escolher, só há um estilo no cinema português. E o problema é que quando se faz um filme para as pessoas tem logo direito ao rótulo de comercial. O que é ser comercial? O que vende? O que as pessoas gostam?».


Há muita confiança nas palavras de Sérgio Graciano. Compreende-se. De uma curta-metragem chega-se a longa-metragem filmada pela sua força de vontade e dos seus integrantes, logo num ano em que a produção nacional dependente de apoios estatais está suspensa. Sem coragem e ímpeto não se avança e já com o filme terminado na íntegra e depois da distribuidora ver um trailer na internet, viu-se assim nascer o interesse na sua distribuição nacional. «Resolveram apostar exactamente por ser um filme diferente». Quão diferente? A diferença (que é simultaneamente um factor de aproximação) reside no título. Assim Assim como os portugueses. «Nunca estamos bem nem mal, estamos sempre assim, assim». Dessa ideia tipicamente portuguesa nasce a conversa de café que serve de mote ao conceito original do filme. «Não acho que por ser fracturado tenha que ser desarticulado. No final chegamos à conclusão que vimos um filme bastante consistente, onde a mensagem chega ao espectador».

O seu gosto por cinema parte de muitas inspirações. Não que se baseie puramente nelas, mas o realizador não esconde o seu entusiasmo por nomes como Wes Anderson, Woody Allen, Chris Nolan e Paul Thomas Anderson, este último que afirma ser «o mais completo deles todos». Não comparando, com Assim Assim espera chegar ao coração do público tal como estes cineastas o fazem. «Os temas abordados são próximos das pessoas e isso cria uma identificação. O que vai fazer com que o filme seja visto é o tom, a verdade das histórias, a identificação». Assim Assim estreia nos cinemas portugueses a 19 de Abril.


sexta-feira, 2 de março de 2012

Entrevista a Dalila Carmo - «É urgente que se faça um cinema no qual as pessoas se possam rever»


Ficámos à conversa com Dalila Carmo, a propósito da estreia em Portugal de Florbela, filme de Vicente Alves do Ó onde a actriz interpreta a poetisa portuguesa Florbela Espanca e que chega já a todo o país a 8 de Março, Dia Internacional da Mulher. A actriz, humilde, assume que espera que este seja um dos seus primeiros grandes papéis, mas não subestima nenhum dos outros trabalhos. Quando questionada sobre com que realizadores gostaria de vir a trabalhar, responde sinceramente: «declarações de amor públicas causam-me um certo pudor», «promovo-me pouco, por pudor e falta de jeito». Felizmente, o seu talento faz o trabalho por si, acabando por ser convidada pelo argumentista e realizador Vicente Alves do Ó para interpretar a poetisa. «Não tive casting nem tive que ouvir que somos bastante diferentes fisicamente». E mesmo que muitos lhe vejam semelhanças com Florbela Espanca, a actriz diz que o «poder da sugestão é forte» e considera-se imensamente grata ao realizador por este não estar «condicionado por certos padrões».


Sobre o processo de criação da personagem, Dalila assume o extenso e difícil trabalho de pesquisa, visto existirem dados contraditórios na biografia de Florbela Espanca e não termos registos seus de voz ou em vídeo. Mas não quis também criar algo muito rígido, dizendo que este é «também um trabalho de intuição». «Tentei aproximar-me da pessoa e libertar-me das referência para não ficar condicionada por elas. Tudo são tentativas de nos aproximarmos de alguém». Diante isto, a actriz não tem receio de ser criticada por interpretar de forma pessoal uma figura tão conhecida e marcante tanto em Portugal como no Brasil. «Toda a gente conhece a Florbela e tem muitas certezas sobre ela e sobre quem ela era», mas «queria trabalhar a ambiguidade que ela teve até hoje e dar espaço ao espectador para reflectir sobre isso em vez de desenhar uma personagem de uma forma absoluta e fechada». «Não há caminhos consensuais e é complicado que haja». Conclui por afirmar que «Ninguém nunca é só uma coisa. Somos tudo. E somos muita gente». Dalila Carmo assume identificar-se com a personagem diariamente e que teve de «mergulhar de cabeça» para a encarnar no cinema. Florbela Espanca é conhecida pelos seus vários amores e desgostos, inclusive um intenso período de luto após a morte do seu irmão Apeles Espanca, mas a actriz admite que «não há grande pesquisa para a dor». «Vivemos, não é? Sem ela, o resto também não faz sentido».

Ter a oportunidade de encarnar Florbela Espanca foi um trabalho especial para a actriz, mas que num futuro trabalho «gostava de fazer uma mulher muito  cheia de si, cheia de auto-confiança», por gostar que lhe façam questionar tudo já que a sua «inquietação precisa dessa zona de conflito». «Tenho tudo por fazer. Não são as coisas que nos dão mais visibilidade que são mais gratificantes. Muitas vezes são as que ninguém vê», diz. Pessoalmente e profissionalmente dividida entre Portugal e Espanha, Dalila Carmo diz notar uma diferença de mentalidades: «A semana passada fui a uma estreia em Madrid e as pessoas gritavam "Bravo" antes do filme começar. Vão para gostar! E porque o cinema deveria ser sempre essa celebração também». Assume porém que em Espanha, existe mais tempo e dinheiro: «Gravei lá uma série de época em Dezembro», referindo-se a uma participação especial na minissérie espanhola El tiempo entre costuras, que abrange todo um período antes da Guerra Civil Espanhola até à Segunda Guerra Mundial. «Gravaram onze ou doze episódios em nove meses. Aqui isso era impensável».


Já no que diz respeito ao cinema português, afirma que «ainda há preconceito e ignorância», mas que é imperativo «que se faça um cinema no qual as pessoas se possam rever, com o qual se identifiquem», mas sobretudo «onde haja humanidade, gente de carne e osso, onde haja vida». «Sinto que se deve dar espaço a novos realizadores e novas linguagens», mas também assume que deve haver uma educação dos espectadores que devia começar nas escolas: «Acho que se deve habituar uma pessoa a ser curiosa, a procurar outras coisas, a aceitar a diferença e a compreender o cinema como o espelho de uma identidade cultural, que pode andar mais abatida e menos feliz, mas que tem riqueza, profundidade e muita poesia». É apaixonada pelo cinema e refere nos últimos anos ter gostado de bastantes filmes portugueses, de onde destaca a filmografia de Pedro Costa, Ganhar a Vida, de João Canijo ou A Outra Margem, de Luís Filipe Rocha. A nível internacional diz que dos que viu em 2011 gostou bastante de A Árvore da Vida, do realizador Terrence Malick, Melancolia, de Lars von Trier, Um Profeta ou Biutiful. Quanto a projecto de futuro, Dalila Carmo afirma ter várias propostas pendentes, a curto e longo prazo, mas assume resignada «Aprende-se tão bem a viver um dia de cada vez nesta profissão. Que remédio».

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Entrevista a Vicente Alves do Ó sobre "Florbela" - «Faço filmes para as pessoas»

Quase um ano depois de termos estado à conversa com Vicente Alves do Ó, a propósito da sua estreia na realização de uma longa-metragem em Quinze Pontos na Alma, voltamos à conversa com o argumentista e realizador português acerca de um projecto mais ambicioso: Florbela que estreará um pouco por todo o país, a partir de 8 de Março, com  Dalila CarmoIvo Canelas e Albano Jerónimo. O que mudou no espaço de um ano? «Aprendi imensa coisa. Todo o processo de filmar e pós-produzir um filme ensina-nos imenso. O cinema é uma arte tão permeável junto do público, das opiniões. Foi muito importante ouvir o que as pessoas sentiram, viram, pensaram. Foi muito importante fazer uma espécie de esboço mental dum filme que, no fundo, é tremendamente pessoal. Mas acima de tudo, o que aprendi foi perceber melhor o caminho que estou a fazer, as questões que coloco nas histórias que conto. Acho que todos os realizadores têm assuntos ou temas recorrentes, verdadeiras obsessões nas suas obras, que volta e meia os assombram e essa clarificação começou com tudo o que aconteceu com o "Quinze Pontos na Alma"».


Essa aprendizagem deu lugar à proposta de um argumento sobre uma das poetisas mais famosas do nosso país e além fronteiras, Florbela Espanca. Vicente Alves do Ó justifica este novo trabalho ao ter sentido algum preconceito por durante muitos anos ter trabalho como argumentista (Monsanto, A Filha, Kiss Me), especialmente por pessoas que nunca se questionaram do motivo que o levou a tornar-se realizador. «Como se isso fosse uma classificação eterna, definitiva na minha vida. Esse preconceito e essa forma de "engavetar" toda a gente neste país, magoou-me muito». Foi então num jantar entre amigos que ao falar-se sobre algumas figuras históricas portugueses percebeu que «a Florbela é vista de uma forma simplista e catalogada. Também ela foi e é vítima de um certo preconceito. Essas visões redundantes deram-me vontade de pesquisar, de querer saber mais sobre ela e o que fui descobrindo cresceu em mim e deu-me a vontade urgente e necessária de fazer um filme sobre ela: ao fim ao cabo, escrever sobre Florbela era escrever sobre nós - sobre os portugueses». Todo este processo de pesquisa não foi fácil ou não fossem as várias biografias de Florbela Espanca contraditórias ou omissas em diversos aspectos da sua vida e que poderiam limitar a visão do seu trabalho e da sua figura enquanto mulher. «Voltei a ler a sua obra - que já conhecia desde a adolescência, fui ler as biografias que se fizeram sobre ela e as cartas. Especialmente as cartas. As cartas deram-me uma visão muito interessante, complexa, fascinante, sobre uma portuguesa que apanha o fim da primeira república e que ainda vive momentos de grande liberdade na sociedade portuguesa antes da instauração do Estado Novo. Esta modernidade, que sinceramente, ainda nos custa a viver hoje em dia, é extraordinária e a Florbela viveu-a em pleno, apesar do preço que pagou por ela».


Contudo, Vicente Alves do Ó pretendeu fugir ao cliché da biografia de vida de uma figura histórica, seguindo a sua vida desde a infância até à idade adulta, destacando apenas os episódios principais da mesma. Pelo contrário e querendo dar-lhe alma, explora a fase da vida de Florbela onde esta atravessa um período onde deixa de escrever, querendo procurar todo um potencial dramático da história. «A vida da Florbela é plena em atribulações, mas eu precisava de me concentrar num momento que expressasse toda a sua complexidade e personalidade. Queria fazer um filme que se aproximasse da pessoa e não da figura histórica. Não queria fazer um filme onde apenas apontasse os acontecimentos importantes da sua vida - para isso fazia um documentário. Este filme é a minha visão da Florbela, claro que alicerçada em factos e documentos verídicos, mas não deixa de ser a minha visão sobre a vida dela e este período estranho, secreto, era particularmente tentador. Eu adoro escrever, não consigo imaginar a minha vida sem escrever e quando percebi que ela passou por esse momento - de ausência, vazio criativo - fiquei fascinado e interrogado. Como se vive sem escrever quando escrever é o fundamento de tudo?». Para o filme, inspirou-se num pequeno conto chamado O Aviador de uma antologia de contos da autora, intitulada Máscaras do Destino. No conto, a poetisa relata o acidente que vitimou o seu irmão Apeles Espanca, em 1927, recriando uma visão mítica da morte do irmão amado. Para Vicente «a sua linguagem é tão rica, tão cheia de adjectivação, metáforas, tão excessiva, que ficamos com a sensação que ela procura, através da escrita, resgatá-lo da morte e isso toca-me profundamente». O realizador quis levar essa visão poética também para o cinema, recriando o mundo interior da poetisa e filmando algumas cenas de uma forma menos literal e com alguma inspiração na fantasia. «Foi um desafio perigoso. Podiam correr muito mal por questões técnicas. Mas construí o argumento do filme de forma a viver sem elas, caso corressem muito mal. Felizmente tive uma equipa fantástica - Luís Branquinho na fotografia e a Irmã Lúcia nos efeitos digitais - pelo que tudo ficou exactamente como eu imaginava. Gosto muito de fantasia. Houvessem mais condições e não tenho dúvida que exploraria muito mais esses ambientes e narrativas. Vamos ver como evolui o cinema português e os meios para o fazer». Contudo e apesar desses momentos houve uma preocupação em recriar aquela época de uma forma real. «Existe sim a vontade de normalizar a época, ou seja, dar-lhe vida, sem que pareça falsa. Filmar época é sempre um risco. Fica tudo com ar de cartão postal. Falso. Quis e tentei acima de tudo dar-lhe um ar mundano, como se fosse hoje».


Para o papel de Florbela Espanca, o realizador escolheu a actriz Dalila Carmo que também havia colaborado em Quinze Pontos na Alma. A escolha não foi difícil. «Gosto de trabalhar com actores que se entregam, que sentem e que possuem uma grande inteligência. A Dalila é uma grande actriz, tem semelhanças com a original, o que me facilitou a vida no momento de escrever. Gosto de ter um rosto quando escrevo as personagens, porque humaniza os diálogos, as reacções, as acções. A Dalila é uma Florbela perfeita na sua complexidade, loucura, aventura, exuberância e ao mesmo tempo, é tão tão portuguesa»

Para apresentar o seu trabalho, Vicente Alves do Ó pretende recriar um processo semelhante ao conseguido por O Filme do Desassossego, de João Botelho, em 2010 e 2011. Uma espécie de tour com o filme pelo país, mesmo em cidades do interior, influenciada pelos resultados de bilheteira do cinema português. «Se pensarmos que o filme mais visto do ano - português - fez apenas 20 mil espectadores, quando já andámos perto dos 300, 400 mil, é sinal de alguma coisa e não me parece que seja apenas da crise. Precisamos de nos aproximar das pessoas, do país, quebrar as regras da distribuição e seduzir o público a ver cinema português. Antes de mais, faço filmes para as pessoas - essa é a minha maior ambição, que os meus filmes sejam vistos». E quando questionado se esses planos vislumbram também a sua internacionalização apenas arrisca um «o segredo é a alma do negócio». Entretanto o projecto Florbela cresceu também para uma minissérie a ser exibida pela RTP1 e dividida em três episódios: «trata de um objecto diferente do filme, com material novo e sem material que está neste filme. Portanto, são coisas diferentes com intenções diferentes. O filme é uma aproximação da pessoa, a minissérie é mais um biopic clássico. São objectos muito diferentes».



Sobre o estado actual do cinema português, admite que «o Estado tem a responsabilidade política de proteger o cinema e os cineastas e isso não passa apenas pelo financiamento, passa também pela imagem que se projecta e que difunde. Se um governo português é o primeiro a desresponsabilizar-se de todo e qualquer apoio ao cinema e às artes, como podemos depois pedir às pessoas que o apoiem? Não podemos. Há uma questão de honra, de respeito e dignidade. Podemos não gostar de todos os filmes, podemos não compreender, aceitar, mas devemos ter respeito e orgulho nos nossos cineastas e isso começa pelo reconhecimento do Estado». E não se coíbe de apresentar sugestões sobre «uma lei que promova o mecenato, que promova o investimento não só na produção como na divulgação e na educação de novos públicos. Acho que se discutem demasiado os subsídios e há outras questões fundamentais para que o cinema exista de forma saudável junto do mercado e das pessoas. Sobre se a produção será melhor ou pior, é mais subjectivo, mas acima de tudo, acho que o cinema deve primar pela diversidade».

Entretanto e até à estreia de Florbela, Vicente Alves do Ó andará ocupado. Mas admite: «Tenho sempre muitas ideias. Umas escritas, outras na cabeça». E mesmo com um futuro tenebroso sobre os nossos ombros, resiste. «A seguir veremos o que acontece, mas certamente irei filmar, com apoios ou sem, mas irei filmar. Lá está, não consigo imaginar-me já sem filmar».