sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Hitchcock, por Tiago Ramos


Título original: Hitchcock (2012)
Realização: 
Argumento: 
Elenco: Danny HustonToni ColletteMichael StuhlbargMichael WincottJessica Biel e James D'Arcy

Convenhamos a dificuldade que é olhar para qualquer objecto fílmico de forma totalmente isenta, apesar de o admitirmos como ideal. Todo o espectador tem o seu preconceito cinematográfico, muito dele provocado também (muito curiosamente) pela própria máquina de propaganda que promove o filme. Entre a massiva publicidade e a forma agressiva de vender o seu produto e que muitas vezes relega para segundo plano a verdadeira qualidade do filme, chega a ser muito difícil para o espectador (até o menos atento) sentar-se completamente em branco na sala de cinema. Para mim, enquanto espectador, esse preconceito perante Hitchcock chegou inevitavelmente pela propaganda em redor da personificação do cineasta Alfred Hitchcock pelo actor Anthony Hopkins, com todas as semelhanças físicas possíveis, conseguidas através das diversas horas de maquilhagem, próteses, à imitação praticamente perfeita do sotaque. Um tipo de publicidade que ajuda a construir o "boneco", digamos assim, mas que me afasta enquanto espectador, não tanto impressionável com este tipo de propaganda que remete todas as eventuais possibilidades de um filme para a imitação quase plástica do seu actor (um pouco como aconteceu com Meryl Streep e Margaret Thatcher, no ano anterior, com The Iron Lady). A verdade é que também essa publicidade que baixa as expectativas pode ser positiva, especialmente quando o produto final está acima delas (quando drasticamente reduzidas por força de meios exteriores).

Para mim, Hitchcock beneficiou dessa redução de expectativas (ou do preconceito, admito). Isto porque, se na realidade, o filme nunca chega a ser uma produção narrativamente completa e mesmo nem sempre interessante, não fugindo do teor quase cartoonesco, também não é menos verdade que consegue fugir em parte aos padrões do telefilme (aquilo que The Iron Lady não conseguia). Rodeado de uma ligeireza que não sendo ideal, acaba por ser agradavelmente divertida e refrescante. Não se limitando a ser uma reconstituição dos acontecimentos principais da vida do cineasta britânico, o filme é uma reconstituição livre dos bastidores da produção de Psycho (1960). O que acaba por ser interessante aí, não é tanto a fidelidade histórica dos eventos ou o frequente piscar de olho aos cinéfilos (que provavelmente nem vão descobrir assim nada de tão desconhecido), mas sim a construção ficcionada da relação entre o cineasta e a sua esposa Alma. Uma relação que o telefilme The Girl, da HBO, deixava antever, mas de uma forma bem mais negra e séria (e também mais como pano de fundo). Em Hitchcock não é isso que se procura e mesmo quando surgem momentos dramáticos, narrativamente falando, há sempre uma perspectiva mais ligeira e até cómica. O tom da história é sempre meio caricatural meio cartoonesco (aliás, bem evidente nos posters promocionais), o que não sendo particularmente convincente, é ao mesmo tempo surpreendente por abdicar da presunção potencial de ter um projecto do género em mãos, para criar um filme bem mais ligeiro que o esperado. E mesmo que ligeiro, não é por isso que abdica da coerência ou do interesse, valendo-se de um bom elenco que consegue interpretar as personagens reais de uma forma convincente. Mesmo que Anthony Hopkins, por vezes dado a algum excesso, não deixe de assumir um tom caricatural (muito potenciado pelo excelente trabalho de caracterização) pela pose assumida, o espectador raras vezes deixa de se sentir imerso na sua interpretação. Até porque o argumento de John J. McLaughlin permite que o actor explore um lado da personagem menos realista e mais fantasioso, que se coaduna bem com o tom que o realizador Sacha Gervasi imprime em toda a produção. Já Helen Mirren tem o melhor do seu lado. É verdade que a dinâmica que Alma e Hitchcock possuíam era, já por si própria, extremamente interessante e facilmente captada por diversos ângulos (desde o pessoal até ao mais profissional), mas é o seu desempenho simultaneamente gentil e forte que permite ao espectador uma aproximação tão grande. Destaque ainda para a pequena presença de James D'Arcy como Anthony Perkins, mas que consegue captar um importante e menos conhecido lado do actor, com um desempenho seguro e delicado.

Já do lado mais cinéfilo, Hitchcock não chega a ser uma grande obra ou uma espécie de "manual" filmado do trabalho do cineasta. Nem sempre chega a dar tudo o que podia, mas aquilo que traz ao espectador mais interessado no tema é positivo. Tal como é impossível não sorrir quando vemos um Hitchcock atrás das portas de uma sala de cinema a antecipar as reacções dos espectadores, com tamanho vigor e expectativa. Não é maravilhoso nem um grande filme, mas tem alegria e vivacidade, emprestada pela força dos actores e pelo tom cartoonesco (e por isso refrescante) impresso pelo realizador. É simpático e isso nunca fez mal nenhum a ninguém.


Classificação:

1 comentário:

  1. Penso que o filme tem como principal equívoco o título. Mas "Hitchcock" vende mais do que venderia por exemplo "Alma", o que vai de encontro com o que diz da máquina de propaganda e do criar de expectativas.

    Felizmente não levei muitas, e fui agradavelmente surpreendido. Para mim o filme gira em torno da importância de Alma na vida e carreira de Hitch, dos equilíbrios e desiquilíbrio que tal poderia causar, quando as personalidades eram tão diferentes e a química tão especial. "Psycho" surge por isso como um pretexto para nos mostrar o modo peculiar como Hitch via as mulheres, realçando assim a relação com a mulher única que foi Alma na vida de Hitchcock.

    Visto por esse prisma parece-me um filme bem conseguido.

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