sexta-feira, 8 de março de 2013

Branca de Neve, por Tiago Ramos


Título original: Blancanieves (2012)
Realização: Pablo Berger
Argumento: Pablo Berger
Elenco: Maribel Verdú, Ángela Molina, Daniel Giménez Cacho, Inma Cuesta, Macarena García e Sofía Oria

Numa altura em que a presença de filmes mudos se começa a reflectir no panorama cinematográfico actual (recordemos além de The Artist, também o português Tabu ou o  brasileiro Heleno), há que saber original. Mas falar em originalidade quando nos referimos a um regresso a uma forma clássica de filmes mudos e a preto e branco, pode parecer um contrassenso. Não é, porém, o caso de Branca de Neve, que se equilibra muito bem entre modernidade e classicismo. Ao contrário de The Artist - que nada de novo tinha a trazer à estética do cinema mudo - o filme espanhol cria um objecto que, não sendo necessariamente inovador, brinca com os conceitos do espectador. Temos assim um conto de fadas gótico, inspirado no conto de "A Branca de Neve", dos Irmãos Grimm, ambientado no ritmo do flamenco na Espanha dos anos 20. Tem o problema de, por vezes, forçar a conexão com a história original ou oscilar demasiado entre melodrama e comédia, com alguma repetição e monotonia, em breves momentos, a quebrar o ritmo. Mas apesar disso, estamos perante um filme encantador do ponto de vista estético.

Recorrendo a uma série de recursos expressivos próprios do cinema mudo, Branca de Neve surpreende pela forma elegante com que utiliza a montagem - especialmente evidente em alguns momentos que envolvem dança ou as próprias touradas - mas sobretudo pelas associações visuais, com uma impressionante e luminosa fotografia de Kiko de la Rica e uma ritmada banda sonora de Alfonso Vilallonga. A nível de interpretações todo o elenco apresenta desempenhos excelentes, sabendo conjugar a teatralidade do género, com a expressividade necessária para transmitir as emoções. E se a protagonista da história é interpretada por uma encantadora Macarena García, é a sua antagonista e vilã da história que mais se evidencia. A par do seu guarda-roupa, a expressão e beleza de Maribel Verdú, com toda a sua expressividade e pequenos detalhes na composição da personagem, faz deste simplesmente um dos melhores desempenhos do ano, com toda a sua malícia e narcisismo electrificantes.

É verdade que onde ganha pontos pela originalidade, pode perder no percurso internacional que ambiciona, ao apresentar uma história repleta de elementos estéticos, visuais e narrativos que dizem sobretudo respeito à identidade do seu próprio país, como as touradas ou o flamenco e que, a não serem apreciadas pelo factor exotismo junto de um mercado norte-americano, poderá facilmente cair no esquecimento. Mas apesar dessa limitação, não podemos negar que Branca de Neve é um primoroso jogo entre luz, sombra e música, num filme ritmado, elegante, divertido e inesquecível.


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