segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Ilo Ilo, por Carlos Antunes



Título original: Ilo Ilo
Realização: 
Argumento: 
Elenco: 


Ilo Ilo é um filme de rara atenção ao detalhe. Nas mais ignoradas decisões o filme encontra a matéria pela qual expressa as emoções e os julgamentos de umas personagens em relação às outras e até em relação à sua própria posição no mundo.
A banalidade de uma mulher limpar a tampa da sanita que o marido deixou suja ou de um homem rejeitar que seja a empregada a lavar o uniforme ganham uma relevância que assombra o público.
Um assombro nascido do reflexo que esses momentos têm no comportamento quotidiano de todos os que se sentam defronte do ecrã.
Pela particularidade da vida daquela família Anthony Chen dá-nos uma visão de uma realidade globalmente ressonante que não perde a singularidade da sua origem.
Que se passe há duas décadas atrás em Singapura, durante a maior crise financeira que afectou a Ásia, poderá ser uma coincidência significativa para o público ocidental mas ainda mais uma lição de como se terá de aprender a lidar com o presente quando ele se tornar uma memória.
O filme beneficia da ausência de uma intenção veicular relativamente a censuras morais dos comportamentos de então.
A visão discriminatória entre empregadores e empregados estabelece-se com a mesma imparcialidade da atrapalhação que os diferentes ritos religiosos causam no momento da refeição.
A realidade acontece e a reflexão que dela ou sobre ela possa ser feita não pertence ao domínio do realizador que consegue levar a sua câmara a desaparecer por completo, transformando composição (de cena) em observação.
O esquecimento da existência da separação entre público e intérpretes acontece tanto por causa do realizador como dos seu actores, cuja naturalidade não deixa de ter contornos interpretativos marcantes.
As mulheres vincando a memória da sua intervenção mais do que os homens, tal como é natural nas personalidades das suas personagens; com o pai a manter-se expressivo pelo silêncio (e pela ausência, mesmo quando está em cena); e o rapaz a desabrochar como actor em simultâneo com o desabrochar da sua personagem.
Pertence aos actores o coração do filme onde está a evolução da relação entre a criança e a sua ama. Da caprichosa rejeição inicial à dependência emocional.
Tal como à sua volta - e talvez quase tão importante - está a história de um casamento no seu momento mais difícil, do reestabelecimento dos laços entre marido e mulher, pai e mãe.
Por mais tocante que essas histórias de aproximação sejam, são também a mais significativa pecha do filme.
Elas são o contrário das observações que Chen faz dos detalhes: a expressão das histórias é uma marca da sua banalidade.
Não duvido que seja o que vemos seja uma representação realista da maioria das relações entre crianças e as suas amas.
Não evita que tal se tenha transformado num lugar-comum da ficção, surgindo aqui como uma estrutura demasiado repisada.
A falta de algo de novo a dizer sobre aquelas relações - em vez de à sua volta encontrar o singelo significativo - evidencia o esquematismo da história.
Não sendo insatisfatória também não consegue justificar o espaço central do "conflito" que lhe é concedido.
Mostra ser um suporte sólido para a construção da identidade de Anthony Chen como realizador mas uma certa debelação que sentimos das possibilidade da mesma fazem-nos crer que ele deveria ter ido mais além na agregação dos elementos diferenciadores exteriores ao núcleo familiar.
A cena em que Terry corre para ver Jialer receber o seu castigo escolar - vergastadas públicas - é uma das mais interessantes cenas e argumento em favor disso mesmo. A angústia da ama para com o seu menino a levar-nos de encontro à percepção profunda da mentalidade rígida - ditatorial? - da educação e do próprio país.
Por mais convincente que já seja a sua relação com a herança de Yasujiro Ozu, não está apurada.
Esta família é o ponto de intersecção das realidades sociais quando deveria ser o epicentro ressonante das mesmas. As particularidades sociais gravitam em torno da família mais do que se expressam nas relações internas.
Outras heranças fílmicas são menos evidentes para bem do realizador, pois estão também menos bem resolvidas.
De Abbas Kiarostami obtem o realizador a noção do espaço fechado do carro como impulsionador do diálogo - ou da confissão - mesmo que feroz.
Só que as cenas em que tal ele reproduz acontecem sem uma progressão efectiva para o momento seguinte do filme. Uma delas decorre mesmo numa condução por engano que conduz a lado nenhum senão a uma inversão de marcha e ao fim da própria cena.
São dificuldades de um primeiro filme e da construção de uma personalidade que não apagam as valorosas indicações que Anthony Chen já nos dá.




Vencedores do passatempo "O Salão de Jimmy"


Os vencedores do passatempo O Salão de Jimmy são:

Dia 19 de Agosto (Terça-feira) - Lisboa | Cinema Medeia Monumental, às 21h30
Ana Cátia Silvestre Leandro
Ariana Cristina Oliveira dos Santos
Bruno Rafael Esteves Manso Ribeiro
Carla Susana Ferreira Ribeiro
Elionora Nazaré Cardoso Pinto Santos
Fernando Manuel Ramos Soares
Filipe Alexandre Carvalho Rodrigues
Isabel Maria de Matos Teixeira Corujo
Joana Fonseca Gouveia Duarte
Lídia Carlota Macedo Seabra
Mafalda Cristina Farinha Gomes de Abreu
Nuno André Fernandes Costa
Pedro Emanuel Barradas Sardinha
Renata Maria Courelas Germano
Saúl Marques Gomes

Parabéns! Bom filme.

domingo, 17 de agosto de 2014

Tar, por Carlos Antunes



Título original: Tar


O elenco rico será a justificação para a estreia deste filme entre nós, resultado de um esforço de estudantes de cinema em torno da obra de um poeta que pouco dirá ao público português.
Elenco que é um dos primeiros empecilhos do filme. Não por falta de talento ou empenho mas por tipificação dos papéis.
Mila Kunis como feliz figura romântica encobrindo a tragédia pessoal que parece atrair apesar do seu desprendimento das coisas mundanas.
James Franco - também produtor e cada vez mais presente entre a produção "independente" actual que se torna saturante - a fazer mais uma desmonstração da sua intelectualidade numa continuação menor do seu Allen Ginsberg em Howl.
Jessica Chastain como dona de casa americana às voltas com um filho à procura de um lugar num mundo de pais ausentes e austeros.
Com Chastain a desconfortável sensação de repetição piora pois os realizadores assumem uma herança fílmica directa a Terrence Malick (limitada a The Tree of Life), numa contemplação poética da realidade.
Tal lirismo é justificado dado tratar-se de um trabalho com base na poesia de C. K. Williams que agrega muito do que é a vida quotidiana, mas os filtros de cor, o envelhecimento da imagem ou a delonga em pormenores (insignificantes) denotam uma indulgência criativa nada prometedora para trabalhos futuros - e nada agradável no actual.
Alguns momentos de beleza elevam-se sempre no seio do filme, sobretudo quando este se liberta da declamação dos poemas e aproveita as narrativas (de vida) que os compõem para estruturar o filme.
Momentos são breves e escassos no que não passa de um exercício de ilustração que deixa claro que funcionaria melhor como conjunto de pequenos segmentos mais limitados mas também mais definidos.
Os pedaços de poemas seleccionados não se combinam - ou não são estes os realizadores certos para o tentarem - num fôlego que sustente uma longa-metragem em jeito de biopic poético.
A exasperação toma conta do público ao fim de pouco, sobrando-lhe apenas o interesse pela beleza das palavras lidas.
A essas não lhes fazia falta as imagens no ecrã pois elas mesmas as transmitem com mais intensidade.




Cineasta português Pedro Costa é premiado no Festival de Locarno 2014


O cineasta português Pedro Costa venceu o Leopardo de Ouro para Melhor Realizador no Festival de Locarno 2014. O seu filme Cavalo Dinheiro foi também distinguido com o prémio FICC/IFFS (Federação Internacional de Cineclubes), ex-aequo com Mula sa Kung Ano Ang Noon. Este último, realizado pelo filipino Lav Diaz, foi galardoado com o Leopardo de Ouro para Melhor Filme.

Já o documentário Songs from the North, da realizadora Soon-Mi Yoo, foi distinguido com o prémio para Melhor Primeira Obra, tendo integrado a competição Cineasti del Presente. O filme é uma co-produção portuguesa da Rosa Filmes.

Competição Internacional
Leopardo de Ouro - Melhor Filme: Mula sa Kung Ano Ang Noon, de Lav Diaz
Prémio Especial do Júri: Listen Up Philip, de Alex Ross Perry
Melhor Realizador: Pedro Costa por Cavalo Dinheiro
Melhor Actor: Artem Bystrov em Durak
Melhor Actriz: Ariane Labed em Fidelio, l'Odyssée d'Alice
Menção Especial: Ventos de Agosto, de Gabriel Mascaro

Cineastas do Presente
Leopardo de Ouro - Prémio Nascens: Navajazo, de Ricardo Silva
Prémio Realizador Emergente: Simone Rapisarda por La Creazione di Significato
Prémio Especial do Júri Ciné+Cineastas do Presente: Los Hongos, de Oscar Ruiz Navia
Menção Especial: Un Jeune Poète, de Damien Manivel

Primeiro Filme
Melhor Primeira Obra: Songs from the North, de Soon-mi Yoo
Menção Especial: Parole de Kamikaze, de Masa Sawada

Pardi di Domani - Competição Internacional
Melhor Curta: Abandoned Goods, de Pia Borg e Edward Lawrenson
Pardino d'Argento Swiss Life: Shipwreck, de Morgan Knibbe
Menção Especial: Muerte Blanca, de Roberto Collio
Prémio Pianifica - European Film Awards: Shipwreck, de Morgan Knibbe
Prémio Film und Video Untertitelung: Hole, de Martin Edralin

Pardi di Domani - Competição Nacional
Melhor Curta: Totems, de Sarah Arnold
Pardino d'Argento Swiss Life: Petit Homme, de Jean-Guillaume Sonnier
Prémio Action Light - Revelação Suíça: Abseits der Autobahn, de Rhona Mühlebach

Piazza Grande
Prémio do Público UBS: Schweizer Helden, de Peter Luisi
Prémio Variety Piazza Grande: Marie Heurtin, de Jean-Pierre Améris

Júri Independente
Prémio Ecuménino: Durak, de Yury Bykov
Prémio FIPRESCI: Mula sa Kung Ano Ang Noon, de Lav Diaz
Europa Cinemas Label: Fidelio, l'Odyssée d'Alice, de Lucie Borleteau
Prémio Júri Jovem - #1: Durak, de Yury Bykov
Prémio Júri Jovem - #2: Alive, de Jung-bum Park
Prémio Júri Jovem - #3: Perfidia, de Bonifacio Angius
Prémio L'ambiente è Qualità di Vita: Mula sa Kung Ano Ang Noon, de Lav Diaz
Menção Especial: L'Abri, de Fernand Melgar
Prémio Júri Jovem - Melhor Filme Cineasti del Present: Frère et Soeur, de Daniel Touati
Menção Especial: Buzzard, de Joel Potrykus
Prémio Júri Jovem - Melhor Curta Internacional: Sleeping Giant, de Andrew Cividino
Prémio Júri Jovem - Melhor Curta Suíça: Abseits der Autobahn, de Rhona Mühlebach
Menção Especial: Matka Ziemia, de Piotr Zlotorowicz
Prémio FICC/IFFS: Mula sa Kung Ano Ang Noon, de Lav Diaz & Cavalo Dinheiro, de Pedro Costa
Menção Especial: Durak, de Yury Bykov
Prémio SRG SSR - Semana da Crítica: 15 Corners of the World, de Zuzanna Solakiewicz & La Mort du Dieu Serpent, de Damien Froidevaux
Prémio Zonta Club Locarno - Semana da Crítica: La Mort du Dieu Serpent, de Damien Froidevaux

sábado, 16 de agosto de 2014

Os Mercenários 3, por Carlos Antunes



Título original: The Expendables 3
Realização: 


Trata-se de um absurdo que um filme como The Expendables 3, um filme "de tiros" sem história para mais de uma linha, tenha mais de duas horas de duração.
Ao terceiro filme o que era para ter sido uma temporária reunião revivalista com alguma auto-consciência e ironia (sobretudo no segundo filme) passou a um conjunto de filmes que se começam a levar a sério.
Tão a sério que já vimos Stallone e Schwarzenegger regressarem a solo em filmes de acção para os quais, realmente, já não têm idade - mesmo que se mantenham em forma, a nossa noção dos anos que passaram custam-lhes a credibilidade.
Vemos isso também neste filme em que os duplos de Wesley Snipes e Antonio Banderas surgem - muito mal disfarçados - a fazer acrobacias e Parkour.
Não há nenhum efeito de ilusão criado nesses momentos e a única conclusão é que estamos perante um filme de acção igual a tantos outros mas em que os protagonistas não podem fazer-nos fingir acreditar no que vemos.
Fossem essas cenas interessantes e poderíamos tolerar a incredibilidade plenos de adrenalina machista - há uma personagem feminina entre os Mercenários que pouco conta - acumulada há 30 anos. Não o são.
Depois de ter realizado o primeiro destes filmes, Sylvester Stallone deu o comando do segundo filme a um realizador com algum talento - Simon West, vindo de The Mechanic, mas que curiosamente não se reergueu desde servir esta "saga" - para agora chamar um Patrick Hughes que não parece ter olho para este género, nem uma amostra cinematográfica que justifique a escolha.
Aborrecidas e limitadas, assim são as cenas de acção na mão deste realizador que deixa a clara impressão de que se deve ter medo por o remake the The Raid já estar a si atribuído.
Seria até simples tornar o filme um pouco menos mau deixando-o ser um pouco mais escorreito, uma forma de aumentar a tolerância do público se não o seu apreço.
Bastaria ter cortado todo aquele ridículo bloco durante o qual Stallone se dedica a juntar uma equipa de miúdos para o assistir depois de ter afastado os seus velhos parceiros porque não quer ser responsável pelas suas mortes.
O tempo perdido aí, para que eles acabem raptados pouco depois e os velhos tenham de os ir salvar, torna tudo intolerável porque nem sequer são os protagonistas esperados a receberem tempo de ecrã e amedontra-nos com a ideia de que Stallone esteve a lançar as bases de um grupo mais novo que poderá prolongar este título indefinidamente.
Das novas chamadas entre os velhos actores há pouco a dizer. Banderas tem um ou outro momento de graça degladiando a memória de Zorro. Snipes recuperado depois de três anos de prisão merecia um pouco mais por ser melhor do que a maioria. Ford faz uma perninha, pouco mais do que um cameo, sem falas realmente interessantes.
Sobra Mel Gibson, dos poucos com verdadeiro talento e com tempo para o mostrar. Ou melhor, para transformar uma caricatura num vilão.
Tal como Snipes teve o seu momento negro mas para o ver fazer o que faz aqui sem nenhuma esforço vale a pena apagar a memória dos seus problemas.
Só que Mel Gibson está no meio de um mar (de chamas?) de conveniência, previsibilidade, clichés e ridículo.
Tendo sido dos menos tolerantes com o regresso de Stallone e uma série de parceiros que escolheu, não deixei de  - por motivos mais ou menos casuais - de acompanhar o progesso de The Expendables para The Expendables 2.
Espero que este terceiro segmento deste cinema de acção para reformados seja o ponto final neste revivalismo, mas será certamente o último a que eu darei atenção - e julgo que também assim será com a generalidade do público.




sexta-feira, 15 de agosto de 2014

O Centenário Que Fugiu Pela Janela e Desapareceu, por Carlos Antunes



Título original: Hundraåringen som klev ut genom fönstret och försvann
Realização: 
Argumento: Felix HerngrenHans Ingemansson
Elenco: 


Não sendo uma comédia que atinja patamares de elevada qualidade, é caso para se transformar num fenómeno de apreço fácil.
Um filme a merecer uma atenção redobrada por surgir como um oásis de originalidade no meio do padrão de estreias de filmes do género.
Esta é uma road trip de criminosos nascidos por engano em jeito de comédia negra onde quão mais absurdas as mortes melhor.
Acontece sempre com uma energia caótica que faz lembrar muitos dos melhores momentos de Emir Kusturica.
Só que a história de Allan Karlsson tem também tempo para uma viagem ao passado onde essa energia se estende a um percurso pelo lado mais obscuro da História em que o centenário se mostra um verdadeiro Forrest Gump predestinado ao falhanço que se torna sucesso de forma sempre imprevisível.
O filme demonstra que a História é uma farsa e que a história dos seus indivíduos é um ainda maior absurdo.
Um absurdo onde se cruzam um elefante, o irmão pateta de Einstein, 50 Milhões de Coroas, um gangue de motoqueiros, a bomba atómica, o General Franco, largas quantidades de vodka e ainda maiores quantidades de explosivos.
Entre uma série ainda maior de personagens históricas, o homem com três anos de estudos e um gosto anormal por explosivos vai aceitando a vida tal como ela é, sem se questionar acerca dos preconceitos e moralismos alheios.
A sátira intensa à realidade política do mundo ao longo do século XX faz pensar em Karlsson como uma versão bizarra do Chance de Peter Sellers.
Estamos perante uma verdadeira aventura onde a impossibilidade está muita vezes à espreita mas da qual o filme consegue ir afastando-se - e, com isso, prender o público - porque assume o seu aburdo como objectivo máximo em todos os momentos.
O público está sempre a ser levado aos limites do que parece disposto a aceitar do filme e a ser rechamado para ele, não sem que um afecto pelos personagem principal cresça até ao final.
O que também ajuda a que o cómico Robert Gustafsson fique na retina "safando" um personagem que poderia acabar no ridículo, sobretudo nas cenas da sua terceira idade.
De acordo com este filme, a vida é uma aventura, mesmo quando está prestes a acabar. Talvez até mais quando está prestes a acabar e nada mais há porque a adiar.
Como diz Allan quando o ameçam de morte, "É melhor despachar-se, já tenho 100 anos e não duro muito mais.".
Assim deve o público despachar-se a ir ao encontro deste filme, fresco porque arrisca várias vezes o falhanço - grandioso - para se safar com mais uma gargalhada.




quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O Guardião das Causas Perdidas, por Carlos Antunes



Título original: Kvinden i buret
Realização: 
Argumento: 
Elenco: 


A aposta Dinamarquesa de longo prazo no seu próprio cinema tem produzido uma mescla de resultados de elevada qualidade lado a lado com outros de apelo público mas de resultados dúbios - e falo muito claramente de Susanne Bier.
Todos esses filmes são sempre de qualidade técnica acima da média e este O Guardião das Causas Perdidas não é excepção, proporcionando uma experiência cinematográfica agradável.
A fotografia exemplar cria o ambiente mais propício a esta história. A realização prima pela eficácia que não compromete.
Ao mesmo tempo isso significa também que falta alguma centelha ao filme. A aposta na técnica acaba por levar a que filmes como este não sejam mais do que competentes e eficazes - o tal "agradável" e nada mais.
A fotografia parece demasiado apurada, por vezes retirando a vida ao cenário. A realização não corre riscos e, portanto, não há nada de particularmente excitante.
Acima dessa qualidade média só a interpretação de Nikolaj Lie Kaas, desde logo com um perfil talhado para o papel de detective marcado pela vida e pelos muitos casos.
Um detective à moda dos dos clássicos noir americanos. Um detective solitário, com quem ninguém quer emparelhar, mas que pelo trabalho é capaz de ir criando uma relação com outro desalinhado da Polícia.
A seu lado Fares Fares parece igualmente uma excelente escolha e um actor a seguir com atenção. Não recebe uma composição equivalente, reduzido a traços esquemáticos.
Na verdade, traços ainda mais esquemáticos do que aqueles com que o argumento serve todos os personagens. O argumento é mesmo o elemento do filme cuja eficácia é insuficiente.
O argumento prima pelo cumprimento de todas as regras estabelecidas. Só que cumprindo os passos expectáveis acaba por recorrer a um conjunto significativo de clichés.
Os que definem o detective e o seu parceiro e, igualmente, aqueles que servem as cenas cujo género não é exclusivamente o do drama policial.
O argumento faz do filme um policial "directo ao ponto", apagando um pouco o contexto social pelo qual primam muitos dos policiais nórdicos.
Há alguma conveniência na forma como as pistas adormecidas há vários anos surgem velozmente e até o controlo sobre os flashbacks que se ligam à investigação corrente parece estar mais ao serviço da finalização da história e não do estabelecimento das motivações dos personagens.
Este é um caso em que o filme beneficiaria mesma da calma de uma meia hora a mais, sobretudo para servir a construção da relação entre os dois investigadores.
Que essa seja capaz de se formar e convencer o público - que não deixará de esperar os próximos filmes da saga - é a prova da tal qualidade geral que os filmes dinamarqueses mostram.
Esperemos que continuem a estrear por cá. E que tenham público suficiente para justificar isso mesmo!




quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Sex Tape - O Nosso Vídeo Proibido, por Carlos Antunes



Título original: Sex Tape
Realização: 
Argumento: Kate AngeloJason SegelNicholas Stoller
Elenco: 


Desapontante.
Um filme cuja premissa é o sexo e que se atreve a citar a iconografia de Boogie Nights ser tão púdico e tão banal.
Era perfeitamente possível ter feito este filme a partir de um email insultuoso enviado por engano e quase nada tinha de mudar.
O sexo é apenas uma forma de chamar a atenção para o que não deixa de ser uma versão mais da recuperação de um casamento pela via da aventura mais absurda possível.
Um filme que, apesar de ser sobre sexo, se dedica a repisar todos os clichés que já se esperavam estar a ser superados: os filhos acabam com o sexo no casamento e as pessoas julgam que precisam de recorrer à extravagância para recuperar a chama que tinham no passado.
O mais perto que se está de haver humor sobre como o sexo é visto no tempo presente é na aparição de Jack Black como dono do YouPorn e a sua citação interminável e quase chocante dos seus rivais.
Infelizmente essa cena não termina sem um discurso moralista sobre a vida de casado, destruindo o pouco efeito conseguido aí.
Os argumentistas esqueceram-se por completo de incluir humor a sério, algo mais do que situações exageradas dependentes de gags físicos esgotados - Jason Segel contra um cão como um dos mais óbvios.
O mais perto que eles estão de alguma ironia é ao chamarem Rob Lowe para interpretar o papel de um bom pai de família que em segredo se dedica a Heavy Metal e linhas de cocaína. Afinal o actor é o pai dos escândalos com sex tapes e foi isso que o levou a abandonar a droga.
Mas eles não sabem o que mais fazer além de associarem o actor ao papel, confiando que a memória do público (ou parte dele) será suficiente.
Não ajuda em nada que Jake Kasdan, realizador de duas excelente comédias como são Zero Effect e Walk Hard: The Dewey Cox Story, continue por um caminho descendente que para já não vai terminar pois parece que vai continuar o seu (pouco) esforço de Bad Teacher.
Não há qualquer ideia com um toque de originalidade ou de risco neste trabalho de Kasdan. Muito menos qualquer vestígio de uma cena capaz de combinar verdadeiro erotismo à comédia - algo que, apesar de tudo, tinha mostrado saber fazer nos seus filmes mais recentes.
Essa falha em particular, mas a geral falta de ideias de comédia próprias torna-se inegável quando, ao jeito de The Hangover, os protagonistas vão ver a sex tape que perseguiram o filme todo. Nesse momento que poderia ser de libertação total, o vídeo é passado em fast forward e depois chega o fim do filme.
Contra este vazio os dois protagonistas, actores que parecem entre os mais propícios a liderar com uma dose de bom humor uma comédia atrevida como esta deveria ter sido, pouco podem fazer.
Não lhes foi realmente dado um papel a partir do qual pudessem criar um pouco de humor nascido dos actores e passado para as suas personagens. Nem sequer para si próprio, enquanto actor, o Jason Segel argumentista foi bom.
Um filme que por um momento até promete algo mais, com Cameron Diaz a ser uma mãe dos subúrbios desbocada - porque saudosa - acerca da sua antiga vida sexual.
Desapontante. E muito!




Passatempo "O Salão de Jimmy"


Nos cinemas a 21 de Agosto!

1932 - Depois de viver exilado dez anos nos Estados unidos, Jimmy Gralton volta à sua terra para ajudar a mãe e cuidar da quinta da família. A Irlanda que encontra, dez anos depois da guerra civil, tem um novo governo e muitas esperanças no ar... Após as solicitações por parte dos jovens do Condado de Leitrim, Jimmy, apesar das suas reticências em provocar os seus velhos inimigos, como a Igreja ou os grandes proprietários, decide reabrir o seu "Hall", um lugar aberto para todos, onde se pode dançar, estudar, ou conversar. De novo, o sucesso é imediato. Mas a influência crescente de Jimmy e as suas ideias progressistas não agradam a todos na aldeia e as tensões acabam por reaparecer...




O Salão de Jimmy, de Ken Loach, fez parte da selecção oficial do Festival de Cannes 2014. O filme vai estrear-se em Lisboa, Porto, Faro, Almada, Vila Nova de Gaia e Carcavelos. Temos convites duplos para a sua antestreia para oferecer com o apoio da Leopardo Filmes:

Dia 19 de Agosto (Terça-feira) - Lisboa | Cinema Medeia Monumental, às 21h30

Para se habilitar a ganhar um dos quinze convites duplos que temos para oferecer, basta preencher correctamente o seguinte formulário.


Notas:
- O passatempo decorre até às 23h59 h do dia 17 de Agosto, sendo excluídas todas as respostas que chegarem depois desse prazo.
- Apenas será aceite uma participação por e-mail e por pessoa.
- Os premiados serão escolhidos entre todos aqueles que apresentarem uma participação válida - com as respostas correctas às questões, juntamente com todos os dados solicitados - e a escolha será definitiva a menos que se apresente um caso de fraude. A escolha é aleatória.
- O nome dos vencedores será publicado neste blogue e os mesmos serão avisados por email.
- Em caso de não concordar com alguma destas regras, deverá abster-se de participar.
- Antes de participarem certifiquem-se que poderão comparecer no dia indicado. Em casos de força maior, deverão comunicar atempadamente a vossa ausência através do e-mail acima indicado. Reservamo-nos o direito de excluir de futuros passatempos todos os que não cumprirem estas regras.
- Os convites estão limitados à lotação da sala e devem ser levantados nas bilheteiras do cinema até meia hora do início da sessão. O Split Screen não se responsabiliza por eventuais lotações esgotadas que possam ocorrer na data indicada.

Estreias 14 Ago'14: The Hundred-Foot Journey, Tar, The Expendables 3 e Tinker Bell & The Pirate Fairy

Dia 14 de Agosto, pode contar com as seguintes estreias numa sala de cinema perto de si:

Destaques:

  A Viagem dos Cem Passos (The Hundred-Foot Journey)

Ano: 2014
Realização:
Argumento:
Género: Drama, Comédia
Elenco: , ,
Desde sempre que a família Kadam convive de perto com todas as subtilezas do mundo da culinária: os seus cheiros, sabores e segredos mais delicados. Agora, depois de serem obrigados a deixar a sua Índia natal, os Kadam instalam-se numa pequena e pitoresca aldeia no Sul de França, que julgam ser o local ideal para abrir um restaurante cujos sabores especiais cativem o paladar dos seus habitantes. O lugar parece-lhes perfeito até conhecerem a sofisticada e pouco amistosa Madame Mallory. Proprietária de um elegantíssimo restaurante de alta cozinha francesa galardoado com uma estrela Michelin – e que se situa a apenas cem passos dali –, ela não está nada interessada em dividir a clientela. O problema agudiza-se quando descobre que Hassan, o filho mais velho dos Kadam, tem realmente um talento nato para a arte culinária. Determinada a não perder o protagonismo, ela inicia uma guerra contra os seus novos vizinhos que apenas terminará quando tiver a humildade de se render aos sabores da cozinha indiana, dividindo os seus conhecimentos com os deles... Realizada por Lasse Hallström ("Regras da Casa", "Chocolate", "Um Refúgio para a Vida"), segundo um argumento de Steven Knight, uma comédia gastronómica que conta com Steven Spielberg e Oprah Winfrey na equipa de produção. Com os actores Helen Mirren, Om Puri, Manish Dayal e Charlotte Le Bom a apimentar o elenco, "A Viagem dos Cem Passos" adapta a obra homónima, escrita por Richard C. Morais em 2010, que se tornou um "best-seller" internacional.
Outras sugestões:

Tar (Tar)
Ano: 2012
Género: Drama, Romance, Biografia
Elenco: , , , , e
Uma viagem pela vida do poeta C. K. Williams (nascido em Newark, EUA, em 1936), um dos mais celebrados poetas da História da Literatura, tendo por base alguns dos seus poemas, presentes na colecção "Tar" (1983). A narrativa atravessa várias décadas, desde a infância e adolescência, nos anos 1940, até à idade adulta, já nos 1980. Os realizadores vão fazendo o retrato do poeta ao mesmo tempo que contam a sua história de vida, revelando a importância da relação com a mulher e o filho no seu esforço criativo, constantemente atormentado pela falta de inspiração e pelas memórias do passado. Estreado em 2012 no Festival de Cinema de Roma, um filme com argumento e realização de 12 estudantes de cinema nova-iorquinos (alunos de James Franco): Edna Luise Biesold, Sarah-Violet Bliss, Gabrielle Demeestere, Alexis Gambis, Shruti Ganguly, Brooke Goldfinch, Shripriya Mahesh, Pamela Romanowsky, Bruce Thierry Cheung, Tine Thomasen, Virginia Urreiztieta e Omar Zúñiga Hidalgo. James Franco, Henry Hopper, Mila Kunis, Jessica Chastain e Zach Braff dão vida às personagens principais.

  Os Mercenários 3 (The Expendables 3)

Ano: 2014
Neste terceiro capítulo da saga, os mais emblemáticos mercenários do mundo enfrentam Stonebanks Conrad, antigo companheiro e co-fundador da equipa que, até ao momento, todos julgavam morto. Com Conrad sequioso de vingança, Barney, o líder do grupo, terá de reavaliar não apenas a força do adversário, mas também as suas próprias fraquezas. Deste modo, os mercenários vêem-se obrigados a reforçar os elos que sempre os uniram e os mantiveram de pé e, ao mesmo tempo, encontrar formas de revitalizar a sua resistência. Para isso, terão de recrutar novos talentos, cuja força reside essencialmente na capacidade de adaptação a um mundo moderno dominado pela tecnologia. Agora, numa missão de auto-sobrevivência, esta temerária equipa vai compreender que, se conseguir aliar a experiência dos mais velhos ao conhecimento dos mais jovens, se tornará praticamente imbatível. Realizado por Patrick Hughes e com Sylvester Stallone novamente como argumentista e líder d'"Os Mercenários", um filme que consegue a proeza de reunir no mesmo ecrã algumas das mais icónicas estrelas do cinema de acção das últimas décadas: Arnold Schwarzenegger, Jason Statham, Dolph Lundgren, Jet Li, Terry Crews e Randy Couture, aos quais se juntam, pela primeira vez, Antonio Banderas, Wesley Snipes, Harrison Ford, Mel Gibson e ainda Ronda Rousey, conhecida estrela feminina das artes marciais mistas.

 Sininho: Fadas e Piratas (The Pirate Fairy)
 
Ano: 2014
Realização:
Argumento: Jeffrey M. Howard, Kate Kondell
Género: Animação
Elenco de vozes: , e
Quando, após um inesperado acidente, a fada Zarina rouba o pó azul das fadas e foge para se juntar aos terríveis piratas de Skull Rock, Sininho e a suas jovens amigas compreendem que não têm alternativa senão seguirem até lá para o recuperarem. Para isso, terão de enveredar por uma longa e perigosa viagem ao Norte da Terra do Nunca, um lugar cheio de mistérios e muitos enigmas para desvendar, que é governado pelo jovem Capitão Gancho e a sua trupe de malfeitores. Mas tudo se complica quando as pequenas fadas se apercebem de que os seus dons foram trocados e que perderam o controlo dos seus poderes naturais. Decididas a reaver o pó azul seja a que preço for, têm de aprender a usar os novos talentos de que são agora possuidoras. Mas, para que isso seja possível, cada uma delas terá de ter presente o mais importante de todos os poderes: o da amizade verdadeira.Com realização de Peggy Holmes (responsável pelo filme "Sininho O Segredo das Fadas"), conta mais uma aventura da minúscula fada eternamente apaixonada por Peter Pan, que é também uma das mais carismáticas personagens criadas pelo autor escocês J. M. Barrie (1860-1937).
Sinopses: Cinecartaz Público

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Os Guardiões da Galáxia, por Carlos Antunes



Título original: Guardians of the Galaxy
Realização: 
Argumento: Nicole Perlman


Foi em 2008 que a Marvel descobriu que o modelo mais humorado do filme de acção - Iron Man - parecia produzir melhores resultados do que uma versão mais intensa mas sisuda - The Incredible Hulk.
(Reduzo o modelo a uma das suas características mais óbvias sem querer minimizar outros aspectos que têm introduzido nuances importantes.)
No entanto desde então que a Marvel tem vindo a aplicar este modelo a todos os seus personagens numa padronização que tem dado bons resultados de bilheteira mas também vários resultados cinematográficos insatisfatórios.
Os melhores de entre eles têm-se visto fora do universo dos personagens que formam os The Avengers - e, por isso, também fora do âmbito da produção exclusiva dos estúdios Marvel -, em particular ambos os The Amazing Spider-Man.
Muito embora os filmes mais recentes de Thor e Captain American tenham mostrado sempre melhorias significativas, o modelo de criação dos filmes continuava a não ser adaptável por completo às suas personagens.
Guardians of the Galaxy é o momento em que o estilo Marvel encontrar quem melhor o serve: um conjunto de personagens ineptas capazes de grandes momentos de heroísmo mas também das maiores tolices, quando umas e outras não são as mesmas.
Mais ainda do que isso, são personagens que (para já) não estão condicionadas a serem trabalhadas em função de filmes alheios ou de grupo que estão para vir, pelo que estão encapsuladas no seu próprio universo.
Um universo de space opera que vai rareando no cinema e onde se aposta na inconvencionalidade do humor criado pelas personagens nas situações específicas em que se inserem.
Boa parte do prazer do filme vem dessa admiração confessa por Lucas - e também Spielberg - sendo que poderá ser o único blockbuster capaz de fazer reviver a aventura espacial tal como a admirávemos há três décadas atrás.
O restante vem da sua capacidade para não se levar a sério, como a própria escolha da banda sonora - cheia de hits pop dançáveis (literalmente) - consegue dar a perceber com prazeirosa eficácia.
Muito dessa capacidade existe graças ao realizador, novamente uma escolha inesperada da parte dos produtores, mas desta vez certeira - algo que tem sido mais raro.
O realizador não pode chegar ao ponto radical com que tratou o conceito de super-herói em Super, mas tem à sua disposição personagens longe de serem imaculadas que lhe permitem explorar nuances de comportamento que outros filmes Marvel apenas afloraram.
Ainda para mais é um realizador capaz de lidar brilhantemente com as relações entre personagens - ou entre este tipo de personagens - e que tem ao seu serviço uma óptima escolha de actores com verdadeira química gerada entre eles.
Um grupo onde ao talento comprovado se junta uma boa dose de surpresa, algo que está resumido em Chris Pratt: reconhecido apenas pelos atentos a Parks and Recreation dá um protagonista de enorme carisma e notável adaptação ao papel.
(O mesmo se poderia dizer de Lee Pace, que faz um excelente vilão mas que recebe menos tempo de ecrã do que poderia e deveria.)
Com tudo isto, é garantido que este poderá ser o filme de "super-heróis" capaz de atrair também o público que tende a rejeitar esse género.
A única dúvida que o filme levanta é se o estúdio irá manter a independência deste grupo quando o sucesso for evidente, já que isso poderá colocar em causa o distintivo estilo de aventura de ficção científica aqui recuperado à memória cinematográfica.




Obituário: Robin Williams

21 de Julho de 1951 - 11 de Agosto de 2014

Faleceu, aos 63 anos, o actor norte-americano Robin Williams. O actor foi encontrado morto em sua casa, suspeitando-se que se suicidou por asfixia. O agente do actor revelou que este encontrava-se a combater uma depressão severa. Quatro vezes nomeado ao Óscar por Good Morning, Vietnam (1987), Dead Poets Society (1989), The Fisher King (1991) e Good Will Hunting (1997). Este último valeu-lhe a estatueta na categoria de Melhor Actor Secundário. O actor venceu ainda seis Globos de Ouro, dois prémios Emmy e Screen Actors Guild, assim como cinco Grammy. Recentemente foi visto na série The Crazy Ones, tendo ainda finalizado três filmes, ainda em fase de pós-produção.

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