quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Terapia a Dois, por Tiago Ramos


Título original: Hope Springs (2012)
Realização: David Frankel

Por mais que o título português seja traduzido de uma forma objectivamente específica, chega a ser desconfortável porque em aparência reduz a narrativa a uma inofensiva e simples comédia romântica, coisa que este Terapia a Dois sabe ser, mas que se revela também capaz de superar. Aliás, o realizador David Frankel já tinha demonstrado mais que uma vez, mas especialmente com The Devil Wears Prada (2006), que sabe trabalhar o cinema de género, cumprindo os clichés, mas tornando-os bons. Especialmente porque além de se notar que sabe o que é cinema, rodeia-se de bons actores e de um argumento plausível, competente e emocional o que, sejamos francos, faz grande parte do trabalho. É também este o caso, já que o grande tour de force do filme é a interpretação soberba dos dois actores protagonistas, repleto de nuances, genuíno e que consegue oscilar entre a comédia e o mais intrincado drama com uma ligeireza invejável.

O filme, apesar do seu tom cómico, retrata de uma forma bastante crua e honesta, os dilemas de um casamento de longa duração e a vida de um casal de meia-idade. Logo aí temos algo que desarma de imediato o espectador: a raridade de ver algo do género no cinema. As relações que se tornam frias, a rotina, o comodismo e o afastamento a nível emocional e sexual de um casal já foram por variadíssimas abordadas no cinema, mas raras vezes aplicadas a um casal acima dos sessenta anos. E o argumento de Vanessa Taylor consegue fazê-lo com a coragem necessária para abrir o debate de uma forma honesta, abordando temas como o sexo com a abertura necessária. O tabu da sociedade que é o sexo entre casais de meia-idade, é também tabu para as próprias personagens, acabando por conseguir transmitir a mensagem de uma forma bastante directa ao espectador, de uma forma divertida, mas não bizarra ou caricata. E apesar desse tom de comédia que sempre trespassa o filme, há uma angústia que persiste grande parte do filme e que é também transmitido ao espectador.

Nada disto seria possível sem o excelente trabalho dos actores. Meryl Streep tem um desempenho que não fica nada atrás dos seus trabalhos mais elogiados e, na minha honesta opinião, bem melhor do que aqueles que a consagraram nos últimos anos, inclusive o do ano passado com The Iron Lady (2011). Longe de todo o aparato visual e até algum exagero interpretativo dos seus últimos desempenhos, temos aqui um trabalho tão simples, mas simultaneamente tão complexo e que transmite toda a angústia e expectativa da personagem de um modo emocionalmente forte. É isto tipo de trabalhos, aparentemente mais simplistas, que distinguem verdadeiramente os bons actores dos razoáveis. E aqui Meryl Streep prova-o. Felizmente não está só, porque Tomy Lee Jones tem uma performance assombrosa e um dos seus melhores trabalhos de sempre, digno uma nomeação ao Óscar. É um desempenho tão subtil, tão verdadeiro, com toda aquela raiva e energia contidas e misturadas com a dor e orgulho de um homem de meia-idade, que faz valer todo o filme.

O único problema de Terapia a Dois é o facto de poder ser facilmente confundido com a ligeireza das habituais comédias românticas. Porque de facto não o é. Utilizando um termo recente, é mais uma poderosa "dramédia" que uma simples comédia dramática, é o retrato de uma faixa etária rara de ver no cinema com tanta delicadeza, mas abordando um assunto que é facilmente aplicável a qualquer outro casal de idades distintas. É acessível, delicado, directo e ternurento como poucos.


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