segunda-feira, 25 de março de 2013

Irmã, por Tiago Ramos


Na sua primeira longa-metragem em 2008, Home, a realizadora Ursula Meier dava-nos a conhecer uma espécie de road movie invertido. Ele estava ali, mas passava ao lado das personagens, atropeladas pelo progresso, que ainda assim resistiam estoicamente. Em Irmã, a realizador regressa a esse interesse pelas personagens e sobretudo pelas complexas relações familiares. Aqui também uma das personagens (curiosamente interpretado pelo pequeno e talentoso Kacey Mottet Klein que já tínhamos visto em Home) vive em constante aceleração, numa estância turística, estrada acima, estrada abaixo e no fundo sempre no mesmo local, entre montanhas e a resistir à brutalidade da diferença social que os rodeia. A realizadora aborda um realismo social assertivo e crítico, mas longe daquela dedicação melodramática de outros filmes do género. A Suíça que nos é mostrada na realidade é diferente daquela que o contexto físico nos insere e é esse contraste entre o luxo de uma resort de esqui- habitual referência idílica para famílias nucleares - e a miséria de quem vive do que aproveita (e rouba) dos clientes que por ali passam. Uma diferença inevitável e que a narrativa aproveita para, em conjunto com a fantástica fotografia de Agès Godard, produzir um inevitável estudo de personagens .

Léa Seydoux e Kacey Mottet Klein são francamente consistentes nesta recriação humanista de uma família de dinâmica distorcida, com uma relação estranha, mas ao mesmo tempo de inevitável e simultânea ternura e revolta. Os seus desempenhos são incrivelmente empáticos: implacáveis nas suas acções, mas simultaneamente vulneráveis, as suas personagens permitem construir esta ideia de família fracturada, ao mesmo tempo que a narrativa evidencia os contrastes sociais na Europa Contemporânea. Em grande parte do tempo, de tão bem construído, Irmã consegue manter o espectador a uma distância controlada: há empatia pelas personagens, mas há também um distanciamento propositado, que nos conduz aos sentimentos melancólicos das personagens. É nessa ilusão, entre todo aquele contínuo movimento das personagens, também como que encurraladas ali (à semelhança das personagens de Home) que o argumento consegue ser sabiamente manipulador. Digo sabiamente porque raros são os filmes que, ao introduzir semelhante reviravolta, se aguentam e não caem de forma exagerada no domínio do melodrama barato. O choque daquele revelação não desfaz o esforço que a narrativa introduziu até então, mantendo-se na mesma divisão familiar de papéis, que na pele daquela criança, reforça a mesma resistência estóica à vida, que a cineasta parece querer reforçar. Imersivo e marcante, só confirma a habilidade da realizadora como contadora de histórias, actuais e fora da linha.


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