sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Reality, por Tiago Ramos


Título original: Reality (2012)
Realização: Matteo Garrone
Argumento: Ugo Chiti, Maurizio Braucci, Matteo Garrone e Massimo Gaudioso
Elenco: Aniello Arena, Loredana Simioli, Nando Paone, Nello Iorio, Nunzia Schiano, Rosaria D'Urso, Giuseppina Cervizzi, Raffaele Ferrante, Ciro Petrone, Vincenzo Riccio e Alessandra Scognamillo

Aquele plano-sequência inicial, aéreo, de Reality é tão belo quanto importante, já que é a partir dele que se estabelece o tom meio irreal, quase surrealista, que o filme vai assumir. É aquela festa de casamento, aquele espectáculo de carruagens, cavalos brancos, pombas, dourados, com direito a convidados de honra e um artista drag queen, que funciona como ponto de partida para este espectáculo da vida real. É também por isso não menos marcante, aquela sequência pós-casamento, em que naquele pequeno e aterrador aglomerado de casas, um travelling vai revelando a rotina das personagens, enquanto estas mudam de fatos de festa para roupa de dormir ou se desmaquilham. Acabou, é o fim do espectáculo, da festa. E aí começa a estabelecer-se uma fusão entre a realidade e a fantasia, com os dois planos a tornarem-se de certo modo indistinguíveis e confusos. Daí que a extraordinária banda sonora de Alexandre Desplat funcione muito bem a estabelecer o tom fantástico que o filme vai assumindo, assim como a câmara de Matteo Garrone e a direcção de fotografia por vezes meio difusas, aos tremeliques, meio confusas também, tal como o protagonista. À medida que a confusão do protagonista cresce, o tom cómico, meio burlesco, meio kitsch, vai diminuindo e evoluindo para um tom caricato, mas não menos trágico. Mais que uma mera intenção primária de acusar a busca pela fama através dos reality shows, nomeadamente o Grande Fratello (aqui entre nós conhecido como Big Brother) - essa intenção está lá, sim - Reality assume-se principalmente pela forma como discute o choque da realidade e do aprisionamento da vida quotidiano versus o aprisionamento à ideia da fantasia de uma vida melhor. Aliás, essa ideia está lá na forma como aquela família vive não só do seu trabalho normal naquela banca de peixe, mas também de um esquema com robôs de cozinha, que mais não é também de uma tentativa iludida de burlar a realidade, com vista à fantasia.

O protagonista, Aniello Arena, surpreende pela forma obcecada e natural com que assume esta personagem tão sui generis, mas não desconhecida para o espectador mais atento à realidade que o rodeia (basta ligar a televisão de vez em quando). Mas o que surpreende, vem dos bastidores, já que na realidade é um presidiário condenado a pena perpétua e aqui convidado a protagonizar o filme, sob a condição de regressar diariamente aos verdadeiros grilhões da prisão onde cumpre a pena. Curioso porque também viverá ele ali entre os limites da real prisão e a fantasia ilusória da representação. A sua personagem transcende os limites da imaginação e entra no domínio do surreal, absurdo, fantástico, numa espiral que se revela descendente e cada vez mais estranha ao espectador que se vê, também ele, na linha quase indistinguível da realidade e da fantasia. Não será por isso de estranhar que, curiosamente, o título do filme apareça no fim. Reality. Como que a estabelecer o domínio entre o que foi fantasia e o que virá a ser a realidade.


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