quarta-feira, 7 de maio de 2014

Debaixo da Pele, por Tiago Ramos


Título original: Under the Skin (2013)
Realização: Jonathan Glazer

Que dança intoxicante, inebriante e sensual é esta? Que sons extrassensoriais são estes que enervam a mente e contaminam as imagens hipnotizantes que se apresentam diante de nós? Jonathan Glazer trouxe à obra homónima de Michel Faber uma imagem conceptual tão abstraída da ideia original, quanto oblíqua, mas não por isso menos fascinante. Debaixo da Pele abstrai-se das noções convencionais do cinema, para trazer um dos objectos mais interessantes dos últimos tempos. Assente no poder da repetição e dos sons 'altamente sonoros' (perdoem-nos o pleonasmo), o filme faz do rosto e do corpo da sua protagonista (uma Scarlett Johansson estonteante) o centro de um eminente terror, de um maneirismo singular e estranho, de uma ideia conceptual da natureza humana. Aquilo que é experienciado aqui é dificilmente colocado em palavras, porque é de facto um festim visual e sonoro.

Jonathan Glazer, que já tinha trazido até nós duas obras distintas e de certo modo bastante subvalorizadas (nem que seja pelas suas maravilhosas noções de cinema e de estranheza), faz de Debaixo da Pele um verdadeiro extraterrestre. Com uma estética a fazer lembrar a ficção-científica dos anos 70 e 80 - em muito perpetuada pela estrondosa e estridente banda sonora de Mica Levi - o filme ecoa por aqui e ali alguns momentos a fazerem lembrar o cinema de David Lynch ou de Stanley Kubrick. As imagens, essas desafiam a (des)orientação e paciência do espectador, com sequências cadenciadas, repetitivas, como numa dança bizarra e intrusiva que o espectador é levado a observar e participar. Uma dança letal, adversa, dissonante e hostil. Um filme áspero, enigmático e simultaneamente cativante. Uma narrativa que dialoga com muito daquilo que o espectador quiser apreender: a natureza humana, a feminilidade na sociedade contemporânea, as noções do desejo e morte. Uma noção que actua precisamente debaixo da pele, das personagens e do espectador, num movimento incessante, aparentemente aleatório, um sentido de violência estética e sonora, um estranho e esmagador fascínio, uma hipnótica abstracção. Debaixo da Pele permanecerá no cinema como um clássico da ficção-científica contemporânea. Na nossa mente permanecerá como o mais pontiagudo e ressonante objecto dos últimos anos.


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