terça-feira, 28 de maio de 2013

O Grande Gatsby, por Tiago Ramos


Título original: The Great Gatsby (2013)
Realização: Baz Luhrmann
Argumento: Baz Luhrmann e Craig Pearce
Elenco: Leonardo DiCaprio, Joel Edgerton, Tobey Maguire, Jason Clarke, Elizabeth Debicki, Isla Fisher e Carey Mulligan

Tenho de admitir que foram raras as vezes em que reconheci em Baz Luhrmann o génio criativo que muitos apontam. Isto em jeito de confissão para dizer que as expectativas pessoais em relação a esta nova adaptação de O Grande Gatsby (e que muito influenciam a apreciação geral de um filme, por menos que queiramos admitir) estavam bastante limitadas e que só o lançamento antecipado da banda sonora ajudou a criar. Mas apesar de tudo, facilmente se reconhece no realizador australiano as capacidades de colocar em imagem todas as nuances de uma era dourada e rítmica, assim como toda a crítica a essa sociedade fascinada pelos brilhos, riquezas e festas, dos anos 20. É portanto todo um fascínio  pelo visual e excessivo, semelhante ao que muitas vezes Baz Luhrmann acabou por revelar nos seus trabalhos. E esse fascínio é evidente ao longo de todo o filme, tanto para o bem como para o mal, fazendo deste O Grande Gatsby um filme que nem sempre se aguenta em equilíbrio, mesmo que forneça alguns momentos belíssimos de puro cinema.

Daí que mesmo que, especialmente no início e devido ao choque, o espectador se sinta quase de certo modo enjoado por todo aquele fulgor exibicionista, excêntrico e expansivo (que a versão em 3D parece aumentar), rapidamente acabamos por nos habituar a esse visual excessivo e aceitamo-lo como prova da recriação da época na mesma forma cínica e narcisista que de certo modo Fitzgerald apresentou como retrato da sociedade. Por isso que aquelas festas que Gatsby dá e que Luhrmann recria de forma ostensiva garantem momentos riquíssimos do ponto de vista visual e que tanto encantam como enjoam. Uma dualidade de sensações que o realizador proporciona por lhe faltar o tal equilíbrio ou sensibilidade e que discorre a partir da ideia que esta história apenas tem a ganhar com a excessividade. E de facto não se lhe pode criticar essa aposta já que é sobretudo de excessos que a obra original trata, mas a Baz Luhrmann faltou-lhe mão para, em termos narrativos, aguentar o outro lado da tragédia romântica que se abate a passos velozes das personagens. Mas infelizmente e em muito devido também à duração da metragem, acabamos por entrar num terreno frequentemente redundante, com uma ideia de repetição constante ou arrastamento da narrativa. Felizmente que nem tudo é mau e os momentos que mais beneficiam dessa tal loucura visual são precisamente as festas, mas também o momento do reencontro entre Gatsby e Daisy, comovente e enternecedor como, convenhamos, Luhrmann já havia provado conseguir em cenas esporádicas de filmes como Romeo + Juliet (1996) ou Moulin Rouge (2001).

A narrativa tem muito a ganhar com a interpretação de Leonardo DiCaprio, sempre consistente no seu papel, apesar de uma tendência (por vezes irritante) em parecer repetir um mesmo tom em todos os seus últimos papéis. Carey Mulligan é praticamente perfeita naquela candura quase virginal da personagem, ideal para rematar e surpreender na fase final (especialmente para quem já conhece o rumo da história), mas as surpresas estão ainda mais evidentes no plano secundário, com Joel Edgerton e Elizabeth Debicki a garantirem interpretações muito competentes. Pena que ninguém na produção do filme se tenha apercebido a tempo do enorme erro de casting que é Tobey Maguire num papel de tamanha importância. Fale-se ainda da utilização da banda sonora, frequentemente motivo para falar positivamente do realizador, já que o seu anacronismo, por mais estranho (e ao mesmo tempo evidente) que seja, permite um exercício curioso de relacionamento com a sociedade contemporânea e na percepção clara que, talvez, não vivamos tempos assim tão diferentes, com tantas comparações possíveis a fazer deste estilo mundano dos anos 20. É por isso que são bem-vindas estas interpretações das canções que já conhecíamos em formato de estúdio, mesmo que frequentemente surjam apenas alguns segundos ou num tom completamente distinto. A sua adequação à narrativa é positiva e contribui para este efeito operático, teatral e distanciado da realidade que o filme frequentemente imprime.

O que esta readaptação de O Grande Gatsby perde em subtileza e consistência, ganha em visual, sofisticação, numa espécie de carnaval hiperactivo que permite uma ambiguidade latente. Ao mesmo tempo que prejudica o esforço do realizador, beneficia na forma estonteante como recria uma tragédia. Falta-lhe equilíbrio, claro, mas convenhamos que nas mãos de Baz Luhrmann essa palavra praticamente não existe.


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