sexta-feira, 29 de março de 2013

A Última Vez Que Vi Macau, por Tiago Ramos


Título original: A Última Vez Que Vi Macau (2012)
Argumento: João Pedro Rodrigues, João Rui Guerra da Mata
Elenco: João Pedro Rodrigues, João Rui Guerra da Mata e Cindy Scrash

A exibição do filme em sala é antecedida da curta-metragem Alvorada Vermelha (também da dupla João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata). O que vemos ali prepara-nos o caminho para o que virá a seguir: há um sapato no chão e uma sereia que voltaremos a ver. E há um mercado asiático, vermelho de seu nome, que não pára, atarefado, com sangue, tripas e escamas, numa constante azáfama quase ritualista. Isto é uma porta de entrada da câmara para Macau. A mesmo Macau que surge referenciada no início da longa-metragem A Última Vez Que Vi Macau e que de certo modo continua essa viagem documental pela cidade outrora portuguesa. A mesma cidade que a personagem Candy evoca ao som de You Kill Me, pela voz de Jane Russell em Macao (1952), de Josef von Sternberg. Essa referência é o primeiro sinal da "contaminação" do documentário com a ficção. É através desse tom híbrido entre diário de viagem por uma cidade que Guerra da Mata não via há cerca de trinta anos e que João Pedro Rodrigues nunca tinha visto, que o filme nos leva a viajar. Um registo de recordações mais ou menos melancólicas, entre as lembranças de criança do alter-ego de Guerra da Mata e uma narrativa ficcionada, que faz lembrar o género noir e que nos leva por uma misteriosa busca pela personagem de Candy, agora desaparecida.

Mais que uma imagem da história do Portugal colonialista, a visão que temos de Macau é agora a mesma dos primeiros portugueses: um lugar exótico, exterior ao nosso mundo, vago e repleto de mistério. A Última Vez Que Vi Macau oferece-nos uma elipse narrativa que deixa a cargo do espectador parte da percepção da cidade. Aquela Macau é a do protagonista, que lhe redescobre pedaços da sua memória e infância, mas que também lhe recria novas memórias a partir daquela ficção noir. A imagem da cidade que mostra é também aquela que vamos imaginando, à medida que a narrativa assume contornos estranhos, mas curiosos e que ensaiam um tom que, infelizmente, vai perdendo o ritmo quanto mais se aproxima do seu fim. Tão fascinante e poética, quanto estranha, a proposta que nos é oferecida aqui é também ela irrecusável: de recursos limitados trabalhamos com os limites do realismo e da imaginação. E por momentos, somos nós também autores daquela recriação de uma Macau perdida no tempo.


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