quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Projecto Gemini, por Eduardo Antunes


Título original: Gemini Man (2019)
Realização: Ang Lee

Apesar de uma boa realização e actuações aceitáveis por parte do elenco disponível, de forma generalizada, o artifício de filmagem aqui utilizado não é razão suficiente para justificar a visualização de uma história tão banal quanto desinspirada.

Desde logo, ficou claro desde a antevisão que nos foi oferecida anteriormente (a qual podem ler aqui), que o aspecto com que Ang Lee queria experimentar era a tecnologia High Frame Rate, que faz os movimentos transparecem mais suavizados e, supostamente, mais reais. E nesse sentido, os 60 fps disponíveis em algumas salas de cinema portuguesas podem ser uma experiência interesse a ter, visto não causar estranheza ao nosso olhar.
No entanto, tirando a sequência de perseguição na Colômbia, nenhuma outra tira real partido, quer da tecnologia HFR, quer da terceira dimensão acrescentada, fazendo-nos questionar a razão do emprego deste aspecto específico neste filme em particular. Se a primeira sequência de acção aproveita um cenário pitoresco e colorido, em pleno dia (cuja abundância de luz parece ser aspecto essencial para uso desta tecnologia), para mostrar uma cena entusiasmante e criativa nas capacidades do segundo protagonista interpretado por Will Smith, as restantes cenas passam-se de noite, que, "à luz" dos óculos 3D, não favorecem a restante experiência do filme.


Aparte o que era o principal ponto de venda, o resto também não ajuda a destacar o filme, contribuindo precisamente para o inverso. Todo o filme respira banalidade, desde o início que se foca na reforma do melhor assassino de uma qualquer agência secreta norte-americana, passando pelo conceito já não muito original do confronto com uma versão mais nova do próprio protagonista, até ao culminar no desapontante discurso final do antagonista do filme, que não só expõe as suas intenções, como o clarifica como o vilão, caso houvessem dúvidas ou nuances de outra coisa.
Este último aspecto parecia poder ser o que destacaria este filme de tantos outros com o mesmo conceito (tal como Looper ou Logan, em tempos recentes), focando-se numa relação de parentalidade do suposto antagonista com a sua "criação", oferecendo alguma nuance aos objectivos de Clay Verris e à forma como, apesar de tudo, tentou amar e educar Junior.

Mas existem apenas três cenas que focam mais acentuadamente essa relação entre Junior e Verris, uma que oferece um pouco dessa nuance, ainda que curta, uma segunda em que Junior confronta o seu "pai" com o seu propósito, e uma última, para o final, que pinta já Verris como vilão, determinado na sua missão sem olhar às consequências dos seus actos, sem já tempo para gastar nessa relação. Nenhuma delas tem o tempo necessário para conhecermos Verris para lá da sua autoridade maquiavélica que Henry também faz por reportar veemente. 





















Para além disto, conhecendo de igual forma, desde os cartazes e trailers, o confronto principal do filme através do clone do protagonista, não existe nada que o filme ofereça que nos afaste dos lugares comuns que já conhecemos deste tipo de narrativa. Caso não fosse o exercício do cinema actual a exposição obrigatória do público aos vídeos promocionais que tendem a revelar muito do filme para reivindicar a atenção do público, poderia ter sido interessante a promoção apenas da primeira parte da narrativa, que se foca na reforma de Henry Brogan, deixando em aberto a surpresa dele ao ver o seu suposto assassino, e ficando nós na expectativa de também sermos surpreendidos na revelação durante o filme (ainda que tudo isto também não seja novidade e pudesse soar ainda mais vulgar).

Como já conhecemos quem é o seu assassino, quando vacila matá-lo pela primeira vez, a dormência do público é total. E a partir daí, ainda que os argumentistas pareçam oferecer um outro aspecto com potencial interesse, não existe tempo para focar esse ponto (numa duração de duas horas...). 
Apesar das dicas, em que Henry refere não se conseguir afastar dos fantasmas do passado, do peso que a sua profissão teve no seu quotidiano, e vendo na versão rejuvenescida de si próprio a possibilidade de corrigir esses erros, no final não parece ter havido grande dificuldade para ambos em superar os seus passados. Nunca vemos a hesitação de Brogan em voltar ao seu "trabalho", apesar das dificuldades que expressa desde o início.

Por tudo isto, nem a promessa de uma experiência única é a desculpa suficiente para nos levar ao cinema por um filme que, no final, não nos deixa nenhuma impressão especial, apesar da tecnologia em causa e da criação de um jovem Will Smith completamente digital. Nem a perícia de Ang Lee é suficientemente bem empregada num argumento fraco e que não tira partido do talento à sua frente.




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