quinta-feira, 27 de março de 2014

O Congresso, por Tiago Ramos


Título original: The Congress (2013)
Realização: Ari Folman

Há uma cena absolutamente incrível em O Congresso e que tem, simultaneamente, tudo e nada a ver com o tema principal desta fábula futurista (será tão futurista assim?). Forçada a render-se perante as evidências de uma sociedade e indústria que não lhe presta mais atenção - foi obrigada a chegar-se para o lado e dar espaço a qualquer outra nova estrela - temos uma Robin Wright a fazer de (ser?) Robin Wright. A dar tudo de si enquanto actriz e pessoa, a entregar a sua alma, só com a sua expressão facial, a entregar-se perante um scanner majestosamente impressionante, repleto de luzes e sons, a retirar a máscara da máscara. A deixar-se ser. Uma Robin Wright que cometeu decisões erradas na vida (não cometemos todos?) e a enfrentar as suas consequências. Uma actriz a fazer de actriz, mas estarrecedoramente tão despida, a soar tão frágil e tão verdadeira, que nos fazer querer também que ela pudesse entregar-se assim em todos os filmes (e que lho permitissem mais também). E se nesta impressionante cena temos todas as desilusões da vida (dela e da nossa) ali espelhadas, na seca e crua constatação da verdade, depressa o filme vai caminhando para uma realidade (animada) virtual, curiosamente com uma semelhança acentuada com a realidade que conhecemos.

O filme, esse, é de certo modo inclassificável. É um objecto desconcertante, surreal, onírico, psicadélico e alucinado. Mas nem por isso menos desligado da nossa realidade. Um jogo de espelhos e realidades, uma espécie de Matrix em fase de pré-criação, uma constatação da facilidade (ou ser-nos-á imposto?) com que abdicamos da nossa identidade para sermos a identidade de todos ou de quem nos controla. Para sermos a identidade que querem que sejamos. Escrito nos anos 70, o livro em que este filme se baseia (Kongres futurlogiczny, Stanislaw Lem) não está assim tão distante da imagem que temos agora em pleno em século XXI. Daí que, apesar da dimensão absurda e satírica, nos consigamos relacionar tão bem com um filme que retrata o momento em que todos, enquanto seres que constituem uma sociedade, nos deixamos (re)criar por um mundo, interiormente, tão decadente. Demasiado trágico e desiludo para uns, francamente honesto e real para outros. Ari Folman entrega-se pessoalmente a um projecto surpreendente e magicamente estarrecedor, tão sublimado pela estonteante banda sonora de Max RichterO Congresso não deixará certamente ninguém indiferente, porque o filme é feito sobretudo para incomodar. A uma indústria deslumbrada pelo glamour, a uma sociedade adormecida nessa falsa luz, a um espectador que se deixa irradiar por isso. Incomoda-nos a nós porque talvez nos vejamos ali ou porque talvez nos assustemos com esta profecia globalizada. Talvez seja este o mais fascinante filme do ano.


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