sábado, 1 de maio de 2010

Homem de Ferro, por Carlos Antunes


Título original: Iron Man
Realização: Jon Favreau
Argumento: Mark Fergus e Hawk Ostby
Elenco: Robert Downey Jr., Terrence Howard, Gwyneth Paltrow e Jeff Bridges

Seria sempre complicado trabalhar com a origem de Iron Man, que não tem as mesmas bases dramáticas das de Batman – morte dos pais; Superman – último sobrevivente de um planeta destruído; ou Spiderman – morte do tio, figura tutelar.
Não que a personagem não tenha evoluído nesse aspecto, envolvendo-se em histórias cujos tópicos eram arriscados e desafiantes – a luta contra a dependência do álcool ficou entre as mais reconhecidas, levando os fãs a aclamar a escolha de Robert Downey Jr. devido às óbvias coincidências.
Mas bastará lembrar que o propósito inicial da armadura era o mesmo de um pacemaker (que em 1963 ainda estava em desenvolvimento) e compreende-se que o primeiro filme da personagem teria de procurar novos temas para ser apelativo.


Colocando Tony Stark como refém de um grupo de guerrilheiros-terroristas – sujeito a morrer caso o íman que mantém os estilhaços afastados do coração deixe de funcionar – conseguem, desde logo, solucionar duas questões essenciais.
A primeira, montar a correspondência contemporânea do que Stan Lee contara.
A segunda, justificar em moldes simples a evolução da armadura, primeiro construída com peças soltas numa gruta, só depois feita com todas as possibilidades (algo que também ocorria na BD mas que ocupava mais tempo).


Tony Stark, um milionário moralmente descomprometido (e desresponsabilizado) que depois de saber das consequências que a fuga aos seus raptores gerou, tem um rebate de consciência.
Stark é um homem muito inteligente mas define-se como personagem por parâmetros muito simples – e, necessariamente, redutores (por agora, claro).
Felizmente, Robert Downey Jr. precisará de pouco mais para trabalhar sobre a a personagem, refinando-a com ironia e subtileza numa inequívoca devoção do actor ao papel e à essência da representação.


Nestes moldes, a pequena “desventura” que o leva a tornar-se Iron Man, transforma-se num comentário sobre o comércio de armas e a percepção dos acontecimentos bélicos.
Pena que esse comentário – afinal estamos a lidar com um blockbuster – se veja tão limitado quando, na verdade, poderia ter sustentado com mais profundidade este primeiro Iron Man.
Pelo contrário, Iron Man cairá em linhas narrativas banais que originam momentos previsíveis – a recuperação do primeiro “reactor” como peça de salvação de Tony Stark – ou mesmo com enorme falta de originalidade – a luta entre Iron Man e Iron Monger já foi vista na saga Robocop e parece uma solução simplista para a conclusão do filme.


Mas nem mesmo isto desvirtua o filme que consegue aliar outros factores de relevo à interpretação de Robert Downey Jr.
Jon Favreau aplica um domínio funcional à realização. Se, por um lado, evita exageros que perturbam o visionamento em vez de contribuírem para o seu fascínio, também não arrisca, conseguindo momentos eficazes mas não inovadores.
Gwyneth Paltrow, como Pepper Potts, chega a ser comovente e assume-se como sex symbol das secretárias dóceis.
Jeff Bridges, como Obadiah Stane, é um vilão capaz de preencher a galeria dos clássicos (por isso mesmo, é uma pena que no final o façam “sair de cena”).
Só mesmo Terrence Howard fica como erro de casting, desalinhado com o seu papel, mesmo que os fãs já esperem a sua passagem a War Machine (fica a dúvida se terá “pedalada” para se aguentar ao lado de Robert Downey Jr., como ele inclusivamente lhe pergunta neste filme).


Fica o início de uma saga que promete novos rumos entre as narrativas de super-heróis – sobretudo a cena final será esclarecedora disso mesmo (evito dizer mais à conta dos spoilers) – e que tem potencial para se afirmar quer nas bilheteiras, quer no afecto dos fãs.




Publicado originalmente a 18 de Maio de 2008

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