quarta-feira, 4 de abril de 2012

Entrevista a Sérgio Graciano - «Eu gosto de contar histórias para as pessoas verem»


Há dois anos atrás no recém inaugurado projecto Shortcutz Lisboa, Sérgio Graciano vencia a primeira edição deste concurso mensal de curtas-metragens no bar Bicaense, com Assim Assim. Uma curta-metragem sobre relações humanas através de dois diálogos na cidade de Lisboa. Cumplicidade e dúvidas entre personagens que ganhavam vida pelo corpo de Ivo Canelas, Albano Jerónimo, Joaquim Horta e Isabel Abreu. À falta de apoios nasceu a ideia de filmá-la no mesmo espaço. Uma esplanada como propiciadora de desabafos e conversas. Mas o largo sucesso que teve deu-lhe vontade de dar espaço a estas personagens. Falou com o argumentista Pedro Lopes, com quem já havia trabalhado algumas vezes: «a ideia era filmar da mesma forma, pequenas histórias rodadas num espaço, que nos mostrassem um pouco mais daquelas personagens e de outras que foram surgindo». Foi nascendo assim uma longa-metragem baseada na curta homónima, que era filmada à medida que surgia novo material. Tudo sem apoios. Do lote de estrelas que se juntaram a esta longa-metragem (Cleia Almeida, Nuno Lopes, Rita Blanco, Miguel Guilherme, Gonçalo Waddington, Joana Santos, Dinarte Branco, Margarida Carpinteiro) poder-se-ia esperar que o todo esse processo foi difícil. O realizador Sérgio Graciano contraria-nos: «por incrível que pareça não foi. Todos leram o guião e quiseram participar no projecto, são pessoas com quem já trabalhei bastante e são amigos». O que terá tocado assim estes actores e que poderá tocar também o espectador? «O filme tem muito a ver com os nossos tempos: o amor e algumas diferentes formas de amar, homofobia, racismo, traição. Os problemas da nossa geração».


Com um percurso extenso na televisão (assina trabalhos de realização em Liberdade 21, Conta-me como Foi, Maternidade, Laços de Sangue ou O Último a Sair) assume: «o cinema é o meu sonho». Contudo não deixa de ser crítico deste sistema de financiamento do Estado que «continua a favorecer os mesmos que estão acomodados e ao cinema individualista» e é peremptório em afirmar que o seu caminho passa por outro lado. «Sinto que estou muito apto a fazer cinema exactamente porque trabalho em televisão todos os dias» e cita o exemplo do mercado norte-americano onde as diferenças entre o mercado televisivo e cinematográfico começam a notar-se cada vez menos. «A distância entre o cinema e a televisão não é assim tão grande». E para Sérgio Graciano o cinema tem de ser feito também de aproximação ao público. Embora respeitando o trabalho alheio não esconde uma certa diferença de opiniões: «Nós fomos influenciados pelo cinema francês e a verdade é que ainda lá andamos enquanto os franceses já foram por uma estrada diferente». Para si o mais importante é «contar histórias para as pessoas verem. Interessa-me que seja visto e que as pessoas gostem» abrindo caminho para uma reconquista do público português. «Basta contar boas histórias, mas a verdade é que não há nada para escolher, só há um estilo no cinema português. E o problema é que quando se faz um filme para as pessoas tem logo direito ao rótulo de comercial. O que é ser comercial? O que vende? O que as pessoas gostam?».


Há muita confiança nas palavras de Sérgio Graciano. Compreende-se. De uma curta-metragem chega-se a longa-metragem filmada pela sua força de vontade e dos seus integrantes, logo num ano em que a produção nacional dependente de apoios estatais está suspensa. Sem coragem e ímpeto não se avança e já com o filme terminado na íntegra e depois da distribuidora ver um trailer na internet, viu-se assim nascer o interesse na sua distribuição nacional. «Resolveram apostar exactamente por ser um filme diferente». Quão diferente? A diferença (que é simultaneamente um factor de aproximação) reside no título. Assim Assim como os portugueses. «Nunca estamos bem nem mal, estamos sempre assim, assim». Dessa ideia tipicamente portuguesa nasce a conversa de café que serve de mote ao conceito original do filme. «Não acho que por ser fracturado tenha que ser desarticulado. No final chegamos à conclusão que vimos um filme bastante consistente, onde a mensagem chega ao espectador».

O seu gosto por cinema parte de muitas inspirações. Não que se baseie puramente nelas, mas o realizador não esconde o seu entusiasmo por nomes como Wes Anderson, Woody Allen, Chris Nolan e Paul Thomas Anderson, este último que afirma ser «o mais completo deles todos». Não comparando, com Assim Assim espera chegar ao coração do público tal como estes cineastas o fazem. «Os temas abordados são próximos das pessoas e isso cria uma identificação. O que vai fazer com que o filme seja visto é o tom, a verdade das histórias, a identificação». Assim Assim estreia nos cinemas portugueses a 19 de Abril.


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