sábado, 8 de fevereiro de 2020

A Despedida, por Eduardo Antunes


Título original: The Farewell (2019)
Realização: Lulu Wang
Argumento: Lulu Wang 
Elenco: Awkwafina, Shuzhen Zhao, Tzi Ma, Diana Lin

É com grande pena que vejo The Farewell estrear em tão poucas salas em Portugal. Ainda que seja um filme que não peça por muitas audiências, é um filme que, dada a atenção merecida, recolheria certamente os frutos igualmente merecidos. De uma cultura quase inteiramente diferente à nossa, recolhemos o mesmo profundo sentimento de perda e celebração.

Talvez o facto de recentemente ter acompanhado uma amiga numa situação repentina e prematura de falecimento de um ente próximo me tenha feito olhar mais emocionalmente para os vários momentos em que os diferentes familiares sentem a brevidade e urgência do tempo que lhes resta com a pessoa que partirá. Mas é inegável a tristeza patente em todo o tempo que acompanhamos o contraditório alegre festejo do que serão os últimos momentos de reconhecimento do valor daquela pessoa nas suas vidas, magistralmente acompanhados dos vocais unissilábicos e instrumentos de corda presentes na delicada e quase angelical sonoridade do compositor Alex Weston.

E se no seu quotidiano não aparenta qualquer constante, temendo a sua própria incapacidade em criar algo seu, preferindo (ou necessitando) forçar um fachadismo da sua própria invulnerabilidade perante a família, é na descoberta da fragilidade de Nai Nai, seu último apoio moral, emocional, de ligação a um passado do qual nunca fez parte, que Billi informa a família (e a audiência) do seu descontentamento com a situação que em nada parece beneficiar qualquer um deles. E, no entanto, vê-se obrigada a respeitar essa mesma cultura que desconhece e não entende.



E é isso que mais espanta, a superação do filme do seu próprio contexto para nos oferecer algo mais. Pois o que primeiramente parecia apenas um drama ternurento sobre uma família que se vê obrigada a despedir de uma pessoa querida sem poder demonstrar a sua tristeza, no que por si só seria já um exercício narrativo dramaticamente meritoso, transpõe as suas próprias barreiras para apresentar um olhar constante e evolutivo sobre a diferença entre duas culturas, norte-americana e chinesa, ocidental e oriental. Formas diferentes de olhar a perda, de festejar as suas memórias, de preparar essa passagem para o que acreditam (ou não) fazer sentido, mas que, no final, acabam por culminar num comum sentimento profundo de tristeza e alegria por aquela pessoa que tanto amam.

É até durante uma refeição que, o que parece ao momento uma discussão fora do restante contexto do filme – sobre as perspectivas que cada um dos países em que habitam lhes proporcionam, não faltando a nomeação dos vários problemas de ambos os lados – inicia a discussão maior a que o filme se propõe. Tal como os vários membros da família não se conseguem então entender e dialogar para um entendimento aprofundado do que se põe em causa, também nós devemos suspender as nossas próprias opiniões para experienciarmos os eventos pelo olhar de outrém. Mas começam a partir daí a jornada para se unificarem no seu amor pela pessoa que pretendem dignificar, e no final é tão mais desolador quando a verdadeira despedida advém e a própria mãe de Billi se permite chorar, após ter assumido a sua fraca expressão emocional.

Também nós, se sensíveis, não deixamos de sentir o peso de uma verdadeira despedida, para a qual esta família se inteirou e mentiu e, ainda assim no final, não estava preparada, enquanto "Senza Di Te" ressoa nos nossos ouvidos e tentamos manter os olhos minimamente humedecidos. Vale a pena ter esta experiência, mais que não seja para nos lembrarmos de largar o que nos separa em favor do que amamos.



Sem comentários:

Publicar um comentário