sábado, 17 de fevereiro de 2018

Pantera Negra, por Eduardo Antunes


Título original: Black Panther (2018)
Realização: Ryan Coogler
Argumento: Ryan Coogler, Joe Robert Cole

Não sendo exactamente pioneiro na representação de certas minorias no grande ecrã neste tipo de entretenimento, apenas por já terem existido outros exemplos anteriormente, é certamente um marco na maneira aprofundada como o faz, e por revitalizar uma dúvida de sucesso que, posta, não tinha qualquer sentido. Resta entender a fundo o que torna este filme tão altamente validado e, mais, demonstrar como, em diante, podemos abrir os horizontes em termos das estórias contadas em filme.

Existe, obviamente, um aspecto que não podemos descorar logo à partida, o qual será o cenário onde o filme se insere. Logo à partida, a decisão, não apenas de explorar mais a fundo a cultura, política e sociedade do que seria esta nação ficcional de Wakanda, mas de igualmente focar basicamente o filme inteiro neste cenário, embute todo o filme com um sentimento de maravilha, por explorarmos mais a fundo raízes, costumes e tradições de culturas que para a maioria serão desconhecidas e, consequentemente, passarmos o máximo tempo possível nesse mesmo contexto.
Num mundo que tende, na sua generalidade, a esquecer as tradições em troca de uma cada vez mais universalidade, a par com uma constante exploração de cada vez maiores avanços tecnológicos, é igualmente interessante ver como uma nação pode manter as suas tradições mais antigas à medida que cada vez mais evolui tecnologicamente, entrelaçando o novo e o antigo em perfeita sinergia.

Estes aspectos de entendimento do nosso passado, aliados ao entendimento da nossa posição perante erros cometidos, tornam-se ainda mais relevantes pelas implicações que podemos verter para a nossa própria contemporaneidade, à medida que ao longo do filme são levantadas questões inerentes aos filmes de ditos super-heróis (da relação intrínseca entre poder e responsabilidade), mas aqui potenciadas pela escala de uma nação inteira com uma herança exposta e da pessoa à frente desta, algo que nunca foi visto nestes filmes e que se tornam aqui, e por essas razões, intemporais.
Mais, no contexto mais amplo deste tipo de filmes, é também muito bem-vindo o explorar de um "mundo" tão diferente daquilo a que estamos habituados, e que desde Thor estava à espera de ver acontecer, nesse caso, com o imaginário de Asgard, ao invés do mesmo tipo de sequências no mesmo tipo de sítios que já foram explorados à exaustão em todos os filmes.



Aparte estes aspectos, o que muitas vezes se verifica em muitos recentes blockbusters é a falta de consistência que uma narrativa pode apresentar na forma como os eventos influenciam as escolhas das personagens ao longo do filme, o que nos pode por vezes fazer questionar as motivações das mesmas. E esse é certamente um problema que não se verifica aqui, sendo inclusive um dos pontos mais fortes do filme.
Não só os aspectos anteriormente referidos da nossa relação com o passado e como devemos agir perante erros fora do nosso controlo, dá uma profundidade à personagem central (ainda para mais, depois da sua apresentação em Captain America: Civil War) que, não só tem que pesar as memórias e escolhas dos seus antepassados, mas mais, considerar como influenciarão as suas escolhas perante o legado e responsabilidade que lhe é confiada (e que, sem revelar o final, terão repercussões na forma como esta personagem encaixará neste restante universo ficcional).

Para além do protagonista, personagens como Nakia (Lupita Nyong'o) e Okoye (Danai Gurira) têm a sua própria visão sobre o facto de Wakanda permanecer totalmente isolado e qual deve ser o seu papel nesta nação e nos eventos que emergem com o aparecimento de Erik Killmonger (Michael B. Jordan). Este último tem também um papel importantíssimo, não apenas por as suas motivações serem compreensíveis, mas, como disse, ser o responsável por fazer o nosso protagonista questionar as suas acções e aquelas por detrás do legado que recebe, nunca sendo exactamente visto como um vilão, mas como alguém que simplesmente leva as suas acções longe de mais face factos indiscutíveis.
Mesmo o necessário combate final, apresentando uma parte com efeitos um pouco risíveis e assemelhando-se a algo mais próximo da ficção científica do que o resto do filme demonstra, concentra-se ainda assim na ideia das diferentes facções existentes nesta sociedade, e como cada uma se posiciona no seu dever para com Wakanda.

Assim, um filme que parecia arriscado para Hollywood pela etnia do seu protagonista, acaba antes por arriscar na forma como conta a sua estória, fazendo paralelos com a nossa própria realidade através de todas as suas personagens e da exploração de um cenário e contexto riquíssimos, e fazendo passar uma mensagem maior que está no núcleo de todo o filme, como muitos sucessos aparentemente garantidos não fazem. Esperemos que este filme sirva de exemplo, para mais do que apenas um aspecto, na expansão de estórias, culturas e ideias representadas no grande ecrã.

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2 comentários:

  1. "História", não "estória", por favor.

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  2. Pantera Negra sofre com problemas de filmes anteriores, mas em menor escala, pois o filme que Coogle quer entregar, acaba brilhando mais forte e se destacando dos demais. É um dos melhores filmes da Marvel Studios e o mais reflexivo com certeza. Michael B. Jordan conseguiu um papel muito bom, ele é um ótimo ator. O papel que vai realizar em o novo filme de fahrenheit 451 será uma das suas melhores atuações. Ele sempre surpreende com os seus papeis, pois se mete de cabeça nas suas atuações e contagia profundamente a todos com as suas emoções. Além, acho que a sua participação neste filme realmente vai ajudar ao desenvolvimento da história. Cada um dos projetos deste actor supera a minha expectativa. Eu sem dúvida

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