quinta-feira, 19 de julho de 2012

A Idade do Rock, por Tiago Ramos


Título original: Rock of Ages (2012)
Realização: Adam Shankman
Argumento: Justin Theroux, Chris D'Arienzo e Allan Loeb
Elenco: Julianne Hough, Diego Boneta, Tom Cruise, Alec Baldwin, Russell Brand, Mary J. Blige, Bryan Cranston, Catherine Zeta-Jones, Paul Giamatti e Malin Akerman

Vivemos na era da revisitação do passado. Uma conclusão de fácil constatação se atentarmos às mais recentes produções cinematográficas e televisivas (e que pode ser mais abrangente se notarmos outras áreas como, por exemplo, a moda). Rock of Ages, originalmente um musical para teatro, tenta viver à base dessa ideia de olhar para o passado como os tempos áureos que hoje não existem mais. A moda recicla-se e ao que parece em Hollywood vive-se actualmente na ideia que o cinema também se recicla. Mas o problema é evidente logo nos primeiros minutos quando nos deparamos com as limitações de um conceito engarrafado, de uma produção técnica competente na recriação dos anos 80 (coreografias, detalhes cénicos, maquilhagem e guarda-roupa), mas estrangulada pela formatação do género. Ou se quisermos, estrangulada pela rídicula crença que basta apelar ao saudosismo para termos imediatamente um bom produto em mãos. E mesmo que essa nostalgia resulte para grande parte do público (aqueles temas de Bon Jovi, Journey,  Poison, Guns N'Roses ou Whitesnake continuam intemporais e são a grande força do filme), não é suficiente para disfarçar a fraca narrativa, limitada a um cliché romanceado ou a uma caricatura demasiado exagerada, não dando margem para que as personagens cresçam a nível dramático.

Não bastando a quase ausência de argumento, que força um excessivo rol de músicas a contarem a história, ao invés de permitir que isso aconteça de uma forma orgânica, temos também variados erros de casting, sendo o de maior destaque o dos protagonistas: Julianne Hough e Diego Boneta. Sem grande carisma, limitam-se a ser faces jovens e bonitas, explorando a formatação comercial de produções do género, com uma roupagem de quase mera alteração digital, auto-tune e lip-syncing, à la Glee. Actores de consumo rápido, sem grande entrega e sem grande talento. Valha-nos porém, a presença de Catherine Zeta-Jones (uma vilã que devia ter recebido mais destaque e que depois de Chicago ainda se destaca nos musicais), o carismático Russell Brand (cujo perfil de entertainer, quer se goste quer não, é irrepreensível no género) e até o toque clássico que Mary J. Blige veio trazer. Porém, o maior destaque é a caricatura de Tom Cruise, a trazer um desempenho bastante inspirado na figura de Axl Rose, de forma muito talentosa e onde até a cantar se revela uma grande surpresa. Ele é realmente a grande figura de A Idade do Rock e garante uma das mais interessantes transformações e desempenhos do ano, a fazer recordar interpretações como a que nos trouxe em Magnolia (1999).

As músicas são realmente boas e garantem algum divertimento ao espectador, que não deixará de cantarolar e recordar o passado. Mas mesmo dentro desse conceito de familiaridade não encontramos espaço para a revisitação de um tempo em que Hollywood conseguia realmente trazer um nível de produções imponentes a nível técnico e cénico, acompanhadas de uma narrativa cativante. Não basta criar os clichés e acreditar que a sua repetição possa ser vista como um regresso clássico ao género. Terá que haver alguma reinvenção ou pelo menos alguma narrativa sólida, que é seguramente o que faltará a A Idade do Rock.



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